Arquivo mensais:maio 2015

Para Petrobras, produção e custos já mostram acerto do regime de partilha do pré-sal

Via RBA

Produtividade é maior do que se previa; calculava-se que os poços renderiam de 15 a 20 mil barris diários, mas a média está em 25 mil, chegando a 40 mil.

Pré-sal se desenvolveu com mais velocidade na bacia de Campos, no Rio de Janeiro, devido à infraestrutura

São Paulo – As primeiras notícias do pré-sal correram o mundo há oito anos e colocaram o Brasil imediatamente no grupo das potências globais de energia. Especialistas chegaram a duvidar da capacidade de se retirar petróleo a 300 quilômetros da costa brasileira e a mais de 5 mil de profundidade no mar. Hoje, porém, os resultados são surpreendentes e mostram o pré-sal como uma realidade bastante concreta.

Em março deste ano, a produção no pré-sal chegou 672 mil barris por dia (equivalente a 28% da produção nacional), bem acima dos 395 mil de 2014 e dos 42 mil de 2010. A produtividade também é maior do que se previa. Calculou-se inicialmente que os poços renderiam de 15 a 20 mil barris diários. Atualmente, a média está em 25 mil, chegando 40 mil em poços dos campos de Sapinhoá e Lula (na bacia de Santos).

Os custos de produção eram outra fonte de dúvida, por conta do desafio tecnológico. No começo, estimou-se que o pré-sal seria viável a US$ 45 por barril. Nesta semana, a diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Solange Guedes, informou que os números de viabilidade econômica caminham para valores bem menores, em torno de US$ 9, graças à escala de produção maior e aos investimentos em tecnologia.

“Nós podemos garantir que o pré-sal é viável com um custo de produção de nove dólares por barril. Se considerarmos que duas unidades de produção ainda não estão produzindo com sua capacidade total, o custo de produção será menor ainda. A eficiência operacional em torno de 92% contribuiu significativamente para atingirmos estes baixos custos”, afirmou.

Segundo ela, o pré-sal se desenvolveu com mais velocidade na bacia de Campos, no litoral norte do Rio de Janeiro, devido à infraestrutura já existente. A primeira produção comercial ocorreu em 2008. Já na bacia de Santos, os desafios foram bem maiores, uma vez que não havia infraestrutura instalada, os reservatórios estão a 2.500 metros de profundidades no mar, além de uma camada de sal de 2 mil metros de espessura. No final das contas, o petróleo encontra-se até 7 mil metros abaixo da superfície do mar.

Educação e Saúde

Com resultados expressivos, uma das vantagens do pré-sal é o modelo de exploração. Foi escolhido o sistema de “partilha” que garante à Petrobras uma participação de, pelo menos, 30% nos consórcios. Se O Pré-sal fosse pelo formato de “concessão”, a empresa operadora seria detentora integral do que se produz. A lei brasileira garante ainda que 75% dos royaltes do pré-sal devem ser aplicados na área de Educação e 25% em Saúde

“O modelo de partilha é o mais compensador para o país, pelo fato de o pré-sal ser uma reserva testada e segura”, diz o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Para ele, a escolha do governo foi muita acertada e tem uma dimensão estratégica para além da área de petróleo. “É muito importante o uso dos 75% dos royalties para Educação e os 25% para Saúde”, acrescentou.

Sabatina de Fachin virou aula

Por Paulo Moreira Leite | Via Brasil 247

Depoimento de 12 horas na CCJ foi importante porque sublinhou o básico: juiz deve ser acima de tudo imparcial. Nada mais atual.

Embora a oposição tenha feito o possível para transformar a sabatina de Luiz Fachin num comício fora de hora e de lugar, a aprovação de seu nome só foi possível porque o candidato ao STF colocou-se acima do jogo baixo dos adversários e fez uma apresentação de alto nível na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Após 12 horas de debates, leões da oposição, como Aloizio Nunes Ferreira e Ronaldo Caiado, que abriram os trabalhos tentando transformar a sabatina numa audiência pública de tom inquisitorial, uma espécie de CPI, o que teria impedido qualquer debate produtivo, tiveram de retirar-se exaustos e vencidos.

A batalha decisiva será travada na semana que vem, quando o plenário de 81 senadores aprova — ou não — a indicação de Fachin ao STF Mas a lição de ontem foi proveitosa por várias razões.

Ao falar de sua história de vida e de suas convicções, Facchin mostrou que conhece fundamentos do Direito e que tem o que dizer sobre o momento atual da Justiça brasileira.
Também respondeu de forma convincente à acusação de que, quando procurador do Estado, desrespeitou a legislação do Paraná ao aceitar um trabalho como advogado a serviço de uma causa privada. Explicou, detalhadamente, que essa atividade era compatível com as regras vigentes no momento em que prestou concurso para o serviço público — visão confirmada por todas autoridades consultadas a respeito, a começar pelos organizadores do concurso, onde foi aprovado em primeiro lugar, aliás. Também deixou claro, com exemplos capazes de envergonhar críticos e oponentes, que sua declaração de apoio a Dilma em 2010 foi parte de uma vida onde a militância política política sempre esteve presente. Facchin lembrou que apoiou um conjunto ecumênico de políticos, boa parte deles tucanos, num período em que o PSDB era visto como uma legenda de centro-esquerda — como os ex-governadores José Richa, do Paraná, e Mário Covas, de São Paulo, e ainda Gustavo Fruet, prefeito de Curitiba e um dos principais microfones do PSDB na CPI da AP 470. Mas ele soube prestar este esclarecimento de forma discreta, sem assumir uma posição defensiva, permanecendo na posição de quem fazia a gentileza de esclarecer oponentes mal-informados. Como se isso não bastasse, o apoio do senador Alvaro Dias, um dos campeões de denúncias contra o PT na casa, contribuiu para elevar sua cota de credibilidade.

