Arquivo mensais:maio 2015

Nova teoria sobre a morte de Osama Bin Laden

Por Cristina F. Pereda | Via El País Brasil

Um homem passa perto das ruínas da casa em que vivia o líder da Al Qaeda em Abbottabad (Paquistão). / SULTAN DOGAR (EFE)

Um artigo de conceituadíssimo jornalista põe em xeque a versão oficial sobre o assassinato do então líder da Al Qaeda pelos EUA.

As diferentes teorias sobre quem ordenou a morte do ex-presidente John F. Kennedy continuam vivas mais de 50 anos depois de seu assassinato em uma rua de Dallas. Umas elucubrações que logo podem abrir caminho a novas conjeturas sobre o final de Osama Bin Laden no Paquistão. No domingo, dia 10, o prestigioso jornalista norte-americano Seymour Hersh publicou uma nova versão, segundo a qual o relato oficial defendido pela Casa Branca nos últimos quatro anos é falso.

Segundo Hersh, os EUA teriam contado com a ajuda direta dos serviços de inteligência paquistaneses para acabar com a vida do cérebro dos atentados de 11 de Setembro. O líder da Al Qaeda estava preso desde 2006. Seu encontro ocorreu graças a um informante do Paquistão, não a uma operação da CIA. E tudo ocorreu graças a um acordo entre os dois países.

Mas, ao contrário de outros grandes trabalhos de Hersh, ganhador do Prêmio Pulitzer em 1970, várias vozes rechaçaram imediatamente sua versão. A Casa Branca assegura que as revelações carecem de fundamento. Um ex-agente da CIA declarou a POLITICO que “todos os dados são incorretos”. “Há muitos erros e afirmações sem base neste texto e não dá para comprová-los um por um”, concluiu Ned Price, porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, em um comunicado.

O autor de reportagens de investigação de impacto, como as revelações da prisão de Abu Graib no Iraque, em uma série de reportagens para a revista The New Yorker em 2004, ou o massacre de My Lai no Vietnã em 1969, não desfrutou da mesma reação com seu último trabalho. Hersh baseia sua investigação nas afirmações de fontes anônima: um ex-agente da CIA e dois consultores “que tiveram acesso às informações”.

“A Casa Branca ainda mantém que foi uma operação norte-americana e que os oficiais do Exército do Paquistão e seu Serviço de Inteligência não foram avisados com antecedência. Isso é falso”, diz Hersh. Para ele, a versão oficial “poderia ter sido escrita por Lewis Carroll”. O jornalista duvida que Bin Laden teria escolhido uma pequena localidade a pouco mais de 60 quilômetros de Islamabad “como o lugar mais seguro para viver e liderar as operações da Al Qaeda”.

Hersh defende que Bin Laden vivia nesse complexo em Abbottabad como prisioneiro do serviço secreto paquistanês (ISI), que o mantinha recluso para poder utilizar sua figura como moeda de troca com a Al Qaeda, e que eles não só conheciam a operação que terminou em sua morte, também chegaram a colaborar, abrindo caminho aos Navy SEALs norte-americanos.

A pista sobre a localização de Bin Laden não chegou graças a uma operação da CIA que rastreou sua rede de comunicações, mas pela confissão de um agente da inteligência paquistanesa que visitou a Embaixada dos EUA no Paquistão e pediu parte dos 25 milhões de dólares de recompensa em troca da informação. A morte de Bin Laden não ocorreu depois de um enfrentamento com os Navy SEALS que chegaram até o terceiro andar da casa, a verdade é que ele foi executado.

Hersh confirmou que foi o presidente Obama que ordenou a operação que acabou com a morte do líder da Al Qaeda e que as forças especiais dos Navy SEALs se encarregaram de realizá-la. No entanto, teria sido essencial a cooperação da inteligência paquistanesa.

“O assassinato de Osama Bin Laden”, publicado na The London Review of Books, defende que o ISI contava com um agente infiltrado no complexo residencial de Bin Laden e que respondeu a todas as dúvidas da CIA para preparar o ataque. O Paquistão teria ordenado, além disso, a saída de todos os guarda-costas de Bin Laden “assim que ouvissem os primeiros helicópteros” e que fosse cortada a luz elétrica na cidade horas antes de começar o ataque.

