Arquivo mensais:abril 2015

Dilma se reunirá com Cristina Kirchner e Mark Zuckerberg no Panamá

Via Agência Efe

A presidente Dilma Rousseff se reunirá com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e com o diretor-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, durante a Cúpula das Américas no Panamá, além dos encontros já anunciados com Barack Obama e os líderes da ONU, México, Colômbia e Haiti.

Em comunicado, o Palácio do Planalto afirmou que Dilma deixará Brasília às 6h desta sexta-feira e após sua chegada ao Panamá, se encontrará com o presidente do México, Enrique Peña Nieto.

Dilma se reunirá com representantes internacionais durante a Cúpula das Américas. EFE/Fernando Bizerra Jr.

Depois, a presidente discursará no Fórum Empresarial “Unindo as Américas: Integração produtiva para o desenvolvimento inclusivo”.

Posteriormente, Dilma se reunirá com Zuckerberg em um hotel da capital panamenha, com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e, na sequência, com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos.

Dilma também confirmou presença na cerimônia de abertura da VI Cúpula das Américas e no jantar oferecido pelo presidente anfitrião, Juan Carlos Varela. No final do dia, de volta ao hotel, a presidente fará uma reunião bilateral com Cristina Kirchner.

O local e o horário para o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, – confirmado pelo Planalto e ratificada pelo vice-presidente Michel Temer – e do Haiti, Michel Martelly, não foram informados ainda pelo governo federal.

Mãe do menino morto no Alemão diz que foi ameaçada por PM na favela

Por Aliny Gama | Via Uol

Teresina Jesus, mãe do menino Eduardo, discute com policiais durante o protesto realizado no Complexo do Alemão, no sábado (4)

A mãe do menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10, morto durante operação da polícia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Teresina de Jesus Ferreira, disse que um policial ameaçou-a de morte logo após ela ver o filho assassinado na porta de casa. A ação ocorreu na última quinta-feira (2), e o menino foi atingido por um tiro de fuzil.

“Quando vi meu filho naquela situação agarrei o primeiro policial que estava na frente, tentei agredir e ele apontou o fuzil para mim e disse que poderia também me matar. Eu disse: então me mate! Pode matar já que você matou meu filho, você acabou com a minha vida”, disse Teresina, durante o velório do filho.

O pai do menino, José Maria Ferreira, negou que o filho tivesse envolvimento com o tráfico de drogas ou com qualquer tipo de crime no Alemão. “Meu filho não tinha contato com traficantes, como estão dizendo aí. Não admito que digam que ele estava armado, que estava fazendo coisa errada. Era um filho exemplar, cuidadoso e educado”, disse. “Ele era um menino de bem e foi alvo da polícia destreinada, que saiu atirando para todos os lados.”

O corpo do menino chegou ao Piauí na madrugada desta segunda-feira (6) e está sendo velado no município de Corrente (a 844 km de Teresina).

Os pais e as duas irmãs de Eduardo, de 14 e 17 anos, chegaram a Teresina na noite de domingo (5). A família passou a noite em um hotel, esperando o voo que trouxe o corpo do menino. O irmão de Eduardo, Leonardo de Jesus França, 26, que mora em Cristalândia (a 30 km de Corrente) já estava na casa dos familiares à espera dos pais e dos irmãos.

No início da manhã, a família seguiu com o caixão em um voo fretado pelo governo do Estado do Piauí para Corrente. O velório está ocorrendo na casa de uma tia de Eduardo, e o corpo deve ser enterrado às 17h no cemitério municipal.

Abalado com a perda do filho, Ferreira disse que ele e a mulher não pretendem mais morar no Rio de Janeiro, onde residiam havia 16 anos. A família está hospedada na casa de parentes e na próxima semana deve começar a procurar um imóvel para alugar.

“Não estamos pensando em processar o Estado agora, vamos enterrar Eduardo e depois é que vamos pensar nisso. A dor de perder um filho é tão grande que não conseguimos pensar ainda nisso, mas queremos justiça”, disse Ferreira.

