Arquivo mensais:março 2015

Defendamos a Venezuela em perigo

Por Guilhermo Almeyra | Via Esquerda.net

É ridículo que a Venezuela (ou qualquer outro país latino-americano) possa constituir uma ameaça à segurança da primeira potência mundial e justifique uma emergência nacional dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos, cinicamente, preparam uma enésima aventura político-militar, desta vez contra a Venezuela. É ridículo que esta (ou qualquer outro país latino-americano) possa constituir uma ameaça à segurança da primeira potência mundial e justifique uma emergência nacional. A alegada fundamentação desta medida – existência de presos políticos, restrições à liberdade de imprensa, corrupção de funcionários públicos – é igualmente aberrante, além de prepotente e violadora das leis das nações e dos princípios das Nações Unidas. A corrupção é ampla e existe, mas não é qualitativamente diferente da existente nos países súbditos dos Estados Unidos, como o México, e é uma praga que os próprios venezuelanos podem e devem resolver. Quanto aos supostos presos políticos, estão encarcerados como golpistas ou terroristas ou por atos criminosos comprovados, e além disso a oposição antichavista controla a maioria dos jornais diários e das emissoras existentes no país e difunde as mentiras que quer.

Obama recorda a fábula de La Fontaine sobre o lobo e o cordeiro na qual a fera, que bebia água acima do cordeiro e queria comê-lo, o acusou de sujar-lhe a água e, perante os argumentos lógicos da sua vítima, respondeu: se não eras tu, foi o teu avô!, e lançou-se sobre ele.

A ameaça à Venezuela faz parte da mesma ofensiva que afeta o governo brasileiro de Dilma Rousseff e o de Cristina Fernández, na Argentina. Venezuela, Brasil e Argentina são o pilar do Mercosul e da Unasul que Washington deseja destruir porque têm uma política diferenciada da do seu Departamento de Estado. Os Estados Unidos precisam limpar e pôr em ordem o seu quintal (isto é, derrubar os governos que não sejam, como o do México, agentes servis ainda que tenham políticas capitalistas muito moderadas) para encarar com a retaguarda protegida a preparação do confronto bélico contra a Rússia e a China.

A recuperação da economia norte-americana é débil, frágil, e está ameaçada pelo aumento da crise racial e social. A União Europeia, por sua vez, sofre os efeitos do aumento do dólar, que só a mais longo prazo favorecerá as exportações alemãs, inglesas e francesas mas aumentará a crise social nos países meridionais. O retorno aos Estados Unidos das divisas antes dedicadas à especulação com o petróleo ou com as matérias primas lança gasolina no fogo nos países que exportam esses produtos (como as monarquias árabes, os BRICS, os países emergentes). Assim, enquanto Washington foi derrotado no Iraque, não consegue nada na Síria, na Líbia, no Afeganistão e na Ucrânia e perde pouco a pouco a sua hegemonia (que ainda conserva, sobretudo no plano militar).

Ainda que o capitalismo não esteja ameaçado por uma revolução socialista em nenhuma parte do mundo, está-o pelos movimentos nacionais em defesa da soberania nacional, estejam ou não cobertos por véus raciais ou religiosos, aos quais qualifica de terroristas quando o verdadeiro terrorista é quem invade, bombardeia, ameaça, sabota e mata massivamente desde há décadas. Washington, sobretudo, teme os efeitos que uma catástrofe mundial maior (bélica ou ecológica), provocada pelo lucro dos monopólios à custa de todos e de tudo, poderia ter sobre a decisão e a visão política das grandes massas.

Esse é o sentido da ameaça contra a Venezuela: preparar um possível bloqueio naval, ou bombardeamentos, ou uma invasão de mercenários a partir da Colômbia… se uma rápida contraofensiva diplomática dos países da região e um apoio a Caracas da Rússia ou de Pequim não lhe dificultar a tarefa.

Maduro não é Chávez, que tinha maior sensibilidade e abertura aos trabalhadores. É torpe, pretende lutar contra a extrema direita com o aparelho e as instituições, não enfrenta a burocracia e vê os operários e os camponeses como simples infantaria, que para ele pesa muito menos que os comandos militares, educados num pensamento verticalista e conservador, dos quais depende. Aparte os seus delírios com os pássaros, levado pela verborreia não sabe medir as consequências das suas palavras e assim dá pretextos e armas aos inimigos do processo venezuelano. O seu cesarismo, ao mesmo tempo, afasta-lhe amigos numa esquerda que não sabe distinguir entre um processo social de mudança, confuso e inédito, e a direção transitória do mesmo e é, portanto, ou chavista acrítica ou antichavista cega perante o facto de que o imperialismo ataca a Venezuela por medo do contágio a outros países sul-americanos das experiências venezuelanas de auto-organização popular e não pelas torpezas de Maduro.

Quase metade dos eleitores venezuelanos não são chavistas, e nesse setor só um grupo é pró-imperialista e fascista. Quando Maduro acusa toda a oposição de terrorismo e de servir os Estados Unidos na realidade une, quando o elementar é separar os simplesmente atrasados ou conservadores dos exploradores e agentes da CIA.

Mas os povos não se devem deixar enganar. Os inimigos de Washington não são os governos progressistas (Maduro, Fernández, Rousseff), mas os setores populares que estes ao mesmo tempo controlam, contêm, subordinam e utilizam como apoio. A ação desestabilizadora desses governos procura fazer retroceder ainda mais os trabalhadores e as suas conquistas para ter as mãos livres para aumentar a exploração e os lucros. A ameaça não vai contra Maduro, mas sim contra o nível de consciência e de organização conseguido desde há anos em alguns países a que se quer impor uma situação e um governo do tipo mexicano. É uma ameaça contra todos e além disso faz parte de um plano selvagem que desemboca numa terrível guerra para a qual desde há algum tempo os Estados Unidos se preparam.

Devemos opor-nos fortemente às tentativas destrutivas dos Estados Unidos. Os que, como o governo uruguaio e o seu vice-presidente Raúl Sendic, acham que tirarão proveito do seu vergonhoso papel de lambe-botas, devem ser repudiados porque ajudam os modernos escravizadores.

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Guilhermo Almeyra é historiador, investigador e jornalista. Doutor em Ciências Políticas (Universidade de París VIII), professor-investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México. Jornalista do La Jornada do México.

