Arquivo mensais:abril 2015

O sucesso técnico da Petrobras, a força do pré-sal e o despeito dos entreguistas

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Não sei se foi buscar lã e saiu tosquiada, mas o fato é que a Folha, hoje, acaba sendo forçada – claro que com uma série de senãos – a reconhecer o extraordinário sucesso da Petrobras na exploração do óleo do pré-sal brasileiro.

O moto é o de que a Petrobras estaria “economizando” em investimento pelo fato de os poços do pré-sal serem mais produtivos que o esperado.

O que se previa produzindo 15 mil barris por dia por poço, em média, produz, hoje, 25 mil barris por poço a cada 24 horas.

Isso é uma monstruosidade: no Mar do Norte, a média é 15 mil barris de petróleo por poço/dia e, no Golfo do México, são 10 mil barris de petróleo por poço/dia.

No campo de Lula um poço produz tanto quanto um do Mar do Norte e outro do Golfo do México, somados. Alguns poços do pré-sal chegam, entre óleo e gás, a 45 mil barris por dia de média e o primeiro teste de produção de Libra espera rendimento de 50 mil barris diários.

É meia-verdade, no curto prazo, a economia.

É óbvio que um poço que produz quase o dobro é mais lucrativo. Mas também exige mais equipamentos processar e armazenar, para transporte, esta quantidade maior de óleo.

Um navio-plataforma com capacidade de processar 120 mil barris diários abrangeria oito ou nove poços produtores e mais outros tantos, ou quase tantos, para injetar água e produzir a pressão que fizesse jorrar o petróleo nos poços produtores.

Isso aconteceu, por exemplo, com o navio-plataforma Cidade de Angra dos Reis, no campo de Lula. Era previsto que ela atingisse sua capacidade, de 100 mil barris por dia, por meio de seis poços. Mas foram necessários apenas quatro, cada um produzindo cerca de 24 mil barris por dia, para chegar à marca.

Com uma produção por poço quase dobrada, passam a ser necessários outros navios-plataforma e isso entra no terreno das variações possíveis na exploração, sobretudo quando se trata de jazidas de grande extensão e acumulação. Porque o petróleo não fica numa “piscina” subterrânea de perfeita comunicação entre um trecho e outro, mas impregnado em rocha porosa e um poço não pode “chupar” o óleo contido em formações mais distantes: é necessário, mesmo, uma “teia” de “espetadas” para aproveitamento integral da parte recuperável daquela reserva.

É por isso que a Petrobras está enfiada em exigências imensas de investimento e não por “imprudência” gerencial.

O que está colocado diante da Petrobras não é investir modestamente: é investir pesado ou entregar o petróleo.

É simples assim: quem defende uma redução dos investimentos da Petrobras além de um certo ponto, o da viabilidade econômica de manterem-se reservas identificadas sem explorá-las, defende a entrega destas jazidas às petroleiras internacionais.

Vêm daí as pressões pelo estrangulamento financeiro da Petrobras, mas que não será fácil.

Como fez hoje a China, há no mundo sempre alguém para negociar créditos a uma empresa que está sentada sobre as maiores jazidas de petróleo recentemente descobertas, para que ela não tenha, simplesmente, de permanecer sentada e inerte.

É por isso que, como você vê na matéria da Folha, a indústria petroleira quer, tão boazinha, “aliviar” a Petrobras de ter de fazer investimentos tão pesados.

São bonzinhos, muito bonzinhos…

Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente? (II)

Militares sob o comando do General Ernesto Geisel, que praticou uma política externa independente dos EUA.

Prosseguindo no debate sobre o caráter do regime ditatorial que o Brasil viveu, o professor Benayon julgou ser de suma importância alertar para a não unanimidade da visão do General Olympio entre os militares brasileiros. A escritora e jornalista Tania Faillace põe alguns pingos nos i’s no intuito de esclarecer ainda mais a questão em análise.

Confira:

Adriano Benayon – O artigo do Gen. Olympio Mourão F. não expressa a opinião dos militares sobre o golpe de 1964, mesmo sem considerarmos que muitos militares eram contrários a esse golpe e até foram punidos ou afastados pelo governo egresso dele.

