Arquivo mensais:março 2015

Alba exige que EUA anule decreto contra Venezuela

Via AFP

Reunião da Alba no Palácio de Miraflores, em Caracas. AFP / Federico Parra

A Aliança Bolivariana para os Povos da América (Alba) exigiu nesta terça-feira do presidente Barack Obama a anulação do decreto que considera a situação política da Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária” para a segurança dos Estados Unidos.

Em declaração firmada em Caracas e lida pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a Alba exige do “governo dos Estados Unidos a derrogação da ordem executiva, que constitui uma ameaça à soberania da Venezuela”.

“A irmã República Bolivariana da Venezuela não representa ameaça para qualquer país sendo uma nação solidária que já demonstrou sua vontade de cooperar com os povos e os governos da região”, acrescenta o documento, que exige de Washington “a suspensão imediata da perseguição e da agressão” contra este país.

Imerso em uma severa crise econômica, escassez de artigos básicos, recessão e falta de divisas, o governo Maduro lidera uma ofensiva diplomática para responder às sanções impostas pelo presidente dos Estados Unidos contra seis altos militares e policiais e uma procuradora, acusados de violar direitos humanos e estar envolvidos em casos de corrupção.

A medida de Washington, que tachou a Venezuela como “uma ameaça extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”, lançada em 9 de março, já havia gerado manifestações de apoio por parte da Unasul, do Movimento de Países Não Alinhados, e de grupos regionais de esquerda.

Nesta terça-feira, o governo venezuelano publicou uma “carta ao povo dos Estados Unidos” no jornal New York Times negando ser uma ameaça para o país e exigindo a derrogação das recentes sanções impostas pelo presidente Obama.

Em um preâmbulo à reunião em Caracas, o líder cubano Fidel Castro também afirmou em uma carta a Maduro que a Venezuela está preparada tanto no campo diplomático como militar para enfrentar “a insólita política de ameaças e imposições dos Estados Unidos”.

Além de Venezuela, Cuba e Bolívia, a Alba é formada por Equador, Nicarágua, Antígua e Barbuda, Comunidade da Dominica, Santa Lúcia, Granada, São Cristóvão e Neves, e São Vicente e Granadinas.

A Alba foi criada em 14 de dezembro de 2004 por Hugo Chávez (falecido em 2013) e Fidel Castro (que deixou o poder em 2006) como alternativa à Alca, o Acordo de Livre Comércio entre as Américas, defendida pelos Estados Unidos.

Uma interpretação do descontrole cambial

Por Heldo Siqueira

O aviso de Mário Henrique Simonsen, de que a inflação aleija mas o câmbio mata, é sempre atual quando tratamos de desenvolvimento macroeconômico. Os economistas do novo desenvolvimentistas também destacam o papel do “câmbio industrial” em neutralizar a doença holandesa e estimular as exportações[1]. O debate torna-se particularmente importante na medida em que vivemos um ciclo de desvalorização do real. O período que se deu entre fevereiro de 2013 e o início março de 2015 o dólar passou de R$ 1,97 para R$ 2,86, em uma desvalorização de 45,1%[2]. Esse cenário recrudesceu-se desde o início do ano, quando a proporção de reais para a moeda americana ainda era de R$ 2,65.

Mesmo assim, segundo o Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não há crise cambial[3]. Essa afirmação parece estar ancorada na percepção de que há uma tendência de desvalorização de várias moedas em relação ao Dólar e o Real está acompanhando a tendência. A moeda da comunidade europeia, por exemplo, desvalorizou-se 21,4% entre junho de 2014 e março de 2015. No caso do Real, esse valor chegou a 30,1%.

Uma vez que a moeda americana segue é o parâmetro para a conversão de outras é necessário estabelecer outro indicador, além de outras moedas, para tentar entender sua trajetória. Um indicador particularmente interessante é o preço do petróleo. O gráfico 1 mostra a uma comparação entre a trajetória do barril tipo Brent de petróleo frente ao Dólar entre 2002 e 2015 e o Real.