Cotas raciais; complementos e análise

Por Adriano Lesme | Via Brasil Escola

No Brasil, as cotas raciais beneficiam negros, índios, e algumas universidades destinam parte das vagas para pardos.

O sistema de cotas raciais no Brasil não beneficia apenas os negros. Nas instituições públicas da Região Norte, por exemplo, é comum a reserva de vagas ou empregos para indígenas e seus descendentes.

As cotas raciais são um modelo de ação afirmativa implantado em alguns países para amenizar desigualdades sociais, econômicas e educacionais entre raças. A primeira vez que essa medida foi tomada data de 1960, nos Estados Unidos, para diminuir a desigualdade socioeconômica entre brancos e negros.

No Brasil, as cotas raciais ganharam visibilidade a partir dos anos 2000, quando universidades e órgãos públicos começaram a adotar tal medida em vestibulares e concursos. A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira instituição de ensino no Brasil a adotar o sistema de cotas raciais, em junho de 2004. De lá para cá o número de universidades que possuem ação afirmativa baseada em raças só aumentou e hoje já representa a maioria das universidades federais.

O sistema de cotas raciais no Brasil não beneficia apenas os negros. Nas instituições públicas da Região Norte, por exemplo, é comum a reserva de vagas ou empregos para indígenas e seus descendentes. Algumas universidades também destinam parte de suas vagas para candidatos pardos.

Independente do tipo de cota racial, para ser beneficiada a pessoa precisa assinar um termo autodeclarando sua raça e, às vezes, passar por uma entrevista. A subjetividade dessa entrevista é um dos pontos que mais geram discussão em relação às cotas raciais. Em 2007, gêmeos idênticos foram considerados de raças diferentes ao passarem por uma entrevista na UnB. Um pôde concorrer pelo sistema de cotas raciais, o outro não. Após repercussão do caso na mídia, a UnB voltou atrás e considerou os dois irmãos como sendo negros.

O assunto é bastante polêmico e nada indica que um dia deixará de ser. O Brasil tem atualmente a segunda maior população negra do mundo (atrás apenas da Nigéria) e é inegável que o país tem uma dívida histórica com negros e indígenas. Por outro lado, as cotas raciais já prejudicaram várias pessoas que perderam vagas ou empregos para concorrentes com menor pontuação ou qualificação.

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Tania Jamardo Faillace - As cotas raciais são uma consolidação do racismo, que institui que as pessoas são diferentes umas das outras segundo sua aparência visual.

Também são uma maneira de fomentar o divisionismo dentro do grupo social.
A melhor maneira de combater o racismo, seria banir as fotos de alguns documentos, substituindo-as pelas impressões digitais, muito mais seguras para identificação, e que não classificam aleatoriamente “quem é do meu grupo e quem não é”.

As vagas devem ser ocupadas por quem tem condições de bem aproveitar a formação profissional para devolver esse benefício à sociedade através de serviços qualificados.
O curso superior não deve ser considerado um degrau de promoção social, mas uma obrigação a mais: preparar-se para bem servir.

E não resolve o curso superior, quando o Fundamental não tem qualidade alguma, nem no ensino da primeira habilidade da sociedade letrada, como “ler e escrever com fluência”, e adquirir noções de cidadania e responsabilidade civil.

Que o médico seja branco, cor de rosa, negro, cor de areia, amarelado ou verde, não tem a mínima importância, desde que ele esteja consciente de que não é um ser superior, mas um cidadão a serviço de seu semelhante. E que são seus semelhantes quaisquer outras pessoas, de quaisquer cores ou fortunas ou escolaridade.

A arrogância, que é marca registrada dos que ultrapassam a barreira do vestibular, é indecente e perigosa, pois os empurra a servir à sociedade exclusivista, tenham a cor que tiverem. Veja-se o próprio Pelé, que não fez faculdade, mas atingiu a fortuna e superou barreiras sociais.

Na minha opinião, o Brasil precisa menos de doutores, e mais de técnicos e trabalhadores conscientes, com digno nível de vida. O diploma (frio, porque nossas faculdades são péssimas) é hoje um divisor de águas sociais, e raciais. A raça dos diplomados, e o povo vulgar. Comprovamos isso em campanhas idiotas e corporativas como a exigencia de diplomas para exercer trabalhos que não têm necessidade alguma de bacharelados e, que, pelo contrário, têm produzido uma plêiade de mão-de-obra abaixo da crítica respaldadas contra a concorrência real pelo privilégio do diploma, como é o caso do jornalismo, das relações públicas, da publicidade, etc.

O vestibular deveria acabar, estabelecendo-se um “continuum” desde a pré-escola. Essa progressão ocorrendo a capacidade do aluno em galgar com responsabilidade cada etapa, tendo a oportunidade de repeti-las quando houver necessidade, ao invés da promoção automática, que leva a desastres monumentais para o indivíduo e para a sociedade em geral, socializando a incompetência.

Por que isso não é possível? Pela diferenciação entre escolas públicas e escolas privadas. Esse é um dos nós da questão.
As cota pela aparência visual dos candidatos nunca passou de manobra eleitoreira. Esse é um critério imoral, porque estabelece de cara um preconceito, o sujeito vale pelo que sai na fotografia. Se é bonito, se é feio, se é fisicamente perfeito ou se é deficiente.

Sem fotografia e sem vestibular. A atuação efetiva do indivíduo, seu caráter e seu comprometimento com a coletividade, sim, seriam os verdadeiros critérios para encaminhar a juventude a seus destinos.

Rennan Martins - Discordo frontal e radicalmente desse argumento que se alinha aos mais reacionários ao postular um hipotético racismo inverso. Nosso país tem uma herança escravagista maldita e todos os meios para extinguir o abismo entre brancos e negros são desejáveis. O princípio da igualdade puramente não é o suficiente para praticarmos a justiça, devemos além dele contar da equanimidade, que é tratar os desiguais desigualmente na medida de sua desigualdade. Somente assim conseguiremos, aliando a outras políticas públicas, promover o acesso a academia a todos os setores da sociedade de fato.

A igualdade, principalmente perante as oportunidades de acesso aos serviços públicos, deve ser material e não somente formal.

Mundo terá déficit de 40% de água em 2030 se consumo não mudar

Via Agência Efe

O planeta terá um déficit de água de 40% em 2030 se a forma atual de consumo não mudar, alertou um relatório publicado nesta sexta-feira pela Unesco, que pede que a melhor gestão deste recurso faça parte dos objetivos do planeta da ONU.