Hersh teria trabalhado nessa investigação, de mais de 10.000 palavras, durante os últimos anos. No entanto, ela foi rechaçada pela revista The New Yorker. Ali, ele havia publicado em 2012 uma informação exclusiva sobre o treinamento de forças iranianas em bases militares de Nevada que nunca foi confirmada de maneira oficial. Um ano depois, o jornalista colocou em dúvida os relatórios sobre ataques com armas químicas na Síria baseando-se, mais uma vez, em fontes anônimas.

Nesta ocasião, Hersh se apoiou em outros testemunhos como os oferecidos em uma reportagem da The New York Times Magazine em 2014 ou nas queixas do ex-secretário de Defesa, Robert Gates, que denunciou em suas memórias, – “Duty” – que alguns dos fatos descritos por membros do Governo naqueles primeiros instantes não eram corretos.

Nacionalismo e petróleo

Por Wladmir Coelho | Via Política Econômica do Petróleo

A campanha contra a Petrobras revela em seus fundamentos uma série de preconceitos repetidos desde o final do século XIX. Estes preconceitos apresentam-se nos meios de comunicação revestidos de números, exemplos e vocabulário refinado sempre condenando as iniciativas nacionalistas confundidas ou transformadas em populismo entendido este como sinônimo de irresponsabilidade política e econômica.

O vocabulário e as práticas econômicas defendidas na grande mídia originam-se do pensamento liberal radicalizado no modelo neoliberal de nossos dias. Neste discurso é negada a existência de um sistema econômico nacional e considerado pecado mortal a intervenção do Estado na economia.

Nacionalismo econômico

No século XIX o economista alemão Friedrich List observou como mola do crescimento econômico dos Estados Unidos exatamente a forte presença do Estado na economia seja subsidiando ou protegendo a iniciativa nacional. List, ao contrário dos liberais clássicos, entendeu e defendeu a existência do sistema econômico nacional como base do crescimento econômico.

Este sistema econômico nacional seria amparado no conceito de nação ideal, defendido por List, cujo principio aplicava-se perfeitamente aos Estados Unidos segundo as observações do economista alemão. Nação ideal, entendia List, seria aquela com pleno controle das fontes de energia, alimentação e existência de um mercado interno em condições de manter a economia.

Acrescentava List a necessidade de apoio dos países mais desenvolvidos aos mais atrasados como forma, inclusive, de garantir a paz. O neoliberalismo de nossos dias defende exatamente o contrário ao dividir o mundo entre fornecedores de matéria prima e consumidores de tecnologia.

A ficção neoliberal

No caso do petróleo devemos observar, inclusive, a conversão de países considerados desenvolvidos, vide o caso do Canadá, em fornecedores de matéria prima. A situação do Canadá é assustadora aumentando este país a sua dependência dos Estados Unidos em função da venda de petróleo bruto.

A negativa da existência do sistema econômico nacional criou a verdade neoliberal entendendo qualquer alternativa ao modelo vigente como falsa economia ou não ciência.

Reforçou-se a ficção na qual existe um mercado controlado por forças naturais ou mágicas cujo motor encontra-se na livre concorrência. Elegeram-se sábios com total conhecimento da economia de ficção cuja função diária é reforçar a superstição e punir os eventuais hereges.

Um exemplo: Decorrente do sistema econômico nacional temos o nacionalismo econômico base do chamado Estado de bem estar social. Este modelo econômico ganhou força na Europa do pós-guerra principalmente na França, Inglaterra, Alemanha.

Todavia, desde o agravamento da crise econômica em 2008, recebe este modelo ataques em nome da manutenção da ficção econômica neoliberal preocupando-se os governos com o pagamento dos juros aos banqueiros em detrimento dos interesses dos trabalhadores.

Para o pagamento destes juros determinam-se as chamadas políticas de austeridade representadas no corte de benefícios sociais, no consumo e aumento do desemprego. Neste ponto podemos observar que o Estado de bem estar social não resultou na derrota ou desaparecimento dos interesses do poder econômico.

Neste modelo a iniciativa privada continuou existindo e foi claramente permitida uma ampliação do poder do sistema financeiro através das múltiplas fusões e desregulamentação dos chamados mercados. Entre a ampliação do lucro e manutenção de direitos sociais optaram os governos europeus pelo primeiro. Temos aqui uma clara distinção entre Estado de bem estar social e socialismo.

