Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente?

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

Os ex-presidentes Médici (Brasil) e Nixon (EUA)

Foi enviado ao grupo de discussão dos Desenvolvimentistas um texto assinado pelo General Olympio Mourão Filho que testemunha a visão dos militares sobre o golpe de Estado que perpetraram contra o país em 64, mergulhando-nos numa ditadura de 21 anos.

De confusa visão, o general fala sobre uma suposta defesa do nacional ao mesmo tempo que esquece da interferência decisiva dos EUA neste episódio histórico. Afinal, os militares tinham um projeto nacional ou foram serviçais do império norteamericano?

Confira o debate:

General Olympio Mourão Filho – Porque a verdade é que alguns demônios andaram soltos neste país, enquanto a maioria desta Nação estava entocada, apavorada, os chefes militares prontos a se deixarem dominar, contanto que continuassem a viver, viver de qualquer maneira, sem coragem de arriscar as carreiras. Os pobres continuando pobres. A classe média e os ricos podendo morar e comer três vezes ou mais por dia. Os políticos em condições de aderir, permanecendo em sua profissão, maldita profissão.

Os chefes militares, tolhidos por um falso legalismo, esperando que o Chefe do Executivo lhes dessem maiores motivos para a reação, imobilizados, atônitos e impermeáveis à compreensão dos fatos iniciados com o plebiscito e completados com o comício do dia 13 de março, surdos ao verdadeiro clamor de medo vindo de toda a Nação. Ainda mesmo depois dos deploráveis incidentes na Marinha, que estava ameaçada de destruição, havia chefe militar com a esperança vã de que o Chefe do Executivo recuasse, quando ele já não mais podia fazê-lo.

Todos queriam viver, eis o problema. Eis o segredo do aparente sucesso dos demônios soltos no país. Minoria audaciosa que sabia usar os meios de que dispunham e que eram os máximos, oriundos desta maldita forma de governo que é o Presidencialismo.

Ponha-se na Presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará a sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, de que tudo quanto faz está certo.

Em pouco tempo transforma-se um ignorante em sábio, um louco em gênio equilibrado, um primário em estadista.

E um homem nessa posição, empunhando nas mãos as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.

Enquanto esse monstro é dirigido e explorado apenas pela lisonja, bajulado pela corte, a Nação sofre prejuízos de monta, é verdade, mas, apenas danos materiais em sua maioria e morais alguns.

Quando, porém, sua roda é formada ou dominada por um bando refece de demônios, nesse momento a Nação corre os mais sérios perigos.

Esta era a conjuntura do perigo e do terror na qual viveu o Brasil de 1962 a 1964.

Adriano Benayon – Os governos militares tinham um projeto que imaginavam ser nacional, o qual explicitamente afirmava o objetivo de fortalecer o poder nacional. Mas era um projeto incoerente, inconsistente, porque se fundamentava ideologicamente na ‘aliança’ com os EUA, motivada por visão obnubilada pela suposta ameaça comunista, devidamente magnificada desde a ‘intentona’ de 1935. O projeto ‘nacional’ era inconsistente, porque não é possível fortalecer o poder nacional, enquanto se subsidia as empresas transnacionais para se apoderarem da indústria do País. Um dos resultados do fracasso de tal projeto é a dívida externa, que resultou das transferências feitas pelas transnacionais para o exterior. Não menos fatídico: a crescente inviabilização do desenvolvimento de tecnologias no País a serviço do País, pois asfixiou-se as empresas locais, retirando-lhes o solo e os nutrientes, que são o mercado. Em suma, o objetivo proclamado de desenvolver o País teve como resultado enfraquecê-lo, torná-lo impotente.

Milton Saldanha – Vale lembrar que os Estados Unidos sofreram duas grandes derrotas, no Vietnam e com a perda do seu bordel que era Cuba. Então criaram uma geopolítica de financiar e fomentar golpes “preventivos” na América Latina, para resguardar seu quintal. Houve um momento em que apenas cinco países não viviam sob ditaduras. Eram todas sanguinárias, com tortura e assassinatos. E todas tinham a mesma justificativa: combater o comunismo. Havia no Brasil uma esquerda militar, minoritária, mas real e disposta a lutar. Se tivesse ocorrido resistência a derrota dos legalistas seria inevitável, inclusive com a intervenção militar norte-americana, que trazia fuzileiros na Operação Brother Sam. Depois os fascistas teriam feito uma caça aos esquerdistas, de casa em casa, jogando o país num banho de sangue jamais visto, e talvez pior do que aconteceu no Chile. A propósito, sobre o Chile falta muito a ser revelado. Foi menos mal o golpe vencer sem luta, mesmo tendo jogado o Brasil em 21 anos de atraso cultural, ao mesmo tempo em que militares sonhavam com um projeto de potência militar, com a Engesa, pesquisa de bomba atômica, Angra, submarino atômico, etc. Além da base de Alcântara, que os gringos explodiram numa sabotagem nunca investigada. O projeto não foi em frente por falta de grana e tecnologia. A sociedade civil nunca foi convidada a discutir se queria isso. Tudo desabou de vez com a democratização, que passou a priorizar, ainda que de forma paliativa, o social. O fim da Guerra Fria e o começo da globalização mudou o cenário completamente. Só idiotas e espertalhões ainda acham que regime militar seria solução.

Tania Faillace – O perigo na ótica daquele grupo militar (não foi unânime essa ótica, tanto que os militares democratas ou de esquerda foram os primeiros a serem punidos e degradados na carreira), era o eventual perigo comunista.

Mas, como categoria profissional, que lhes interessava o perigo comunista ou o perigo fascista (o que realizaram)? Não perderiam o emprego, se continuassem a cumprir com seus deveres constitucionais. A troco de que santo defender os interesses do poder econômico, e mais ainda, do poder econômico imperialista, de fora do País?

Sim, alguns militares “forraram o poncho” como se diz no RS, e fundaram montepios, e uma série de empresas semi-fantasmas, que quebraram mais ou menos rapidamente, deixando a clientela a ver navios.

Mas como isso justificaria a traição à própria nacionalidade?

Mistérios ainda não bem decifrados, a menos que vocações ideológicas na linha fascista estivessem sendo embaladas pelas chefias.

Posteriormente, vários desses mesmos militares fizeram sua auto-crítica e justamente no governo FHC, quando se tornou evidente ser esse governo um agente do imperialismo anglosaxão.

Eis porque esse mesmo poder anglosaxão trocou de parceiros no meio do caminho: a casta militar não aceitava um segundo lugar na proposta dos gringos, queria protagonismo e ser representante de um país pujante e não de uma nova colônia. Perdeu espaço quando fracassou seu projeto, embalados como estavam nas “idéias” enganosas dos imperiais, cairam em todas as armadilhas econômico-desenvolvimentistas que lhes sugeriram, inclusive a ciranda financeira.

Bom, estamos num outro momento, mas que repete alguns modismos clássicos que nós velhos reconhecemos – a ameaça subjacente de guerra explícita, que levou Goulart a renunciar prematuramente, e que hoje espera obrigar a atual presidente a fazer o mesmo.

Uma ideia sobre “Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente?

  1. Cássio

    Eles nao falaram sobre a Denuncia do Tratado com os EUA em 76 e o fortalecimento da indústria dual , civil – militar, com as exportaçoes e aberturas de mercados na Africa e Oriente Medio, durante o Governo do Geisel.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>