O estudo, elaborado por 31 órgãos da ONU sob o guarda-chuva da Unesco, estabeleceu que nos últimos anos houve avanços no acesso à água e ao saneamento no mundo, mas a tensão persiste e será mais evidente por causa do crescimento demográfico.

Em 2030 déficit de água reduzirá 40%. EFE/Gustavo Amador

Por isso, considerou que os objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2016-2030, que devem substituir os Objetivos do Milênio (2001-2015) precisam ser mais ambiciosos na proteção dos recursos hídricos.

Atualmente o plano da ONU só destaca o acesso à água e ao saneamento.

O relatório da Agência da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) pediu que sejam incluídos também a administração dos recursos hídricos, a qualidade de água, a gestão das águas residuais e a prevenção de catástrofes naturais causadas pela água.

A água é fonte de desenvolvimento econômico, que frequentemente precisa de grandes volumes, assim como a agricultura e a produção energética, e precisam de “equilíbrio”, explicou o principal autor do relatório, Richard Connor.

Ainda existem no mundo 748 milhões de pessoas que não têm acesso a água livre de contaminação e as primeiras vítimas são os pobres, os marginalizados e as mulheres, segundo o estudo.

Os autores assinalaram que o setor agrícola, que consome mais quantidade, terá que aumentar sua produção em 60% até 2050, o que provocará mais tensão no acesso à água.

A demanda de produtos manufaturados também crescerá e o relatório assinalou que suas necessidades de água aumentarão 400% nesse período.

A esse aumento da demanda se soma uma gestão defeituosa, que faz com que persista a irrigação intensiva e que muitas águas fiquem contaminadas por causa de pesticidas e produtos químicos perto de leitos fluviais.

Segundo o relatório, 20% das águas subterrâneas do planeta estão sendo exploradas de forma abusiva.

O elemento também sofre com o aquecimento climático, na forma de maior evaporação causada pelo aumento da temperatura, e pela alta do nível do mar que pode afetar reservatórios aqüíferos de água doce.

Todas estas pressões “podem desembocar em uma competição pela água entre diferentes setores econômicos, regiões ou países”.

O relatório também apontou uma “gestão deficiente que, com frequência, cobra um preço inferior ao seu valor real e que não é levada em conta na hora de adotar decisões no setor energético ou industrial”.

“Os esforços realizados por alguns países indicam que é possível conseguir uma melhor gestão e uma utilização mais escrupulosa dos recursos hídricos, inclusive nos países em vias de desenvolvimento”, assinalou o relatório.

Um dos fatores de economia de água preconizados no estudo é o fomento das energias renováveis em vez das centrais térmicas, grandes consumidoras de água e que produzem atualmente 80% da eletricidade do mundo.

Para tomar este tipo de decisão, assinalaram os autores, é preciso que “os poderes públicos possam influenciar nas decisões estratégicas que têm repercussões determinantes na perdurabilidade dos recursos hídricos”.

Outro dos métodos de economia pode ser o subsídio para que a agricultura invista em sistemas de irrigação eficientes, o que atacaria outra das principais fontes de desperdício de água.

Alckmin na Cultura, Aécio na Istoé e a imprensa chapa branca

Por Kiko Nogueira | Via DCM

Um dos efeitos do clima de golpismo deslavado é a falta cada vez mais intensa de decoro da chamado imprensa chapa branca.

O caso da TV Cultura é exemplar, especialmente com o Roda Viva, transformado num palanque. Vide o programa com Eduardo Cunha, em que todos os entrevistadores estavam interessados apenas em saber o que o presidente da Câmara iria fazer depois de depôr Dilma — com destaque para João Dória Jr, que deu um show constrangedor de desinformação e esperteza ao contrário.

No domingo, 22, a Cultura foi além e exibiu um especial chamado Dia Mundial da Água – Uma Reflexão para o Futuro. A ideia era falar de variações climáticas, de como recursos hídricos podiam ser mais bem geridos etc.

Entre os especialistas, havia Carlos Alberto Nobre, doutor em ecologia e mudanças globais, Joaquim Guedes Filho, superintendente da Agência Nacional de Águas, ANA — e Geraldo Alckmin.

Sim, Alckmin, responsável por uma das maiores crises hídricas na história de São Paulo. O governador que não tem a menor noção do que faz e que deixa isso claro em cada declaração que dá. Mentiu para os eleitores durante a campanha e continua mentindo.

Chamar Alckmin para falar de água é como convocar Idi Amin Dada para dissertar sobre Direitos Humanos. De maneira inversa, o sujeito sabe tudo do assunto.

O aparelhamento da Cultura levou a absurdos como esse, pagos pelo contribuinte. Achava-se que o fim da picada já havia sido a transmissão ao vivo da posse de Geraldo comentada por Marco Antonio Villa, o historiador pitbull. Na ocasião, Villa usou seu tempo no ar em sua mono obsessão: detonar o governo federal. Villa, veja que coincidência, é o comentarista do principal telejornal da emissora. Ninguém acha estranho o fulano dando pitacos na entronização do chefe.

A cara dura é do mesmo tamanho que a da Istoé. Nesta semana, a revista que publicou as pesquisas mais absurdas durante as eleições, em que Aécio aparecia com 790 pontos à frente, traz uma entrevista com o senador mineiro.

É provável que a Istoé tenha seguido o protocolo aecista: tudo combinado. Não que fosse necessário, já que a intenção de fazer uma entrevista de verdade parecia não estar em questão.

Na quinzena em que Aécio Neves foi citado pelo doleiro Youssef num depoimento, poucos dias após um deputado tucano pedir cinicamente a extinção de partidos envolvidos em corrupção, o que se viu foi um espetáculo de levantamento de bola.

A primeira pergunta: “Multidões protestam contra o governo, as investigações da Lava Jato trazem novas revelações todos os dias e o ministro da Educação, Cid Gomes, foi demitido depois de dizer que mais de 300 parlamentares são achacadores. O que está acontecendo com o Brasil?”

A segunda: “Qual é a saída para a crise?”

Neste momento a conversa teve de ser interrompida por um coro de passarinhos carregando uma faixa com o nome dele, o homem, o mito, o cavaleiro da esperança, o cara: Aécio Neves.

1967: A CIA cunhou a expressão “teóricos da conspiração”

Via Pravda

1967: a CIA cunhou a expressão “teóricos da conspiração”, como ferramenta para atacar quem desmentisse narrativas ‘oficiais’. Antes, os teóricos da conspiração eram gente como a gente.