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Observa-se que a trajetória da moeda brasileira frente o indicador de trajetória do petróleo em Dólares tem uma tendência aproximada. Na crise de 2008 houve uma apreciação do Real, dada a abrupta perda desvalorização do petróleo, que dissipa. O final do ano de 2014 também marca uma nova desvalorização da commodity. Trata-se de uma indicação de que o Dólar está se valorizando frente ao preço do petróleo! A mesma análise pode ser feita para o Euro.Heldo2

Mesmo tendo uma trajetória de desvalorização menos acentuada durante a crise de 2008, o que explica em parte a penúria econômica de alguns dos países que o utilizam frente a crise, observa-se que o Euro também seguiu a trajetória de desvalorização frente ao Dólar que ocorreu no final de 2014. A última comparação que deve ser feita é a do Real com o Euro frente.Heldo3

Nesse caso, pode-se observar ainda outras tendências. Uma desvalorização relativa do Real, entre 2002 e 2005, revertida até a crise econômica de 2008. Posteriormente uma nova apreciação do real que se reverte desde meados de 2013. Mesmo assim, a desvalorização experimentada pela moeda brasileira parece ser equivalente a do Euro. Nesse sentido, a prática de defender a manutenção das taxas de câmbio, apesar de populares em termos políticos, pode ser realmente artificial, como mencionava o Ministro da Fazenda Joaquim Levy em Janeiro[5].

Referências:

[1] https://jlcoreiro.wordpress.com/2015/03/13/os-descalabros-de-edward-amadeo

[2] Os dados são do Ipeadata e do Banco Central, do último dia útil de cada mês até 02/03/2015.

[3] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/03/depreciacao-do-real-nao-mostra-descontrole-cambial-diz-barbosa.html

[4] Mais especificamente: (1/Brent)x50 . A multiplicação por 50 permitiu melhorar a escala de visualização.

[5] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/levy-diz-nao-ter-intencao-de-manter-cambio-artificialmente-valorizado.html

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

 

MTST fecha rodovia no Rio para protestar contra ajuste fiscal do governo

Por Vitor Abdala | Via Agência Brasil

Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) fizeram na manhã de hoje (18) um protesto na Rodovia Niterói-Manilha (BR-101), em Niterói, no Grande Rio. Eles atearam fogo em uma barricada de pneus e fecharam a pista no sentido Ponte Rio-Niterói.

O protesto faz parte do Dia Nacional de Lutas, que está acontecendo em 13 estados. O MTST e movimentos da Frente de Resistência Urbana querem o lançamento imediato do Programa Minha Casa, Minha Vida 3 e o recuo no ajuste fiscal do governo federal.

Segundo a concessionária Autopista Fluminense, que administra a via, o protesto ocorreu na altura do quilômetro 321, a pouco mais de um quilômetro da ponte. O engarrafamento, de acordo com a concessionária, chega a cinco quilômetros de extensão.

Policiais militares e rodoviários federais negociaram com os manifestantes a liberação da rodovia e, neste momento, bombeiros apagam o incêndio da barricada.

A besta está solta, e foi solta por mãos hábeis e praticamente invisíveis

Por Rogério Maestri | Via Jornal GGN

Todo e qualquer movimento que o Governo Federal tomar daqui por diante será tachado de demagogia, ações para esconder os fatos e outras coisas do gênero, pois atualmente a lógica não é mais ditada por atos nacionais.

Saem milhares de pessoas as ruas dentro da maior desordem doutrinária possível, uns pedem simplesmente o combate à corrupção, outros a retirada constitucional da presidência, terceiros pedem não só a retirada da presidência como a colocação do PT na ilegalidade, os mais exaltados pedem um golpe militar e no extremo temos aqueles que pedem a intervenção de países estrangeiros.

Toda esta confusão doutrinária parece algo que ocorre ao azar, porém se formos comparar com revoltas em outras partes do mundo, o cenário brasileiro se encaixa como uma luva.

As revoluções coloridas, rosa, laranja, das tulipas, nos países da ex-união soviética ou as primaveras ou outonos todos tem exatamente esta característica, uma falta de um programa concreto para a substituição dos governantes, apoio de movimentos de extrema direita composta de militantes lúmpens sem aparente origem, mas com características sinistras e obscuras, apoio secundário de oposições tradicionais que são suprimidas fisicamente ao longo do tempo, e o pior de tudo, tendo como resultado simplesmente a desorganização econômica, política e social dos países em que estas revoluções partidas das redes sociais têm êxito.

