Arquivo mensais:abril 2015

Uma triste nulidade; complementos e análise

Por Fábio Konder Comparato | Via Carta Capital

Hipócrates, o Pai da Medicina, denominou krisis o momento preciso em que o olhar experiente do médico observa uma mudança súbita no estado do paciente, o instante em que se declaram nitidamente os sintomas da moléstia, ensejando o diagnóstico e o prognóstico.

Seremos capazes de fazer um juízo hipocrático da recente piora apresentada no estado mórbido, no qual se encontra, há muito tempo, a vida política brasileira? Creio que o diagnóstico deve ser feito em razão da realidade substancial de nossa sociedade, caracterizada pela estrutura de poder e pela mentalidade coletiva predominante.

No Brasil, desde os tempos coloniais, o poder supremo sempre pertenceu a dois grupos intimamente associados: os potentados privados e os grandes agentes estatais. Cada um deles exerce um poder ao mesmo tempo, em seu próprio benefício e complementar ao do outro. Os agentes do Estado dispõem da competência oficial de mando. Os potentados privados, da dominação econômica, agora acrescida do poder ideológico, com base no controle dos principais veículos de comunicação de massa.

Trata-se da essência do regime capitalista, pois, como bem advertiu o grande historiador francês Fernand Braudel, “o capitalismo só triunfa quando se alia ao Estado; quando é o Estado”.

Quanto à mentalidade coletiva predominante, isso é, o conjunto das convicções e preferências valorativas que influenciam decisivamente o comportamento social, ela foi entre nós moldada por quase quatro séculos de escravidão legal.

Essa herança maldita acarretou, em ambos os grupos soberanos acima nomeados, um status de completa irresponsabilidade política, pois desde sempre eles se acharam, tais como os senhores de escravos, superiores à lei e isentos de todo controle. De onde o fato de a corrupção, nas altas esferas do poder público e no setor paraestatal, ter sido até agora tacitamente aceita como costume consolidado e irreformável.

Quanto às classes pobres, o longo passado escravocrata nelas inculcou uma atitude de permanente submissão. O pobre não quer exercer poder algum, prefere, antes, ser bem tratado pelos poderosos. Na verdade, o conjunto dos pobres jamais teve consciência dos seus direitos, por eles confundidos com favores recebidos dos que mandam.

No tocante à classe média, seus integrantes procuram em regra atuar como clientes dos grandes empresários, proclamando-se, a todo o tempo, defensores da lei e da ordem. Eles sempre desprezaram a classe pobre, ou temeram sua ascensão na escala social.

Para completar esse triste quadro, e seguindo a velha prática do mundo capitalista, nossos grupos dominantes aqui forjaram, desde o início, uma duplicidade de ordenamentos jurídicos: o oficial e o real. No Brasil colônia, as ordenações do rei de Portugal mereciam respeito, mas não obediência. O direito efetivo era o que os administradores oriundos da metrópole combinavam com os senhores de engenho e grandes fazendeiros. A partir da Independência, as Constituições aqui promulgadas seguiram o modelo dos países culturalmente adiantados, para melhor dissimular a primitiva realidade oligárquica, vigorante na prática.

A Constituição de 1988 não faz exceção à regra. Ela declara solenemente, logo em seu primeiro artigo, que “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente”. Na prática, os ditos representantes do povo são eleitos, em sua quase totalidade, mediante financiamento empresarial. E o Congresso Nacional dispõe de competência exclusiva para “autorizar referendo e convocar plebiscito” (art. 49, inciso XV). Ou seja, o povo não exerce poder algum, nem direta nem indiretamente. Ele é simples figurante no teatro político.

Acontece que no centro da organização oficial do Estado brasileiro acha-se o seu chefe, isto é, o presidente da República. E de sua habilidade pessoal que depende o funcionamento, sem sobressaltos, desse sistema político de dupla face. Cabe-lhe manter, sob a aparência de respeito à Constituição e às leis, um bom relacionamento com os soberanos de fato, sem esquecer de agradar ao “povão”, dispensando-lhe módicas benesses.