A democracia e o capitalismo de livre mercado nasceram sobre a base de teorias de conspiração.

A Magna Carta, a Constituição e a Declaração de Independência e outros documentos ocidentais fundacionais nasceram de teorias conspiracionais. A democracia grega e o capitalismo de livre mercado, idem.

Mas, isso, só naqueles velhos maus tempos. Depois, tudo mudou.

Em 1967, a CIA cunhou a expressão ‘teóricos da conspiração’

Nos anos 1960, tudo mudou.

Exatamente em abril de 1967, a CIA redigiu um despacho, no qual cunhou a expressão “teorias da conspiração” (…) e recomendou práticas para desacreditar tais teorias. O despacho/memorando levava um carimbo, “psico”, fórmula abreviada para “operações psicológicas” ou “ação de desinformação”; e outro carimbo, “CS”, sigla da unidade de “Clandestine Services” da CIA.

O despacho da CIA foi redigido em resposta ao requerimento de informações feito a uma corte judicial, nos termos do Freedom of Information Act ["Lei da Liberdade de Informar"], pelo jornal New York Times, em 1976.

A CIA, naquele documento diz que:
2. Essa tendência é motivo de preocupação para o governo dos EUA, inclusive para nossa organização.

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O objetivo desse despacho é oferecer material que contradiga e desacredite os argumentos dos teóricos da conspiração, e também inibir a circulação dessas opiniões em outros países. Aqui se oferece informação de fundo, apresentada em seção sigilosa, e vários anexos não sigilosos.

3. Ação. Não recomendamos que a questão [conspirações] seja iniciada onde já não esteja implantada. Onde a discussão já esteja ativada são indispensáveis algumas medidas:

a. Discutir publicamente o problema com contatos amigáveis na elite (especialmente políticos e editores de imprensa), mostrando que [a investigação oficial do evento em discussão] foi investigação tão exaustiva quanto humanamente possível; que as acusações dos críticos não têm qualquer fundamento; e que mais discussões sobre o tema só favorecem a oposição. Deve-se também destacar as partes das conversas sobre alguma conspiração que mais pareçam deliberadamente geradas por propagandistas.

Conclamar aquelas elites para que usem a influência que têm e desencorajem qualquer especulação sem fundamento e irresponsável.

b. Usar todos os recursos de propaganda acessíveis para refutar os ataques vindos dos críticos. Colunas assinadas por especialistas amigáveis e resenhas de livros são especialmente adequadas para esse objetivo. Os anexos desse documento de orientação contêm material útil para ser passado aos agentes.

Nosso discurso deve destacar, sempre que couber, que os críticos (I) já diziam a mesma coisa antes de haver qualquer indício ou prova; que (II) têm interesses políticos; que (III) têm interesses financeiros; que (IV) dizem qualquer coisa, sem qualquer pesquisa ou investigação que o comprove; ou que (V) só dão atenção a teorias que eles mesmos inventem.

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4. Em contatos privados com a mídia, não dirigidos diretamente a qualquer jornalista, colunista ou editor ou escritor em particular, ou para atacar publicações que ainda não estejam nas ruas, os seguintes argumentos podem ser úteis:

a. Não surgiu nenhuma nova prova, que a Comissão de investigação não tenha considerado.

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b. Regra geral, os críticos sobrevalorizam itens específicos e ignoram outros. Tendem a dar mais ênfase às lembranças de testemunhas individuais (sempre menos confiáveis e mais divergentes – e, portanto, mais vulneráveis a críticas) (…)

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c. Seria impossível ocultar as grandes conspirações seguidamente sugeridas nos EUA, especialmente porque os informantes poderiam ganhar muito dinheiro se denunciassem as conspirações, etc.

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d. Os críticos sempre são tomados por alguma espécie de vaidade intelectual: falam de uma teoria e apaixonam-se por ela para sempre; e criticam os investigadores porque nem sempre respondem com prova cabal e decisão absoluta numa direção ou noutra.

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f. Quanto a acusações de que os relatórios da comissão de investigação seria serviço apressado, sem cuidado: só foi distribuído três meses depois do prazo marcado inicialmente. Mas a Comissão muito se esforçou para apressar a divulgação do relatório; o atraso explica-se pela pressão de especulação irresponsável que já surgia antes até do relatório ser conhecido, em alguns casos vinda dos mesmos críticos que, se recusando a admitir os próprios erros, aparecem agora com novas críticas.

g. Acusações vagas como “mais de dez pessoas morreram misteriosamente” sempre podem ser explicadas por via natural(…).

5. Sempre que possível, reagir contra a especulação forçando a referência ao próprio relatório da Comissão. Leitores estrangeiros de mentalidade aberta sempre podem ser impressionados pelo cuidado, atenção, objetividade e velocidade do trabalho da Comissão de Investigação. Especialistas em resenhar livros para a imprensa, devem ser encorajados a acrescentar, ao que digam sobre [seja o que for], a ideia de que, recorrendo sucessivas vezes ao texto do relatório da comissão de investigação, perceberam que o relatório foi trabalho muito mais bem feito que o trabalho dos que o criticam.

Aqui se veem fotos de parte do memorando da CIA.
Resumo das táticas que o despacho/memorando da CIA recomendava, contra os ‘teóricos da conspiração’:

- Diga sempre que seria impossível que tanta gente mantivesse segredo sobre alguma grande conspiração

- Consiga que pessoal amigável ataque as ideias de conspiração, e insistam na ideia de repetir sempre o relatório da comissão de investigação

- Diga sempre que testemunho ocular não é confiável

- Diga sempre que são notícias velhas [porque] “não surgiu nenhuma nova prova”

- Ignore completamente o que se diga sobre conspirações, exceto se a discussão já estiver ativa demais

- Diga sempre que especular é comportamento irresponsável

- Acuse os teóricos da conspiração de serem vaidosos de suas próprias ideias e de não serem capazes de superá-las

- Acuse os teóricos da conspiração de terem motivação política

- Acuse os teóricos da conspiração de terem interesses financeiros na promoção de teorias de conspirações.
Em outras palavras, a unidade de serviços clandestinos da CIA criou argumentos para atacar o que chamou de ‘teorias de conspirações’ e ‘declará-las’ não confiáveis, nos anos 1960s, como parte de suas operações de guerra psicológica.

