Arquivo mensais:março 2015

Diálogos Desenvolvimentistas: O rebanho do Capital e a nova ordem mundial

Movidos pelo artigo intitulado Sobre como o capital aprendeu a se manifestar, do economista e associado Heldo Siqueira, os também integrantes da ADB, Adriano Benayon, doutor em economia e Tania Faillace, jornalista e escritora, teceram suas impressões e complementos sobre a dinâmica do Capital imperialista e seus projetos de domínio global.

Adriano Benayon – Não é o capital que se manifesta. Ele faz o seu gado manifestar-se para alcançar os fins, bem concretos que objetiva: saquear a economia do País, como vem fazendo em escala crescente, arrebatar o pré-sal e talvez a Petrobrás de quebra, eventualmente pôr no Executivo uma direção ainda mais submissa e por aí vai.

Eu subscreveria as palavras da Tania sobre os métodos dos concentradores capitalistas, inclusive quanto à bagunça que promovem, bem como o interesse deles em desestruturar a sociedade.

Apenas, mais uma vez, proponho que se dê o nome aos bois: não é o neoliberalismo. São os banqueiros, os cartéis industriais, em geral transnacionais. O neoliberalismo não é coisa alguma concreta, não é imputável: é só uma teoria, a teoria que muita gente, especialmente da esquerda, diz ser a da direita “liberal”, i.e., a não assumidamente totalitária (não-totalitária para outros verem, pois os ingleses ou angloamericanos são eles).

Devemos, a meu ver, negar que o que esteja em prática no Brasil seja liberal. Não é liberal. É intervencionista, dirigista. Só que muitos da esquerda desejam, com razão, que o Estado seja dirigista, para corrigir as desigualdades sociais, promover o desenvolvimento através dos investimentos públicos, política de defesa da concorrência etc., e se acostumaram a ver a oposição dos beneficiários da concentração e do saqueio ao dirigismo, ao intervencionismo para esses fins.

Mas os concentradores não são nada, do ponto de vista doutrinário: eles, piores que feras predadoras, só cuidam de acumular mais recursos e mais poder, e sem o cuidado das feras de não acabar com a caça.

Portanto, na prática, são protecionistas quando se trata de defender seus mercados cativos e liberais quando desejam penetrar nos que não dominam. São intervencionistas para fazer que o “governo”, sua marionete, estabelece, no Brasil, juros absolutamente absurdos, cuja composição basta para arrasar definitivamente a economia, se perdurar mais alguns anos. Também são intervencionistas quando fazem os Tesouros e os BACENs nos EUA e na Europa salvarem os bancos delinqüentes e aproveitadores da farra dos derivativos que desembocou no colapso financeiro. São intervencionistas no Brasil quando estabelecem favores fiscais e subsídios incríveis, em todos os níveis da Federação, em benefício de seus cartéis industriais transnacionais.

Já disse que não estou insistindo nesta ordem de ideias por diletantismo, ou meramente por prazer intelectual. Penso que estamos precisando urgentemente de ampliar o espectro dos que compreendem o que está em jogo. Não conseguiremos nem sequer iniciar as conversas, se não focarmos as questões no seu aspecto real, substantivo. Abordando-as sob óticas ideológicas, o império continuará triunfante, assistindo de camarote as brigas irreconciliáveis de direita e esquerda, socialistas e liberais etc., enquanto mete a mão sem qualquer restrição.

Voltando à desestruturação, à bagunça, o que me parece importante estar bem presente nas consciências é que as manifestações de rua são telecomandadas pelos concentradores para obter mais castanhas com as mãos dos gatos que vão às ruas, juntamente com as mãos de juízes e parlamentares, como antes também com as mãos de chefes militares.

Isso não quer dizer que não haja razões de sobra para o descontentamento popular: é só ver as lastimáveis infraestruturas de transportes, de energia etc., sem falar na elevação dos preços e da perda de empregos, já em curso e com tendência de aumentar aceleradamente.

Se Dilma tem culpa ou não, nem é muito relevante a esta altura. Ela tem muita responsabilidade, pelo simples fato de ocupar a presidência, mesmo que o poder real desta seja muitíssimo inferior ao da rainha Elisabeth (esta, ao contrário do que vivem repetindo, tem mais poder que o primeiro-ministro e parlamento, eleitos pelo dinheiro, através do povo).

