Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente? (II)

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Militares sob o comando do General Ernesto Geisel, que praticou uma política externa independente dos EUA.

Prosseguindo no debate sobre o caráter do regime ditatorial que o Brasil viveu, o professor Benayon julgou ser de suma importância alertar para a não unanimidade da visão do General Olympio entre os militares brasileiros. A escritora e jornalista Tania Faillace põe alguns pingos nos i’s no intuito de esclarecer ainda mais a questão em análise.

Confira:

Adriano Benayon – O artigo do Gen. Olympio Mourão F. não expressa a opinião dos militares sobre o golpe de 1964, mesmo sem considerarmos que muitos militares eram contrários a esse golpe e até foram punidos ou afastados pelo governo egresso dele.

É que Mourão não é bem representativo da opinião geral dos militares, mesmo contando somente os favoráveis ao golpe. De resto, havia muitas correntes entre esses, e até mesmo oficiais nacionalistas, naturalmente mal informados de todo o contexto (alguns afetados pela contra-informação, pela doutrinação que atribuía intenções diabólicas aos comunistas e simpatias comunistas a Goulart etc.).

Algo que deve ser lembrado para ilustrar que a posição dos militares não é, ou não era monolítica:  em 1969, quando Costa e Silva, que não era entreguista, ficou inabilitado por motivo de saúde, houve chance de os oficiais nacionalistas tomarem o poder, tendo os oficiais da Vila Militar do nível até tenente-coronel (não sei entrou até coronel) feito votação de seu candidato preferido à presidência, escolhendo eles chegado a fazer votação, escolhendo o general Affonso Albuquerque Lima, nacionalista, que era ministro do Interior de Costa e Silva.  Faltou alguém com peito e iniciativa para pôr os tanques da Vila na rua e assumir o poder. Acabaram acatando a tal junta dos três ministros militares, e depois o alto Comando escolheu Médici.

Volto a reiterar que é valioso em nossa campanha de tentar esclarecer mais compatriotas, não generalizarmos os estamentos e segmentos sociais, pois isso faz o jogo do império. O que ele quer e sempre lhe deu frutos é pôr de um lado os civis, de outro os militares. E nós somos mais que sabedores que há de tudo entre civis como entre militares. Do mesmo modo, entre os que se dizem de esquerda e de outras tendências no campo político e filosófico.

Tania Faillace – As coisas não são tão simples nem tão preto-no-branco, em matéria de geopolítica, quando os interesses se cruzam, e as oportunidades se criam para a conjugação de ações convergentes mesmo com objetivos diferenciados.

É evidente que o golpe deu-se no bojo de uma estratégia que então se construía contra a autonomia política e econômica dos países latino-americanos – haja visto, na época, a quantidade de movimentos nacionalistas e democratizantes, a quantidade de golpes de direita, a ingerência generalizada dos norte-americanos nestas terras, a quantidade de presidentes e líderes populares assassinados e vítimas de “acidentes” arranjados.

No mais das vezes, tratou-se de juntar “a fome com a vontade de comer”, isto é, de acertar os passos entre os interesses de grupos internos, com os interesses maiores e estratégicos do império de nossa época.

No Brasil, não foi diferente.

E com o tempo, manifestou-se um certo descompasso entre o grupo dirigente de origem militar, e os interesses do sócio maior, que não tinha o menor desejo de que o expansionismo brasileiro se tornasse uma realidade e viesse a lhes fazer concorrência algum dia. Isso explica a época desenvolvimentista, e as crises sucessivas de ordem financeira, dependentes do que acontecia “lá fora”.

Se era uma contradição principal ou secundária, é assunto para os analistas históricos. Mas que houve um descompasso, houve. Um descompasso que explica aquele monte de manobras descosturadas que caracterizaram a transição de um regime para outro. Inclusive as mortes havidas: Tancredo, Severo Gomes, as esposas de Severo e de Ulysses, o desaparecimento completo de Ulysses, do qual não restou um único osso ou pé de sapato.

Nesse nível, o jogo é muito bruto. Tanto contra os adversários principais, como contra os associados que se recusam a seguir o script inicial, e têm suas próprias aspirações e alternativas.

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