Mas teorias da conspiração são de fato… total piração?

[...] Evidentemente não. Por exemplo, o esquema Ponzi de Bernie Madoff foi um crime de conspiração, movido por uma teoria daquela específica conspiração.

Conspirar é crime muito claramente tipificado na lei norte-americana, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de Direito como item do currículo básico. Dizer a um juiz que alguém está envolvido numa “teoria de conspiração” é como dizer em juízo que o sujeito matou, roubou, invadiu propriedade alheia, roubou um carro. É conceito legal claro e conhecido.

Madoff não é o único. Diretores da Enron foram também condenados por crime de conspiração, e também do diretor de Adelphia [há muitos e muitos casos de funcionários do estado também condenados pelo mesmo crime.

Justin Fox, colunista de finanças da Time Magazine escreve:

Algumas conspirações no mercado financeiro são reais (…) Muitos bons repórteres investigativos são teóricos de conspirações, por falar nisso.

E também são criminosos, pela prática do crime de conspiração – desde que os crimes sejam denunciados e provados e os réus sejam condenados – a Agência de Segurança Nacional e as empresas de tecnologias que ajudem na prática do crime (se algum dia forem condenadas).

Mas “nossos líderes NUNCA fariam tal coisa…”

Embora já haja quem admite que empresários e funcionários de baixo escalão possam envolver-se em conspirações – ainda há muita gente que resiste à ideia de que os mais ricos e os muito poderosos também podem ter praticado o crime de conspirar.

Verdade é que até os mais poderosos conspiram; alguns até confessaram. Por exemplo, o administrador do Gabinete de Informações e Assuntos de Regulação do governo Obama, Cass Sunstein, escreveu:

Claro que algumas teorias conspiracionais, conforme nossa definição, comprovaram-se verdadeiras. O quarto do hotel Watergate usado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata foi realmente invadido e teve instalados equimentos para escuta clandestina, por funcionários do Partido Republicano a mando da Casa Branca. Nos anos 1950s, a CIA realmente administrou LSD e outros alucinógenos a participantes do Projeto MKULTRA, para investigar possibilidades de “controle da mente”. A Operação Northwoods, muito discutido plano do Departamento de Defesa para simular atos de terrorismo e culpar a Cuba, foi realmente proposto, como conspiração, por funcionários de alto escalão do governo.

Mas “alguém teria dado coa língua nos dentes”…

Argumento sempre repetido por quem queira desviar a atenção de uma investigação, ‘diagnosticando’ alguma ‘conspiração’ no ar é que “alguém teria dado com a língua nos dentes”, caso houvesse ali realmente alguma conspiração.

Quem explica é o conhecido demolidor de metiras e whistleblower Daniel Ellsberg:

Ouve-se muito que “não se consegue guardar segredos em Washington” ou que “numa democracia, não importa o quanto o segredo seja sensível, é provável que, dia seguinte, seja publicado no New York Times.” Não há tolice maior, nem truísmo mais falso. Há, sim, estórias ocultadas, meios para enganar e desviar a atenção de jornalistas e leitores, que são parte do processo para encobrir o que é realmente secreto. Claro que eventualmente muitos segredos acabam por ser revelados, que talvez não fossem jamais revelados numa sociedade absolutamente totalitária. Mas a verdade é que a vastíssima maioria dos segredos jamais chegam ao conhecimento da opinão pública norte-americana. É verdade mesmo quando a informação ocultada é bem conhecida de algum inimigo e quando é claramente essencial para a operação do poder de guerra do Congresso e para algum controle democrático sobre a política externa.

A realidade desconhecida do público e de muitos membros eleitos do Congresso e da imprensa é que segredos da mais alta importância para muitos deles podem, sim, permanecer confortavelmente ocultados por autoridades do Executivo durante décadas, mesmo que sejam bem conhedicos por milhares de insiders.

A história prova que Ellsberg tem razão. Por exemplo:

- 130 mil pessoas, de EUA, Grã-Bretanha e Canadá trabalharam no Projeto Manhattan. O segredo foi mantido durante anos.

- Documentário da BBC mostra que:

Houve uma tentativa de golpe nos EUA em 1933, organizado por um grupo de empresários norte-americanos de extrema direita (…) O golpe pretendia derrubar o presidente Franklin D Roosevelt, com o auxílio de meio milhão de veteranos de guerra. Os golpistas, entre os quais estavam algumas das mais famosas famílias norte-americanas (proprietários de Heinz, Birds Eye, Goodtea, Maxwell Hse & George Bush [avô], Prescott) acreditavam que o país devesse adotar políticas de Hitler e Mussolini para superar a grande depressão.”

Mais que isso, “os magnatas disseram ao general Butler que o povo norte-americano aceitaria o novo governo, porque aquelas famílias controlavam todos os jornais”. Alguém ouvira falar, antes, dessa conspiração? Com certeza foi conspiração vastíssima. E, se os golpistas controlavam a imprensa-empresa naquele momento, muito mais controlam hoje, com as empresas-imprensas já ‘consolidadas’.

- sete 7 de oito bancos gigantes quebraram nos anos 1980, durante a “Crise latino-americana”, e a resposta do governo foi ocultar a insolvência. A ocultação-falcatrua durou várias décadas

- bancos foram envolvidos em comportamento criminoso sistemático e manipularam todos os mercados

- há 50 anos governos encobrem derretimento de núcleo radiativo de usinas nucleares, para proteger a indústria nuclear. Governos sempre operaram para encobrir a gravidade de inúmeros outros eventos com comprometimento do meio ambiente. Durante muitos anos os funcionários do Texas intencionalmente informaram índices diminuídos de radiação na água potável, para evitar ter de notificar violações das normas.

- A vigilância ilegal do governo dos EUA sobre os cidadãos começou sete meses antes do 11/9 (confirmado here e here. E vejam essa discussãogravada há mais de 30 anos.) Mas o público só soube sobre isso muitos anos depois. Na verdade, o New York Times adiou a publicação, de modo que não afetasse o resultado da eleição presidencial de 2004.

- A decisão de iniciar a guerra do Iraque foi tomada antes do 11/9. De fato, o ex-diretor da CIA George Tenet disse que a Casa Branca queria invadir o Iraque desde muito antes do 11/9, e inseriu “lixo” em suas justificativas para invadir o Iraque. O ex-secretário do Tesouro Paul O’Neill – membro do Conselho de Segurança Nacional – também diz que Bush planejou a guerra do Iraque antes do 11/9. E altos funcionários britânicos dizem que os EUA discutiram mudança de regime no Iraque um mês antes de Bush ser empossado. Dick Cheney ao que parece até converteu os campos de petróleo iraquianos em prioridade nacional dos EUA antes do 11/9.

