Por Mônica Francisco | Via Jornal do Brasil

A afirmação contundente e cheia de precisão do americano Jonathan Duran, de que os “mal-entendidos só acontecem com crianças negras”, após ter presenciado a discriminação racial sofrida por seu filho adotivo, um menino de 8 anos, por estarem em frente a uma famosa loja de roupas, em um dos endereços mais badalados de São Paulo, após seu filho ter sido “confundido” com um menino de rua, pode ser ampliada para “pessoas negras”.
O olhar estrangeiro do americano revela com muita clareza a triste e dolorosa capacidade que o racismo sistêmico aqui no Brasil tem de fazer com a maior parte da população brasileira. E isso, sob o olhar de quem vem de uma cultura extremamente racista, como a norte americana.
Os mal-entendidos que são cometidos contra as pessoas negras, sejam elas crianças ou adultas, têm o consentimento de quase todos, e tem a cristalização das suas práticas, através das mídias, invisibilizando-as, e assim, ajudando na naturalização e na consolidação de atitudes como as da vendedora da loja, que não viu “aquela” criança, como sendo igual à qualquer outra criança não negra.
Não é despreparo, imaturidade, infelicidade ou outra desculpa qualquer, como a clássica “não intencionalidade de”, ou o “famoso engano”. Uma recorrência de fatos tão escabrosos vai além destes “deslizes” cotidianos.
Só que os equívocos, deslizes ou mal-entendidos, como queiram, estão produzindo cerca de 50 mil mortos jovens e negros por ano, uma recorrência na aniquilação de crianças e mutilação de famílias, sem contar nas mortes por consequência, com o adoecimento das famílias.
Os mal-entendidos estão levando o país a produzir um desejo perigoso de punição de crianças que nada tem a ver com Segurança Pública e diminuição de índices de violência.
Em uma semana que vivemos tristes episódios, às vésperas da Páscoa Cristã, a certeza de que temos um longo caminho a percorrer, quando o que ouvimos é “vamos reocupar”, seja lá o que isso quer dizer, não nos dá uma certeza de que veremos uma luz no fim deste túnel.
Sem um franco diálogo com a sociedade civil, uma real vontade de se transformar o quadro caótico em que estamos inseridos nesse contexto, contando com o apoio de especialistas de todas as áreas, essa medida soará mais como placebo do que com algo que surta um real efeito.
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“A nossa luta é todo dia. Favela é cidade. Não aos Autos de Resistência, à GENTRIFICAÇÃO e ao RACISMO, ao RACISMO INSTITUCIONAL, ao VOTO OBRIGATÓRIO e à REMOÇÃO!”
Mônica Francisco é membro da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Consultora na ONG ASPLANDE.(Twitter/@MncaSFrancisco).