Os movimentos atuais não têm interlocutores, simplesmente porque é este o objetivo, vejam políticos tradicionais de oposição como o ex-presidente FHC se mantém afastados destes movimentos mostrando eventuais simpatias a eles. O próprio Aécio Neves, que poderia tentar capitalizar todo este descontentamento mantém-se com um olhar discreto e bucólico por uma janela as manifestações que ocorriam.

Quem tem mais de sessenta anos e um bom conhecimento da nossa história recente, se for um pouco perspicaz verá que os rumos destas manifestações não seguem a padrões que vimos, por exemplo, em 1964.

Naquela época, a “mão invisível” pensava em retirar a esquerda do poder de todos os países e substituí-las por governos militares fortes e aliados a um programa de internacionalização da economia. O governo de Castelo Branco, o general preferido por forças externas, seguiu exatamente este padrão. Entretanto nos dias atuais devido à complexidade da economia internacional e nacional, a mesma “mão invisível” dos movimentos nacional e internacionais, não se interessa mais por isto, pois um governo militar forte pode cair nas mãos de setores nacionalistas com um projeto definido perdendo o objetivo central da “mão invisível”.

Falei em objetivo central, mas não deixei claro o que é este objetivo, não deixei claro, pois este se esgota exatamente no desarranjo de toda e qualquer possibilidade de um grupo político, de direita ou de esquerda, de tomar o poder e reconstituir o Estado em torno de uma plataforma qualquer porém unitária.

Pode parecer algo surreal, mas o objetivo que está por trás de tudo está simplesmente na desestruturação do Estado, na secessão e implosão do território nacional. Um objetivo estúpido que não serve a nenhuma força ou tendência política nacional, nem a direita e muito menos a esquerda.

Poderia tentar demonstrar claramente o porquê deste objetivo de desestruturação do Estado, mas no lugar de cair em longas digressões posso simplesmente dizer. A quem interessa estados nacionais fracos? Quem sai lucrando com estes Estados envolvidos em lutas internas de fracções difusas e sinistras?

Quem responder corretamente estas perguntas conseguirá entender perfeitamente tudo que se desenrolou em outros países e que parece ser o nosso futuro. Também a resposta a estas perguntas mostra quem está por trás destes aparentes movimentos sem lideres e sem programa, e talvez, numa possibilidade remota quem entender isto talvez não vista com tanta facilidade camisetas coloridas, para protagonizar mais uma revolução, a verde, que com o passar do tempo verão quão manipulados pela “mão invisível” (não do mercado) e para onde esta “mão” nos levará.

Há um livro que seu conteúdo não é lá muito legível e compressível, e não recomendo a perda de tempo na sua leitura, porém o seu título é verdadeiramente forte e fantástico, e o título é:

NINGUÉM VIVE IMPUNEMENTE A DELÍCIA DOS EXTREMOS.

FHC “abriu porteira” para corrupção na Petrobras, diz Cunha

Via Uol

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou nesta segunda-feira (16), em entrevista ao programa “Roda Viva”, da “TV Cultura”, que o escândalo de corrupção na Petrobras teve início na primeira gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), que teria aberto “a porteira da corrupção ao ignorar a lei de licitação nº 8.666″, que teria facilitado a formação de cartel na petrolífera.

Em 1998, no primeiro mandato de FHC, foi publicado o decreto 2.745, que regulamentou o regime diferenciado simplificado de contratações da Petrobras.

“A Petrobras passou a obedecer a um regulamento próprio, que permitia a licitação por carta-convite por empresas cadastradas previamente na própria Petrobras. É claro que é uma desculpa até palatável, pois a Petrobras precisa competir no mercado internacional, mas ao mesmo tempo abriu a porteira para a corrupção, pois o diretor podia escolher quem ele convidava e permitir que as empresas combinassem a quem se beneficiava, as empresas podiam combinar o seu preço”, disse.

A reportagem do UOL entrou em contato com o ex-presidente, por meio do Instituto Fernando Henrique Cardoso, que ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Ao tentar explicar uma declaração dada mais cedo ao jornal “El País”, de que “a corrupção está no governo, não está no Parlamento”, Cunha afirmou que mesmo que haja deputados investigados por crimes de corrupção, foi o governo federal que teria dado condições para os crimes investigados na operação Lava Jato fossem cometidos.