Entrando no ponto substancial da sabatina, que consiste em definir como pretende cumprir a tarefa de ministro do STF caso venha a ser nomeado, Fachin foi preciso. Lembrou e repetiu, com frequência para ninguém ter dúvidas, que o traço fundamental de um magistrado deve ser a imparcialidade.

Com a cautela de quem jamais iria citar nomes nem mencionar casos concretos — chegou a dizer que não iria fazer comentários sobre a AP 470 alegando que não estudara o caso com o devido cuidado — mas estava disposto a fixar um princípio, ele tocou num assunto que tem toda atualidade numa conjuntura na qual magistrados são aplaudidos na rua e na mídia por assumir o papel de segunda voz da acusação. Isso já ocorreu com Joaquim Barbosa na AP 470 e repete-se agora com Sérgio Moro na Lava Jato.

Com um sorriso irônico nos lábios, Fachin deu uma definição precisa daquilo que muitos comentaristas chamam de “consciência de juiz.” Esclareceu que, em sua opinião, “a consciência de um juiz” é a própria ordem jurídica, afirmação bem vinda num país onde, em 2012, no julgamento da AP 470, era comum ouvir ministros do STF dizendo que a “Constituição é aquilo que o Supremo diz que ela é.” Na mesma linha, o ministro lembrou a importância dos demais poderes da República, sublinhando a importância do Congresso como expressão da vontade popular. Numa conjuntura na qual procura-se colocar o Judiciário no centro das decisões políticas, Fachin lembrou que a democracia é construída pelo convívio harmônico — sublinhou a palavra — entre os poderes. Sua menção a Norberto Bobbio, um dos principais pensadores do mundo pós-Muro de Berlim, contém vários significados em política e em Direito. Bobbio foi um dos grandes defensores do garantismo, corrente de pensamento nascido nos julgamentos do terrorismo italiano da década de 1970, que coloca a defesa dos direitos e garantias do cidadão como a principal missão da Justiça e de um juiz.

Luiz Fachin saiu da sabatina muito maior do que entrou. Apresentado como um simples teleguiado que o Planalto tentava emplacar no Supremo de qualquer maneira, despediu-se como um jurista de conhecimentos eruditos, pontos de vista amadurecidos longamente, que formam um todo que conversa entre si. Após o desempenho que Fachin exibiu ontem, ficou difícil negar que tenha méritos para integrar o plenário do STF — o que pode tornar bastante penoso o esforço dos adversários para arrebanhar votos contra sua nomeação.

A América Latina na dinâmica da guerra global

Por Jorge Beinstein | Via Resistir.info

Tudo ao mesmo tempo: em meados do mês de Março de 2015 os Estados Unidos deram um salto qualitativo de claro perfil belicista nas suas acções contra a Venezuela, também desenvolvem exercícios militares em países limítrofes com a Rússia na chamada operação “Atlantic Resolve”, algumas dessas operações são realizadas a uns 100 quilómetros de São Petersburgo [1] , além disso intensificam-se informações acerca de uma nova ofensiva do governo de Kiev contra a região do Donbass [2] , aumenta a circulação de naves de guerra da NATO no Mar Negro, continuam as velhas guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão às quais acrescentou-se a seguir a ofensiva contra a Síria (passando pela Líbia)… e muito mais…

Evidentemente o Império está lançado numa catastrófica fuga militar para a frente estendendo suas operações a todos os continentes, encontramo-nos em plena guerra global. Nem os grandes meios de comunicação, nem os dirigentes internacionais mais importantes registaram publicamente o facto, todos falam como se vivêssemos em tempos de paz, só em alguns poucos casos surgem alguns deles a advertir sobre o perigo de guerra mundial ou regional. Uma excepção recente é a do Papa Francisco quando afirmou que actualmente nos encontramos perante “uma terceira guerra mundial” que ele descreve como a desenvolver-se “por partes” ainda que sem designar os contendores e fazendo vagas referências à “cobiça” e a “interesses espúrios” com a linguagem confusa e jesuítica que o caracteriza [3] .

A cada mês acrescenta-se algum novo indiciar que anuncia a proximidade de uma nova recessão global muito mais forte e extensa que a de 2009. O capitalismo, a começar pelo seu polo imperialista, foi-se convertendo velozmente num sistema de saqueio onde a reprodução das forças produtivas fica completamente subordinada à lógica do parasitismo. As elites imperiais e suas lumpen-burguesias satélites “necessitam” super-explorar até ao extermínio seus recursos naturais e mercados periféricos para sustentar as taxas de lucro do seu decadente sistema produtivo-financeiro.