É que Mourão não é bem representativo da opinião geral dos militares, mesmo contando somente os favoráveis ao golpe. De resto, havia muitas correntes entre esses, e até mesmo oficiais nacionalistas, naturalmente mal informados de todo o contexto (alguns afetados pela contra-informação, pela doutrinação que atribuía intenções diabólicas aos comunistas e simpatias comunistas a Goulart etc.).

Algo que deve ser lembrado para ilustrar que a posição dos militares não é, ou não era monolítica:  em 1969, quando Costa e Silva, que não era entreguista, ficou inabilitado por motivo de saúde, houve chance de os oficiais nacionalistas tomarem o poder, tendo os oficiais da Vila Militar do nível até tenente-coronel (não sei entrou até coronel) feito votação de seu candidato preferido à presidência, escolhendo eles chegado a fazer votação, escolhendo o general Affonso Albuquerque Lima, nacionalista, que era ministro do Interior de Costa e Silva.  Faltou alguém com peito e iniciativa para pôr os tanques da Vila na rua e assumir o poder. Acabaram acatando a tal junta dos três ministros militares, e depois o alto Comando escolheu Médici.

Volto a reiterar que é valioso em nossa campanha de tentar esclarecer mais compatriotas, não generalizarmos os estamentos e segmentos sociais, pois isso faz o jogo do império. O que ele quer e sempre lhe deu frutos é pôr de um lado os civis, de outro os militares. E nós somos mais que sabedores que há de tudo entre civis como entre militares. Do mesmo modo, entre os que se dizem de esquerda e de outras tendências no campo político e filosófico.

Tania Faillace – As coisas não são tão simples nem tão preto-no-branco, em matéria de geopolítica, quando os interesses se cruzam, e as oportunidades se criam para a conjugação de ações convergentes mesmo com objetivos diferenciados.

É evidente que o golpe deu-se no bojo de uma estratégia que então se construía contra a autonomia política e econômica dos países latino-americanos – haja visto, na época, a quantidade de movimentos nacionalistas e democratizantes, a quantidade de golpes de direita, a ingerência generalizada dos norte-americanos nestas terras, a quantidade de presidentes e líderes populares assassinados e vítimas de “acidentes” arranjados.

No mais das vezes, tratou-se de juntar “a fome com a vontade de comer”, isto é, de acertar os passos entre os interesses de grupos internos, com os interesses maiores e estratégicos do império de nossa época.

No Brasil, não foi diferente.

E com o tempo, manifestou-se um certo descompasso entre o grupo dirigente de origem militar, e os interesses do sócio maior, que não tinha o menor desejo de que o expansionismo brasileiro se tornasse uma realidade e viesse a lhes fazer concorrência algum dia. Isso explica a época desenvolvimentista, e as crises sucessivas de ordem financeira, dependentes do que acontecia “lá fora”.

Se era uma contradição principal ou secundária, é assunto para os analistas históricos. Mas que houve um descompasso, houve. Um descompasso que explica aquele monte de manobras descosturadas que caracterizaram a transição de um regime para outro. Inclusive as mortes havidas: Tancredo, Severo Gomes, as esposas de Severo e de Ulysses, o desaparecimento completo de Ulysses, do qual não restou um único osso ou pé de sapato.

Nesse nível, o jogo é muito bruto. Tanto contra os adversários principais, como contra os associados que se recusam a seguir o script inicial, e têm suas próprias aspirações e alternativas.

Após extensão de prazo, Irã adverte que não haverá acordo nuclear sem fim de sanções

Via Opera Mundi

‘Insistimos que todas as sanções econômicas, financeiras e petrolíferas sejam canceladas’, declarou nesta manhã representante de país persa.

O Irã declarou nesta quarta-feira (01/04) que pontos não resolvidos nas negociações sobre seu programa nuclear persistem e destacou que sem a retirada das sanções contra o país persa não haverá acordo com as potências internacionais.

Representantes de G5+1 (Alemanha, EUA, China, França, Reino Unido e Rússia) estiveram com delegação iraniana na Suíça. EFE

“Há duas ou três questões fundamentais e importantes, e sem chegar a uma solução realista e moderada sobre elas não haverá nenhum acordo”, afirmou o alto negociador nuclear iraniano Abbas Arqchi. “Insistimos que todas as sanções econômicas, financeiras e petrolíferas sejam canceladas na primeira passagem de um acordo, e que fique pronto um plano para suprimir o restante dos embargos relacionados aos outros setores”, completou o diplomata iraniano.