“Se eventualmente alguém se beneficiou, esses vão pagar, mas essa situação não existiria se não fosse o poder Executivo, não foi o Congresso que fez cartel”, afirmou.

Em fevereiro, ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco afirmou à Polícia Federal que começou a receber propina da SBM Offshore –empresa holandesa fornecedora da petrolífera– em 1997, ainda durante o governo do tucano. A investigação da gestão da Petrobras no período de FHC é parte da estratégia petista dentro da CPI da estatal para constranger a oposição. Apesar da declaração, foi uma medida de Cunha, como presidente da Casa, que barrou a apuração dos casos no período da gestão FHC.

O parlamentar também rebateu a frase de Dilma que “a corrupção é uma senhora idosa”, que não pode ser atribuída apenas ao seu governo. “Acho essa imagem muito boa, suave. Eu a colocaria [a corrupção] mais como um câncer e deve ser extirpado”, disse.

Sob suspeita

Cunha também reiterou que não se afastaria do cargo mesmo se houvesse uma grande mobilização popular exigindo sua saída. O parlamentar é um dos nomes citados na lista do procurador-geral Rodrigo Janot com 47 políticos que serão investigados pela operação Lava Jato.

“É óbvio que eu não me afastaria, pois não vejo culpabilidade”, diz Cunha, que sempre defendeu sua inocência e acusa o Ministério Público de “escolher a quem investigar”. “Já respondi a dois inquéritos, e ambos foram arquivados.”

O peemedebista também explicou sua oposição em relação ao governo Dilma. Apesar do partido de Cunha ser da base aliada, o presidente da Câmara tem mostrado uma postura de enfrentamento ao Planalto, ao contrariar os pedidos do governo e colocar uma pauta própria nas votações da Casa. Apesar disso, o ajuste fiscal que o governo quer promover não será impedido, diz ele. “Se depender de mim, não”.

“Não estamos escolhendo o PT como adversário, o PT me escolheu como adversário”, disse, referindo-se à última eleição para presidente da Câmara, da qual Cunha se sagrou vencedor contra Arlindo Chinaglia (PT-SP). Apesar disso, ele afirma que a presidente não é sua adversária política.

“O que eu quis dizer é que a crise não é culpa de Dilma, mas também não é do Congresso”, disse. Ele disse ainda que “o PT precisa aderir ao governo”. Ele disse ainda que o desgaste do PT não é responsabilidade dele, mas sim de práticas adotadas pelo partido desde quando chegou ao poder, em 2003. “Eles [PT] fazem tudo aquilo que eles pensavam que nós fazíamos”, disse Cunha.

Mário de Andrade: Ode ao burguês

Por Mário de Andrade

Armínio Fraga, exemplar fiel do homenageado.

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar… _ Conto e quinhentos!!!

_ Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purée de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

***

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945) foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Músico treinado e mais conhecido como poeta e romancista, Andrade esteve pessoalmente envolvido em praticamente todas as disciplinas que estiveram relacionadas com o modernismo em São Paulo, tornando-se o polímata nacional do Brasil.

Diálogos Desenvolvimentistas: O trabalhismo, os infiltrados e a perda de identidade

Luiz Carlos Cruz – O artigo foi publicado em 2011 no blog do Pedro Porfírio.

Creio que muitas considerações citadas, ajudam a decifrar os que ainda ficam perplexos com o enigma de Lula, do neo-PT, da CUT.

Talvez o texto nos ajuda a entender, porque Lula e o neo-PT não abraçam medidas em defesa da Soberania Nacional.

No artigo, são citados o falecido geólogo João Victor, o Fernando Siqueira.

“Por que Lula favoreceu os trustes ao garantir-lhes a devolução em petróleo dos royalties pagos”

Tania Faillace – Uma passada de olhos confere e confirma os rumores já existentes ao final dos anos 70.

Com relação ao PT, foi uma ideia evoluída das comunidades eclesiais de base e sua aproximação com a massa operária (na Europa, nos anos 60, havia os padres operários, já leram a respeito?), que tomou visibilidade na greve de Osasco.