Foi o que fez brilhantemente Lula durante oito anos. E é o que Dilma, por patente inabilidade, revelou-se incapaz de compreender e realizar, numa fase de prolongado desfalecimento da economia, no Brasil e no mundo. Ela entrou em choque com o Congresso Nacional, desconsiderou o Supremo Tribunal Federal (até hoje não nomeou o sucessor do Ministro Joaquim Barbosa, aposentado em 31 de julho de 2014) e acabou por se indispor com o empresariado, a baixa classe média e até a classe pobre, ao implementar a política de ajuste fiscal.

E o PT no bojo dessa crise?

Ele revelou-se uma triste nulidade política, decepcionando todos os que, como eu, se entusiasmaram com a sua fundação, em 1980. A nulidade é bem demonstrada pela leitura de seu atual estatuto, aprovado em 2013. Nele, por incrível que pareça, não há uma só palavra, ainda que de simples retórica, sobre os objetivos do partido. Todo o seu conteúdo diz respeito à organização interna, à qual, aliás, pode ser adotada por qualquer outra legenda.

Se esse diagnóstico é acertado, o que se há de fazer não é simplesmente aliviar a crise, mas atacar as causas profundas da moléstia.

Para tanto, a via cirúrgica, do tipo impeachment da presidenta ou golpe militar, não só é ineficaz como deletéria.

O que nos compete é iniciar desde logo a terapêutica adequada, consistente em quebrar a soberania oligárquica e reformar nossa mentalidade coletiva. Tudo à luz dos princípios da República (supremacia do bem comum do povo sobre os interesses particulares), da democracia autêntica (soberania do povo, fundada em crescente igualdade social), e do Estado de Direito, com o controle institucional de todos os poderes, inclusive o do povo soberano.

Bem sei que se trata de caminho longo e difícil. Não se pode esquecer que na vida política o essencial é fixar um objetivo claro para o bem da comunidade, e lutar por ele. Não é deixar as coisas como estão, para ver como ficam.

Tania Faillace – Acho que se deveria ser mais atento quando se generalizam conceitos ou apreciações.

Seria impróprio eu ou alguém mais dizer que os corintianos isso, os corintianos aquilo, os palmeirenses isso, os palmeirenses aquilo…

Agremiações são agremiações, e só são responsáveis como agremiações quando se manifestam pública e oficialmente sobre os temas em pauta.

Ações individuais de uma ou várias pessoas – como os vários cidadãos acusados pela Lava-Jato e filiados a partidos diferentes, – não representam o pensamento nem os propósitos de suas agremiações. Nem os brasileiros que assaltam turistas podem ser considerados representantes de toda a nação brasileira.

Então, digamos que o insulto a uma determinada sigla (ou clube desportivo) para ofender aos milhares ou centenas de milhares de seus filiados ou associados, é totalmente impróprio. Sejam de direita, de centro, ou de esquerda, joguem futebol, ou apenas assistam das galerias.

Com referência à especificidade nomeada por Arthur Garbayo, sabemos perfeitamente que, há muitos anos, por um determinado acerto entre os partidos (que não fui eu que fiz, juro), não temos governo de partidos, mas de coalizões partidárias heterogêneas, lideradas por um elemento político-partidário com bastante popularidade para atrair votos gerais.

Essa sua faculdade de atrair votos, atrai os partidos que não contam com personalidades populares entre seus quadros, mas desejam aceder ao poder, ou pelo menos, a parcelas de poder.

Assim, fazem-se os acertos, que não são ventilados para os eleitores, os quais talvez não aprovassem todas as alianças feitas.

No modelo usado nos últimos doze anos (antes tínhamos um presidencialismo bastante autoritário, de que nos deu exemplo Fernando Henrique Cardoso), o governo é praticamente um colegiado. Assim, o presidente nominal precisa ter o apoio de seu colegiado para levar adiante suas propostas.

Naturalmente, seria de esperar que, fora do colegiado, e dentro do Congresso, esses partidos continuariam coesos e apoiando as propostas saídas do colegiado.
Porém não foi o que aconteceu, o que vem acontecendo.

O governo brasileiro ficou sem norte, porque os partidos colegiados romperam o acordo no Congresso, mas continuaram fechados em torno do colegiado governamental. Só sai como proposta do governo, o que for aprovado pelo colegiado. O que não garante a aprovação dos partidos a que pertencem os outros membros do colegiado.
Parece uma casa de loucos, não é mesmo?