A família do menino não teve despesa com o funeral e o transporte até o Piauí. O governo do Rio de Janeiro pagou o serviço funerário, com caixão e traslado, além das passagens da família de Eduardo até Teresina. Já o governo do Piauí arcou com as despesas de hospedagem, alimentação e traslado do corpo e translado da família até Correntes.

Outro lado

A PM (Polícia Militar) do Rio de Rio de Janeiro informou, no fim da tarde desta segunda-feira (6), que a DH (Divisão de Homicídios) da Capital investiga o caso, mas não detalhou se a afirmação da mãe de Eduardo sobre a ameaça de morte está sendo apurada.

“Policiais do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) que estavam na ocorrência estão respondendo a um Inquérito Policial Militar (IPM) e foram afastados do policiamento na rua. As armas dos policiais foram recolhidas para confronto balístico”, diz a nota da PM.

“Mal-entendidos” estão produzindo 50 mil jovens mortos

Por Mônica Francisco | Via Jornal do Brasil

A afirmação contundente e cheia de precisão do americano Jonathan Duran, de que os “mal-entendidos só acontecem com crianças negras”, após ter presenciado a discriminação racial sofrida por seu filho adotivo, um menino de 8 anos, por estarem em frente a uma famosa loja de roupas, em um dos endereços mais badalados de São Paulo, após seu filho ter sido “confundido” com um menino de rua, pode ser ampliada para “pessoas negras”.

O olhar estrangeiro do americano revela com muita clareza a triste e dolorosa capacidade que o racismo sistêmico aqui no Brasil tem de fazer com a maior parte da população brasileira. E isso, sob o olhar de quem vem de uma cultura extremamente racista, como a norte americana.

Os mal-entendidos que são cometidos contra as pessoas negras, sejam elas crianças ou adultas, têm o consentimento de quase todos, e tem a cristalização das suas práticas, através das mídias, invisibilizando-as, e assim, ajudando na naturalização e na consolidação de atitudes como as da vendedora da loja, que não viu “aquela” criança, como sendo igual à qualquer outra criança não negra.

Não é despreparo, imaturidade, infelicidade ou outra desculpa qualquer, como a clássica “não intencionalidade de”, ou o “famoso engano”. Uma recorrência de fatos tão escabrosos vai além destes “deslizes” cotidianos.

Só que os equívocos, deslizes ou mal-entendidos, como queiram, estão produzindo cerca de 50 mil mortos jovens e negros por ano, uma recorrência na aniquilação de crianças e mutilação de famílias, sem contar nas mortes por consequência, com o adoecimento das famílias.

Os mal-entendidos estão levando o país a produzir um desejo perigoso de punição de crianças que nada tem a ver com Segurança Pública e diminuição de índices de violência.

Em uma semana que vivemos tristes episódios, às vésperas da Páscoa Cristã, a certeza de que temos um longo caminho a percorrer, quando o que ouvimos é “vamos reocupar”, seja lá o que isso quer dizer, não nos dá uma certeza de que veremos uma luz no fim deste túnel.

Sem um franco diálogo com a sociedade civil, uma real vontade de se transformar o quadro caótico em que estamos inseridos nesse contexto, contando com o apoio de especialistas de todas as áreas, essa medida soará mais como placebo do que com algo que surta um real efeito.

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“A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não aos Autos de Resistência, à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!”

Mônica Francisco é membro da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.(Twitter/@MncaSFrancisco).

4,6 milhões é o preço do PL 4.330?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/04/2015

Liderados pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem o experiente jornalista político Jânio de Freitas descreveu como “cria de Paulo César Farias”, nossos deputados aprovaram por 324 votos favoráveis e 137 discordantes o texto base do Projeto de Lei 4.330/04, que regulamenta e amplia a possibilidade de terceirizações nas empresas.