Claro para mim e para muitos de vocês que o atual caos deriva principalmente de ações e efeitos do entreguismo acumulado ao longo de mais de sessenta anos, pós Getúlio, a que devemos adicionar mais cinco do período Dutra (1946-1950). Claro que a coisa deu saltos qualitativos para o abismo por meio de Collor e FHC. Mas como ter os olhos e os ouvidos do povo para nós nos explicarmos tudo isso.

Em resumo, Lula e Dilma resolveram assumir a presidência e fizeram os compromissos ditados pelos concentradores de continuar o essencial da política entreguista. Com isso guardam em suas mãos a bomba-relógio, cuja pressão megatônica só faz crescer, enquanto a hora da explosão se aproxima.

Tania Faillace – A doutrina de que falo é divulgada por fóruns especiais universitários e clubes da juventude, chamados de Clubes da Liberdade, e usa como inspiradores Von Mises e Ayn Rand. Não é coisa vaga, é uma doutrina bem estruturada. Usa o termo neoliberalismo anarquista para significar que é contra a instituição Estado, e as constituições nacionais.

Pretende a liberdade total dos empreendedores, sem regulamentos, sem regras, sem leis.
Já assisti a seus eventos, que são disseminados por vários países, têm a participação de altas personalidades internacionais, e são sustentados pelas corporações transnacionais.

Também os EUA serão fatiados em territórios sem identidade, mas num futuro a médio prazo. Como venho insistindo, esse ideário vem sendo partejado desde o Tratado de Bretton Wood, e é discutido e elaborada sua estratégia nos encontros de instâncias como o Clube de Bilderberg e o Clube de Roma, tendo seus membros aproveitado algumas ideias do nazismo dos anos 30 e 40, mas desenvolvidas no sentido do anarquismo institucional. De momento seus carros chefes são os governos dos EUA, Reino Unido, Canadá e Israel, como fiel executor, que terá como recompensa vastos territórios da América do Sul, notadamente da Argentina.

Há, porém, divergências entre esses atores. Temos agora a picuinha de EUA com a União Européia. A Inglaterra querendo associar-se ao Banco Asiático, que deve fazer concorrência ao FMI e seus derivados. O bate-boca de Obama com Alemanha, ameaçando-a de deixá-la ser palco de terrorismo, sem avisá-la, e a queda quase imediata de um avião alemão, provavelmente por sabotagem de terra, já que, com a mania dos controles informáticos nessas naves, elas já não têm navegadores visuais e operação mecânica, bastando cortar a comunicação informática por meios eletrônicos, que qualquer avião cai imediatamente.

De que terão ameaçado o governo brasileiro? Do mesmo que ameaçaram o governo alemão: atentados terroristas. Há grupos terroristas comandados por CIA e Mossad espalhados por todos os continentes, que podem ser ativados a qualquer comando via celular, inclusive no Brasil.

De minha parte, eu apostaria em esclarecer a opinião pública, não deixando pedra sobre pedra. Mas… através de qual veículo que o povo ouve, assiste e acredita? O Jornal Nacional? A situação veio consolidando-se desde o governo Sarney, após a morte provocada de Tancredo Neves. Sarney acabou com os órgãos estratégicos de desenvolvimento do Brasil: SUDAM, SUDENE, DNOS, DNOCS, BNH, e nem lembro o resto. FHC entregou as maiores empresas brasileiras, e inclusive a telefonia (!), que é a pedra de toque da sociedade pós-moderna. Falta mais o quê?

A onda investigativa é uma estratégia para tentar imobilizar os bandidos, e se possível tirá-los de cena. Mas não podemos esquecer que também o Crime Organizado, – dentro do qual o Narcotráfico, que tem sua bancada no Congresso, – joga pesado nessa conjuntura. Daí a insistência na liberação das drogas, para poder universalizar seu uso desde a infância. E a tolerância com o proxenetismo homo e heterossexual, que também é terreno do Crime Organizado, o qual, igualmente lida com tráfico de pessoas, e de órgãos.