Entre todos os partidos membros do colegiado, certamente o PT é o que menos manda, já que esgota sua participação no núcleo executivo interno.

Assim, certamente não fui eu, como membro fundador do PT, que indiquei ou apoiei aqueles ministros  inacreditáveis, como o Levy, homem do FMI, ou a Abreu, mulher do agronegócio, ou o Wagner, amigo do Pentágono. São acertos do coletivo, do colegiado.

Agora… por que foi que tal situação se criou?
Não sei e creio que ninguém do partido saiba.

E aí, talvez devamos dar, em parte, a mão à palmatória do Gustavo, com sua paixão pelo parlamentarismo. Num sistema parlamentarista, o presidente dissolveria o governo colegiado por ingovernabilidade, e decretaria nova composição político-partidária do governo.

Quem sabe sugerimos isso a Brasília?

Crise política favorece avanço de projeto que reduz maioridade penal

Por Camila Moraes | Via El País

Protesto contra a PEC que reduz a maioridade penal em Brasília. / L. Tomaz (Agência Câmara)

Apenas 0,013% dos crimes de adolescentes no Brasil são atentados à vida, diz a Unicef.

A proposta de emenda constitucional que reduz no Brasil a maioridade penal de 18 para 16 anos de idade, depois de andar esquecida por mais de 20 anos pela Câmara dos Deputados, encontrou esta semana passagem livre na Casa e acabou sendo aprovada nesta terça-feira. A votação realizada pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) contabilizou 42 votos a favor da admissibilidade da PEC 171/93, contra 17 parlamentares que alegam que ela é inconstitucional. Muitos atribuem esse avanço a uma disputa política, em um momento em que o Brasil vive uma crise e o Governo Dilma sofre críticas de todos os lados e o Congresso, também em baixa na aprovação, busca apoio em um tema com apelo popular, num quadro que pode acabar atropelando uma discussão séria e equilibrada sobre a questão.

O debate sem dúvida ganhou força quando o peemedebista Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, tomou a briga a peito, prometendo viabilizar a chegada da PEC a plenário e publicando mensagens favoráveis a ela em sua página no Facebook. “A redução da maioridade penal é fundamental para o nosso país e precisa ser votada o quanto antes”, publicou Cunha, que já foi chamado de “primeiro-ministro” brasileiro por adversários e aliados. E não só isso: nas ruas, cidadãos manifestam seu apoio à redução da maioridade, em consonância com um Congresso Nacional visto como o mais conservador desde a redemocratização e onde a chamada “bancada da bala” tem emplacado projetos de igual cunho policialesco. Segundo pesquisa do Datafolha de 2013, 93% do paulistanos apoiam a redução da maioridade penal.

Agora, de um lado, a proposta inicia uma longa trajetória na Câmara, que prevê duas votações em plenário para depois passar ao Senado (e ser votada também em duas instâncias), podendo ainda ser questionada no Supremo Tribunal Federal. De outro, instituições civis prometem se mobilizar para que não haja retrocesso em conquistas fundamentais dos jovens no Brasil, plasmadas no Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, que em 2015 completa 25 anos e é considerada uma legislação de referência mundial.

Se a redução de fato for aprovada, é possível que muitas crianças e adolescentes engrossem um sistema carcerário já muito além de sua capacidade. Como consequência, aumentam os gastos do Estado e portanto do contribuinte, sem que haja relação direta entre a pena com prisão e diminuição da criminalidade, como defende quem está a favor da PEC. Segundo a Unicef, dos crimes de adolescentes no país, cerca de 90% são roubos e outros atentados à propriedade, e dos 21 milhões jovens entre 12 e 18 anos, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida.

“A sensação é de profunda tristeza e indignação, ao ver que direitos fundamentais, garantidos pela nossa Constituição desde 1988, passam por um retrocesso”, opina o advogado Pedro Hartung, do Instituto Alana, organização que defende o direito à infância. “Apesar do longo caminho que a PEC 171/93 tem a percorrer, a votação de hoje foi simbólica, porque reduz garantias e provoca uma mudança radical do que a sociedade brasileira entende da condição da criança e do adolescente”, complementa.