As tendências globais rumo à decadência económica exprimem-se de múltiplas maneiras no dia a dia. Dentre elas, a volatilidade dos preços das matérias-primas, o petróleo por exemplo, chave mestra da economia mundial, cujo estancamento extractivo (que não conseguiu ser superado pelo show mediático em torno do “milagroso” petróleo de xisto) combina-se com desacelerações da procura internacional como ocorre actualmente. A isso somam-se golpes especulativos e geopolíticos que convertem os mercados em espaços instáveis onde as manobras de curto prazo impõem a incerteza.

O curto-prazismo especulativo hegemónico engendra pacotes tecnológicos depredadores como a mineração a céu aberto, a fracturação hidráulica ou a agricultura com base em transgénicos acompanhados por operações políticas e comunicacionais que degradam, desarticulam sistemas sociais procurando convertê-los em espaços indefesos diante dos saqueios.

O optimismo económico da época do auge neoliberal deu lugar ao pessimismo do “estancamento secular” agora apregoado pelos grandes peritos do sistema [4] . Eles indicam que a salvação do capitalismo não chegará a partir da economia condenada a sofrer recessões ou crescimentos insignificantes, o melhor é nem falar demasiado desses tristes temas. Então a guerra ascende ao primeiro plano, algum massacre protagonizado por tropas regulares ou mercenários, algum bombardeio, alguma ameaça de ataque na Europa do Leste, Ásia, África ou América Latina. Os meios de comunicação nos esmagam com essa notícias, contudo ninguém fala da guerra global.

Tudo acontece como se a dinâmica da guerra se houvesse autonomizado mas empregado um discurso embrulhado, difícil de entender. Mas assim como os super-poderes dos homens de negócios dos anos 1990 não eram independentes e sim compartilhados no interior de uma complexa trama de poderes (políticos, mediáticos, militares, etc) que em termos gerais costuma-se denominar como “classe dominante”, também a aparente autonomia do militar dificulta-nos ver as redes mafiosas de interesses onde se borram as fronteiras entre os seus componentes. As elites da era neoliberal sofreram mudanças decisivas, experimentaram mutações que as converteram em classes completamente degeneradas que, cada vez mais, só podem recorrer à força bruta, à lógica da guerra. Não se trata portanto de a componente militar se autonomizar e sim, antes, de que as elites imperialistas se militarizam. Elas já não seduzem com ofertas de consumo mais algumas doses de violência, agora só propagam o medo, ameaçam com as suas armas ou utilizam-nas.

Progressismos latino-americanos 

Dentro desse contexto global devemos avaliar os progressismos latino-americanos [5] que se instalaram na base das crises de governabilidade dos regimes neoliberais.

Os bons preços internacionais das matérias-primas durante a década passada, somados a políticas de contenção social dos pobres, permitiram-lhes recompor a governabilidade dos sistemas existentes. Em alguns desses casos desenvolveram-se ampliações ou renovações das elites capitalistas e em quase todos eles prosperaram as classes médias. Os governos progressistas iludiram-se supondo que as melhorias económicas lhes permitiram ganhar politicamente os referidos sectores mas, como era previsível, ocorreu o contrário: as camadas médias iam para a direita e, enquanto ascendiam, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como próprios os delírios mais reaccionários das suas burguesias. A explicação é simples, na medida em que são preservados (e ainda fortalecidos) os fundamentos do sistema e em que seus núcleos decisivos radicalizam seus elitismo depredador seguindo a rota traçada pelos Estados Unidos (e “Ocidente” em geral) produz-se um encadeamento de subculturas neo-fascistas que vão desde acima até abaixo, desde o centro até as burguesias periféricas e desde estas até suas camadas médias. Na Venezuela, Brasil ou Argentina as classes médias melhoravam seu nível de vida e ao mesmo tempo despejavam seus votos nos candidatos da direita velha ou renovada.

Estabeleceu-se um conflito interminável entre governos progressistas que tornavam governáveis os capitalismos locais e direitas selvagens ansiosas por realizar grandes roubos e esmagar os pobres. O progressismo, confrontado politicamente com essa direita qualificada de “irresponsável”, cujos fundamentos económicos respeitava, chantageava aqueles na esquerda que criticavam sua submissão às regras do jogo do capitalismo utilizando o papão reaccionário (“nós ou a besta”), acusando-os de fazerem o jogo da direita. Na realidade o progressismo é um grande jogo favorável ao sistema e em última análise à direita, sempre em condições de retornar ao governo graças à moderação, à “astúcia” aparentemente estúpida dos progressistas que por vezes conseguem cooptar esquerdas claudicantes cuja obsessão em “não fazer o jogo da direita” (e simultaneamente integrar-se no sistema) é completamente funcional à reprodução do país burguês e em consequência a essa detestável direita.

Agora o jogo começa a esgotar-se. Os progressismos governantes, com diferentes ritmos e variados discursos, acossados pelo arrefecimento económico global e pelo crescente intervencionismo dos Estados Unidos, vão perdendo espaço político. Em vários casos suas dificuldades fiscais pressionam-nos a ajustar despesas públicas (e de modo algum a reduzir os super lucros dos grupos económicos mais concentrados), a aceitar as devastações da mega-mineração ou a adoptar medidas que facilitam a concentração de rendimentos. No Brasil, o segundo governo Dilma colocou um neoliberal puro e duro no comando da política económica, encurralado por uma direita ascendente, uma economia oscilando entre o estancamento e a recessão e uma intervenção norte-americana cada vez mais activa. No Uruguai o novo governo de Tabaré Vazquez mostra um rosto claramente conservador e no Chile a presidência Bachelet não precisa correr demasiado à direita, depois da sua rosada demagogia eleitoral afirma-se como continuidade do governo anterior e em consequência, passada a confusão inicial, herdará também a hostilidade de importantes faixas de esquerda e dos movimentos sociais.