O prazo final para as negociações as seis potências e Irã deveria ter sido encerrado na terça-feira (31/03), mas foi estendido por um dia e deverá ser concluído hoje com um acordo preliminar para limitar o programa nuclear iraniano.

Para o representante de Teerã, há uma “possibilidade” real de se chegar a “uma conclusão” ainda nesta noite, acrescentando que seu país estará nas negociações “até o último momento”. Além dele, ministros de Relações Exteriores da Alemanha e Reino Unido, além da chefe da diplomacia europeia e dos Estados Unidos estão na cidade suíça de Lausanne, enquanto os ministros da Rússia, França e China retornaram ontem para seus respectivos países.

Nesta manhã, a delegação alemã disse à imprensa que “nada está estipulado, mas com a boa vontade de todos é possível conseguir um acordo” e que é perceptível “avanços” nas conversas.

Na mesma linha, o presidente norte-americano, Barack Obama, comentou a evolução das negociações com sua equipe de segurança nacional em uma videoconferência realizada na noite de ontem, com a presença do secretário de Defesa, Ashton Carter. “O presidente agradeceu a todos por seus constantes esforços”, explicou a Casa Branca em nota.

Já os ministros das Relações Exteriores da Rússia (Sergei Lavrov), China (Wang Ly) e França (Laurent Fabius) já deixaram Lausanne para voltar aos seus respectivos países. Antes de ir embora, a delegação francesa afirmou que só voltará à Suíça para a rodada de conversas “se for útil”.

Há anos, Irã negocia com o G5+1 (EUA, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) a existência de um programa nuclear. A comunidade internacional acusa Teerã de querer produzir uma bomba atômica, embora o país persa assegure que o programa tem um caráter pacífico, como a geração de energia elétrica para o território nacional.

Eduardo Cunha e o baixo clero deslumbrado

Por Rennan Martins | Vila Velha, 02/04/2015

No último domingo o jornal O Globo publicou entrevista com o presidente da Câmara dos Deputados, senhor Eduardo Cunha. Repleta de tiradas ácidas e arroubos, a matéria demonstra um político deslumbrado, convencido de que chegou ao topo do poder. À vontade diante da imprensa aliada, o político deu mostra de seu caráter autoritário e da total falta de compromisso com o país.

A manchete já diz a que veio o parlamentar: “A gente finge que está lá (no governo). E eles também”. Destemido de eventuais represálias, Cunha diz o que qualquer observador minimamente atento constata. A despeito do discurso de independência com o qual se elegeu presidente da casa, o que se vê é um político que desfruta das benesses de ser situação ao mesmo tempo em que encaminha a agenda derrotada nas urnas.

O peemedebista abriu diversas frentes de projetos que representam retrocesso do ponto de vista da esquerda. Atualmente tramitam, a toque de caixa, o PL 4330, que regulariza a terceirização ilimitada, a PEC 451 que enfraquecerá o SUS, transformando a saúde não mais em direito mas em serviço fornecido pelas corporações privadas de seguro, e ainda a PEC 171 que, aprovada pela CCJ última terça-feira (31), prevê a redução da maioridade penal para 16 anos.

Incluído na lista dos suspeitos de envolvimento no esquema investigado pela Operação Lava-Jato, o deputado não enxerga isso como um impedimento em relação a CPI da Petrobras que instalou. Muito pelo contrário, o próprio foi quem indicou o colega de partido, Hugo Motta, da Paraíba, para presidir os midiáticos “inquéritos” parlamentares.

Quando inquirido sobre a pretensão do PMDB de obter mais cargos junto as fileiras governamentais, tira do bolso que quer se manter longe do que chama de “ladrões técnicos”. Alega que um monte de “malandro” o circula com propósitos escusos, enquanto ele se mantém limpo, trabalhando retamente na representação dos diversos interesses privados que o financiam.

Disposto a flexibilizar o ajuste fiscal aos abonados, Eduardo Cunha esclarece que a Medida Provisória 669, que extinguiria os benefícios fiscais as empresas, precisa chegar ao Congresso na forma de projeto de lei. No entanto, quando o tópico é a restrição de direitos trabalhistas não há essa exigência, ou seja, para arrochar os de baixo são admitidas medidas de efeito imediato, já com os de cima é necessário todo o demorado rito do PL. Se lembrarmos que o Congresso triplicou o orçamento do fundo partidário para este ano, fica evidente que este articulista acertou quando em fevereiro disse que sua gestão seria de “populismo” para os privilegiados e arrocho aos trabalhadores.

