Arquivo mensais:abril 2015

Dilma e a estratégia do silêncio

Por Tania J. Faillace

Obama e Dilma na Cúpula das Américas 2015

A queda vertiginosa da popularidade da presidente que a jornalista Maria Inês Nassif assinala em Carta Maior, não tem objetivamente qualquer fato que a justifique, a não ser a nomeação do ministro da Fazenda, e sua receita recessiva – a mesma que está sendo usada pela União Européia, e que, portanto, não contém qualquer novidade – demonstra a força do elemento comunicacional nos tempos que correm.

Há quase um ano uma senhora, mãe e dona de casa, foi linchada cruelmente por um bando de cidadãos enlouquecidos apenas porque uma irresponsável disse que a mesma era parecida com uma bruxa que sequer sabia da existência.

Esse clima histérico e irracional vem sendo desenvolvido e estimulado pelos meios de comunicação, e foi o motor de genocídios memoráveis na história humana, como aqueles que caracterizaram a II Guerra Mundial, e causaram a morte de mais de 20 milhões de pessoas.

Observadas as devidas proporções, é o que ocorre hoje, quando as mentiras repetidas tomam foro de verdades provadas e comprovadas, e são espalhadas sem qualquer critério.

Uma coisa é criticar objetivos e desempenhos, outra coisa é atacar até a honra das pessoas, sem fatos que o justifiquem, e ao mesmo tempo, defender acusados que tenham altos cacifes financeiros, sem outra base que o “achismo”, ou “gosto/não gosto”.

Essa campanha e esse clima histérico artificialmente estimulados, enquanto o cidadão comum se lixa para o que está acontecendo, não são frutos de algum modismo, mas parte de um projeto de desestabilização perfeitamente planejado e em fase de execução, e que já foi fartamente experimentado, e esteve na base do desmonte dos países do Oriente Médio, e da destruição do Iraque e da Líbia.

(A Guerra Assimétrica, teorizada por Gene Sharp, e operacionalizada por Canvas e outras instituições em vários lugares do mundo atual)

Obviamente aqueles que fortalecem esse clima estão de alguma maneira comprometidos com os interesses que o criam, interesses contrários aos brasileiros.

O artigo O tempo pressiona o governo Dilma expõe bem a situação, mas não apresenta alternativas. O que realmente não poderia fazer, uma vez que ignora/ignoramos exatamente como estão agindo as “forças ocultas”, as mesmas que Getúlio Vargas denunciou em sua carta testamento.

A situação brasileira em muito extrapola o quintal doméstico, e está ligada ao aumento das pressões externas sobre a América Latina e seus ricos tesouros, e à capacidade do pólo sionista-anglosaxão, que não admite a multipolaridade, vencer resistências através de cooptações, subornos ou força militar.

Semana passada tivemos a Cúpula das Américas, para as quais o presidente Obama convidou todos os ex-ditadores das amizades norte-americanas, no sentido de humilhar os países sul-americanos, a principiar pela Venezuela, ao que seguem Brasil e Argentina no primeiro turno.

O nível da propaganda política interna no que se refere à presidência no Brasil, pois, ficou relegado a um segundo momento em decorrência de uma estratégia que não conhecemos, o que provoca todo esse sentimento de insegurança a quem acompanha os acontecimentos.

Mas exatamente por não conhecermos a natureza das pressões, não temos dados para avaliar se essa é a melhor estratégia (manter silêncio para não entregar o ouro aos bandidos) ou está equivocada.

O tempo dirá. O que está em jogo, porém, é muito mais que a popularidade de A ou B, mas nossa própria soberania e autonomia como país independente.

Uma breve história da luta da grande mídia contra os interesses nacionais

Por Leonardo Severo | Via Carta Maior

Roberto Marinho e FHC. Colaboradores.

Em 1957, uma CPI da Câmara dos Deputados, comprovou que O Estado de São PauloO Globo e o Correio da Manhã foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a nacionalização do petróleo. Em momentos cruciais para o país se inclinaram para o golpismo e a traição aos interesses nacionais: contra Getúlio, a Petrobrás, JK, contra Jango, apoiando a ditadura, Collor, FHC e suas privatizações, atacando Lula.

Em 1941, enquanto milhões de homens e mulheres derramavam seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União Soviética, a elite dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus planos para o pós-guerra. Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do petróleo John D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao presidente Roosevelt: “Independente do resultado da guerra, com uma vitória alemã ou aliada, os Estados Unidos devem proteger sua posição internacional através do uso de meios econômicos que sejam competitivamente eficazes…” (COLBY, p.127, 1998). Seu objetivo: o domínio do comércio mundial, através da ocupação dos mercados e da posse das principais fontes de matéria-prima. Anos mais tarde o ex-secretário de imprensa do Congresso americano, Gerald Colby, sentenciava sobre Rockefeller: “no esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América Latina com menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).

Neste mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo de comunicações que tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune, convocou os norte-americanos a “aceitar de todo o coração nosso dever e oportunidade, como a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa influência para objetivos que consideremos convenientes e por meios que julguemos apropriados” (SCHILLER, p.11, 1976). Ele percebeu, com clareza, que a união do poder econômico com o controle da informação seria a questão central para a formação da opinião pública, a nova essência do poder nacional e internacional.

Evidentemente para que os planos de ocupação econômica pelas corporações americanas fossem alcançados havia uma batalha a ser vencida: Como usurpar a independência de nações que lutaram por seus direitos? Como justificar uma postura imperialista do país que realizou a primeira insurreição anticolonial?

A resposta a esta pergunta foi dada com rigor pelo historiador Herbert Schiller: “Existe um poderoso sistema de comunicações para assegurar nas áreas penetradas, não uma submissão rancorosa, mas sim uma lealdade de braços abertos, identificando a presença americana com a liberdade – liberdade de comércio, liberdade de palavra e liberdade de empresa. Em suma, a florescente cadeia dominante da economia e das finanças americanas utiliza os meios de comunicação para sua defesa e entrincheiramento onde quer que já esteja instalada e para sua expansão até lugares onde espera tornar-se ativa” (SCHILLER, p.13, 1976).