E há muito tempo se sabe que um punhado de pessoas foi responsável por deliberadamente ignorar as muitas evidências de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. São fatos que só recentemente foram abertos para conhecimento público. De fato, Tom Brokaw até explicou que “todas as guerras são baseadas em propaganda”.

E esforço organizado para gerar propaganda é uma conspiração – e é crime nos EUA.
(…) A admissão sempre ocorre várias décadas depois dos eventos. O que mostra que, sim, é possível manter conspirações em segredo por muito tempo, sem que alguém “dê coa língua nos dentes”.

(…) Além do mais, os que supõem que conspiradores dariam com a língua nos dentes esquecem que pessoal militar ou de inteligência – e quem tenha quantias gigantescas de dinheiro investido numa ‘operação’ secreta – tende a ser muitíssimo disciplinado. Dificilmente se embebedam num balcão de bar e põem-se a contar ‘vantagem’ do que fazem e de quem conhecem…

Por fim, pessoas que se envolvem em operações clandestinas podem fazê-lo por profunda convicção ideológica. Jamais subestime a convicção de um ideólogo!

Conclusão

A conclusão disso tudo é que há conspirações inventadas, mas há conspirações reais. Umas e outras têm de ser avaliadas pelos fatos que lhes dão forma. (…)

Quem opera longe dos contrapesos e controles democráticos – e sem a força desinfetante da luz do sol da supervisão democrática – tende a pensar mais nos próprios interesses; e os mais fracos são os mais prejudicados. (…) Gente de poder podem não ser más pessoas. Mas podem ser sociopatas, bandidos, doidos perversos.

Na dúvida, se alguém tentar dissuadi-lo de investigar, e acusá-lo de ter sucumbido a alguma ‘ridícula teoria da conspiração’ – expressão que a CIAinventou para afastar bons cidadãos de boas investigações – não pare, não veja, não ouça (a CIA) e… investigue mais e mais.

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Original em inglês disponível em: http://www.zerohedge.com/news/2015-02-23/1967-he-cia-created-phrase-conspiracy-theorists-and-ways-attack-anyone-who-challenge

Algumas verdades sobre a Lava Jato e a corrupção

Por Ricardo Bergamini

Na década de 1980 fui executivo financeiro da IESA – Internacional de Engenharia S/A, empresa onde conheci o meu amigo pensador Paulo Rabello de Castro (palestrante de economia), que é uma das empresas investigadas pela operação lava jato. Posso afirmar que não há nada de novo no que já era feito naquela época, ou seja: fazer parte de um clube de empresas para participar do rodízio, colocar um “over price” nos contratos e a cada recebimento de fatura repassar o valor do “over price” para uma empresa de consultoria indicada pelo contratante (na minha época eram empresas que aprovavam a qualidade da obra denominada de teste de aceitação). Cabe lembrar que: essa prática era adotada por todas as empresas estatais e governos e não existe outra forma de trabalhar já que a regra era institucional.

A regra era tão institucional que o presidente da IESA na época era o Dr. Sérgio Franklin Quintela, que hoje é um dos membros do conselho de administração da Petrobrás.

Quanto a Petrobrás sugiro pesquisar artigos do jornalista Paulo Francis, escritos na década de 90, onde sempre denunciou para o vento a corrupção na Petrobrás. Por isso o CAZUZA foi muito feliz ao afirma que o Brasil era um museu de grande novidade, ou seja: todos diariamente nos indignamos com fatos antigos e repetitivos (anões do orçamente, Carlinhos Cachoeira e a Delta, etc).

Como toda a minha vida profissional foi vivida dentro da área financeira das empresas e dos bancos poderia escrever um livro sobre corrupção.

Temos que admitir que vivemos em um país com deformação cultural do cinismo e da hipocrisia, haja vista que todos criticam a sonegação de impostos, ao mesmo tempo em que todos sabem que não há como manter nenhuma atividade econômica sem sonegar impostos.

Para encerrar o meu depoimento devo dizer que concordo plenamente com senhor Paulo Roberto Costa (ex- Diretor da Petrobrás) quando afirma em seu depoimento que não existe doação legal para partidos e políticos. Inexoravelmente todas tem como origem a corrupção. O resto é debate de bêbados. Diga-se de passagem, não podemos nos esquecer que foram as mesmas palavras ditas pelo Paulo Cesar Faria tesoureiro do Collor em 1992. Mais uma vez o museu de grandes novidades.

Os dois problemas do Brasil: a direita de dentro e a direita de fora

Por Luciano Wexell Severo | Via Carta Maior

Uma mistura explosiva de direita política raivosa, elite reacionária, imprensa golpista e um governo rendido ao capital especulativo internacional.

Certamente existem muitos problemas no Brasil. Mas, hoje, há dois que poderiam ser considerados os principais. São gravíssimos e imensos. O primeiro é representado pela mistura explosiva de uma direita política raivosa, uma elite reacionária, uma imprensa golpista e uma massa supostamente apolítica. A elite controla a imprensa, a direita controla o parlamento e a imprensa controla a massa. O chamado terceiro turno continua e promete atormentar um governo que recém inicia. A oposição já tentou deslegitimar os resultados das urnas. Depois, fez de tudo para impedir a posse. Agora, quer ganhar no tapetão. O candidato derrotado à vice-Presidência pelo PSDB transpareceu a linha de ação ao expelir que, mais importante do que impeachment, agora o plano é “sangrar a Dilma”.

Os jornalões se atrapalharam feio ao combinar com os policiais a quantidade de presentes nas ruas no dia 15 de março. Ainda assim, foi uma jornada importante. Levar quase duzentas mil pessoas à avenida Paulista tem algum valor. Mesmo que, em sua imensa maioria, se trate de uma elite branca, conservadora, moralista, alienada e noveleira. Foi como um rolezinho de gente diferenciada. Muitas socialites, artistas de reality shows, modelos acompanhantes de luxo, ex-jogadores de futebol, cantoras de músicas de rodeio e descendentes de militares torturadores. Também compareceu o desacreditado ex-cantor Lobão, que havia prometido ir para Miami em caso de nova vitória progressista, em 2014, e ainda não cumpriu.