Na Argentina, o núcleo duro agro-mineral exportador-financeiro e os grupos industriais exportadores mais concentrados estão mais prósperos do nunca enquanto a ingerência norte-americana amplia-se conduzindo o jogo de títeres políticos rumo a uma ruptura ultra-direitista. Na Venezuela a eterna transição rumo a um socialismo que nunca acaba de chegar não conseguiu superar o capitalismo ainda que torne caótico o seu funcionamento, forjando desse modo o cenário de uma grande tragédia. Por enquanto só a Bolívia parece salvar-se da avalanche, afirmando-se na maior mutação social da sua história moderna sem superar o âmbito do subdesenvolvimento capitalista mas recompondo-o integrando as massas submersas, multiplicando por mil o que havia feito o peronismo na Argentina entre 1945 e 1955 (de qualquer forma isso não a liberta da mudança de contexto regional-global).

Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo onde convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradados, como na Colômbia ou no México, conformando um panorama comum de perda de legitimidade do poder político, avanços de grupos económicos saqueadores e activismo imperialista cada vez mais forte.

A este panorama sombrio é necessário incorporar elementos que dão esperança, sem os quais não poderíamos começar a entender o que está a ocorrer. Por debaixo dos truques políticos, dos negócios rápidos e das histerias fascistas aparecem os protestos populares multitudinários, a persistência de esquerdas não cooptadas pelo sistema (para além dos seus perfis mais ou menos moderados ou radicais), a presença de insurgências incipientes ou poderosas (como na Colômbia).

Nem os cantos de sereia progressistas nem a repressão neoliberal puderam fazer desaparecer ou marginalizar completamente esses fantasmas. Realidade latino-americana que preocupa os estrategas do Império, que temem o que consideram como sua inevitável arremetida contra a região possa desencadear o inferno da insurgência continental. Nesse caso o paraíso dos grandes negócios poderia converter-se num grande atoleiro onde afundaria o conjunto do sistema.

Geopolítica do Império, integrações e colonizações 

A estratégia dos Estados Unidos aparece articulada em torno de três grandes eixos; o transatlântico e o transpacífico que apontam num gigantesco jogo de pinças contra a convergência russo-chinesa centro motor da integração euro-asiática. E a seguir o eixo latino-americano destinado à recolonização da região.

Os Estados Unidos tentam converter a massa continental asiática e sua ampliação russo-europeia num espaço desarticulado, com grandes zonas caóticas, objecto de saqueio e super-exploração.

Os recursos naturais, assim como os laborais, desses territórios constituem seu centro de atenção principal, na elipse estratégica que cobre o Golfo Pérsico e a Bacia do Mar Cáspio estendendo-se em direcção à Rússia encontram-se 80% da reservas globais de gás e 60% das de petróleo e na China habitam pouco mais de 230 milhões de operários industriais (aproximadamente um terço do total mundial).

A América Latina aparece como o pátio traseiro a recolonizar. Ali se encontram, por exemplo, as reservas petrolíferas da Venezuela (as primeira do mundo, 20% do total global), cerca de 80% das reservas mundiais de lítio (num triângulo territorial compreendido pelo Norte do Chile e Argentina e pelo Sul da Bolívia) imprescindível na futura indústria do automóvel eléctrico, as reservas de gás e petróleo de xisto do Sul argentino, fabulosas reservas de água doce do aquífero guarani entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Uma das ofensivas fortes do Império na década passada foi a tentativa de constituição da ALCA, zona de livre comércio e investimentos que significava a anexação económica da região por parte dos Estados Unidos. O projecto fracassou, a ascensão do progressismo latino-americano somado à emergência de potências não ocidentais, sobretudo a China, e o atolamento estado-unidense na sua guerra asiáticas foram factores decisivos que em diferentes medidas debilitaram a investida imperial.

Mas a partir da chegada de Obama à presidência os Estados Unidos desencadearam uma ofensiva flexível de reconquista da América Latina: foi posta em marcha uma complexa mescla de pressões, negociações, desestabilizações e golpes de estado. Os golpes brandos com êxito em Honduras e no Paraguai, as tentativas de desestabilização no Equador, Argentina, Brasil e sobretudo na Venezuela (onde vai-se perfilando uma intervenção militar), mas também a tentativa em curso de extinção negociada da guerrilha colombiana e a domesticação de Cuba fazem parte dessa estratégia de recolonização.

A mesma é implementada através de uma sucessão de tentativas suaves e duras tendente a desarticular as resistências estatais e os processos de integração regional (Unasul, Celac, Alba) e extra-regionais periféricos (BRICS, acordos com a China e a Rússia, etc) assim como a bloquear, corromper ou dissolver as resistências sociais e as alternativas políticas mais avançadas, em curso ou potenciais. Tentando levar avante uma dinâmica de desarticulação mas procurando evitar que a mesma gere rebeliões que se propaguem como um rastilho de pólvora numa região actualmente muito inter-relacionada.