Lembrado de que basta a presidenta Dilma e o vice Michel Temer viajarem para que ele assuma o Palácio do Planalto, Cunha faz troça do ex-ministro da educação, Cid Gomes, demitido justamente por falar algumas verdades a ele no plenário da Câmara.

Por fim, dando mostra de seu desrespeito completo a divisão de poderes e a democracia em si, que pressupõe os freios e contrapesos, Eduardo Cunha declara que está em “guerra aberta” contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Ora, se está tão confiante da própria lisura qual é a razão de interferir tiranicamente no trabalho da justiça? A guerra em questão visa encobrir algo?

Como cristão que se declara, o deputado deveria atentar aos ensinamentos de Salomão que constam no livro de Provérbios, que no capítulo 16, versículo 18, alerta que “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.”

A falta que faz um projeto nacional

Por Alexandre de Freitas Barbosa | Via Brasil Debate

A crise política e econômica que vivemos são os sintomas tardios da ausência de projeto nacional. A euforia triunfou sobre o planejamento de longo prazo e sobre a participação social. Depois do delírio de grandeza, o País perdeu o chão e liberou seus traumas ancestrais.

Entre final de outubro de 2014, quando a presidenta Dilma ganhou o segundo turno das eleições presidenciais, e a segunda quinzena de março de 2015, o País sofreu uma aguda crise depressiva. O governo reeleito é o principal responsável pelo drama, do qual participam os seus defensores, os supostos aliados no Congresso e uma nova oposição de direita de “massa”, ainda sem representação política definida.

Como chegamos a esse ponto? Uma resposta fácil seria destilar acusações à classe política, aos corruptos, ao “intervencionismo” do governo passado, aos “neoliberais”, à crise internacional, ao monopólio dos meios de comunicação, à personalidade da presidenta, e assim por diante.

Variando conforme o figurino e a inclinação ideológica, foi o que vimos nos cartazes das passeatas e nos comentários dos nossos especialistas televisivos. Trata-se do velho vício cultural brasileiro de que nos falava Rômulo Almeida, grande pensador praxista do desenvolvimento brasileiro, de ver tudo sob o prisma dos problemas únicos. Falta uma compreensão dos desafios estruturais que perpassam as várias dimensões da vida coletiva e uma sadia dialética capaz de orientar as forças sociais progressistas no sentido de uma perspectiva política de futuro.

Os fatos políticos recentes são os sintomas tardios da falta que faz um projeto nacional. Isso porque a euforia triunfou sobre o planejamento de longo prazo e sobre a participação social. Depois do delírio de grandeza, o paciente – o País, é bom que se diga – fez o movimento no sentido contrário, perdeu o chão, liberou seus traumas ancestrais e deixou que cada detalhe assumisse uma proporção exagerada. Apenas o distanciamento histórico e o reconhecimento da sua condição lhe permitem sair da letargia.

Tivemos ao menos embriões de projeto nacional durante o segundo governo Vargas, o governo JK, a ditatura militar, cada qual com as suas particularidades. Esses projetos emergiram em determinadas conjunturas históricas, provocando rupturas para além da aparente continuidade.

O projeto nacional vai além de mero discurso, pois a retórica – quando revestida de conteúdo propositivo – é a forma como seus arquitetos se colocam frente às contradições do momento, tentando encaminhá-las num determinado sentido.

Tomando um exemplo recente, o governo FHC caracterizou-se pela defesa da desnecessidade de um projeto nacional, justificada pela inevitabilidade da “globalização”. A crise internacional comprometeu o projeto adesista. A nova institucionalidade mercadista estava, por sua vez, descolada da dinâmica do desenvolvimento econômico e da complexidade das forças sociais.

Já o ciclo expansivo do governo Lula tinha tudo para lançar um projeto nacional de fôlego. Por que não o fez?

O período 2004-2008 foi um dos mais auspiciosos da história republicana recente. A economia mudava de marcha, os programas sociais expandiam-se junto com o emprego, e o governo, sem se descuidar da situação fiscal, lançava um novo pacote de investimentos.