Não se trata de picuinhas da política doméstica, mas dos grandes movimentos geopolíticos de nossa era de crise mundial econômica e política e social, devastação ambiental, e aquecimento global, sendo que tudo isso está intimamente relacionado.

Tomem tento, pessoal. O negócio é sério. Não é mais hora para quiproquós, melindres e mal-entendidos.

MP chama Alckmin para explicar falta de apuração dos ‘crimes de maio’

Por Rodrigo Gomes | Via RBA

Movimento Mães de Maio espera que o encontro resulte na federalização das investigações e force governador e a Justiça paulista a combater firmemente a violência policial.

Movimentos esperam que audiência sirva para pressionar o Estado brasileiro a ser firme contra a violência policial. EDISON TEMOTEO/FUTURA PRESS/FOLHAPRESS

São Paulo – O Conselho Nacional do Ministério Público quer ouvir, em audiência pública no dia 7 de abril, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o comandante-geral da Polícia Militar, Ricardo Gambaroni, e o delegado-geral da Polícia Civil, Youssef Abou Chahin, sobre os 505 assassinatos ocorridos entre 12 e 20 de maio de 2006, durante ação para o restabelecimento da ordem realizada pelas polícias paulistas após os atentados cometidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). O evento será na sede da Procuradoria-Geral de Justiça de São Paulo, no centro da capital paulista.

O conselho pretende se posicionar sobre o pedido do Movimento Mães de Maio pela federalização dos chamados “crimes de maio” e a reabertura das investigações, feito pelo grupo em audiência pública realizada em setembro do ano passado. Do encontro também resultou a cartilha de enfrentamento à morte decorrente de intervenção policial, que orienta a atuação dos MPs em todo o Brasil nos casos de investigação de autos de resistência.

A militante do movimento Débora Maria Silva, cujo filho Edson Rogério da Silva dos Santos foi morto em Santos em 16 de maio de 2006, vai expor a situação e as reivindicações dos familiares de vítimas. “Todo o sistema de Justiça paulista se demonstrou incapaz de esclarecer os crimes de maio. Tudo foi arquivado sem nada ser explicado. Não esperamos mais nada de São Paulo. Queremos que a Polícia Federal investigue e o Ministério Público Federal acompanhe”, explicou.

Ela lembrou que o grupo pediu a federalização em 2010 ao então procurador-geral da República, Roberto Gurgel. E ainda aguardam decisão do atual procurador-geral, Rodrigo Janot. No último dia 21, o movimento denunciou os homicídios e a dificuldade em conseguir a apuração dos ocorridos e a punição dos autores à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Além do governador e do comando das polícias foram convidados à audiência o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Fernando Elias Rosa, membros do Ministério Público Federal em São Paulo, representantes do Tribunal de Justiça e da Corregedoria Geral de Justiça de São Paulo, representantes do governo federal, das ONGs Justiça Global Brasil e International Human Rights Clinic, e pesquisadores do Programa de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.

O movimento espera que o encontro pressione o governo Alckmin e a Justiça paulista a dar uma resposta efetiva à violência policial. Mas que as investigações e processos referentes aos crimes de maio de 2006 sejam encaminhados na esfera federal. “Voltar tudo para as mãos do governo paulista é retrocesso. O governo e a Justiça federal precisam assumir isso. É a única resposta que pode caminhar para acabar com a impunidade do Estado”, definiu Débora.

Precedentes

Em julho de 2013, a Comissão Especial Crimes de Maio, criada pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, recomendou à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e ao Ministério Público Estadual, entre outras coisas, a reabertura dos processos sobre as mortes que foram arquivados, adoção de medidas para busca e identificação de corpos, verificação do andamento de investigações ainda existentes, assistência psicológica e indenização administrativa às vítimas ou familiares.

Na recomendação, a comissão classifica que a ação policial foi marcada por “violência exacerbada, execuções sumárias, chacinas, centenas de homicídios e diversos desaparecimentos”, detalhando que 94% das vítimas não tinham antecedentes criminais e 60% delas receberam disparos na cabeça. Além disso, com base em perícia, concluiu que a maior parte dos casos de resistência seguida de morte registrados no período foi marcada por disparos em regiões do corpo de alta letalidade – cabeça e peito das vítimas –, a pouca distância e de cima para baixo.