Sabem muito bem que em muitos países da região a substituição de governos “progressistas” por outros abertamente pró imperialistas significa a ascensão de camarilhas enlouquecidas que a curto prazo causariam situações de caos que poderiam desencadear insurgências perigosas. Alguns estrategas do Império acreditam poder neutralizar esse perigo com o próprio caos, desenvolvendo “guerras de quarta geração” instalando diferentes formas de violência social desestruturante combinadas com destruições mediático-culturais e repressões selectivas. Nesse sentido, o modelo mexicano é para eles (por agora) um paradigma interessante.

Temem por exemplo que um cenário de caos fascista na Venezuela derive numa guerra popular que os obrigaria a intervir directamente num conflito prolongado, o que somado às suas guerras asiáticas os conduziria a uma super extensão estratégica ingovernável. É por isso que consideram imprescindível obter o apaziguamento da guerrilha colombiana, potencial aliada estratégica de uma possível resistência popular venezuelana.

O panorama é completado com o processo de integração colonial dos países da chamada Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A isso somam-se os tratados de livre comércio de maneira individual com países da América Central e outros como o Chile e a Colômbia e o velho tratado entre EUA, Canadá e México.

Integração colonial e desarticulação, manipulação do caos e fortalecimento de pólos repressivos, Capriles mais Peña Nieto, Ollanta Humana mais Santos mais bandos narco-mafiosos… tudo isso dentro de um contexto global de decadência sistémica onde a velha ordem unipolar declina sem ser substituída por uma nova ordem multipolar. Tentativa de controle imperialista da América Latina submersa na desordem do capitalismo mundial.

O cérebro do Império não consegue superar as mazelas do seu corpo envelhecido e enfermo, os delírios reproduzem-se, as fugas para a frente multiplicam-se. Evidentemente encontramo-nos num momento histórico decisivo.

Referências:

[1] Finian Cunningham, “NATO’s Shadow of Nazi Operation Barbarossa”, Strategic Culture Foundation, 13/03/2015;

[2] Colonel Cassad, “Ukraine: Reprise de la guerre au printemps?”, http://lesakerfrancophone.net/ le 13 mars 2015;

[3] “El papa Francisco advirtió que vivimos una tercera guerra mundial combatida ‘por partes’ “, http://www.lanacion.com.ar , 13 de septiembre de 2014;

[4] Laurence H Summers, “Reflections on the ‘New Secular Stagnation Hypothesis’” y Robert J Gordon, “The turtle’s progress: Secular stagnation meets the headwinds” en “Secular Stagnation: Facts, Causes, and Cures”, CEPR Press, 2014;

[5] Utilizo o termo “progressista” no sentido mais amplo, desde governos que se proclamam socialistas ou pró socialistas como na Venezuela ou Bolívia até outros de corte neoliberal-progressista como os do Uruguai ou Brasil.

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Jorge Beinstein é doutor em economia e professor catedrático das universidades de Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. É autor de Capitalismo senil: a grande crise da economia global, publicado no Brasil pela editora Record (2001). Dirige o Instituto de Pesquisa Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em Le Monde Diplomatique (em castelhano).

Globo: A mentira padrão, o padrão da mentira e o caso Mujica

Via Portal Vermelho

“O trabalho do jornalista é o de separar o joio do trigo. E publicar o joio”. Assim o jornalista e escritor Luis Fernando Veríssimo descreve com ironia o trabalho da imprensa. Esta ironia, no entanto, é expressão da prática jornalística que hoje domina as redações da mídia hegemônica. Partidarizada, sem qualquer compromisso com a isenção e a pluralidade de opiniões, a mídia brasileira tem um mantra que usa como escudo para as suas vilanias: “a defesa da liberdade de expressão”. 

Esta é a mentira padrão. Em nome dela pode-se impunemente excluir qualquer visão que confronte a linha editorial dos barões midiáticos. As matérias e opiniões verdadeiramente independentes, quando chegam a existir, são apenas pequenas e honrosas exceções que na prática tornam-se irrelevantes diante do número de manchetes, colunas e reportagens que seguem fielmente o roteiro conservador e/ou reacionário.

O caso Mujica

Dois jornalistas, Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, publicaram uma biografia sobre o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, intitulada “Una oveja negra al poder”. No livro, que ainda não foi editado em português, existem diversas passagens com elogios ao ex-presidente Lula, confirmando o que Mujica sempre disse sobre Lula em entrevistas e pronunciamentos. No entanto, uma atenta repórter das organizações Globo, Cristina Tardáguila, pinçou uma frase do livro onde Lula diz a Mujica: “Essa era a única forma de governar o Brasil”. Com base nesta frase, Cristina e o Globo divulgaram para todo o Brasil que Lula confessou saber sobre o “mensalão”. A matéria da jornalista a soldo da família Marinho tinha, como se viu logo depois, quase nada de jornalismo e muito de manipulação.