Polêmico, o PL extingue a diferenciação entre atividade-meio e atividade-fim – o que abre precedente para a possibilidade de terceirizações ilimitadas e empresas sem empregados – estabelece que a responsabilidade da empresa contratante é subsidiária em relação a prestadora do serviço, e permite até mesmo a terceirização de cargos do serviço público, excetuando somente os setores de regulamentação e fiscalização. Trata-se do maior retrocesso aos trabalhadores desde a ditadura militar.

A retórica dos partidários do projeto de que é preciso especializar o mercado de trabalho e dar garantias aos mais de 12 milhões de terceirizados no país não resiste a análise dos dados. O texto prevê que no caso de calote patronal o trabalhador somente poderá recorrer a “empresa mãe” após esgotadas as possibilidades de receber da que o contratou, a dita responsabilidade subsidiária. Além do mais, no Brasil os terceirizados recebem em média 24,7% menos que os diretamente contratados, possuem jornada semanal 3 horas e meia maior e são os que mais sofrem acidentes de trabalho, o que derruba por terra a tese da especialização. A precarização dos terceirizados é tão evidente que entre os 10 maiores resgates de trabalhadores em condição análoga a escravidão realizados entre 2010 e 2013, em nada menos que 90% dos casos as vítimas eram terceirizadas.

A Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra) tem verdadeiro horror a proposta. Em campanha de denúncia e combate ao projeto, o presidente da associação e juiz titular da 20ª Vara Trabalhista de Porto Alegre sustenta que a lei tem potencial de reduzir a participação do fator trabalho na renda dos atuais 34 a 37% para algo entre 25 a 30%, e diz que os efeitos seriam “catastróficos”.

Se tudo isso ainda não fosse suficiente, temos ainda escandalosa inconstitucionalidade no PL. O artigo 37 inciso II da Constituição Federal prevê que:

“a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração”.

Serão nossos parlamentares tão ignorantes, ou prepotentes, a ponto de afrontar a constituição munidos de um simples Projeto de Lei?

O mais intrigante desse quadro é o fato da direita tanto denunciar o suposto aparelhamento do Estado por parte do PT e ainda assim defender a terceirização dos cargos das empresas públicas e sociedades de economia mista, o que justamente as transformará em mero cabide eleitoral. É o velho patrimonialismo da elite de volta a ofensiva.

Os verdadeiros interessados no PL 4.330/04

Na terça-feira (7) o PL foi pautado pelo presidente da Câmara e como não poderia ser diferente, diversos atos de repúdio ocorreram em 17 estados e no Distrito Federal. Em frente ao congresso juntaram-se cerca de 4 mil manifestantes (segundo a CUT, a PM estima 2,5 mil) no intuito de pressionar os parlamentares.

Diante da pressão, o altivo Eduardo Cunha tomou uma medida inusitada que escancara a quem ele serve com o PL 4.330. Os sindicalistas da CUT e CTB foram proibidos de adentrar a chamada “casa do povo”, enquanto representantes de entidades empresariais, principalmente da indústria, assistiam a plenária tranquilamente. A atitude foi tão absurda que em liminar que suspende a autoritária decisão o ministro do STF Marco Aurélio Mello considerou “inimaginável” o acontecido.

Os favoráveis a terceirização generalizada arrotam termos como eficiência e especialização mas pesquisa da própria Confederação Nacional da Indústria demonstra o óbvio, quando perguntados sobre a terceirização, 91% dos industriais a consideram em primeiro lugar uma boa alternativa para a redução dos custos.

Por fim chegamos ao que motivou a headline do artigo, o pequeno grande segredo do maior entusiasta do projeto. Em 2014 o atual presidente da Câmara Eduardo Cunha declarou arrecadação da ordem de 6,8 milhões em doações para a campanha. Desse montante, 4,6 milhões vieram principalmente da indústria de bebidas, mineradoras, bancos e da Telemont, interessadíssimos no assunto. Será esse o preço pago pela aprovação do PL 4.330? Ou as empresas acreditam no “compromisso com o bem público” de seus patrocinados?