A comissão utilizou dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, da organização não governamental Conectas Direitos Humanos e do Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para chegar ao número de 505 civis e 59 agentes públicos mortos no período, além de 110 feridos e 30 desaparecidos. Não há dados oficiais, exceto pelo número de “autos de resistência” registrados naqueles dias: 124.

Em resposta, o governo de São Paulo reafirmou que não houve abusos, criticou a atuação do órgão federal e defendeu o arquivamento das investigações pela Justiça. O relatório de 402 páginas é uma listagem dos boletins de ocorrência registrados à época dos fatos. Alguns dos quais sequer têm relação com os “crimes de maio”. E entre os que estão registrados, há uma clara divisão: supostos autores de ataques a policiais foram encontrados. Mas, entre as vítimas civis, a resposta recorrente é que “o crime não foi esclarecido”.

Outras ações

Como parte das mobilizações contra a violência policial, movimentos de direitos humanos cobraram do Ministério Público Estadual de São Paulo, em reunião no dia 18 de dezembro, a adoção de medidas para aumentar o controle externo da violência policial no estado e de políticas de reparação por parte do Estado em relação às famílias de vítimas.

Os movimentos também exigiram a efetivação das recomendações da cartilha “13 pontos que toda investigação de autos de resistência deve ter”, elaborada pelo Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep) do próprio MP, e a adoção das recomendações do Conselho Nacional do Ministério Público.

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Fernando Elias Rosa, comprometeu-se a intermediar o diálogo entre movimentos e o novo secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, garantir a aplicação das orientações constantes nas cartilhas, acompanhar o desenrolar dos casos emblemáticos de violência policial, apresentados pelos movimentos, e também dos que fossem encaminhados ao MP daquele dia em diante.

CUT convoca mobilização para 7 de abril contra o PL 4330 da terceirização

Via Bancários BH

A CUT está convocando todos os sindicatos e movimentos sociais organizados para se mobilizarem contra a votação do Projeto de Lei (PL) 4330, que defende a terceirização.

O presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), em reunião realizada no dia 11 de março com representantes das confederações patronais da indústria, das instituições financeiras, da agricultura e pecuária, dos transportes, da saúde e das cooperativas, marcou a votação do PL 4330 da terceirização em plenário para o próximo dia 7 de abril, logo após o feriadão da Semana Santa.

O texto que irá a votação será o substitutivo do deputado Artur Maia (SD-BA), que libera a terceirização para todas as atividades das empresas, incluindo as atividades principais e permanentes. O PL representa uma ameaça aos trabalhadores brasileiros, gerando a precarização das relações de trabalho e dificultando a organização das categorias trabalhistas.

Diante desse quadro gravíssimo, a CUT já organiza, para o dia 7 de abril, manifestação em defesa dos direitos trabalhistas e contra o PL 4330. Além disso, são planejadas visitas aos gabinetes de deputados, principalmente as lideranças partidárias, com a apresentação do dossiê produzido pela Central sobre os impactos da terceirização.

O Sindicato sempre uniu forças com a CUT no combate ao absurdo projeto e estará presente na mobilização do dia 7. Desde 2013, quando o PL estava em discussão em Brasília, a entidade tem ido às ruas e já paralisou atividades em agências bancárias em protesto contra as ameaças da terceirização. Além disso, o Sindicato promoveu atos públicos para alertar todos sobre a questão, participou de ato no Ministério Público do Trabalho e de audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Por que o PL 4330 traz prejuízos à classe trabalhadora

- Autoriza contratação de empresas especializadas para a terceirização de qualquer atividade ou etapa do processo produtivo da empresa contratante, seja ela pública ou privada, rural ou urbana. Ou seja, libera a terceirização completa nas empresas, possibilitando a substituição dos atuais 45 milhões de trabalhadores contratados diretamente por prestadores de serviços, aumentando a rotatividade e o trabalho eventual e precário.

- O texto diz claramente que os salários, benefícios e demais direitos, mesmo que o trabalho seja prestado de maneira idêntica e no mesmo ambiente de trabalho da empresa contratante, sejam diferenciados, de acordo com a natureza da atividade desempenhada. Isso levará a pulverização das organizações e representações dos trabalhadores, acarretando rebaixamento das condições de vida da classe trabalhadora.