Foi exatamente ao que seu setor de comunicações se dedicou. Estava com as costas quentes, já que as agências de publicidade americanas cuidavam das marcas destinadas a substituir as concorrentes europeias arrasadas pela guerra. O setor industrial dos EUA havia alcançado um vertiginoso aumento de 450% em seu lucro líquido no período 1940-1945, turbinado pelos contratos de guerra e subsídios governamentais. Com esta plataforma invadiram a América Latina e o mundo.

Com o suporte do coordenador de Assuntos Interamericanos (CIIA), Nelson Rockefeller, mais de mil e duzentos donos de jornais latinos recebiam, de forma subsidiada, toneladas de papel de imprensa, transportada por navios americanos. Além disso, milhões de dólares em anúncios publicitários das maiores corporações eram seletivamente distribuídos. É claro que o papel e a publicidade não vinham sozinhos, estavam acompanhados de uma verdadeira enxurrada de matérias, reportagens, entrevistas e releases preparadas pela divisão de imprensa do Departamento de Estado dos EUA.

A vontade de conquistar as novas “colônias” e ocupar novos territórios como haviam feito no século anterior, no velho oeste, não tinha limites. No Brasil, circulava desde 1942, a revista Seleções (do Reader’s Digest), trazida por Robert Lund, de Nova York. A revista, bem como outras publicações estrangeiras, pagavam os devidos direitos aduaneiros por se tratarem de produtos importados, mas solicitou, e foi atendida pelo procurador da República, Temístocles Cavalcânti, o direito de ser editada e distribuída no Brasil, com o argumento de ser uma revista sem implicações políticas e limitada a publicar conteúdos culturais e científicos. Assim começou a tragédia.

Logo chegou o grupo Vision Inc., também de Nova York, com as revistas Dirigente Industrial, Dirigente Rural, Dirigente Construtor e muitos outros títulos que vinham repletos de anúncios das corporações industriais. Um fato bastante ilustrativo foi o da revista brasileira Cruzeiro Internacional, concorrente da Life International, que apesar de possuir grande circulação, nunca foi brindada com anúncios, enquanto a concorrente americana anunciava produtos que, muitas vezes, nem sequer estavam à venda no Brasil.

Ficava claro que os critérios até então estabelecidos para o mercado publicitário, como tempo de circulação efetiva, eficiência de mensagem e comprovação de tiragem, de nada adiantavam. O que estava em jogo era muito maior.

Um papel importantíssimo na ocupação dos novos mercados foi desempenhado pelas agências de publicidade americanas. McCann-Erickson e J. Warter Thompson eram as principais e tinham seu trabalho coordenado diretamente pelo Departamento de Estado. Para se ter uma ideia a McCann-Erickson , nos anos 60, possuía 70 escritórios e empregava 4619 pessoas, em 37 países, já a J. Warter Thompson tinha 1110 funcionários, somente na sede de Londres. Os Estados Unidos tinham 46 agências atuando no exterior, com 382 filiais. Destas 21 agências em sociedade com britânicos, 20 com alemães ocidentais e 12 com franceses. No Brasil atuavam 15 agências, todas elas com instruções absolutamente claras de quem patrocinar.

No início dos anos 50, Henry Luce, do grupo Time-Life, já estava luxuosamente instalado em sua nova sede de 70 andares na área mais nobre de Manhattan, negócio imobiliário que fechou com Nelson Rockefeller e seu amigo Adolf Berle, embaixador americano no Brasil na época do primeiro golpe contra o presidente Getúlio Vargas. Luce mantinha fortes relações com os irmãos Cesar e Victor Civita, ítalo-americanos nascidos em Nova Iorque. Cesar foi para a Argentina em 1941 onde montou a Editorial Abril, como representante da companhia Walt Disney, já Victor, em 1950, chega ao Brasil e organiza a Editora Abril. Neste mesmo período seu filho, Roberto Civita, faz um estágio de um ano e meio na revista Time, sob a tutela de Luce e logo retorna para ajudar o pai.

Poucos anos depois, o mercado editorial brasileiro está plenamente ocupado por centenas de publicações que cantavam em prosa e verso o american way of life. Somente a Abril, financiada amplamente pelas grandes empresas americanas, edita diversas revistas: Claudia, Quatro Rodas, Capricho, Intervalo, Manequim, Transporte Moderno, Máquinas e Metais, Química e Derivados, Contigo, Noiva, Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Almanaque Tio Patinhas, a Bíblia Mais Bela do Mundo, além de diversos livros escolares.

Em 1957, uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, comprova que “O Estado de São Paulo”, “O Globo” e “Correio da Manhã” foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a nacionalização do petróleo.

Em 1962, o grupo Time-Life encontra seu parceiro ideal para entrar de vez no principal ramo das comunicações, a Televisão. A recém-fundada TV Globo, de Roberto Marinho. Era uma estranha sociedade. O capital da Rede Globo era de 600 milhões de cruzeiros, pouco mais de 200 mil dólares, ao câmbio da época. O aporte dado “por empréstimo” pela Time-Life era de seis milhões de dólares e a empresa tinha um capital dez mil vezes maior.

Como denunciou o deputado João Calmon, presidente da Abert (Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão): “Trata-se de uma competição irresistível, porque além de receber oito bilhões de cruzeiros em doze meses, uma média de 700 milhões por mês, a TV Globo recebe do Grupo Time-Life três filmes de longa metragem por dia – por dia, repito… Só um ‘package’, um pacote de três filmes diários durante o ano todo, custa na melhor das hipóteses, dois milhões de dólares” (HERZ, p.220, 2009).

O Brasil e o mundo estão em efervescência. A tensão é crescente com revoluções vitoriosas na China e em Cuba. A luta pela independência e soberania das nações cresce em todos continentes e os EUA colocam em marcha golpes militares por todo o planeta. A Guerra Fria está em um ponto agudo.