Esboçou-se inclusive uma visão sobre o mundo e sobre o papel do Brasil no teatro das nações. Chegada a crise financeira dos países ricos, o governo agiu prontamente, abrandando os efeitos negativos sobre a economia brasileira. Era o momento do grande salto adiante.

No pós-2008, processou-se uma reorganização da economia mundial capitalista, alterando a posição das economias dinâmicas da periferia com base industrial e mercado interno robusto. Era então o momento de enfrentar a crise de curto prazo, não apenas com medidas anticíclicas, mas com um verdadeiro projeto de desenvolvimento para os novos setores dinâmicos na indústria e nos serviços, com políticas na área de infraestrutura social, energética e urbana, agindo na superação de gargalos que agora aparecem de todos os lados.

Era também o momento certo para a correção cambial. E para elevar temporariamente a meta de inflação. Era a hora de acionar um salto de produtividade sistêmica no Brasil, sem abrir mão do combate à desigualdade, mas inclusive para aprofundá-lo. Era a hora, se…, tivéssemos estruturado um projeto nacional, com base social, enraizamento regional, reforma do Estado e ações concretas nos planos da política interna e externa, tendo por objetivo o desenvolvimento com ampliação da cidadania.

É fácil agora condenar a “má gestão” da política econômica do governo Dilma. O buraco é mais embaixo e revela a ausência de reflexão por parte do governo (especialmente o de Lula) e do PT sobre os dilemas estruturais da economia brasileira.

Não fazia muito tempo, no final dos anos 2000, entoávamos os bordões do nosso líder operário-estadista aplaudido pelo mercado e pelo sistema político. Boa parte da esquerda – à qual se somavam alguns liberais recém-convertidos – repetia acriticamente: “pagamos a dívida com o FMI”; “conseguimos o investment grade”; “viramos um país de classe média”; “estamos no pleno emprego”.

Se, no atual momento, o governo e o PT não sabem o que fazer, cabe à intelectualidade progressista brasileira assumir a sua parcela de culpa, reconhecer que entrou no clima de oba-oba e perdeu uma grande oportunidade histórica. Pois na história, os erros são sempre coletivos e irremediáveis.

A intelectualidade que pulou fora do barco e assumiu uma atitude denuncista contra o governo e o PT, e hoje repete o verbete “eu não disse”, também é parte do problema. Talvez tenha uma postura mais confortável, que pouco contribui para o enfrentamento dos desafios estruturais da nação. Parte de um país idílico, repetindo a fórmula conservadora de que “o país precisa ser passado a limpo”. Apenas os culpados, ou os problemas únicos, são diferentes.

Nos próximos meses, o governo procurará encontrar o seu eixo, à base de ansiolíticos e fórmulas paliativas para a “coordenação política” e as políticas públicas devem assumir cada vez mais um caráter de gestão de problemas de curto prazo, vez por outra avançando em iniciativas de alguma envergadura, a depender da temperatura da base aliada. Este parece ser o melhor cenário dentre os possíveis, ao menos no curto prazo.

Será então mais importante do que nunca pensar e atuar a partir da tríade planejamento-democracia-projeto nacional, rompendo a lógica imediatista do calendário político-eleitoral. Com utopia e pragmatismo, apostando na transversalidade dos projetos de desenvolvimento e na forma como eles se enraízam nos vários espaços do território por meio de interações criativas entre os entes federativos e a sociedade civil.

Enquanto a macroeconomia estiver na maré baixa, será a hora de praticar novamente ações voltadas para a ampliação da cidadania. E de estruturar uma pauta viável para a superação dos desafios convergentes, de maneira planejada, inventariando os recursos disponíveis e arregimentando uma nova geração de militantes do desenvolvimento social e sustentável.

Hora de amassar barro, como foi durante a luta contra a ditadura, a criação do PT, ou durante os anos 1990, quando os movimentos sociais estavam na defensiva, mas eram muito mais assertivos e propositivos do que são hoje.

Nem tudo está perdido, companheiro!

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Alexandre de Freitas Barbosa é professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP).