- Estabelece como subsidiária a responsabilidade entre os tomadores e prestadores de serviços, e não a responsabilidade solidária, como a mais eficaz para minimizar possíveis prejuízos e lesões de direitos, tão frequentes aos trabalhadores neste tipo de relação contratual.

- Autoriza infinitas subcontratações de empresas, quarteirizando e quinteirizando a relação contratual, mesmo com o conceito de empresa especializada.

- Traz de volta a questão da PJotização do mercado de trabalho brasileiro, proposta esta tão combatida e derrotada durante o governo FHC.

- Legaliza os atuais correspondentes bancários.

Redução da maioridade penal pode se tornar realidade

Por Marcelo Pellegrini | Via Carta Capital

Impulsionado pelo clamor popular, Congresso age por penas mais duras, apesar dos questionamentos sobre a legalidade e a eficácia da mudança na lei.

Imagem tirada em protesto convocado pela PM-DF em favor da redução da maioridade penal. Os jovens menores de 18 anos são responsáveis por 0,5% dos homicídios no Brasil, mas são vítimas de 53,5% deles, sendo a maioria negros e pobres

A eleição do Congresso mais conservador desde a redemocratização está prestes a produzir seu primeiro resultado. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara pode votar nesta quarta-feira 25 a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.

A proposta está engavetada desde 1993 na CCJ, mas agora é considerada prioridade para a bancada da bala, que é formada por parlamentares ligados a forças de segurança pública e cresceu muito na última eleição. “O clamor popular pela aprovação é muito forte. Há um sentimento de impunidade muito forte e o governo não pode mais ficar negligenciando a questão”, afirma o deputado federal Major Olímpio (PDT-SP), favorável à PEC. O clamor popular a que Olímpio se refere não é mera figura de linguagem. Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes, de 2013, revelou que 92,7% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos. Isso pode fazer da aprovação da PEC 171/93 uma chance para o Congresso recuperar sua popularidade em queda.

Antes mesmo de a crise política se instaurar em Brasília, a redução da maioridade penal já era defendida, durante a campanha eleitoral, por 13 dos 27 senadores eleitos em 2014. Entre eles, não figuram apenas parlamentares ligados a atividades policiais, mas também a dupla que formou a chapa presidencial do PSDB no ano passado, Aécio Neves (MG) e Aloysio Nunes Ferreira (SP). Em fevereiro de 2014, uma PEC de autoria de Aloysio que também baixava a maioridade penal para 16 anos foi barrada na CCJdo Senado por uma união de parlamentares progressistas.

A bancada da bala também conta com o apoio declarado de parlamentares evangélicos, como o deputado Marcos Feliciano (PSC-SP) deixou claro na reunião da CCJ na última quarta-feira 18. Caso seja aprovada na comissão, a PEC segue para a Comissão de Segurança Pública, dominada também pela bancada da bala, e depois é votada em dois turnos no plenário da Câmara, onde precisa de três quintos dos votos (308 votos) dos deputados. Depois, o texto segue para o Senado onde passa pelo mesmo rito processual. “Se aprovarmos na CCJ, não tenho dúvidas de que a matéria será rapidamente aprovada na comissão de Segurança e que sobrarão votos na votação em plenário”, prevê o Major Olímpio, otimista.

Cláusula pétrea

Diante da pressão conservadora, órgãos oficiais e entidades de defesa dos direitos da criança e adolescente pressionam para que a CCJ da Câmara decida que a redução da maioridade é inconstitucional. O tema é polêmico e o debate, neste momento, é essencialmente jurídico.

Os direitos fundamentais, entre eles a inimputabilidade (não penalização) do menor, são considerados cláusula pétrea da Constituição. Ou seja, não podem ser alterados, a menos que se convoque uma Assembleia Constituinte. Por isso, para essas entidades qualquer alteração seria inconstitucional. Por outro lado, quem é a favor da redução defende que a inimputabilidade do menor é inalterável, mas a definição da idade do menor, não.