Políticas nacionalistas na América do Sul

Na América do Sul não foram poucas as tentativas de implantação de políticas econômicas nacionalistas. Sempre combatidas com violência pelos grandes grupos internacionais estas iniciativas não conseguiram implantar as transformações sociais verificadas na Europa.

No Brasil, a partir de 1930, inicia-se a modernização do Estado priorizando a regulamentação de setores da economia e oficializando direitos trabalhistas. Neste período o petróleo recebeu especial atenção através da criação de uma legislação própria – a partir de 1934 – efetivando-se o pleno controle estatal deste mineral quase duas décadas depois – 1953- com a criação da Petrobras.

A tentativa de aprofundamento de uma política econômica nacionalista nos anos 60, durante o governo João Goulart, resultou na oposição dos Estados Unidos e consequente introdução de uma ditadura militar cujo principal objetivo foi desnacionalizar a economia incluindo a quebra do monopólio do petróleo através da introdução do contrato de risco e desvio da Petrobras para o chamado mundo do mercado.

Durante o mesmo período vamos verificar exemplos semelhantes na Argentina, Venezuela, Bolívia sempre seguidos de golpes de Estado financiados através de empresas e governo dos Estados Unidos.

O Bolivarianismo

Atualmente a Venezuela, através do Bolivarianismo, representa um modelo de nacionalismo econômico direcionado para a implantação de um Estado de bem estar social.

O modelo econômico venezuelano encontra-se embasado no maior controle estatal do bem econômico petróleo utilizando este para o financiamento dos programas de assistência social, educação, pesquisa, defesa e criação de empresas publicas ou privadas nos diferentes setores da economia.

A Bolívia possui um modelo semelhante e consegue, igual à Venezuela, elevar determinados índices sociais notadamente aqueles relativos a pobreza absoluta, alfabetização e assistência médica.

Romper com o modelo neoliberal não constitui tarefa fácil. As elites políticas e econômicas da América Latina sobrevivem, desde o século XV, associadas aos interesses exportadores.

A base colonial de nossa economia possibilita a vida de luxo dos senhores de terras, eufemicamente tratados por empresários do agronegócio, dos executivos de multinacionais diversas que condenam os países a condição de montadores em prejuízo do desenvolvimento de uma tecnologia própria.

Estes senhores adotam, inclusive, o discurso do auxílio do mais rico ao mais pobre através da mitificação e mistificação do termo investimento externo confundido este com a necessidade de ampliação da exploração da mão de obra (incluindo a escravidão) e pleno acesso aos recursos da natureza sem a mínima preocupação com as consequências tenha esta a forma de falta d’água e destruição do meio ambiente.

Nacionalismo à brasileira

Enquanto a grande imprensa condena as ações sociais dos últimos 12 anos no Brasil os governos Lula e Dilma Rousseff tornaram-se mestres em manipular o vocabulário nacionalista escondendo as reais intenções neoliberais.

No discurso frases em defesa da Petrobras incluindo a falsa afirmativa da manutenção de sua condição estatal. Na prática provoca-se a asfixia da empresa forçando uma associação em desvantagem com os oligopólios de sempre.

Desta encenação a Petrobras tornou-se a principal vítima ao manter, o governo, a fórmula iniciada durante a ditadura e aprofundada no governo Fernando Henrique Cardoso.

Lula e Dilma Rousseff não recuperaram a Petrobras para a sua função de garantir a autossuficiência nacional mantendo o mito da 8ª irmã iniciado durante a ditadura. A imprensa com sua linguagem neoliberal utiliza a velha e corroída luta moralista aproveitando para acabar de vez com qualquer possibilidade da Petrobras assumir o seu verdadeiro papel.

Quem está dentro não quer sair, quem está fora quer entrar

A Petrobras vai seguindo o seu caminho em meio aos ataques. Nenhuma novidade. Esforça-se governo em seu discurso nacionalista e sua prática neoliberal defendendo a austeridade do jeitinho que ensinou o guru da ditadura Delfim Netto.

A oposição parlamentar, em sua maioria defensora do neoliberalismo, apropria-se do discurso moralista contra a corrupção e ressuscita o perigo comunista, clama pela volta da ditadura. Parece que estamos vivendo naquele samba do Sérgio Porto.