Juiz do caso Eike confessa que desviou mais de R$ 1 milhão retidos pela Justiça

Via Correio do Brasil

Juiz do caso de Eike teria acesso aos que estavam o dinheiro

O juiz Flávio Roberto de Souza confessou que desviou cerca de R$ 1,14 milhão que estavam sob sua tutela na 3ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro apreendidos em processos judiciais. A informação foi divulgada pelo Ministério Público Federal (MPF).

O órgão conduz desde segunda-feira a investigação criminal contra o magistrado. Ele é suspeito de crimes de peculato, subtração de autos, fraude processual e lavagem de dinheiro. O procedimento corre em segredo de Justiça.

Souza ganhou notoriedade ao ser designado para julgar os processos contra o empresário Eike Batista. O juiz passou a ter sua conduta questionada ao ser flagrado dirigindo um Porsche do empresário que ele mesmo havia mandado apreender.

Em nota, o MPF informou que o juiz admitiu o desvio de 108 mil euros (R$ 357 mil), US$ 150 mil (R$ 476 mil) de um processo contra um traficante internacional de drogas. Ele afirmou ainda que tomou decisões que permitiram o desvio de R$ 290 mil que estavam na Caixa Econômica Federal por ordem da Justiça.

Além desses valores, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região identificou, em correição feita pela corregedoria, o desaparecimento de R$ 27 mil, US$ 443 (R$ 1.380,61) e mil euros (R$ 3.310), referentes ao processo contra Eike Batista.

Na última segunda-feira, o juiz Flávio Roberto de Souza devolveu R$ 599 mil que haviam sido apreendidos pela Justiça Federal do Rio e que foram apropriados indevidamente pelo magistrado.

De acordo com informações da Corregedoria, a diferença restante relativa ao desvio ainda será objeto de procedimento administrativo, visando a compelir o magistrado afastado a efetuar o ressarcimento.

Na denúncia, os procuradores regionais afirmam que “o sumiço do dinheiro somente foi revelado em 27 de fevereiro, quando o juiz substituto da 3ª Vara Federal Criminal realizava um levantamento sobre bens acautelados”. Além disso, o documento destaca que “na oportunidade, se constatou que o cofre encontrava-se vazio. O denunciado utilizou parte dos valores que desviara para celebrar compromisso de compra e venda do apartamento.”

A denúncia também relata que o juiz utilizou o dinheiro para comprar um automóvel Land Rover, apreendido pela PF (Polícia Federal) na última quinta-feira, a pedido do MPF.

O juiz é acusado ainda pelo crime de extravio e inutilização de documentos, pois destruiu, em janeiro, os autos do processo sobre a alienação antecipada de bens relativos à operação Monte Perdido.

No entendimento do MPF, seu intuito foi facilitar a ocultação e a impunidade dos desvios de valores, pois várias decisões falsas que fez inserir no sistema Apolo, usado na Justiça Federal, contém alusão a documentos que nunca existiram.

O advogado do juiz, Renato Tonini, alegou que o magistrado sofre de problemas psiquiátricos. A defesa fez a afirmação durante sessão, no dia 26 de março, no Órgão Especial do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Empresários vencem e Câmara aprova texto base do PL da Terceirização

Via RBA

Matéria contraria trabalhadores, por criar condições de aprofundar a precarização dos direitos trabalhistas e dos salários. Destaques serão votados na próxima terça-feira.

Brasília – O primeiro embate real desta legislatura que pôs em xeque as divergências observadas entre a bancada empresarial e os parlamentares representantes dos direitos dos trabalhadores no Congresso foi consolidado na noite desta quarta-feira (8), com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei (PL) 4.330, que regulamenta a atividade de terceirização no país. O resultado foi sintomático do tamanho da representação de cada bancada e do poder do lobby feito pelas empresas privadas junto ao Legislativo: dos 463 deputados presentes na sessão, 324 votaram sim ao PL, contra 137 votos pelo não e duas abstenções.

Apenas PT, PCdoB e PSOL votaram contra a proposta, que tramita há 11 anos no Congresso, mas que foi apontada pelos parlamentares que a aprovaram como necessária para reduzir os impactos da atual redução da atividade econômica.