É nesse quadro que a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Congresso dos EUA, em abril de 1964, no relatório “Winning the Cold War. The O.S. Ideological Offensive” define:

“Por muitos anos os poderes militar e econômico, utilizados separadamente ou em conjunto, serviram de pilares da diplomacia. Atualmente ainda desempenham esta função, mas o recente aumento da influência das massas populares sobre os governos, associado a uma maior consciência por parte dos líderes no que se refere às aspirações do povo, devido às revoluções concomitantes do século XX, criou uma nova dimensão para as operações de política externa. Certos objetivos dessa política podem ser colimados tratando-se diretamente com o povo dos países estrangeiros, em vez de tratar com seus governos. Através do uso de modernos instrumentos e técnicas de comunicação, pode-se hoje em dia atingir grupos numerosos ou influentes nas populações nacionais – para informá-los, influenciar-lhes as atitudes e, às vezes, talvez, até mesmo motivá-los para uma determinada linha de ação. Esses grupos, por sua vez, são capazes de exercer pressões notáveis e até mesmo decisivas sobre seus governos” (SCHILLER, p.23, 1976).

A ordem estava dada: “informar”, influenciar e motivar. A rede está montada, o financiamento definido.

O jornalista e grande nacionalista, Genival Rabelo, exatamente nesta hora, denuncia no jornal Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro: “Há, por trás do grupo (Abril), recursos econômicos de que não dispõem as editoras nacionais, porém muito mais importante do que isso está o apoio maciço que a indústria e as agências de publicidade americanas darão ao próximo lançamento do Sr. Victor Civita, a exemplo do que já fizeram com as suas 18 publicações em circulação, bem como as revistas do grupo norte-americano Vision Inc.” (RABELO, p.38, 1966)

Mas é necessário mais. É preciso enfraquecer, calar e quebrar tudo que seja contrário aos interesses dos monopólios, tudo que possa prejudicar os interesses das corporações. A General Eletric, General Motors, Ford, Standard Oil, DuPont, IBM, Dow Chemical, Monsanto, Motorola, Xerox, Jonhson & Jonhson e seus bancos J. P. Morgan, Citibank, Chase Manhattan precisam estar seguros para praticar sua concorrência desleal, para remeter lucros sem controle, para desnacionalizar as riquezas do país se apossando das reservas minerais.

Várias são as declarações, nesta época, que deixam claro qual o caminho traçado pelos EUA. Nas palavras de Robert Sarnoff, presidente da RCA – Radio Corporation of America – “a informação se tornará um artigo de primeira necessidade equivalente a energia no mundo econômico e haverá de funcionar como uma forma de moeda no comércio mundial, convertível em bens e serviços em toda parte” (SCHILLER, p.18, 1976). Já a Comissão Federal de Comunicações (FCC), em informe conjunto dos Ministérios do Exterior, Justiça e Defesa, afirmava: “as telecomunicações evoluíram de suporte essencial de nossas atividades internacionais para ser também um instrumento de política externa” (SCHILLER, p.24, 1976).

É esclarecedor o pensamento do delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas, vice-ministro das Relações Exteriores, George W. Ball, em pronunciamento na Associação Comercial de Nova Iorque:

“Somente nos últimos vinte anos é que a empresa multinacional conseguiu plenamente seus direitos. Atualmente, os limites entre comércio e indústria nacionais e estrangeiros já não são muito claros em muitas empresas. Poucas coisas de maior esperança para o futuro do que a crescente determinação do empresariado americano de não mais considerar fronteiras nacionais como demarcação do horizonte de sua atividade empresarial” (SCHILLER, p.27, 1976).

A ação desencadeada pelos interesses externos já havia produzido a falência de muitos órgãos de imprensa nacionais e, por outro lado, despertado a consciência de muitos brasileiros de como os monopólios utilizam seu poder de pressão e de chantagem. Em 1963, o publicitário e jornalista Marcus Pereira afirmava em debate na TV Tupi, em São Paulo: “Em última análise, a questão envolve a velha e romântica tese da liberdade de imprensa, tão velha como a própria imprensa. Acontece que a imprensa precisa sobreviver, e, para isso, depende do anunciante. Quando esse anunciante é anônimo, pequeno e disperso não pode exercer pressão, por razões óbvias. É o caso das seções de ‘classificados’ dos jornais. Mas poucos jornais têm ‘classificados’ em quantidade expressiva. A maioria dos jornais e a totalidade das revistas vivem da publicidade comercial e industrial, dos chamados grandes anunciantes. Acho que posso parar por aqui, porque até para os menos afoitos já adivinharam a conclusão” (RABELO, p.56, 1966).

Não é difícil perceber o quanto a submissão aos interesses econômicos estrangeiros levou a dita “grande mídia” brasileira a se afastar da nação. A se tornar, ao longo dos anos, em uma peça chave da política do Imperialismo. Em praticamente todos os principais momentos da vida nacional se inclinaram para o golpismo e a traição. Já no primeiro golpe contra Getúlio, depois, contra sua eleição, contra sua posse, contra a criação da Petrobrás, contra a eleição de Juscelino, contra João Goulart, contra as reformas de base, apoiando a Ditadura, apoiando a política econômica de Collor, apoiando Fernando Henrique e suas privatizações, atacando Lula.

Hoje, ela novamente tem lado: o das concessões de estradas, portos e aeroportos, o dos leilões de privatização do petróleo e da necessidade da elevação das taxas de juros, do controle do déficit público com evidentes restrições aos investimentos governamentais, ou seja, da aceitação de um neoliberalismo tardio.

Porque atuam desta forma? Genival Rabelo deu a resposta: “Um industrial inteligente desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro me fez outro dia, esta observação, em forma de desafio: ‘Dou-lhe um doce, se nos últimos cinco anos você pegar uma edição de O Globo que não estampe na primeira página uma notícia qualquer da vida americana, dos feitos americanos, da indústria americana, do desenvolvimento científico americano, das vitórias e bombardeios americanos. A coisa é tão ostensiva que, muita vez, sem ter o que publicar sobre os Estados Unidos na primeira página, estando o espaço reservado para esse fim, o secretário do jornal abre manchete para a volta às aulas na cidade de Tampa, Miami, Los Angeles, Chicago ou Nova Iorque. Você não encontra a volta às aulas em Paris, Nice, Marselha, ou outra cidade qualquer da França, na primeira pagina de O Globo, porque, de fato, isso não interessa a ninguém. Logo, não pode deixar de haver dólar por trás de tudo isso…’ Outro amigo presente, no momento, e sendo homem de publicidade concluiu, deslumbrado com seu próprio achado: ‘É por isso que O Globo não aceita anúncio para a primeira página. Ela já está vendida. É isso. É isso!’. ‘E muito bem vendida, meu caro – arrematou o industrial – A peso de ouro’ ” (RABELO, p.258, 1966).