A atual legislação brasileira afirma que a partir dos 18 anos de idade, um indivíduo responde penalmente por seus crimes. Porém, antes disso, dos 12 anos em diante, ele é responsabilizado e inclusive internado se tiver conflitos com a lei, só que sob condições especiais. “A desinformação da sociedade é gigantesca nesse sentido. A sensação é de que o jovem sai impune de um ato infracional, mas não é assim”, diz Hartung.

Outros países que optaram pela redução no passado, como a Alemanha, a Espanha e o Japão, retrocederam nesta medida ao analisar a reincidência criminal de jovens ao sair da prisão, além do abarrotamento de seus sistemas carcerários. “No Brasil, o Ministério da Justiça fala em mais de 60% de reincidência entre adolescentes, enquanto a Fundação Casa, a antiga Febem, em 15%”, comenta Ariel de Castro Alves, especialista em Políticas de Segurança Pública pela PUC-SP e ex-conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Para ele, a discussão mais pertinente seria outra: “Ao invés discutir a redução da idade, seria possível falar do tempo de penalização em sistema socioeducativo e de outros critérios de responsabilização. Colocar em presídio não vai resolver o problema”.

Há quem defenda a redução parcial, no caso dos crimes mais graves, como homicídios. “Não acredito que um jovem que estupra e mata não saiba o que está fazendo. Nesse caso, e no momento sócio-político que vivemos, reduzir a maioridade penal faria sentido, talvez evitando que o crime organizado, por exemplo, recrute essas pessoas”, afirma João Affonso, advogado e pós-graduando da Universidade de Londres, onde participa de grupos de discussão sobre o tema. “Mas essa não é a solução de todos os nossos problemas, porque já temos uma legislação avançada para adolescentes no Brasil”, diz, em referência ao ECA. “O problema é que ela não é cumprida”.

No meio do embate, ao falar de menores no Brasil outro número da Unicef que impressiona é que mais de 33.000 adolescentes foram assassinados entre 2006 e 2012. De fato, o país é o segundo em assassinatos de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Se eles morrem sistematicamente, fora da proteção que o próprio Estado deveria dar, como que ele resolveria o problema? A resposta, Pedro Hartung, do Instituto Alana, está em investir na criança. “Proteger a criança é proteger a sociedade, e isso não tem nada a ver com política penal. É irracional dar essa resposta”, diz.

Safatle: Parlamento de espoliação

Por Vladimir Safatle | Via Facebook

“Nobres deputados, digníssimos senadores. Estamos em um limiar da história nacional. Chegou o momento de assumirmos a responsabilidade à qual somos conclamados pelas ruas e dizer ao país que eis que se projeta o fim do presidencialismo de coalização. Raiz de todos os males da governabilidade de nossa pátria, este presidencialismo morreu de inanição” (aplausos, aplausos).

“O país pede mais ousadia, mais vigor e lideranças ilibadas (neste momento, um popular grita: “Mas o senhor é diretamente indiciado no escândalo da Petrobras”. No que os seguranças do Congresso dão um jeito de tirá-lo rapidamente de cena, à custa de alguns hematomas. Parlamentares gritam: “Respeite esta Casa”). Como estava dizendo, o país pede mais ousadia, por isto proclamo o fim do presidencialismo de coalização e o início de uma nova era: a era do parlamentarismo de espoliação” (fortes aplausos e choro de comoção no plenário).

“Sim, aproveitemos da fraqueza congênita do governo para passarmos as pautas que realmente interessam este país. Viagem para mulheres de deputado subsidiada pelo dinheiro público, triplicação da verba de custeio de partidos, R$ 10 milhões em emendas para os novos parlamentares em pleno ano de recessão, reforma política que coloque, de uma vez por todas, o fantasma da participação popular direta para longe de nossas terras. É isto que o povo quer.”

“Para diminuir a pressão que os inimigos da pátria podem querer fazer contra nossa legítima espoliação, lembremos ao povo que o caos espreita nosso país. As famílias não sabem mais o que são famílias. O Estado precisa explicar à sociedade qual é o conceito de família. A ditadura gay atinge até mesmo nossas novelas. Gays, nobres deputados e senadores, querem ter os mesmos direitos que nós (alguém grita: “O sangue de Jesus tem poder”, “Sai, Satanás”). O cidadão de bem clama pela redução da maioridade penal, por uma lei contra o terrorismo. O deputado Bolsonaro, aquele que diz que só estupra mulher que merece, será nosso relator.”