A aprovação do texto base do PL é considerada pelas representações de trabalhadores e por outros movimentos sociais um retrocesso e um ataque a direitos trabalhistas conquistados em diversas lutas do movimento sindical.

A principal polêmica entre as que o PL provoca é a terceirização em todas as atividades das empresas. Na avaliação de centrais sindicais, representantes do Judiciário e entidades diversas da sociedade civil, a autorização resultará em perdas salariais e sociais dos trabalhadores.

No plenário da Câmara prevaleceu a estratégia dos defensores do PL de seguir o rito traçado pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ele conseguiu manter a votação na sessão plenária, apesar de discussões de ordem regimental, apresentação de requerimentos para adiar e cancelar a votação, pedidos para retirada da matéria de pauta e tentativas de negociação de novos acordos.

Poucas horas antes da aprovação do PL – concluída por volta das 21h30–, Cunha fez um acordo para que apenas o texto base fosse apreciado. Sendo assim, os destaques apresentados por deputados que se posicionaram contrários ao teor do projeto (e que pedem a supressão, no texto, de itens considerados prejudiciais para os trabalhadores), ficaram para ser discutidos e apreciados somente na próxima terça-feira (14).

O fatiamento, apresentado e proposto como forma de aprofundar a discussão dos destaques, ajudou a acelerar a votação da matéria – tudo o que os defensores do PL desejavam e que os opositores não queriam.

Antes disso, um longo debate ocupou o plenário: Cunha não aceitou recurso a uma emenda rejeitada pelo relator, deputado Artur Maia (SD-BA), durante a leitura do seu relatório, sob argumento de que a aceitação desobedeceria o regimento interno da Casa

Maia explicou que não aceitaria a emenda por considerá-la inconstitucional, mas fez uma leitura rápida do documento. Após a leitura, passou a ler uma errata ao relatório antigo que tinha acabado de ler – a errata teria sido entregue às pressas por assessores do seu gabinete.

‘Antidemocrático’

Diante do atrapalho do relator, o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), autor da emenda, pediu um recurso contestando a decisão de Arthur Maia. O presidente da Câmara, porém, entendeu que não seria possível receber esse recurso sem um número limite de assinaturas e não deu prazo suficiente para que os deputados providenciassem tais assinaturas. “Isso é antidemocrático”, reclamou a deputada Moema Gramacho (PT-BA).

Na prática, o gesto que terminou sendo apontado como “má vontade” de Eduardo Cunha foi considerado uma reação ao fato de, no início da tarde, Alessandro Molon ter interposto um mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo o cancelamento da sessão por não ter respeitado a regra de trancamento da pauta até a votação de uma medida provisória, a MP 661. A mesa diretora da Câmara contesta essa regra e, dependendo da decisão do tribunal, a votação poderá vir a ser anulada.

Quatro emendas

No seu relatório, Arthur Maia cumpriu o prometido e incorporou quatro emendas negociadas que alteram o texto. Mas o principal ponto criticado pelos que se opõem ao projeto, que é a terceirização na atividade-fim, continuou da forma como estava, sem negociações. A princípio, as emendas seriam todas apresentadas pelo deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP), o Paulinho, mas uma última terminou sendo incluída ao relatório como emenda de bancada.

Três das emendas referem-se a temas como a responsabilidade subsidiária das empresas, a representação sindical nas categorias terceirizadas e a chamada “quarteirização” – possibilidade de o país passar a ter, por exemplo, empresas sem empregados, utilizando serviços contratados de fornecedoras de mão de obra terceirizada e até que estas próprias empresas também terceirizem serviços oferecidos.

Já a quarta emenda aprovada faz parte do compromisso assumido entre Maia e Eduardo Cunha com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e diz respeito ao recolhimento de contribuições e imposto de renda.