De forma indecente a grande imprensa divulga os “perigos” da ditadura bolivarianista, mas incentiva o culto aos tempos da ditadura militar. Todavia associam-se imprensa e governo e oposição parlamentar neoliberal quando o assunto é austeridade econômica.

Defendem governo, oposição neoliberal e grande imprensa a “necessidade” do aumento no valor da energia elétrica, da água, gasolina e os cortes nos direitos dos aposentados, viúvas e desempregados.

Escondem, todos eles, que estas empresas de energia, água, comunicação e petróleo foram construídas com dinheiro do povo para atender o povo. A privatização, total ou parcial destas empresas, não implicou, para seus proprietários, novos investimentos. Receberam tudo a preço de banana. Não admitem, todavia, uma queda em seus lucros que devem ser direcionados aos acionistas confortavelmente instalados nos Estados Unidos e Europa.

Vejam: Os donos do poder desejam apagar qualquer vestígio de combate a ficção neoliberal e transformam a crise econômica em crise moral cujo final seria o impeachment.

Esta palavra mágica, impeachment, reúne toda espécie de oportunistas interessados em manter o Brasil em sua condição colonial. Procuram iludir o povo percorrendo as ruas, gastam horas na internet atacando os patriotas e divulgando vídeos de militares aposentados defendendo a ditadura ou delirando com a invasão do Brasil por forças cubanas e venezuelanas. Alguns, mais honestos, aproveitam para aumentar a renda familiar vendendo Kits com camisetas e bonés.

O povo, apesar do bombardeio midiático, pergunta aos oportunistas: E depois do impeachment? Saindo a Dilma vamos direto ao paraíso? Conquistaremos de imediato aumentos salariais, redução nas tarifas de ônibus, energia elétrica e a água vai voltar a jorrar?

Em termos objetivos não oferecem, os oportunistas, uma resposta clara. Apenas vendem ilusões a serviço dos entreguistas e inimigos do povo com reforço da ficção neoliberal.

O trabalhador tem plena consciência da não existência de palavras mágicas. A crise não é moral. O momento requer uma profunda modificação no modelo econômico incluindo a ampliação de direitos dos trabalhadores e nacionalização dos recursos necessários à manutenção econômica nacional.

Como criar dinheiro? A Islândia explica

Por João Malhadeiro | Via Público

A ideia da Islândia é gerar um novo sistema para a criação de dinheiro, eliminando o papel dos bancos comerciais.

A Islândia prepara-se para ser um laboratório de reformas económicas e financeiras. A ideia é gerar um novo sistema para a criação de dinheiro, eliminando o papel dos bancos comerciais. Conseguirá Reiquejavique ser bem-sucedida? Se tal acontecer, estaremos perante uma revolução total do sistema monetário e financeiro tal como o conhecemos atualmente.

Primeiro que tudo, há que ter em conta que os bancos comerciais têm a capacidade de criar dinheiro. Como tal, estes utilizam os empréstimos para que seja possível criar depósitos, sendo precisamente este mecanismo que o Governo islandês pretende combater. Assim, a grande transformação assentaria no impedimento dos bancos de criarem dinheiro a partir de empréstimos, devolvendo este “poder” a um forte banco central.

O contexto islandês não poderia ser mais propício a esta ideia embrionária. A pequena ilha de 330 mil habitantes, foi recentemente afetada por uma crise financeira que destruiu a sua economia. Como tal, o Governo encomendou este estudo que representaria uma inversão e uma alteração radical do sistema financeiro moderno.

Desta forma, esta alternativa permitiria um banco central com o monopólio da criação de dinheiro, tendo como principal função o apoio ao crescimento económico. Para além disto, possibilitaria que o dinheiro fosse transferido para o Governo para este poder ser utilizado no crescimento e desenvolvimento da economia do país. No entanto, os bancos sairiam claramente prejudicados, visto que passariam a ter o simples papel de meros intermediários, recebendo depósitos e concedendo empréstimos.

O projeto tem dividido o mundo da economia e finanças. Quem defende este tipo de estratégia, argumenta que este modelo permitira ao estado um papel mais interventivo na economia do país e uma maior fonte de receitas. No entanto, os mais críticos classificam o modelo como “soviético”, indicando que era o regresso a um modelo em que o setor público dita as regras do mundo financeiro e do dinheiro.