Petrobras financia US$ 3,5 bilhões com banco chinês; novos acordos em vista

Por Roberto Samora | Via Reuters

SÃO PAULO – A Petrobras informou nesta quarta-feira que assinou com o Banco de Desenvolvimento da China (CDB) contrato de financiamento de 3,5 bilhões de dólares, recursos que devem trazer algum alívio para empresa, que agora tem mais dificuldades de captar recursos por conta da crise decorrente do escândalo de corrupção.

O contrato, assinado entre o CDB e a subsidiária da estatal Petrobras Global Trading BV, é o primeiro financiamento de um acordo de cooperação a ser implementado ao longo de 2015 e 2016, ressaltou a Petrobras em comunicado.

“Adicionalmente, as duas partes confirmaram a intenção de desenvolver novas cooperações no futuro próximo”, disse a Petrobras.

Com limites para realizar captações no mercado de dívida, em meio a denúncias de corrupção que envolvem a empresa, a Petrobras disse anteriormente que estudava “outras possibilidades de financiamento e incremento de fluxo de caixa”, até para fazer frente aos pesados investimentos projetados.

Vivendo uma crise de credibilidade por conta das denúncias reveladas pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, a Petrobras tem dito publicamente que não pretende captar recursos no mercado de dívida em 2015.

O contrato foi assinado na China, durante visita do diretor financeiro e de Relacionamento com Investidores da Petrobras, Ivan Monteiro.

Segundo a Petrobras, o contrato é um importante marco para dar continuidade à parceria estratégica com a China, para quem a estatal exporta petróleo, “fortalecendo as sinergias entre as economias dos dois países”.

Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente?

Os ex-presidentes Médici (Brasil) e Nixon (EUA)

Foi enviado ao grupo de discussão dos Desenvolvimentistas um texto assinado pelo General Olympio Mourão Filho que testemunha a visão dos militares sobre o golpe de Estado que perpetraram contra o país em 64, mergulhando-nos numa ditadura de 21 anos.

De confusa visão, o general fala sobre uma suposta defesa do nacional ao mesmo tempo que esquece da interferência decisiva dos EUA neste episódio histórico. Afinal, os militares tinham um projeto nacional ou foram serviçais do império norteamericano?

Confira o debate:

General Olympio Mourão Filho – Porque a verdade é que alguns demônios andaram soltos neste país, enquanto a maioria desta Nação estava entocada, apavorada, os chefes militares prontos a se deixarem dominar, contanto que continuassem a viver, viver de qualquer maneira, sem coragem de arriscar as carreiras. Os pobres continuando pobres. A classe média e os ricos podendo morar e comer três vezes ou mais por dia. Os políticos em condições de aderir, permanecendo em sua profissão, maldita profissão.

Os chefes militares, tolhidos por um falso legalismo, esperando que o Chefe do Executivo lhes dessem maiores motivos para a reação, imobilizados, atônitos e impermeáveis à compreensão dos fatos iniciados com o plebiscito e completados com o comício do dia 13 de março, surdos ao verdadeiro clamor de medo vindo de toda a Nação. Ainda mesmo depois dos deploráveis incidentes na Marinha, que estava ameaçada de destruição, havia chefe militar com a esperança vã de que o Chefe do Executivo recuasse, quando ele já não mais podia fazê-lo.

Todos queriam viver, eis o problema. Eis o segredo do aparente sucesso dos demônios soltos no país. Minoria audaciosa que sabia usar os meios de que dispunham e que eram os máximos, oriundos desta maldita forma de governo que é o Presidencialismo.

Ponha-se na Presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará a sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, de que tudo quanto faz está certo.

Em pouco tempo transforma-se um ignorante em sábio, um louco em gênio equilibrado, um primário em estadista.

E um homem nessa posição, empunhando nas mãos as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.

Enquanto esse monstro é dirigido e explorado apenas pela lisonja, bajulado pela corte, a Nação sofre prejuízos de monta, é verdade, mas, apenas danos materiais em sua maioria e morais alguns.

Quando, porém, sua roda é formada ou dominada por um bando refece de demônios, nesse momento a Nação corre os mais sérios perigos.

Esta era a conjuntura do perigo e do terror na qual viveu o Brasil de 1962 a 1964.