(*) Delegado à Conferência Nacional de Comunicação, Secretário Municipal de Comunicação em São Carlos entre 2007 e 2012 e membro do Partido Pátria Livre.

Referências:

COLBY, G; DENNETT, C. Seja feita a vossa vontade: a conquista da Amazônia, Nelson Rockefeller e o evangelismo na idade do Petróleo. Tradução: Jamari França. Rio de Janeiro: Record, 1998.

HERZ, D. A história secreta da Rede Globo. Porto Alegre: Dom Quixote, 2009. Coleção Poder, Mídia e Direitos Humanos.

RABELO, G. O Capital Estrangeiro na Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

SCHILLER, H. I. O Império norte-americano das comunicações. Tradução: Tereza Lúcia Halliday Petrópolis: Vozes, 1976.

Parabéns, eleitores! Vocês ajudaram o Brasil a engatar a marcha à ré

Por Leonardo Sakamoto | Via Uol

Tem um jabuti no poste.

E ele não subiu sozinho.

Porque jabuti não sobe sozinho em poste.

Foram os votos de dezenas de milhões de brasileiros que compuseram o Congresso Nacional mais conservador em costumes e agressivo do ponto de vista de direitos sociais, trabalhistas e ambientais em muitas décadas.

Essa legislatura não surgiu de brotamento, cissiparidade, esporulação, partenogênese, geração espontânea ou via vontade divina. Foi você que colocou ele lá. Você.

Um Congresso que, em sua maioria, representa mais os interesses de seus financiadores de campanha ou de sua classe social que os da maioria dos brasileiros – que são empregados e não patrões.

O projeto de terceirização, aprovado em votação na Câmara dos Deputados nesta semana, é o primeiro grande golpe nos direitos dos trabalhadores. Mas não será o único. Sim, se a extensa pauta de lobbies avançar no Congresso como está se desenhando, sua vida vai piorar nos próximos anos.

E o melhor de tudo: você, eleitor, também terá sido responsável por isso.

Mas muitos acharão que não. Acreditarão nas propagandas de que a aprovação da retirada de direitos dos trabalhadores é uma coisa legal, um avanço no sentido do crescimento e do desenvolvimento do país.

E vai dizer que a vida piorou não por conta disso, mas por ira divina. Culpa dos pecados dos homossexuais e dos transexuais, talvez? Ou do comunismo.

Poucos refletiram sobre sua escolha para representantes no Legislativo. Atenderam a um pedido do marido da filha de um amigo que estava trabalhando em uma campanha, a uma propaganda simpática na TV, a uma promessa de algum favor futuro ou presentinho dado de forma indevida. Abraçaram a ideia estúpida de “eu voto em quem ganha, não voto em perdedor”, a inércia do tipo “sempre votei nela/nele, por que mudar?” ou, o pior, o “não faz diferença mesmo”.

Acabamos tão preocupados com os cargos para a Presidência e os governos estaduais ou distrital que esquecemos que os outros três votos (deputados estadual e federal e senador) falariam por nós no dia a dia dos parlamentos, para fazer ou barrar leis e, pasmem, zelar pelo funcionamento do Executivo.

Há boas pessoas fazendo um bom trabalho, independente do partido e da orientação ideológica. Pessoas que não tem dívidas com grandes empresas por conta de sua campanha. Mas estão em número insuficiente e ficam dando murro em ponta de faca.

De certa forma, o Congresso é o reflexo da população. Talvez não daquilo que ela gostaria de ser, mas daquilo que ela efetivamente é.

Reclamamos de um Congresso corrupto, incompetente ou que não nos representa, mas somos nós que colocamos o jabuti lá.

Portanto, a maioria não tem o direito de ficar pasma quando os efeitos dessas decisões começarem a ser sentidas no dia a dia.

Pelo contrário, tenham a coragem de ser orgulhar na rua de seu feito. Vocês ajudaram a colocar o Brasil em marcha à ré.

Serra, o pagador de promessas

Por Paulo Metri | 10/04/2015

Reconheço a virtude dos homens de palavra, aqueles que cumprem suas promessas, mesmo sendo antissociais. Neste caso, são homens danosos à sociedade, mas confiáveis, que melhor seria se não as cumprissem. O senador José Serra, durante a campanha presidencial de 2010, que era o mesmo período em que se discutia a lei do contrato de partilha no Congresso, declarou à senhora Patrícia Padral, executiva da Chevron no Brasil: “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”. A fonte desta declaração não é nenhuma agência de notícias estrangeira, tipo Associated Press, CNN, BBC, Reuters, France Presse e as demais dominadas pelo capital. Nem tampouco nossa mídia tradicional, também dominada. Trata-se do incontestável WikiLeaks.

Apesar de não ter conseguido se eleger presidente, mas animado com o movimento contra o governo movido pelos conservadores, aliados ao capital internacional e com o apoio da mídia antissocial, apresentou o projeto de lei do Senado número 131, através do qual cumpre em parte sua promessa. Não cumpriu na íntegra o prometido, porque seu colega de partido Aloysio Nunes Ferreira passou à sua frente, apresentando um projeto de lei que revoga a lei dos contratos de partilha, que tem pouca chance de ser aprovado por ser muito radical. Serra trouxe uma proposta de lei de “aprimoramento” da partilha, que consiste de a Petrobras não ser “obrigada” a ter a parcela mínima de 30% de participação em qualquer consórcio do Pré-Sal e não ser a operadora única desta área, como manda a lei da partilha.

Segundo a “Justificação” constante do projeto de lei apresentado por ele, estas modificações são necessárias porque: “Primeiramente, a exploração do pré-sal tem urgência, pois a oferta interna de petróleo em futuro próximo dependerá dessa exploração, sobretudo a partir de 2020”. A produção de petróleo e gás natural da Petrobras em 2020, segundo o planejamento desta empresa, será de 4,2 milhões de barris por dia, produção esta duas vezes superior que a de 2014. Então, trata-se de uma inverdade dizer que a oferta interna de petróleo a partir de 2020 dependerá de novas explorações. Os 4,2 milhões são totalmente oriundos de campos já descobertos e, neste valor, está prevista também parcela excedente à demanda, a ser exportada.