As gravações dos depoimentos, disponíveis nas redes sociais, demonstram que o mote dos gritos raivosos foi a ameaça comunista, o perigo da revolução, a cubanização e a venezuelanização do Brasil, uma iminente ditadura marxista e o avanço do exército do MST. Sem qualquer vergonha do ridículo, os entrevistados repetiam chavões dignos do período mais assado da Guerra Fria, com meio século de demora. Uma das saídas para o país seria a intervenção militar, bradavam musculosos truculentos, senhoras com uniformes camuflados e moças disfarçadas de Barbie. “Os militares devem assumir o poder até a realização de novas eleições”, recomendava uma jovem de 35 anos, estreante em protestos de rua, que se mostrava fascinada por conhecer o metrô. As explanações são dignas de internação por demência ou até de prisão por incitação ao golpe de Estado.

Esta é a nossa elite culta, estudada e viajada, protetora da sua propriedade privada, sedenta da sua democracia e forjadora da sua liberdade. A cada movimento, exala remordimento e intolerância por ter perdido, na última década, uma reduzida parcela de sua condição de VIP. Não admite que negros e brancos ex-pobres estejam viajando de avião. Não entende como que um ser sem pedigree nem sangue azul possa comprar um carro ou um apartamento com financiamentos do Estado. Não aceita que os filhos de empregadas domésticas, agora melhor amparadas pela lei, estejam estudando medicina nas universidades públicas. Não percebe minimamente o lugar do Brasil no mundo e nem a importância da integração da América do Sul. Contraditoriamente, se vestem de verde e amarelo e cantam o hino nacional, demonstrando um falso nacionalismo, como fizeram seus generais Dutra, Médici e Costa e Silva, além de tantos outros subalternos.

A raiva, o rancor e a cegueira impedem que muitos brasileiros vejam as transformações do país nos últimos 12 anos. Há quem fique triste com o progresso dos outros. Não enxergam ou menosprezam a construção de milhões de residências populares, a geração de milhões de empregos com carteira assinada, o acesso de milhões à eletricidade subsidiada, a inauguração e a potencialização de universidades públicas e de qualidade, a expansão do SUS e o lançamento do “Mais Médicos”, o aumento do poder de compra do salário mínimo, a ativação do mercado interno e a política externa altiva, entre outras conquistas. Nas passeatas, faixas diziam que “Lula e o PT quebraram o Brasil”, sem saber (ou apagando da memória) que, nos anos 1990, o desgoverno de FHC – com o apoio da grande imprensa e de maioria da elite – privatizou o Estado e colocou a economia brasileira de joelhos para o FMI.

As manifestações de 15 de março foram majoritariamente de direita, reacionárias, rancorosas, tristes, conservadoras e racistas. Dizer que o povão insatisfeito estava na rua se trata de um oportunismo deslavado ou de fanatismo anti-Dilma. Além do medo do “comunismo”, o escudo para as mobilizações segue sendo a sigla ICIA (a Inflação, a Corrupção, a Insegurança e o Autoritarismo). Este vem sendo o lema usado pela direita golpista no Brasil, na Argentina, na Venezuela e nos países onde a elite atada ao imperialismo decidiu partir para a ofensiva. É como se a corrupção, que deve ser julgada, tivesse surgido agora. Seguindo o mesmo script moralista da UDN, os maiores corruptos estão denunciando a corrupção.

Mas, e as escandalosas privatizações dos anos 1990? E o caso da telefonia e do grampo do BNDES? E os tucanos Sérgio Motta e Mário Covas? E o propinoduto de Serra e Alckmin? E o mensalão mineiro de Aécio, Azeredo e Anastasia? Naquela época a Polícia Federal e o Ministério Público não podiam investigar como hoje. Os presentes na caminhada dominical da Paulista e de Copacabana não querem saber de corrupção. Querem cortar a cabeça de Lula, do PT e do progressismo. Além disso, é como se a inflação de 7% fosse algo totalmente inaceitável. É inaceitável para o sistema financeiro, que exige a elevação dos juros. O povão ainda não foi para a rua. Não foi exatamente porque é uma parcela da elite tupiniquim a que sobredimensiona a sigla ICIA, bandeira internacional de luta contra os governos progressistas.

No entanto, como se este primeiro problema não fosse imensamente complexo, ainda há um segundo: o governo de Dilma está se distanciando dos seus eleitores e, cada vez mais, rendendo-se aos interesses do capital especulativo internacional e à teologia do mercado. Cada vez que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy Mãos de Tesoura, aparece na mídia é para fazer alguma macaquice tentando alegrar aos seus patrões do sistema financeiro. As declarações que faz têm a função primordial de sinalizar ao mercado que este conta com um aliado incondicional. Economista convencional e ortodoxo, Levy não representa os interesses do Brasil nem dos brasileiros, mas dos seus amos banqueiros e especuladores.

O atual ministro da Fazenda possui estreitos vínculos com o FMI, o BID e o Banco Central Europeu. Serviu ao governo de Fernando Henrique Cardoso e, ultimamente, trabalhou para o Bradesco. Apesar de a presidenta Dilma tentar argumentar o contrário, sem crescimento, a política de valorização do salário mínimo e os programas sociais tendem a ser seriamente comprometidos. O ajuste não é a única opção. É a alternativa mais custosa para a grande maioria dos brasileiros e a mais covarde para a coalizão no governo. Além de covarde, nesta altura do campeonato, é suicida.

Normalmente, os ajustes aprofundam os problemas econômicos, sociais e políticos. Quase sempre, a mal chamada austeridade recai sobre os trabalhadores, a classe média e o setor produtivo, reduzindo as margens de crescimento. O ajuste e a suposta austeridade só serviriam para beneficiar ainda mais o mercado financeiro, que exige taxas de juros altas e o fiel pagamento da dívida pública. Como bem se sabe, isto já vem ocorrendo. Nos ajustes neoliberais, os gastos cortados são com pessoal, com investimentos e com a infraestrutura social. As despesas reservadas para o pagamento de dívida são crescentes e consideradas intocáveis. Por isso, há histeria com relação ao superávit primário, diminuem os investimentos públicos e continuam subindo as taxas de juros. Somente depois da eleição, a SELIC foi elevada em quatro ocasiões. Este aumento serve especialmente para encher as arcas do setor bancário, mas encarece o crédito, reduz o consumo, freia o comércio e desestimula a produção.