“Quem se volta contra o Parlamentarismo de espoliação se volta contra a democracia. Pois fomos eleitos pelo povo, mesmo que, em vários Estados, mais de um terço da população não votou para o Congresso Nacional ou que, segundo o Instituto Data Popular, 75% da população diz não confiar nos candidatos a deputado federal da última eleição, e 65% não confiar nos candidatos ao Senado.”

(Fim do terceiro ato. Alguém diz ter visto dois urubus em cima de um edifício no cerrado. Mas, na verdade, era uma instalação de Nuno Ramos).

Levy e Bernanke: o Império e a Colônia

Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

O ajuste do Tio Sam e o ajuste Tupiniquim. Ben Bernanke, ex-presidente do BC americano, que comandou a reação dos Estados Unidos à crise mundial, jogando dinheiro na economia a torto e a direito e, simultaneamente, praticando juro zero ou negativo, para fortalecer a economia, mostrou em seu blog – sensação nos meios econômicos na América – que tem visão radicalmente oposta à do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, adepto dos juros altos, para segurar a inflação, e do argumento de que eles somente começam a cair se os gastos públicos recuarem. Mas, que gastos públicos? Bernanke entende que a maior conta do gasto público é juro sobre a dívida. Por isso, derrubou-o, adotando a eutanásia do rentista. Já, Levy foge dessa prática. Desconsidera o gasto financeiro – correspondente a 75% do total do orçamento geral da União, de R$ 2,83 trilhões, para 2015 – como fonte de pressão do déficit, preferindo cortar na carne dos assalariados, das viúvas, dos aposentados, dos pescadores, bem como eliminar os subsídios às forças produtivas, que têm contribuído para evitar o desemprego. Eis, de um lado, a visão do Império, a de Bernanke; de outro, a da Colônia, a de Levy, quando manobram a política econômica para fazer ajuste fiscal. No capitalismo cêntrico não tem disso não, ou seja, não há conversa mole de economista neoliberal.  Para Bernanke, “o FED não pode de forma alguma deixar as taxas de juros serem determinadas pelo mercado”. Tio Sam não acredita no mercado.  Por aqui, no Brasil, Levy, na Fazenda, e Tombini, no BC, se tornam prisioneiros do mercado financeiro especulativo, avalizando, toda semana, a pesquisa Focus, realizada com 100 instituições financeiras, que manipulam as expectativas, para jogar a economia para baixo e os juros para cima. Império e Colônia, sim senhor. Muito evidente sobre quem realmente é  senhor e quem é escravo. Pois não. Com esse ajuste fiscal levyano, o povo´terá que passar fome para que algum dia a taxa de juro caia – se cair. O contrário da pregação de Tancredo Neves de que, se chegasse à presidência da República, jamais pagaria a dívida com a fome do povo. Tombini-Levy, mente colonizada é isso aí.

A oposição e a grande mídia tupiniquim, que virou também partido de oposição, têm batido insistentemente que a presidenta Dilma Rousseff busca culpar a crise internacional pelos problemas econômicos do Brasil, fugindo da responsabilidade de ter conduzido mal a economia, na medida em que se excedeu nos gastos públicos.

O que ficou patente hoje, na Comissão de Assuntos Econômicos, no Senado, na exposição do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, indisfarçadamente, apoiado pelo poder midiático, serviçal do capital internacional, foi a confirmação das palavras da presidenta.

O que mais se viu acentuado nos argumentos dele foi que os problemas fiscais, que hoje pesam na formulação da política econômica, decorreram da adoção de medidas anticíclicas – comandadas pelo excomungado Guido Mantega – para enfrentarem a crise externa, a fim de manterem ativas as forças produtivas e a taxa sustentável de emprego interna.

Não foi barbeiragem como os líderes oposicionistas invocam, levando à histeria os comentaristas econômicos, pródigos em se ancorarem em metodologias, dados e gráficos formulados pelos econometristas do mercado financeiro, encarregados de criar terrorismo econômico, diariamente.