O debate em torno da questão está longe de terminar, dado que esta matéria continua a dividir a opinião de diversos especialistas. No entanto, o Governo islandês pretende voltar a inovar e a ser um exemplo na gestão de crises quando comparado com outros países europeus. Destacou-se na rápida condenação de banqueiros, acusados de manipulação de mercado, bem como na rejeição à União Europeia, tendo em conta a crise desta e a fantástica recuperação da economia islandesa.

Sendo assim, será que a pequena ilha estará disposta a passar do papel à prática e servir como experiência deste modelo, que pode revolucionar o sistema financeiro? A decisão ainda está longe de ser tomada, mas a Islândia volta a marcar uma posição e a dar passos no sentido de contrariar as crises financeiras que afetam o país e a servir de exemplo a outros países europeus, na direção de criar uma nação próspera, que já ultrapassou ao longo da sua história por vinte crises financeiras.

A realidade brasileira, entre o hospício e o circo

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

A política brasileira da razão não tem resquício: se cobrir vira circo, se cercar, vira hospício.

O pastor José Serra, que ameaçava os ímpios com o fogo do inferno e entrava na casa dos crentes lendo a Bíblia, de repente veste a roupa do intelectual que deixou de ser e despeja entrevistas ponderadas ambicionando tornar-se a voz da razão.

Aécio Neves que fez fama como conciliador, torna-se um Zeca Diabo da zona sul, atirando em qualquer movimento do governo: respirou, leva tiro.

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Serra foi um governador medíocre, mas tem bom faro para perceber os ventos a opinião pública midiática. Ao lado de FHC deu gás para os rebeldes das redes, mas percebeu a tempo o ridículo de ficar a reboque de Revoltados Online e de Lobão.

Por alguma razão, FHC esquecer de avisar Aécio que prosseguiu como aqueles boxeadores que lutam de cabeça baixa distribuindo murros ao vento.

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Musa inconteste do desenvolvimentismo, Dilma Rousseff torna-se uma crente de carteirinha do monetarismo mais radical e promete que, se houver fé, no final do arco íris do ajuste fiscal haverá o pote de ouro.

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Sob ameaça de prisão, casos e comprovem as acusações da Lava Jato, o presidente do Senado Renan Calheiros enaltece Serra, ameaça Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), deblatera contra o Procurador Geral e torna-se um defensor dos direitos do trabalhador. E manda avisar o governo que não irá parar enquanto não houver garantia de que não será preso pela Lava Jato.

O PT fecha questão em favor do pacote fiscal e dos cortes nos direitos trabalhistas enquanto o PSDB sai do samba de uma nota só do ajuste fiscal e assume a defesa dos trabalhadores.

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Na presidência da Câmara, Eduardo Cunha, dono da maior capivara do parlamento, demite o Diretor do Centro de Informática da Câmara para impedir que vazasse para o Ministério Público a informação de que ele preparou o requerimento que criava problemas para que empresas investigadas pela Lava Jato continuassem a pagar propinas. E alega estar sofrendo uma perseguição pessoal do Procurador Geral.

Segundo o ex-Diretor, não havia vazamentos até então mas a demissão foi para alertar a equipe sobre o que poderia acontecer se algo vazasse.

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No STF (Supremo Tribunal Federal), o garantismo é defendido por Gilmar Mendes – o Ministro que processa qualquer jornalista que ouse criticá-lo – e por seu recém-inseparável companheiro Dias Toffoli, enquanto a linha dura é praticada pelo decano Celso de Mello e pela Ministra Carmen Lúcia.

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Literalmente falando, o país está de pernas para o ar.

Quem passeia pela Esplanada dos Ministérios olha para o Palácio do Planalto, para o Senado, Câmara, para o STF e não enxerga os canais de transmissão de nada.

Em circunstâncias normais, da sede do Executivo sairiam políticas e propostas, passariam pelo crivo do Congresso, não havendo obstáculos na Justiça transitariam para todo o país através de liberações orçamentárias, planos de ação, regulamentos e leis cuja implementação seria fiscalizada pelo Ministério Público.

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É uma longa transição, um vácuo, uma crise que não poupou nenhum poder.