Por outro lado, suponhamos, só para efeito de raciocínio, que há a carência de petróleo em 2020 e, também, as modificações propostas por Serra sejam aprovadas. A frase citada acima dá a entender para o leigo que a sua proposta permitirá a demanda ser atendida. Isto também não é verdade, porque, depois da mudança da lei, seria preciso fazer novos leilões pela lei modificada, assinar novos contratos de partilha com a ANP, os consórcios procurarem petróleo, eles o encontrarem, desenvolverem os campos e iniciarem as produções, o que requer, no mínimo, oito anos. Além disso, não se pode dizer que suas propostas irão apressar as produções, pois basicamente quem descobre petróleo no Brasil é a Petrobras e o descobre com os artigos da lei atual.

Todas as descobertas no Pré-Sal foram feitas pela Petrobras e estão em campos oriundos de blocos concedidos ou são os campos recebidos como cessão onerosa ou é o campo de Libra, contratado com a cláusula de partilha. O petróleo possuído pela Petrobras em todos estes campos, já retidas as parcelas pertencentes às empresas consorciadas, é de cerca de 30 bilhões de barris. Então, falar em escassez de petróleo em futuro próximo chega a ser risível.

Serra refere-se, na “Justificação” do seu projeto, aos roubos que ocorreram na empresa, dizendo que “a sucessão de escândalos associados às alegações de cartel, suborno e lavagem de dinheiro criaram uma situação quase insustentável para uma companhia que tem que implementar um dos maiores programas de investimento do mundo, da ordem de US$ 220,6 bilhões no período de 2014 a 2018”. A seguir, fala que “a Petrobras tem convivido com pressões financeiras que põem em risco o cumprimento de suas ações nos campos do pré-sal”. Com este espírito, ele continua, chegando ao ponto em que queria chegar, ou seja, que a empresa não pode arcar sozinha com os investimentos do Pré-Sal e, portanto, o país precisa do apoio das empresas estrangeiras. E, para atraí-las, há a necessidade de aprovação do seu projeto. De passagem, pode-se dizer que, no mínimo, os escândalos da Petrobras vieram a calhar.

As empresas estrangeiras querem participar do Pré-Sal se o petróleo por elas produzido puder ser exportado. Elas se recusam a abastecer o Brasil. Creio que nosso país pode exportar petróleo pela Petrobras, mas deve existir sempre um horizonte de abastecimento garantido para o país. O que Serra propõe é uma produção acelerada com as empresas estrangeiras, o que pode trazer escassez bem maior no futuro. Ele propõe a “abertura das comportas”.

Mais uma vez, diz-se que a Petrobras está em dificuldade financeira, o que não corresponde à verdade. O planejamento da empresa segue a pressa imposta pela ANP, “senão corre o risco de perder a concessão”. Este fato resulta, em muitos casos, em produções maiores que a necessidade do país e só restará para a empresa exportar o excedente. Infelizmente, em uma época em que o barril está muito barato. Para corrigir este contrassenso, bastaria a ANP receber uma diretriz política do escalão superior a ela para não exigir pressa da Petrobras, que poderia, desta forma, postergar alguns investimentos e diminuir a necessidade de empréstimos, desde que continuasse a satisfazer a demanda interna.

Agora, Serra tem em Barack Obama um aliado de peso. Dilma deve ouvir do presidente, no encontro dos dois, que as empresas petrolíferas estrangeiras, assim como as empresas de engenharia e os produtores de equipamentos do setor de petróleo, todos estrangeiros, estão à disposição para cooperar na exploração do Pré-Sal. Serra é somente um disciplinado soldado desta enorme força.

Finalizando, Serra quer acabar com duas enormes conquistas do contrato de partilha: a Petrobras ser a operadora única do Pré-Sal e ela usufruir, no mínimo, 30% dos ganhos dos campos desta área. Ser a operadora única significará muito mais conteúdo nacional nas compras do consórcio e as corretas aferições dos custos e das quantidades produzidas. Se os custos fossem inflados, mais petróleo seria ressarcido para o consórcio, segundo a lei. Se as quantidades produzidas fossem diminuídas, menos royalties e outros encargos seriam pagos pelo consórcio. Assim, trata-se simplesmente de uma questão de inteligência colocar a Petrobras como operadora única.

Brasileiros preencheram este ano 92% das vagas do Mais Médicos

Por Paula Laboissière | Via Agência Brasil

Profissionais brasileiros preencheram 92% das vagas autorizadas pelo Programa Mais Médicos para 2015, totalizando 3.830 profissionais em 1.208 municípios e seis Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Os números foram divulgados hoje (9) pelo Ministério da Saúde.

Ao todo, a pasta autorizou 4.146 vagas em 1.294 municípios e 12 distritos indígenas. As 286 vagas que não foram preenchidas serão oferecidas a médicos brasileiros, a partir de amanhã, com formação no exterior. Grande parte dos municípios com vagas restantes está na Região Norte.

De acordo com o balanço, 46% dos médicos brasileiros que assumiram uma vaga são homens e 54%, mulheres. Mais da metade (55%) têm entre 26 e 30 anos. Além disso, 78% dos participantes são solteiros e 51% já têm experiência em programas de saúde da família.

A maioria dos profissionais (68%) optou pelo benefício da pontuação de 10% nas provas de residência médica, caso tenha conceito satisfatório durante os 12 meses de atuação no programa.

Na Região Norte, das 1.799 vagas autorizadas, 1.726 foram preenchidas. No Sudeste, os números são 329 e 314, respectivamente. No Centro-Oeste, 396 vagas foram autorizadas e 370, preenchidas, enquanto no Sul, os números são 520 e 476, respectivamente.

O Norte foi a única região do país que teve menos de 90% das vagas preenchidas. Das 409 autorizadas, 283 foram ocupadas (69%).