A pedido do ministro da Fazenda, o relator incluiu a obrigação de a empresa contratante fazer o recolhimento antecipado de parte dos tributos devidos pela contratada. Dessa forma, deverão ser recolhidos 1,5% de Imposto de Renda na fonte ou alíquota menor prevista na legislação tributária; 1% da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); 0,65% do PIS/Pasep; e 3% da Cofins. O deputado afirmou, ao ler seu relatório, que o PL “segue uma linha média, capaz de atender os trabalhadores, os empresários e a economia brasileira”. Destacou, ainda, que muito da precarização do trabalho terceirizado decorre da falta de uma regulamentação. Não convenceu os opositores à matéria.

‘Dia triste’

“Hoje é um triste dia. Os direitos trabalhistas serão derrubados com esse projeto”, criticou num discurso a deputada Luciana Santos (PCdoB-PE). “É estranho que falam em 11 anos de tramitação do projeto e ao mesmo tempo tanta gente novata entrou nesta Casa em fevereiro passado. Como se pode dizer que a matéria foi bem discutida se durante 11 anos o assunto foi objeto de divergências e agora vai ser votada de forma tão atabalhoada?”, questionou o líder de governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), antes da votação final.

Além de barrar todas as tentativas de adiar a votação, o presidente ainda fez uma importante sessão plenária ter suas galerias vedadas ao público – e os deputados viram câmeras fotográficas e de televisão registrarem uma sessão que não contou com a presença de cidadãos.

Embora no início da tarde tenha sido ensaiada uma abertura das galerias, Cunha manteve a proibição do acesso de manifestantes com a explicação de que estava cuidando da “integridade” dos parlamentares.

Vazias

No meio da tarde, o ministro Marco Aurélio de Mello, do STF, concedeu liminar em habeas corpus impetrado por representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), na qual autorizava o acesso dos sindicalistas às galerias. A notícia até estimulou a ida de várias pessoas que estavam dentro do Congresso até o local, mas elas não conseguiram ficar. Na sua decisão, o magistrado enfatizou que entende como “inimaginável que se criem obstáculos ao ingresso do cidadão em qualquer das Casas que integram o Congresso Nacional”.

Como já estava na mesa comandando os trabalhos, o presidente da Câmara disse que não tinha recebido formalmente a decisão e só iria se manifestar após tal recebimento. Ele reiterou sua posição de não abrir a sessão ao público. Afirmou que vai avaliar o habeas corpus e pode vir a recorrer da decisão, o que levou à expectativa de uma nova disputa entre o Legislativo e o Judiciário.

Por parte dos deputados, só restou a iniciativa de, como forma de substituir as pessoas que costumam acompanhar votações polêmicas do tipo, levantarem, eles mesmos, uma grande faixa do plenário com os dizeres: “Fim da CLT. Ataque aos trabalhadores. Vote não”. Tratou-se de uma última forma encontrada para estimular os colegas que estavam em dúvida, durante a votação.

Mas o levantamento da faixa gerou protestos e certo tumulto. Além de marcar um momento insólito nas votações da Câmara e marcar o dia como aquele em que os próprios deputados tiveram que fazer ao mesmo tempo dois papeis: o de parlamentares e, também, de manifestantes – para pedir pelos direitos dos cidadãos do lado de lá do plenário.

Bastou Zelotes chegar para a Zelite achar ideias de Moro “perigosas”

Por Antonio Lassance | Via Carta Maior

Logo quando a operação Zelotes flagrou grandes figurões da elite brasileira em práticas criminosas, a presunção de inocência resolveu dar o ar da graça.

Nada como um dia após o outro. De repente, não mais que de repente, um editorial de O Globo considera o padrão Moro de “justiça” muito perigoso.

No texto “Lava-Jato inspira proposta de mudança na Justiça”, o jornal relata que juízes, “Sérgio Moro um deles, defendem que penas sejam cumpridas a partir da sentença de primeira instância, ideia perigosa, mas que Congresso precisa debater”.

Ideia perigosa? Como assim? Desde quando? Que curioso, não? Se prender suspeitos e mantê-los trancafiados até que confessem o que sabem e o que não sabem foi saudado até agora como um bom padrão de execução da judiciária, que medo é esse de uma sentença condenatória em primeira instância?