A preocupação central da coalizão de poder governante não é com a economia nacional ou com o desenvolvimento das forças produtivas internas. Até agora, a proposta governamental expressava uma ideia vaga de crescimento com transferência de renda, em que todos ganhassem. De fato, foi promovida a melhoria dos indicadores sociais e a ampliação das oportunidades dos mais pobres via transferência de recursos financeiros oriundos de um crescente processo de desnacionalização. Os rendimentos foram um pouco melhor distribuídos, mas não houve melhora na divisão da riqueza e continuaram praticamente livres de impostos os grandes detentores do capital, as maiores fortunas, os latifundiários, as heranças e os exportadores de bens primários. Mas esta estratégia é finita e insustentável. Aliás, o PIB já vem ribanceira abaixo.

Recentemente, vêm sendo ampliadas as concessões de estruturas públicas para usufruto de privados nacionais e estrangeiros. No dia 8 de março, Dilma prometeu, em rede nacional de rádio e televisão, continuar com esta política. Seguindo um caminho oposto ao dos países que historicamente buscaram o desenvolvimento das forças produtivas e uma maior autonomia internacional, o Brasil cede o controle de portos, ferrovias, aeroportos, estradas, hidrelétricas e termoelétricas para conglomerados privados nacionais e empresas estrangeiras. E a maioria dos recursos utilizados pelas concessionárias privadas é oriunda do próprio BNDES. Ou seja, o banco público voltou a financiar um processo de privatização e de desnacionalização da infraestrutura. A economia brasileira, subdesenvolvida e pobre, está financiando as maiores empresas e bancos do mundo.

A retomada do crescimento depende de políticas anticíclicas. Depende do Estado, do planejamento, do fomento à industrialização e da expansão do poder de compra dos trabalhadores. No entanto, na mais recente entrevista de Levy, fica claríssima a sua interpretação: o Capitalismo de Estado, disse, é incompatível com a democracia. Com um discurso de professor de microeconomia de quarta-categoria, falando em termos de homem econômico racional, o ministro considera que o mercado sim seja democrático. “O que a gente tem que fazer é ter preços adequados, que motivem as pessoas a tomarem decisões que vão levar ao crescimento”. Aí fica complicado.

Hoje em dia, os temas centrais da pauta política no Brasil são essencialmente conservadores e sequer se aproximam de assuntos cruciais como reforma agrária e impostos sobre o agronegócio; auditoria da dívida pública; suspensão e revisão das concessões de estruturas públicas para usufruto de privados nacionais ou estrangeiros; fim da ditadura dos meios de comunicação por parte de conglomerados familiares; suspensão do incentivo aos “campeões nacionais” e ao “clube do bilhão”, via financiamentos públicos para oligopólios privados (construção civil, alimentos, siderurgia, bancos, etc.); interrupção dos créditos benevolentes do BNDES para empresas transnacionais instaladas no Brasil; estatização e criação de empresas públicas em setores estratégicos da economia; controle protecionista da taxa de câmbio; redução das taxas de juros; entre outras medidas que são essenciais para que o país cresça, se democratize e se posicione mais soberanamente no cenário mundial.

Mas, de tão longe da realidade atual, a agenda comentada no parágrafo anterior, elementar para a edificação de um projeto de desenvolvimento e de maior autonomia, soa excêntrica e até lunática. Na vida real de Pindorama, a ministra de Agricultura é a senadora Kátia Abreu; os processos de auditoria da dívida pública, realizados na América do Sul e pelo mundo afora, são ignorados; as experiências de leis de democratização dos meios de comunicação, adotadas em diversos países, são menosprezadas. O BNDES libera financiamentos milionários para conglomerados estrangeiros expandirem seus oligopólios e ampliar a drenagem de recursos brasileiros para o exterior. Em um movimento temerário, o governo vem ampliando as margens de participação de capitais estrangeiros no Banco do Brasil e, recentemente, anunciou que abrirá essa possibilidade no caso da Caixa Econômica Federal. A Embrapa caminha no mesmo sentido.

Os volumosos financiamentos do BNDES bem poderiam servir para promover uma industrialização soberana, com empresas estatais ou de capital privado nacional de porte pequeno e médio. Ao invés disso, o dinheiro público vem sendo utilizado para fortalecer pouquíssimos grupos econômicos em setores estratégicos. Agora, esses conglomerados disputam a liderança dos mercados da região e do mundo. O caso das empreiteiras é igualmente escandaloso: ao invés de serem severamente punidas, as gigantes pegas com a mão na massa receberão novos empréstimos públicos para serem “salvas”.

A única saída possível para o governo de Dilma seria pela esquerda. Há poucos meses, as eleições foram vencidas por reduzida margem, com o apoio do povão contra os setores conservadores respaldados pelos grandes conglomerados da mídia. Mas a candidata eleita prometeu não fazer o que, agora, já está fazendo. Assim como havia prometido, em 2010, não entregar o pré-sal aos estrangeiros e o entregou na base da repressão aos manifestantes contrários. Seguir sacrificando o Brasil no altar dos especuladores e das multinacionais só piorará a situação. O ajuste ortodoxo e neoliberal de Joaquim Levy gerará constrangimentos crescentes e fará transbordar a insatisfação até os setores populares. E, aí sim, será um Deus nos acuda.

Um eventual fracasso do progressismo brasileiro teria grandes consequências não apenas para a construção de um país mais democrático e justo. Também haveria forte impacto negativo sobre os vizinhos latino-americanos que, mesmo com muito menos condições materiais que o Brasil, apostam em continuar trilhando um caminho de desenvolvimento autônomo e de inserção soberana no cenário mundial. Caso o governo não reverta o rumo e estabeleça outra agenda, Dilma poderá entrar para a história como a maior responsável por encerrar o áureo período de mudanças iniciado por Lula em 2003. Neste momento, apesar da crescente ofensiva da direita, respaldada pelos grandes meios de comunicação e pelo imperialismo, já parece muito difícil resgatar a coalizão governante do triste encanto das agências de classificação de risco, da panaceia do IDE e do sortilégio do deus mercado. Com as medidas corretas, o primeiro problema poderia ser contornado ou neutralizado. Com ajuste neoliberal, a restauração conservadora se vislumbra no horizonte.

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Leonardo Wexell Severo é professor do curso de Economia, Integração e Desenvolvimento da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). luciano.severo@unila.edu.br .