Até o ano passado, 14.462 profissionais foram enviados a 3.785 municípios, beneficiando 50 milhões de pessoas. A previsão do governo é que, com os novos números, o programa alcance 18.247 médicos em 4.058 municípios, atendendo a aproximadamente 63 milhões de pessoas.

Chioro divulga o resultado dos municípios contemplados por brasileiro no Mais MédicosElza Fiuza/Agência Brasil

Para o ministro da Saúde, Arthur Chioro, os dados são “extremamente” positivos. “É uma nova realidade que esperamos que seja a realidade do programa nos próximos anos até que no futuro consigamos ter de fato um programa preenchido por médicos brasileiros.”

Chioro considera provável que o programa não chegue à terceira etapa, onde são abertas vagas para médicos intercambistas individuais. Segundo ele, é menos provável a instituição da quarta etapa, quando são convocados médicos cubanos por meio do termo de cooperação com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

“O programa já começa a produzir os resultados esperados no sentido de ampliar a oferta de médicos”, disse Chioro. “Estamos dando um passo significativo para poder garantir a toda a população brasileira o direito à atenção básica na saúde.”

Pesquisa encomendada pela pasta à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que 93% dos profissionais do Mais Médicos se sentem satisfeitos com sua participação no programa. O estudo mostra que 90% dos entrevistados disseram que indicariam o programa a outros médicos.

Uma visão alternativa da crise econômica

Por Heldo Siqueira

Uma das proezas construídas pelo governo Dilma parece o consenso sobre equívocos na política econômica. Mesmo assim, há interpretações diferentes para o problema. A interpretação mais corriqueira que tenho tomado notícia diz respeito ao abandono do tripé macroeconômico pela chamada nova matriz. A tríade de princípios de política econômica é representado pelo regime de metas para inflação, câmbio flutuante e superavit primário. Essa visão não parece completamente equivocada, mas acredito que seja simplista em interpretar as decisões do governo. A simplificação atribui ao abandono forçado que ocorre agora, com o virtual estouro da meta de inflação, o problema da política econômica dos últimos anos, quando as medidas heterodoxas foram tomadas justamente para o seu cumprimento! Uma visão alternativa teria sido a reformulação dos objetivos de política econômica quando houve a possibilidade1.

Um debate ficou marcante entre o então Ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-(futuro)-Ministro da Fazenda Armínio Fraga, em que havia uma divergência sobre o fim da crise de 2008. O titular da pasta defendia as medidas tomadas pelo governo por entendê-las como anticíclicas, enquanto o ex-ministro e postulante ao cargo afirmava que a economia mundial já havia se recuperado da crise.

Uma primeira visão sobre a credibilidade da política econômica pode ser apresentada pela relação entre a perseguição de uma inflação menor e sua relação com a taxa de juros. O gráfico2 apresenta essa relação.

A média da taxa selic entre 2005 e a crise foi de 14,7%, enquanto no período posterior à crise foi de 10,0%. A visão vigente é que a credibilidade adquirida nos anos antes da crise pode ter baixado a “taxa de juros natural”. Entretanto, entre os críticos ortodoxos há quase consenso que a política adotada após a crise foi equivocada. Nesse caso, a manutenção de taxas de juros deveria representar um influxo de recurso na economia que elevaria as taxas de inflação às alturas. Entretanto, a média de inflação no período após a crise foi de 5,6%, nada muito superior ao período anterior, 4,9%. Ou seja, o momento em que o tal tripé macroeconômico3 estava de pé, a taxa de juros real era em média 9,8%, baixando para 4,4% no período posterior, sem que a inflação saísse do controle. Aparentemente a economia real passou a não ligar muito para o tal tripé.

Outra destacada relação da inflação é sua correspondência com o câmbio. Vários intérpretes da trajetória econômica brasileira postulam que a relação da Selic-inflação é intermediada pela taxa de câmbio. Por essa perspectiva, o diferencial de juros atrai divisas para o país valorizando a moeda brasileira. Com isso, as mercadorias importadas e os insumos estrangeiros ficam mais baratos, impactando nos índices de preços internos. Em um gráfico com o índice de preços e o câmbio, pode-se perceber a trajetória comum.

Taxa de câmbio brasileira e a relação com outras moedas

Outro gráfico mostra a relação do índice da moeda brasileira4 em comparação com o Euro, a Libra Esterlina, o Iene e um indicador de trajetória do Petróleo em dólares que representa o inverso do curso da moeda americana.

A valorização do preço do petróleo em dólar pode ser interpretada como uma desvalorização da própria moeda americana ocorrida do início do período até a crise. É importante reparar que a moeda brasileira valoriza-se relativamente ao dólar e a todas as outras moedas entre 2005 e 2008. A hipótese do tripé é que haveria uma convergência do câmbio livre que deveria ser consistente com a meta de inflação. Entretanto, deixado às forças do mercado, a relação do Real com a moeda americana se apreciou, sem que isso representasse uma convergência para a meta de inflação do período, ou seja, 4,5%5. Uma hipótese alternativa é que o chamado boom de commodities representava, na verdade, um processo inflacionário em nível global, tendo o Brasil adotado, talvez indeliberadamente, a valorização cambial para esterilizá-lo. Com a crise, há um refluxo imediato no consumo de petróleo, com a valorização imediata do dólar. Após 2009, há uma nova desvalorização da moeda americana, com as políticas expansionistas americanas, revertida em 2014.

Mas o destaque do período após a crise é a nova valorização do Real até meados de 2012. Ou seja, há outro momento de inflação importada e o Brasil permitiu a valorização de sua moeda novamente. A partir de 2012, com as medidas de redução da taxa Selic, supostamente injustificada pelo mercado, a moeda brasileira passa a acompanhar o índice das outras. Em outro gráfico é possível ver a trajetória da inflação e do câmbio. Em resumo, a manutenção do sistema de metas para inflação, com a utilização dos juros e o controle da inflação implicou em uma apreciação cambial desnecessária do real6.