Adriano Benayon – Os governos militares tinham um projeto que imaginavam ser nacional, o qual explicitamente afirmava o objetivo de fortalecer o poder nacional. Mas era um projeto incoerente, inconsistente, porque se fundamentava ideologicamente na ‘aliança’ com os EUA, motivada por visão obnubilada pela suposta ameaça comunista, devidamente magnificada desde a ‘intentona’ de 1935. O projeto ‘nacional’ era inconsistente, porque não é possível fortalecer o poder nacional, enquanto se subsidia as empresas transnacionais para se apoderarem da indústria do País. Um dos resultados do fracasso de tal projeto é a dívida externa, que resultou das transferências feitas pelas transnacionais para o exterior. Não menos fatídico: a crescente inviabilização do desenvolvimento de tecnologias no País a serviço do País, pois asfixiou-se as empresas locais, retirando-lhes o solo e os nutrientes, que são o mercado. Em suma, o objetivo proclamado de desenvolver o País teve como resultado enfraquecê-lo, torná-lo impotente.

Milton Saldanha – Vale lembrar que os Estados Unidos sofreram duas grandes derrotas, no Vietnam e com a perda do seu bordel que era Cuba. Então criaram uma geopolítica de financiar e fomentar golpes “preventivos” na América Latina, para resguardar seu quintal. Houve um momento em que apenas cinco países não viviam sob ditaduras. Eram todas sanguinárias, com tortura e assassinatos. E todas tinham a mesma justificativa: combater o comunismo. Havia no Brasil uma esquerda militar, minoritária, mas real e disposta a lutar. Se tivesse ocorrido resistência a derrota dos legalistas seria inevitável, inclusive com a intervenção militar norte-americana, que trazia fuzileiros na Operação Brother Sam. Depois os fascistas teriam feito uma caça aos esquerdistas, de casa em casa, jogando o país num banho de sangue jamais visto, e talvez pior do que aconteceu no Chile. A propósito, sobre o Chile falta muito a ser revelado. Foi menos mal o golpe vencer sem luta, mesmo tendo jogado o Brasil em 21 anos de atraso cultural, ao mesmo tempo em que militares sonhavam com um projeto de potência militar, com a Engesa, pesquisa de bomba atômica, Angra, submarino atômico, etc. Além da base de Alcântara, que os gringos explodiram numa sabotagem nunca investigada. O projeto não foi em frente por falta de grana e tecnologia. A sociedade civil nunca foi convidada a discutir se queria isso. Tudo desabou de vez com a democratização, que passou a priorizar, ainda que de forma paliativa, o social. O fim da Guerra Fria e o começo da globalização mudou o cenário completamente. Só idiotas e espertalhões ainda acham que regime militar seria solução.

Tania Faillace – O perigo na ótica daquele grupo militar (não foi unânime essa ótica, tanto que os militares democratas ou de esquerda foram os primeiros a serem punidos e degradados na carreira), era o eventual perigo comunista.

Mas, como categoria profissional, que lhes interessava o perigo comunista ou o perigo fascista (o que realizaram)? Não perderiam o emprego, se continuassem a cumprir com seus deveres constitucionais. A troco de que santo defender os interesses do poder econômico, e mais ainda, do poder econômico imperialista, de fora do País?

Sim, alguns militares “forraram o poncho” como se diz no RS, e fundaram montepios, e uma série de empresas semi-fantasmas, que quebraram mais ou menos rapidamente, deixando a clientela a ver navios.

Mas como isso justificaria a traição à própria nacionalidade?

Mistérios ainda não bem decifrados, a menos que vocações ideológicas na linha fascista estivessem sendo embaladas pelas chefias.

Posteriormente, vários desses mesmos militares fizeram sua auto-crítica e justamente no governo FHC, quando se tornou evidente ser esse governo um agente do imperialismo anglosaxão.

Eis porque esse mesmo poder anglosaxão trocou de parceiros no meio do caminho: a casta militar não aceitava um segundo lugar na proposta dos gringos, queria protagonismo e ser representante de um país pujante e não de uma nova colônia. Perdeu espaço quando fracassou seu projeto, embalados como estavam nas “idéias” enganosas dos imperiais, cairam em todas as armadilhas econômico-desenvolvimentistas que lhes sugeriram, inclusive a ciranda financeira.

Bom, estamos num outro momento, mas que repete alguns modismos clássicos que nós velhos reconhecemos – a ameaça subjacente de guerra explícita, que levou Goulart a renunciar prematuramente, e que hoje espera obrigar a atual presidente a fazer o mesmo.