O caso Mujica – o padrão da mentira

Um dos autores do livro desmentiu a reportagem: “Lula estava falando sobre as ‘coisas imorais’ (com as quais teve que lidar como presidente) e não sobre o mensalão. O que Lula transmitiu ao Mujica foi que é difícil governar o Brasil sem conviver com chantagens e ‘coisas imorais’, escreveu Andrés Danza”. Mujica também desmentiu. “Ele me falou das pressões e das chantagens. Mas nada de dinheiro ou de corrupção”, contou Mujica, reafirmando: “nunca conversei com um brasileiro sobre o mensalão”. O Globo publicou o desmentido de Andrés Danza. A primeira matéria, de Cristina Tardáguila, tinha a seguinte
manchete: “Mujica, em livro, relata confissão de Lula sobre mensalão”. A matéria que traz o desmentido de Danza ganhou o título de “Lula diz que teve de lidar com ‘coisas imorais’, relatam uruguaios em livro”. Enquanto no primeiro caso a mentira é o destaque da manchete, o seu desmentido é totalmente subalternizado sendo necessária uma grande dose de paciência para, em meio ao joio, separar o trigo.

O álibi do padrão da mentira

A Globo publica e dá grande divulgação à mentira. Depois, de forma camuflada, também publica o desmentido. É, sem dúvida, uma sofisticação na arte de mentir. Mais ou menos como se o assassino ligasse para a polícia para denunciar o crime, visando com isto ter um álibi. Mas assim como o morto não voltará à vida, a verdade sempre sai muito ferida de uma operação midiática falsa. Ainda mais quando esta operação midiática tem anos de implementação, sempre com o objetivo de colar no governo, no PT e na esquerda a pecha de corrupção.

O ardil do padrão da mentira

Na edição desta segunda-feira (08) do jornal O Globo, o colunista amestrado Ricardo Noblat ignora o desmentido do autor do livro e reafirma a mentira de que Mujica teria feito “a confissão que Lula jamais fizera”. Sobre o desmentido do próprio Mujica, Noblat diz simplesmente que Lula “providenciou um desmentido” e decreta com a arrogância de um guarda da Gestapo: Mujica “não convenceu”. A desfaçatez de um pseudojornalismo que cria, deturpa ou ignora fatos, não é gratuita. O redator destas Notas Vermelhas ouviu nesta segunda-feira, de dois engravatados, entre risos, no aeroporto de Congonhas: “Mujica acabou com o Lula”. A jornalista do Portal Vermelho, Mariana Serafini, estava recentemente no Metrô de São Paulo quando entraram dezenas de professores em greve. Os professores cantaram várias músicas denunciando o governo Alckmin (PSDB). Ao saírem, a população os aplaude. Uma senhora puxa conversa com a jornalista e pergunta o que ela acha da manifestação. Mariana responde que apoia e a senhora comenta: “É isso mesmo, tem que derrubar esta Dilma”.

As consequências do padrão da mentira

Um público já convencido de uma “verdade” criada por uma operação midiática falsa torna-se cada vez mais receptivo às novas mentiras que apenas confirmam a convicção já sedimentada. Aos poucos, a convicção de que alguém e/ou algo é o mal, de tanto ser alimentada, transforma-se em um sentimento de ódio. E com um sentimento de ódio dificilmente consegue-se dialogar, pois pouco espaço resta para a razão. Assim, pessoas acreditam (segundo pesquisa da USP) que o PT trouxe 50 mil haitianos para votarem na Dilma, que o filho do Lula é dono da Friboi, que se antes ninguém era preso no Brasil por corrupção é por que a corrupção começou com o PT, entre outros tantos absurdos que ganham cada vez mais corpo diante de um governo que, perante esta ofensiva, parece optar pela tática suicida da conciliação com a máfia midiática.

Pentágono – Operação Jade Helm 15

Por Dr. Nestor García Iturbe

Recentemente começou a divulgar-se informações sobre a operação “Jade Helm 15”, cuja tradução pode ser “timão de jade 2015”. O que saiu à luz pública sobre a operação em questão foi publicadas por divulgadores contrários aos interesses do Pentágono, como INFOWARS, principalmente pelos jornalistas Alex Jones e Juan Jimenez de Leon.

De acordo com o publicado, a operação “Jade Helm 15” se desenvolverá em diferentes estados do Sul e Oeste dos EUA, como Texas, Novo México, Arizona, Califórnia, Nevada, Utah e Colorado.

O objetivo dessa operação é ocupar os estados onde os insurgentes ganharam força e, portanto, a situação se tornou “ingovernável” para as cidades. A polícia, outras agências repressivas, e a Guarda Nacional são as encarregadas de manter ‘a ordem’ no intuito de impedir que uma ‘primavera política’ adquira força e os insurgentes tomem o poder. A diferença é que intervirão também as unidades do Pentágono com todo seu poderio bélico.

A data para o início da operação será o 15 de julho e deve terminar a 15 de setembro deste ano. A operação em si deve ter uma duração máxima de dois meses, ainda que tudo se desenvolva favoravelmente às forças estadunidenses, podendo durar um pouco menos.

Os jornalistas informaram que as forças implicadas na Jade Helm 15 incluirão pessoal altamente treinado da U.S. Army Special Forces Command (comando das forças especiais do Exército) ou Boinas Verdes, U.S. Navy SEALS (Marinha), U.S. Air Force Special Operations Command, USMC Marine Special Operations Command, USMC Marine Expedicionary Units, a 82and Airborne Division, às quais se juntarão a Guarda Nacional, a polícia, e outras agências paramilitares dos estados em que a operação será desenvolvida.