Levy disse o que não disse nenhum desses comentaristas até agora, que os Estados Unidos saíram da crise não enxugando dólares mediante taxa de juro elevada, mas adotando juro zero ou negativo, exportanto, assim, moeda americana, conforme patenteou política monetária expansionista praticada pelo FED, presidido por Ben Bernanke, a partir de 2010 até 2014.

O império não quis saber de liquidez em seu quintal.

Produziu-a e deixou que ela se expandisse fora do território americano.

Diante do juro zero ou negativo, os detentores de ativos monetários, sem rendimento na praça americana, submetidos à eutanásia do rentista, fizeram o que?

Correram para o Brasil, onde o Banco Central, sob Alexandre Tombini, não sabia – e ainda não sabe – fazer outra coisa que puxar juro, para enfrentar tsunami monetário, de modo a evitar enchente inflacionária.

Ou seja, não foram os gastos anticíclicos, praticados por Mantega, os culpados pelos déficits públicos, que se ampliaram, mas a exportação de dólares fabricados/desvalorizados pelo FED, comandado por Bernanke, mediante juro zero ou negativo.

O império tomou a decisão imperialista e a colônia, submissa, aceitou, passivamente, o jogo imperial.

A taxa de juro alta praticada pelo BC brasileiro, realmente, tornou-se necessária para combater a inflação, não praticada pelo governo Dilma, mas exportada pelo governo Obama.

Mas, isso, Levy, que é homem do FMI e da escola de Chicago, não teve coragem de dizer.

Preferiu afirmar, em resposta à senadora Graziotini, que questionou os juros altos brasileiros, que o juro baixo americano decorre do fato de que nos Estados Unidos a inflação é baixa.

Claro, é baixa, porque o juro é zero ou negativo!

Por essa razão, devido à inexistência dos custos financeiros, puderam as empresas americanas adquirir competitividade.

Diante da indagação da senadora sobre quando o juro no Brasil começará a cair, Levy saiu com o argumento neoliberal surrado que não convence mais ninguém, ou seja, que, primeiro, é preciso cortar na carne, para que se sinalize ao mercado queda do deficit, para, então, o juro de longo prazo começar a ceder.

Blá, blá, blá neoliberal.

O FED fez o contrário: jogou dinheiro na praça, a rodo, e derrubou os juros, caloteando, na sequência, os detentores de papeis das dívidas do governo.

Se isso provocasse inflação, como dizem no Brasil os neoliberais levyanos, os americanos estariam todos afogados em ondas inflacionárias e a população teria saído às ruas para derrubar Obama.

O depoimento de Levy, no Senado, foi um jogo de manipulação.
Ele não foi ao essencial, ficou no acessório.

Fugiu da explicação de que o peso dos juros altos, produzidos pela inflação importada do Império, representa a fonte principal do deficit público.

Ao puxar o juro, para enxugar liquidez em dólar, o BC aumenta a dívida pública interna, que exige mais juros, juros sobre juros, criando o que Maria Lúcia Fattorelli, convidada para auditar a dívida grega, chama de Sistema da Dívida.

O jogo imperialista produz a dívida, que se autoalimenta de si mesma, que esmaga a economia e paralisa as forças produtivas.

Como Levy quer consertar o negócio?

Cortando gastos do orçamento não financeiro da União – educação, saúde, segurança, transportes, infraestrutura etc – , por meio de contingenciamentos draconianos, enquanto não toca no orçamento financeiro, correspondente a 75% dos gastos públicos.

Os juros, na avaliação levyana, somente começariam a cair, depois que, de um lado, cairem, certamente, os assalariados, destruídos em sua capacidade de consumo, ou, de outro, forem expulsos do mercado de trabalho.

Senadores e senadoras deram um espetáculo de incapacidade de questionamento do titular da Fazenda.

Não enfrentaram o principal problema da economia nacional, a especulação financeira, produzida, no orçamento financeiro, pelo financiamento da dívida, não considerada gasto passível de ajuste.

Contentaram-se em tratar, sem consciência, do orçamento não-financeiro, onde se efetiva a realidade das pessoas.

Todos os políticos, durante a campanha eleitoral, pregam, para ganhar voto, a mentira de que trabalharão pelo bem das pessoas.

Mas, na hora de votar o orçamento da União, trabalham a favor dos especuladores, que pagam suas campanhas eleitorais.