Expansão fiscal mesmo com câmbio valorizado

Se uma parte da política econômica cuida da oferta de moeda nacional e sua relação com o estoque de divisas (taxa de câmbio), a outra diz respeito ao desempenho fiscal. A perspectiva que está sendo apresentada inferiu que o país teve, durante o período entre 2005 e a crise de 2008 um câmbio persistentemente valorizado, trajetória que retornou após 2009 até meados de 2012. A decisão do governo de promover a política anticíclica após a crise através dos incentivos fiscais e o aporte de recursos no BNDES adiou o vale do ciclo econômico, tornando-o pior por acelerar a deterioração dos saldos comerciais. Mesmo com o Real apreciando-se o gasto público expandiu-se 16,7% em 2009 e 20,5%, excluídos os recursos do BNDES. Tratou-se de um estímulo espetacular para a substituição de produtos nacionais por importados7.

O câmbio valorizado tende a diminuir as exportações por tornar as mercadorias nacionais mais caras em divisas e estimular as importações por causa da apreciação da moeda. O gráfico que apresenta essa relação entre 2005 e 2015 mostra a trajetória de importações e exportações brasileiras.

De fato, as exportações brasileiras caíram entre 2005 e 2008, ano da crise. Quanto as importações, tiveram a trajetória inversa, com reversão em 2008 e novos aumentos a partir de 2009. A desvalorização cambial relativa a partir de 2012, as importações voltam a cair a partir de 2013. A crise, ao desvalorizar a moeda brasileira parece ter estimulado as exportações com reversão a partir de 2012. A nova apreciação cambial reverteu o quadro de ampliação das exportações, enquanto havia o estímulo às importações. Em termos absolutos, enquanto as exportações cresceram à média de 10,2% ao ano, as importações à 15,9%. Assim, o saldo comercial que chegou a US$ 46,5 bilhões em 2006 deteriorou-se a deficit em 2014.

Visão alternativa

Essa perspectiva alternativa apresenta um ponto de convergência com a visão ortodoxa: a capacidade dos estímulos em fazer política anticíclica se esgotou. Entretanto, apresenta visões diferentes a respeito dos motivos pelos quais isso aconteceu. Enquanto para os ortodoxos o suposto abandono do tripé o motivo dos problemas fiscais, em algum tipo de crise de confiança, essa visão apresenta dados reais de saldos comerciais e limites cambiais para a manutenção dos estímulos econômicos. O estímulo fiscal atrelado à perseguição da meta de inflação naquele período representou um crescimento baseado na importação de produtos e em desincentivos à exportação! O abandono atual (flexibilização) das metas de inflação é porque não há mais espaço para apreciação cambial dada a deterioração dos saldos comerciais. Insistir nessa política é a alternativa populista e irresponsável!

Mais que isso, se tivesse abandonado (ou ao menos flexibilizado) as metas de inflação em 2010, 2011 e 2012, o governo tivesse acompanhado a desvalorização das outras moedas teríamos menos pressões sobre os preços hoje. Já me trazem calafrios as perspectivas de retorno da valorização cambial com o Dólar hoje a R$ 3,07, quando havia sido R$ 3,20 no início de março, e perspectiva de aumento na taxa de juros básica.

Referências:

1 Trata-se de um complemento do artigo sobre a interpretação da crise cambial atual.http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2015/03/18/uma-interpretacao-do-descontrole-cambial/

2 Quebra do Lehman Brother, interpretado como o início da crise.

3 Antes de 2005 a taxa selic chegou a 13,8%, em Fevereiro de 2004, de maneira que não cabe a interpretação de que a credibilidade estava sendo construída no período analisado.

4 A relação é em número índice com janeiro de 2005 representando 1,00 para todas as moedas. A manutenção em 1,00 representaria a paridade com o dólar, valores menores que 1,00 representam valorização em relação à moeda americana e acima de 1,00 desvalorização.

5 É importante salientar que no período anterior à crise o Brasil vinha cumprindo as metas de superávit de maneira que não há motivos para acreditar que havia inflação por parte do gasto público.

6 Outro debate interessante seria quais alternativas o Brasil possuía (ou possui), para esterilizar as pressões inflacionárias vindas do mercado internacional.

7 E olha que o câmbio ainda não consertou a divergência entre o preço do Camaro, que custava US$ 23.280 em 2012 e passou de R$ 47.724 com o Dólar a R$ 2,05 para R$ 76.000 com Dólar perto de R$ 3,30 mas já melhorou em relação ao Palio de R$ 51.500. http://economia.uol.com.br/noticias/infomoney/2012/08/31/chevrolet-camaro-custa-nos-eua-menos-que-palio-weekend-no-brasil.htm

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

Diálogos Desenvolvimentistas: Lava-Jato, Pré-Sal e interesses estrangeiros

A notícia de que o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, propôs rediscutir do modelo de exploração do pré-sal no sentido de flexibilizar a participação obrigatória da Petrobras gerou considerações e comentários importantes por parte dos associados.

De um lado uns consideram que há uma guerra de informação e que o governo permanece firme em relação a lei de partilha e a política de conteúdo nacional, de outro temos os que veem uma negociação e recuo a fim de acomodar interesses conflitantes e garantir a dita “governabilidade”.

Confira:

Tania Faillace – Parece evidente que o bloco privatista ganha espaço gradualmente.

E parece do interesse público tentar saber o que realmente acontece sob os panos. E quais os elementos de pressão que estão sendo usados.

Fala-se que o PMDB está ganhando espaço maior graças a Eduardo Cunha, mas isso certamente é uma versão simplista, visando a dar destaque a Cunha em termos da modelagem de sua imagem pública, como líder imbatível.

Interessaria, porém, saber os instrumentos materiais ou dissuasivos usados para permitir que uma figura, antes de pouca expressão, adquirisse tal relevo.

A Chevron já foi expulsa uma vez do pré-sal. Estaria tentando a volta por cima? E, além do folclórico Serra, quais seriam as outras forças?

Que teriam a dizer os petroleiros sobre o assunto? Os velhos e os novos?

Paulo Moreno – Sim, a Chevron foi expulsa de uma concessão da área pós-sal na Bacia de Campos em 2012 quando tentaram “roubar” o óleo do pré-sal, extraindo-o sem autorização. Eles compraram a preços irrisórios um bloco na Bacia de Campos em 1998, pagaram um preço muito baixo, naquela rodada que o genro do FHC, David Zylbersztajn, que tinha uma empresa de consultoria a “DZ Energia” que facilitava a entrada dos gringos. David em 1998 ainda estava na ANP fazendo os leilões dos blocos a “preços irrisórios”. A Chevron ganhou essa raspadinha da sorte e ganhou rios de dinheiro na área pós-sal.