Na fundação, tornaram-se evidentes os grupos interessados na efetivação da proposta: parte do PMDB que queria atrapalhar a ressurreição do Brizola (isso também é verdade, mas somente uma parte dela); a chamada elite operária paulista; uma massa obreirista (obreirista de fato, trabalhadores provindos dos rincões brasileiros mais distantes, que viajaram com uma única refeição por dia, como costumam usar os nordestinos pobres – a lata de farinha com torresmo), e um segmento sindical de vanguarda identificado com essa massa obreirista (como os então representantes do Sul).

Lula não queria, não estava interessado.

Quando o ambiente esquentou, ele foi dormir. Exatamente isso: foi dormir e pediu que não o acordassem.

Foram José Dirceu e José Ibrahim que lhe pediram socorro, quando a rachadura se tornou inevitável pela recusa da ala peemedebista e principalmente da elite sindical paulista, de aceitar a participação dos trabalhadores pobres (nordestinos, paulistas e de outros locais, que constituíam a esquerda junto conosco, do Sul – ainda não havia trotskistas no caldeirão).

Já nos preparávamos para fazer uma reunião paralela no pátio do colégio, quando apareceu Lula e botou água na fervura, abrindo para a conciliação (ele é um verdadeiro mestre, não há como negar).

Quem acabou caindo fora foi aquela ala do PMDB.

Mas já dá para perceber que muitas outras forças, não assumidas, deviam estar presentes. Aliás, essa é a dinâmica de todos os grupos de atuação social, sem exceção.

É assim que os seres humanos se organizam, desde que abandonaram sua inicial formação comunal e democrática da taba e tribo.

Voltamos.

Rogério Lessa – Leio hoje a notícia que o governo “estuda ampliar a participação das estrangeiras de 20% para 49%” em nosso mercado interno para companhias aéreas. Lula e seu grupo não salvaram a Varig, como fez Brizola, que passou aos funcionários o controle da empresa – Brizola fez o mesmo com a Ciferal, no Rio. O PT (o velho e o novo), visto como mais à esquerda do que Brizola, não fez reforma agrária e manteve a base (tripé?) do processo de recolonização/desindustrialização do Brasil. Agora, com o populismo cambial em xeque, a direita usa a inflação contra o governo, sem tocar nas causas dessa inflação, com estagnação.

Tania Faillace – Aconteceu com o PT o mesmo que aconteceu com o trabalhismo, quando Brizola perdeu a sigla para a Ivete Vargas. Foi infiltrado.

O PTB virou sigla para igrejas (?) pentecostais; o PDT virou esconderijo de grandes empresários, o PT atraiu intermediários ainda mais espertos.

Os PCs nunca atraíram elites abonadas, pela rijeza de seus programas, manifestos e regulamentos. Mesmo assim, Aldo Rebello abanou a cauda e seguiu as instruções do agronegócio para elaborar seu Código Florestal.

Vi a carinha dele a dois metros da minha e seu sorriso simpático quando o sabatinamos em Porto Alegre, junto com uma tropa de choque catarinense, do PDT, que me lembrou os tempos da ditadura até pelo jeito de olhar.

Não há organização à prova de infiltração, sequer de arrombamento.

A Igreja foi fundada para promover o amor universal, e criou uma rede de corrupção e banditismo e maus costumes que dariam inveja a Calígula, no Império Romano. Mas pariu alguém como João XXIII, contraditoriamente.

Então, em termos de política, religião, associações sindicais ou de bairro, não há como imitar o torcedor de futebol – ser contra ou a favor só por causa da cor da camiseta.

Temos, sim, a cada vez, que analisar: onde foi o furo?

Quer dizer, onde se perdeu a intenção original? A que ponto ela está perdida ou pode ser resgatada. Conheço um pouco o PDT, mas não tão bem como conheço o PT e o movimento sindical.

E não conheço um filtro infalível para identificar e triar os oportunistas antes que eles entrem em tal e qual organização e a subvertam gradualmente.

Com o tempo, claro, adquire-se experiência e feeling farejador para localizar o safado, por melhor caracterizado que esteja. Mas isso leva tempo.

Deve-se, porém, fugir às generalizações e simplificações, porque elas podem ser ótimas num teste de palavras cruzadas, mas são terríveis para tentar compreender a vida real, que é complexa e contraditória por natureza.