O exercício foi organizado pelo Departamento de Defesa (DoD), e para a frente do mesmo foi designado o general Ashton Carter, que executará essas tarefas como parte das ações a serem desenvolvidas pelo United States Special Operations Command (USSCOM), e o general Gerald “Jake” Betty estará presente durante as operações.

Em documentos recentes da Guarda Nacional, os cidadãos estadunidenses que participam em protestos são qualificados como “forças inimigas” e “adversários”.

Se coloca que o desenvolvimento, pelo Pentágono do que se foi chamado “Técnicas de Domínio Humano”, onde se acumula a informação obtida sobre as pessoas por meio da Internet, Facebook e outros sistemas similares são de grande ajuda para operações como esta. “Eles estão construíndo a infra-estrutura da tirania”, declarou David Knight, de INFOWARS, ao conhecer as declarações do tenente coronel Al Di Leonardo sobre a utilização dessa informação e a classificação que o Pentágono usava em relação ás regiões de acordo com a periculosidade das mesmas.

Esse é um exercício planificado contra cidadãos estadunidenses, que exponham seu desacordo com a situação existente no país, ou que protestem pelos assassinatos cometidos pela polícia. Exercício dirigido por um Comando do Pentágono, o United States Special Operations Command (USSOCOM), cuja missão é precisamente manter a ordem estabelecida dentro do país pela classe dominante, e tudo isso financiado pelo dinheiro dos contribuintes, os mesmos “insurgentes” proporcionam o financiamento dos projéteis que os matarão.

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Tradução: Tania Faillace

Lições do conservadorismo inglês

Por Rogerio Studart | Via Brasil Econômico

Nem os conservadores britânicos ousaram, frente à atual crise externa, promover a austeridade monetária, e muito menos um arrocho como programa de responsabilidade fiscal.

O Partido Conservador inglês voltou ao poder em 2010 com uma plataforma de enfrentar a crise com um choque de confiança a partir de austeridade. A economia britânica passou a demonstrar maior vitalidade somente em 2013, e muitos creditam a espetacular vitória eleitoral da semana passada a essa estratégia econômica conservadora. Foi isso mesmo? E há alguma lição que podemos aferir do conservadorismo britânico?

Vamos direto ao ponto: a resposta inglesa à crise atual nunca foi exatamente um exemplo de austeridade. Depois do tombo do PIB em 2009 (-4.3%), o Banco da Inglaterra se comprometeu com uma política monetária não convencional, similar ao “quantitative easing” (QE) americano. Mas nem as taxas de juros em torno de 0% permitiram uma retomada suficientemente forte para reduzir o desemprego. De fato, houve um esboço de retomado, com o celebrado crescimento de 1,9% em 2010. Mas ele foi seguido de uma desaceleração ate 2012 (0,7% de crescimento); pior ainda: o desemprego dá um salto de 5,7% (em 2008) para 7,9% (em 2010).

Não surpreendentemente, em 2010, o partido trabalhista é substituído por uma aliança conservadora que prometia “austeridade com uma cara humana”. Os ingleses evidentemente entenderam deste slogan que o ajuste fiscal geraria ganhos de confiança e uma rápida retomada do investimento e do crescimento — e, mais importante, do emprego. Se enganaram profundamente: o desemprego somente aumentou nos dois primeiros anos da nova era conservadora – e, com ele, foram às alturas o descontentamento e a desilusão populares. Sobre a austeridade, é verdade que o governo de David Cameron conseguiu reduzir a necessidade de financiamento do setor público de algo em torno de 8% em 2010 para 4% em 2015, enquanto a dívida pública bruta aumentaria de 76% para 91% no mesmo período. Ou seja, frente a este quadro, os Tories , como são conhecidos na Inglaterra, decidiram fazer o que os conservadores em muitas partes fazem: mantiveram o discurso da austeridade, mas na prática afrouxaram um pouco a política fiscal.

O único trunfo que possuía até 2012 a estratégia dos Tories  era o fato de a combinação de política monetária e fiscal frouxas não ter causado inflação. Mas porque isso não ocorreu? Creio que por pelo menos três razoes. A primeira está no fato de que a liquidez adicional gerada pelo QE inglês foi absorvida, com um sorriso nos lábios, por estrangeiros. Isso porque, apesar da retração do seu peso político e econômico no mundo, os britânicos conseguiram manter a libra esterlina como moeda de troca das finanças e do comércio global. Isso lhes concede o “privilégio exuberante” (junto aos Estados Unidos) de emitir títulos públicos em volumes gigantescos sem que “o mercado” encare isso como o caminho para o caos fiscal.

A segunda razão se relaciona ao fato de que parte da liquidez adicional se dilui na circulação financeira gerada pelo novo boom especulativo no mercado imobiliário britânico. A terceira razão é que parte do consumo adicional termina por ampliar as importações, evitando assim pressões sobre a oferta doméstica — mas criando um déficit comercial que sempre foi alto desde 2008, e a partir de 2013 nunca foi inferior a 4.5% do PIB.