Nos próximos meses, é tratar de juntar os cacos e começar o duro processo de reconstrução da institucionalidade.

O mais importante é que a democracia ficou suficientemente sólida para sobreviver a esse vácuo.

Dilma e Vázquez debaterão mudança nas regras para acordos fora do Mercosul

Via Agência Efe

A possibilidade de os países do Mercosul assinarem acordos bilaterais com outras nações de fora da região estará na pauta da reunião entre a presidente Dilma Rousseff e do presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, no próximo dia 21.

Defensor do “regionalismo aberto”, o líder uruguaio destacou a necessidade de os países de menor economia do Mercosul terem a oportunidade de fazerem pactos com outros Estados que não integram o bloco econômico sul-americano.

Presidente Dilma Rousseff se reunirá no próximo dia 21 com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. EFE/Fernando Bizerra Jr.

As declarações de Vázquez foram dadas quatro dias depois do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Armando Monteiro, ter dito que o Mercosul deveria dar “mais liberdade” a seus membros para negociar.

“Aparentemente isso não era apoiado por grandes países como o Brasil e a Argentina, salvo em algumas circunstâncias, como quando o Uruguai assinou seu tratado de livre-comércio com o México. No entanto, parece que o Brasil também está reivindicando isso agora”, disse o presidente do Uruguai.

A União Europeia (UE) defende um acordo “ambicioso” com o Mercosul, apesar das sensibilidades existentes em alguns setores estratégicos, conforme afirmou na última sexta-feira, em São Paulo, a embaixadora do bloco no Brasil, Ana Paula Zacarías.

Na última quarta-feira, o ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Nin Novoa, adiantou que o comércio, a energia, o Mercosul e a UE estariam na pauta da reunião entre os dois líderes.

 

Os leitores na fase do autismo informativo

Por Carlos Castilho | Via Observatório da Imprensa

O leitor está a cada dia mais distante do jornal e vice-versa. É uma relação que enfrenta a sua pior crise desde o surgimento da indústria dos jornais, há quase dois séculos. O sintoma mais evidente desta situação é o fato de que cada lado está se voltando cada vez mais para dentro de si próprio, dando origem a uma espécie de autismo informativo.

O distanciamento não é visível nas pesquisas de opinião porque elas são patrocinadas e organizadas por uma das partes envolvidas na relação. Mas se mostra claro nas conversas e atitudes das pessoas comuns, longe dos microfones e dos repórteres, quando fica nítida a diversidade de agendas e de preocupações.

Os leitores enfrentam dificuldades crescentes para entender o que está acontecendo porque não conseguem dar conta de toda a complexidade dos fatos e fenômenos que afetam o seu quotidiano. As pessoas leem uma coisa nos jornais e revistas ou assistem aos telejornais e, quando entram na internet, encontram informações bem diferentes. Sentem falta de alguém que explique tudo, e diante da ausência de curadores de informações acabam se refugiando no seu grupo de amigos, do trabalho ou do bairro.

Os jornais, revistas, telejornais ou noticiários radiofônicos por seu lado se transformaram em intermediários ou mensageiros entre os tomadores de decisões, como políticos, empresários, diplomatas e funcionários públicos. A cobertura da imprensa é cada vez mais uma conversa entre os diferentes grupos de pressão interessados no controle do governo e dos negócios com dinheiro publico.

Aqui também os fatos, eventos e processos são cada vez mais complexos pelo aumento da diversidade de percepções e dados sobre os temas da agenda dos tomadores de decisões. O resultado combinado do crescente divórcio entre público e imprensa é uma progressiva alienação de ambas as partes em relação à realidade. Os leitores deixam de se preocupar com o que ocorre em Brasília ou Washington porque não conseguem captar os significados de ações e decisões dos centros de poder. E a imprensa deixa de dar a devida atenção ao que ocorre no íntimo dos leitores, ouvintes e telespectadores porque está preocupada demais com a briga pelo poder.

A alienação da imprensa é perigosa porque ela começa a se enclausurar num mundo particular, achando que está cumprindo a sua missão de informar os cidadãos. O mundo dos círculos do poder em Brasília passa a orientar toda a agenda jornalística do país, onde a elite governante e as classes A e B perdem a noção do que ocorre fora da capital federal, especialmente nas cidades do interior. O resultado é a projeção de uma imagem incompleta e enviesada da realidade nacional.