Não satisfeitos com os altos lucros no pós-sala eles viram a descoberta do pré-sal que tinha uma reserva próxima muito profunda a 5.500 metros e resolveram fazer uma extração não autorizada usando aquela tecnologia de “poço direcional” que fizeram no Iraque na fronteira com o Kwait em 1990 e foi descoberto e causou a sangrenta guerra do golfo em 1991.

Ao tentar atingir o pré-sal nessa camada profunda em 2012, perderam controle da pressão e das barreiras de proteção o que fissurou as rochas no fundo do oceano, gerando aquele tremendo vazamento que durou duas semanas na Bacia de Campos, atingindo diversas praias paradisíacas na região do Arraial do Cabo, o que causou muita indignação. A Petrobras foi chamada pela ANP para ajudar no controle do vazamento e conseguiram fazer um poço lateral e injetar cimento, o que estancou o vazamento. A Polícia Federal recolheu passaportes dos funcionários norte-americanos da Chevron e a Marinha ocupou a plataforma e o bloco foi devolvido. A lembrança da tentativa do roubo deixou os gringos afastados, pelo menos por enquanto. Esse fato aconteceu um ano depois que Dilma recusou negociar todo o pré-sal para as empresas americanas Chevron e Exxon Mobil. Agora o senador José Serra retorna com a febre do entreguismo e entrega do pré-sal pelo Regime de Concessão.

Osvaldo Maneschy – Fiquei surpreso com as declarações atribuídas a Eduardo Braga pela agência G1, das Organizações Globo, ontem, e também pela Exame, da Editora Abril.

Bem como a repercussão pelos demais onlines que multiplicaram fala do ministro das Minas Energia no Senado favorável a entrega do pré-sal para as multis de petróleo – e procurei saber mais sobre o depoimento do ministro.

E constatei que principalmente a G1 e a Exame carregaram nas tintas.

O que o ministro disse não foi exatamente o que está transcrito aqui na lista.

Confiram (aqui), por exemplo, o que a Agência Senado, mais isenta, narrou sobre a mesma fala do ministro.

Ou a agência 247, esta alinhada mais com o PT e o governo (aqui).

Ou seja, acho que está valendo aquela velha máxima do jornalismo: na guerra, a primeira vítima sempre é a verdade.

O Eduardo Braga começou a sua vida política como vereador do PDS e hoje é ministro de Minas e Energia pela cota do PMDB, se não me engano indicado pelo Lobão.

Acredito que ele não seja maluco de bater de frente com a Dilma que, anteontem, na posse do Janine, deixou bem claro para que o pré-sal e a Petrobrás são do Brasil.

Criar confusão é ferramenta importante na guerra da informação.

Paulo César Ribeiro Lima – Infelizmente, é muito pior do que está nas tintas.

Gustavo Santos – A lava jato está conseguindo seu maléfico intento, acabar com a governabilidade da Dilma para assim lhe impor a entrega do pré-sal aos gringos.

Helio Silveira – Para vocês verem a importância do Pré-Sal e a quebra da participação obrigatória de 30%,ontem foi anunciado a megacompra da BG Group pela Shell por US$70 bi, numa conjuntura péssima para o setor petróleo (cotação em torno de US$ 50,00). O claro interesse estratégico da Shell é reforçar reservas na crise, assim como fez Putin ao reforçar a participação do Estado Russo na Grazpon e como deveria fazer agora a Petrobras aumentando sua participação em petroquímica em vez de anunciar venda de patrimônio.

Nós sabemos, com a participação de nossos colegas bem informados, que a Petrobras, diante das reservas possuídas, não possui nenhuma restrição de natureza econômico-financeira, seja para manter seu patrimônio, seja fazer aquisições no setor, seja para manter seus investimentos, no entanto, está paralisada e perdendo patrimônio pela operação Lava-Jato (Na verdade operação “Joga-Lama-na-Geni”) e está claramente sofrendo uma ataque político com objetivos claros de abrirmos os poços Pré-Sal às reservas das “grandes Irmãs” e às nações “mui amigas”.

Aí vai o artigo em q o executivo da Shell, comentando a aquisição da BG Group, não se furtou em dizer q o interesse (ao meu ver o único) da operação foi de se fortalecer para “participar do Pré-Sal” (aqui). O Financial Times também reforça que o interesse é o Pré-Sal (aqui).

Osvaldo Maneschy – Aprendi trabalhando mais de 40 anos em jornal que o está nas tintas – é a versão dos fatos que o dono do jornal (da TV, do rádio, etc) quer que as pessoas acreditem.

Fato é fato, versão é versão.

Claro que você está aí no Congresso, sabe das coisas.

Mas a Dilma disse com todas as letras – ao ser diplomada no TSE, ao ser reempossada no Planalto, e na posse do Janine, anteontem – que a Petrobrás e o pré-sal são do Brasil.

O que ela diz sobre o assunto, para mim, conta muito.

Que a Shell – que há anos exporta petróleo cru do Brasil por conta das falcatruas lá de trás, do tempo das vacas gordas (pra ela) do entreguista FHC – a gente sabe.

Que as petrolíferas gringas, Shell na frente, querem botar a mão do pré-sal – a gente também sabe.

E que tem muito entreguista doido para ganhar uns caraminguados em troca do interesse nacional, a gente também sabe que existe.

Por isso é bom sempre lembrar o “Era Vargas”, do José Augusto Ribeiro.

Quando Chateaubriand, dono das Organizações Globo da época, na crise de agosto de 54, mandou recado para Vargas:

“Fecha a Petrobras que paro de fazer campanha contra”.

Getúlio não desistiu da Petrobrás e ela está aí.

Firme e forte, apesar de todas as tintas, cores e sons das fábricas de midiotas.

E da “República de Curitiba” do Moro e da gurizada do MPF, que é boa de estudo e concurso, mas não entende o Brasil.