Apesar de todo o discurso, não foi a política de austeridade que permitiu aos Tories  evitar um resultado econômico (e, eu diria, eleitoral) medíocre. A queda do preço do petróleo e, portanto, dos custos de transporte aliviaram o bolso do debilitado consumidor inglês e o custo de produção da não menos combalida indústria. A retomada da economia americana e a valorização do dólar deram um impulso adicional para um pequeno ajuste da competitividade. A economia passou a acelerar-se, crescendo 1,7% e 2,6%, respectivamente em 2013 e 2014 — e tem chances de crescer 3% em 2015. O investimento teve uma pequeníssima recuperação, e, melhor ainda, o desemprego voltou a um patamar pré-crise de 5,4%. Face a esses números, só uma coisa me surpreende: que a maioria dos analistas políticos tenha duvidado da possibilidade do resultado eleitoral. Afinal, como diria o estrategista político de Bill Clinton sobre a vitória na campanha contra George Bush (pai): “É a economia…”!

Eu prometi terminar falando de lições sobre o Brasil. Então vamos lá. Talvez o melhor seja começar por dizer o óbvio ululante: não somos a Inglaterra. O real não é moeda forte, não temos nenhum “privilégio exuberante” e nosso mercado de dívida pública é basicamente doméstico. Temos uma inflação que, se era alta, acelerou-se a partir dos reajustes “a toque de caixa” dos preços administrados. Ao contrário dos Tories , não podemos nos dar ao luxo de manter taxas de juros baixíssimas sob o risco de sofrermos fugas de capital ou uma desvalorização, inflacionária, do real. Por fim, nunca tivemos os investidores, nacionais, estrangeiros ou o FMI, pedindo para que afrouxássemos nossa política fiscal. Ao contrário, sempre temos os olhos atentos do mundo pedindo mais “cortes na carne” (dos outros, evidentemente) — uma outra face do “privilégio exuberante” no atual sistema financeiro internacional.

Não somos a Inglaterra. Mas pelo menos uma lição não podemos deixar de ver nessa história: nem os Tories , no alto de sua fé liberal, ousaram, frente à atual crise externa, promover a austeridade monetária, e muito menos um arrocho como programa de responsabilidade fiscal. Os conservadores britânicos sabem que esta combinação gera recessão, quebras de empresas e mais desemprego; mas estariam “dispostos” a aceitar todo esse sofrimento (dos outros, é claro) caso levasse ao equilíbrio fiscal e ao crescimento no futuro. Mas indicam também saber que esta estratégia pode ser contraprodutiva e desastrosa em um momento externo difícil, pois essa combinação arrisca provocar uma queda acelerada e cumulativa da arrecadação do Tesouro — um caminho contrário da austeridade fiscal de longo prazo, que corretamente defendem.

Além disso, os Tories parecem entender que um ajuste nesses termos, quanto prolongado, termina por reduzir a confiança dos produtores e investidores, minando a possibilidade do crescimento pelo investimento, da redução do desemprego. Sem contar que, por fim, compreendem, como bons economistas políticos que são, que esse caminho mina o apoio político necessário para possíveis ajustes futuros. Ou seja, eles sabem que é uma combinação tecnicamente infrutífera e politicamente desastrosa — uma receita testada muitas vezes e que não deu certo.

Em suma, temos muitas lições a aprender com o conservadorismo inglês. Basta fazermos um esforço para traduzi-las de forma adequada.

Contra pressão do PMDB, Dilma decide reconduzir Janot

Por Kennedy Alencar | Via Blog do Kennedy

Seria erro derrubar procurador em plena Lava Jato, avalia petista.

A presidente Dilma Rousseff já decidiu indicar Rodrigo Janot para mais um novo mandato de dois anos à frente da Procuradoria Geral da República. Dilma avalia que tem uma série de razões para isso, segundo conversas de bastidor entre a presidente e seus principais ministros.

Na opinião de Dilma, Janot tem feito um trabalho equilibrado à frente do Ministério Público Federal. Também acha que seria um erro político substituir o procurador-geral em meio às investigações da Operação Lava Jato que tramitam na Justiça Federal do Paraná e dos inquéritos que correm no STF contra políticos que têm a chamada prerrogativa de foro _aqueles que só podem ser processados no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

A Câmara dos Deputados discute aprovar uma emenda constitucional (MP) para impedir a recondução de procuradores-gerais da República. Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e Renan Calheiros, presidente do Senado, trabalham contra a recondução de Janot. Ambos respondem a inquérito no STF.

A eventual Proposta de Emenda Constitucional contra Janot é infeliz e casuística. Lembra a aprovação da PEC da Bengala. Está pesando mais atender a interesses políticos e jurídicos imediatos de parlamentares que respondem a processo no STF do que realmente discutir um aperfeiçoamento das instituições do país. Aprovar essa proposta seria um erro e levaria a opinião pública a reagir fortemente contra a Câmara.

Ceder às pressões de Cunha, que já mandou recado à Dilma de que é contra a recondução, seria um tiro no pé perante o eleitorado. Para uma presidente que está num momento de baixa popularidade, não reconduzir Janot poderia soar como uma interferência política direta do Palácio do Planalto numa importante operação de combate à corrupção. Dilma não tem capital político para agir assim. E nem deseja fazer isso.

Na avaliação do governo, Janot também tem sido correto em relação a Dilma. Rejeitou, por exemplo, pressões da oposição para pavimentar um eventual caminho jurídico de um processo de impeachment contra a presidente.

Dilma não vai atender às pressões para derrubar o procurador-geral do cargo. Nesse contexto, podem ser esperados mais atritos com a dupla peemedebista Eduardo Cunha e Renan Calheiros. A presidente age com correção nesse tema.