A dinâmica industrial da produção jornalística nas empresas de comunicação cria as condições necessárias para este autismo profissional. As redações deixam de ver a realidade como ela é para representá-lo conforme os interesses corporativos e de acordo com a ideologia predominante nos círculos do poder. Isto aconteceu tanto na fase áurea do petismo, quando a imprensa olhou para o outro lado em relação aos erros dos governos entre 2002 e 2010, como agora, quando a ela passou a demonizar a administração Dilma Rousseff.

Inseguro e indeciso diante do bombardeio de versões contraditórias entre o que lê na imprensa ou assiste nos telejornais e o que sai nas redes sociais, o leitor tende a procurar os ambientes que lhe transmitem mais tranquilidade. É o germe da polarização política, quando as pessoas tendem cada vez mais a aceitar apenas o que está de acordo com suas percepções e opiniões, desqualificando todos os que procuram entender a complexidade e a diversidade nas abordagens da política nacional.

Dai à xenofobia e à radicalização é um passo, que muita gente acaba dando inconscientemente. Só mais tarde, como aconteceu com os alemães no pós-nazismo, é que as pessoas se darão conta do que aconteceu, quando já não dá mais para evitar as consequências humanas e materiais da polarização ideológica.

A função deste Observatório da Imprensa é complicada e polêmica justamente porque procuramos não nos deixar contaminar pela polarização, radicalização e xenofobia informativas. É certo que dificilmente lograremos uma unanimidade, e que o mais provável é sermos criticados por ambas as partes envolvidas na atual batalha ideológica em curso no país.

A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar o cenário econômico nacional, falamos de geopolítica e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014, 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação? Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional. O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES, e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo mais deslavado.

José Carlos de Assis

Quais serão as consequências da eventual “flexibilização” do regime de partilha e da política de conteúdo nacional?

Em ambos os casos, seria uma perda injustificável por parte dos que defendem o emprego e as empresas internas. Não falo de empresas nacionais, pois só subsistem algumas poucas, mas de empresas internas, ou seja, instaladas no Brasil, gerando emprego e renda aqui dentro. A política de conteúdo nacional é fundamental para sua sobrevivência, e a sobrevivência de centenas de milhares de empregos, já que as internacionais pressionariam para trazer tecnologia e mão de obra de fora.

Enquanto isso, o cenário internacional é de acirramento de conflitos por recursos estratégicos. De que forma se insere a nossa crise interna no tabuleiro geopolítico?

Boa parte das pressões exercidas sobre a Petrobrás se deve a razões geopolíticas. Os EUA e seus acólitos europeus tentam atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia, a fim de (tentar) estrangulá-la economicamente, o que torna a política brasileira de adesão aos BRICS uma atitude hostil: o amigo de meu inimigo é meu inimigo. Sem o correto entendimento dessa questão, não entenderemos jamais as pressões americanas e europeias para nos impedir de consolidarmos os BRICS, usando inclusive forças políticas internas consideráveis, sobretudo por meio do PSDB.

Quanto as iniciativas do BRICS de fundar um Banco de Desenvolvimento e criar seu arranjo de reservas contingentes. Como essas propostas afetam a arquitetura político-econômica global?

Vai ser a primeira mudança significativa na arquitetura financeira internacional criada pelos anglo-americanas em Bretton Woods em seu próprio interesse. Em outras palavras, criará condições para o início da execução de políticas monetárias soberanas nos BRICS e nos demais países em desenvolvimento, tendo em vista o apoio a ser dado a políticas econômicas de interesse nacional.

Quais seriam os passos mais apropriados para o Brasil frente a esse quadro?

Sem dúvida nenhuma, um acordo estratégico com a China, em bases produtivas, não comerciais. Estou participando de um esforço nesse sentido, pelo qual proporemos à China que nos abra uma linha de crédito considerável para financiarmos produção destinada à própria China, de metais e de commodities e produtos agrícolas industrializados, ancorada em grandes financiamentos também em energia e logística. Esperamos ter a proposta pronta para a chegada do Primeiro Ministro chinês, com uma grande comitiva de empresários, a partir do próximo dia 18.