Manter o réu preso sem julgamento pode, mas prendê-lo depois do julgamento não pode? Estranho raciocínio. Muito estranho mesmo.

É muita coincidência que essa… tomada de consciência – chamemos assim – tenha acontecido quando um escândalo de proporções muito maiores do que qualquer petrolão evidenciou algo banal, trivial, óbvio: o maior escândalo de corrupção de todos os tempos, em qualquer época, em qualquer país, é a sonegação dos ricos, estejam eles ligados a que esquema for – do petrolão ao suíçalão do HSBC e, agora, ao esquema desbaratado pela operação Zelotes, da Polícia Federal.

Logo quando a Zelotes flagrou grandes figurões da elite brasileira em práticas criminosas, vis, tão dignas de escárnio quanto qualquer propina intermediada por doleiros, a presunção de inocência resolveu dar o ar da graça. Justo ela que andava tão sumida.

Justo agora que, entre outros, uma afiliada das organizações Globo (a gaúcha RBS) aparece na mira das investigações, se resolve falar novamente, alto e bom som, em presunção de inocência.

Esperemos para ver que juiz vai ter a coragem – não é assim que se chama? – de prender tais figurões e fazê-los ver o sol nascer quadrado até que confessem seus crimes já expostos e supliquem por delações premiadas. Se tem dinheiro público, se tem propina, sem tem lavagem de dinheiro, não vai ter prisão? Agora não vai ter? Por quê?

Afinal, O Globo está com medo de quê? Esse editorial terá sido feito por gente que nasceu ontem? Quem o escreveu não sabe que o padrão Moro de qualidade judicial já é corriqueiramente aplicado em nossa Justiça?

Em média, mais de 40% da população carcerária brasileira é formada por presos em situação provisória, ou seja, não têm condenação definitiva. Em alguns presídios, o número de presos provisórios ultrapassa 60%.

Depois de ter premiado Moro com o prêmio “Faz Diferença” de personalidade do ano, quem sabe o jornal não se disporia a conferir um troféu “Sérgio Moro” a presídios com as estatísticas mais altas de gente presa sem condenação, aguardando delações premiadas e julgamento a perder de vista?

O Globo assustou-se e alerta: o “Congresso precisa debater”. Claro! Os leitores de O Globo, pelo menos aqueles que não nasceram ontem, entenderam bem que a sugestão do jornal é para que a proposta encontre o caminho certo para ser imediata e solenemente sepultada, com o sinal verde de aplausos em futuros editoriais.

A defesa da presunção de inocência por parte de uma mídia que se vende, diariamente, atropelando essa mesma presunção de inocência mostra o quanto muitos de seus editoriais são meros exercícios de hipocrisia, assim como os pedidos de desculpas por seu golpismo entranhado.

A presunção de inocência de muitos veículos é ditada por um cálculo de conveniência. Tem dia em que ela está valendo, tem dia que não está.

Justiça seja feita, há momentos em que a grande e tradicionalíssima imprensa esforça-se muito e dedica todo amor e carinho a proteger a reputação de seus políticos prediletos, a ponto de até mesmo parentes envolvidos em escândalos serem chamados de “supostos parentes” – uma expressão que já deveria estar nos manuais de redação desses luminares.

Precisou da Zelotes para a turma de O Globo se lembrar que a Justiça, em qualquer lugar, é feita não apenas de leis, mas de juízes e de precedentes.

Juízes tratados como astros de rock se engraçam a dar seu show à parte e rasgam a lei como quem quebra a guitarra em pleno palco. Quem precisa delas – da lei, da guitarra? Os precedentes que alguns juízes criam podem ser ainda mais graves, pois tornam-se regras que, longe de serem uma homenagem às leis, espezinham-nas.

Que tipos de juízes preferimos? O Globo prefere um que atenda aos seus caprichos e proteja seus amigos diletos – convenhamos, um “princípio” que é o fim de qualquer noção razoável e responsável de justiça.

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Antonio Lassance é cientista político.