Como lhe disse, sei alguma coisa do PDT, mas não tudo, obviamente, e assisti a injustiças tremendas cometidas por Brizola, que depois deve ter-se arrependido delas, pois acabou cercado por um bando de hienas, que só esperavam usar seu nome para legitimar-se. Era essa a fraqueza do Brizola: ser sensível à lisonja, sem distinguir a admiração sincera da bajulação hipócrita e interesseira. Depois, pela ação do safado, ele o identificava, mas costumava ser tarde. Foi por isso que a Dilma e vários outros saíram do PDT, pois foram atingidos por uma intriga feita por aqueles velhos raposões que cercavam Brizola dia e noite.

Bom, no PT, desde o início havia propostas conflitantes e a luta foi constante, e terminava mais ou menos 0×0 ou 1×1. Até que o Sr. Dirceu foi guindado ao posto de presidente do partido (para pô-lo à disposição de forças opostas). Afastou Frei Betto, que era o superego de Lula, e instalou-se ele.

Assisti pessoalmente a todo o processo posterior, inclusive o momento em que Lula conseguiu que Olívio deixasse de concorrer – estava no corredor da sede de Porto Alegre, junto dos dois, e meti em vão minha colher. Foi quando me “bateu” que algo estava sendo cozinhado.

Sua obra-prima (do Dirceu) foi revogar o manifesto pró-socialista original, e instalar a filiação online, que pode ser útil para uma entidade recolhedora de contribuições benemerentes, mas nunca para uma organização político-ideológica.

O próprio mensalão… aposto qualquer coisa como foi uma artimanha voluntarista. Mensalões existem por todo o canto antes de nascermos, e uma das pegadinhas usuais na Câmara de Porto Alegre, por muito tempo foi identificar o “o homem da mala”. A ponto de haver quem se achegasse (pessoal do público, da galera) e perguntasse: quem é que vai receber hoje? e os circundantes rirem. Até que eles, os corruptores, aperfeiçoassem o sistema, denunciado vezes sem conta ao Ministério Público daqui sem o menor resultado.

Então o mensalão existe por toda a parte, e usando um pouco de habilidade, ninguém prova nada. Por que José Dirceu inventou um sistema transparente, detectável de primeira? Para ser detectado, justamente, e envolver o partido num escândalo de natureza de “propina”, o único escândlo que comove o brasileiro (podem pegar fogo em toda a Amazônia, envenenar a praia de Bertioga, estuprar todas as criancinhas de uma creche, que o brasileiro nem pisca, mas falou em propina, ele salta). E porque o Dirceu dispensou o tesoureiro costumeiro do PT e fez aquela dobradinha Delúbio e Valério? Porque manejava o Delúbio, e conhecia bem o Valério para combinar as coisas com ele, DENTRO DO PSDB.

Evidentemente são deduções ao estilo de Hercule Poirot, mas fáceis de comprovar.

Nós, no Sul, chiamos, pulamos, gritamos, contra a contratação do Valério, mas ele era indispensável para o plano que se tramava.

O mensalão foi feito para ser descoberto. Uma bandeira falsa. E comprometer a eventual esquerda que ainda estivesse dentro do partido. As outras esquerdas são folclóricas, ninguém as leva a sério, e apesar de contarem também com gente boa, não têm estrutura nem cacife para se opor ao golpe que está sendo preparado.

Já ouviu falar do Cabo Anselmo?

Pois refresque a memória a respeito.

O Sr. Dirceu era da direção da UNE. Em 1968, nenhum estudante sabia onde seria o congresso e exatamente quando, até as vésperas. A repressão sabia tudo a respeito. Quem contou? Escolheram um lugarzinho titico, e já no primeiro dia encomendaram desjejum para alguns milhares de pessoas. Os bares da localidade, dizem, tiveram que ir buscar pão em cidades próximas.

Que é que você acha?

Querem despejar a Dilma, tanto para interromper as investigações atuais, como para permitir que seja dado um golpe branco ou sangrento (pouco importa) e assuma alguém mais simpático ao Tio Sam.

Lula pediu a Dilma que afastasse o Mercadante; ela praticamente o mandou lamber sabão – não com essas palavras, claro. Deu para perceber onde se faz um diferencial?

Ontem, num encontro, tive a oportunidade de ver os divisores de águas.

Politica é coisa muito dura. Jogar xadrez é mais fácil porque tem regras certas.