“A mudança da idade penal não é inconstitucional porque, no caso da redução da maioridade, não há abolição de direitos, mas sim uma modificação de conceito de menor de idade”, afirma Adílson Dallari, especialista em Direito Político pela USP. Para o professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano, a proposta é inconstitucional e, se aprovada, “poderá ser questionada ante o Supremo Tribunal Federal, que, por sua vez, deverá declará-la inconstitucional”.

Mais prisão significa menos crime?

A interpretação jurídica de Serrano, que é colunista de CartaCapital, é compartilhada com a subprocuradora-geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge. Para ela, há também uma má interpretação dos índices de violência cometidos por jovens. “Há uma sensação social de descontrole que é irreal. Os menores que cometem crimes violentos estão ou nas grandes periferias ou na rota do tráfico de drogas e são vítimas dessa realidade”, diz. Atualmente, roubos e atividades relacionadas ao tráfico de drogas representam 38% e 27% dos atos infracionais, respectivamente, de acordo com o levantamento da Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Crianças e do Adolescentes. Já os homicídios não chegam a 1% dos crimes cometidos entre jovens de 16 e 18 anos. Segundo a Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância da ONU, dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida.

Ao mesmo tempo, não há comprovação de que a redução da maioridade penal contribua para a redução da criminalidade. Do total de homicídios cometidos no Brasil nos últimos 20 anos, apenas 3% foram realizados por adolescentes. O número é ainda menor em 2013, quando apenas 0,5% dos homicídios foram causados por menores. Por outro lado, são os jovens (de 15 a 29 anos) as maiores vítimas da violência. Em 2012, entre os 56 mil homicídios em solo brasileiro, 30 mil eram jovens, em sua maioria negros e pobres.

Por isso, para a subprocuradora-geral da República, o remédio para essa situação não é a redução da idade penal, mas o endurecimento da pena para adultos que corrompem menores – como o Projeto de Lei 508/2015, do deputado Major Olímpio – e o investimento em políticas sociais para os jovens.

O deputado Luiz Couto (PT-PB), relator da PEC 171 na CCJ da Câmara, concorda. Em parecer contrário à proposta, Couto citou estudos psicológicos que mostram que o amadurecimento pleno se dá apenas aos 18 anos e disse que o problema reside em “um modelo de segurança pública envelhecido e apodrecido que só investe na repressão”. Couto, ao lado da deputada Maria do Rosário (PT-RS), é a principal voz do governo na Câmara para barrar o andamento do projeto.

Apesar do parecer negativo na CCJ, nada indica que a proposta será rejeitada pela comissão. Se aprovada, a PEC colocará o Brasil entre os 54 países que optaram por reduzir a maioridade penal. Entre todos, os resultados foram unânimes: ao contrário do esperado, não se registrou redução nas taxas violência. Como resultado, Espanha e Alemanha já voltaram atrás na decisão de criminalizar menores de 18 anos, segundo a Unicef. No entanto, países como os Estados Unidos seguem como exemplo do fracasso dessa política. Com penas maiores e mais severas previstas aos jovens entre 12 e 18 anos, o país assiste seus jovens matarem uma em cada dez pessoas vítimas de homicídios.

Por isso, entidades como a Unicef, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), o Ministério Público Federal (MPF), a Anced (Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente), o Ministério da Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) já se manifestaram contrários ao projeto. “Uma nova lei não é capaz de resolver um problema complexo como esse, muito menos se for uma lei de caráter repressivo como é a PEC 171″, analisa Vitor Alencar, secretário executivo da Anced. “Estamos investindo em repressão há 30 anos e o sentimento de impunidade e insegurança só aumentou”, completa.

No Congresso, há mais de 60 projetos semelhantes à PEC 171, todos com o objetivo de reduzir a maioridade penal para 16, 14 ou até mesmo 12 anos. Por ser uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), se aprovada pelo Congresso, a medida não pode ser rejeitada pela presidência. No entanto, caso isso ocorra, entidades civis e o governo federal estudam entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal defendendo a inconstitucionalidade da proposta.

Crise do sistema penitenciário

No modelo atual, de maioridade fixada em 18 anos, os jovens infratores representam 8% do número total da população carcerária adulta (715.655, incluindo as prisões domiciliares) e padecem das mesmas mazelas que afeta o sistema prisional adulto. A Fundação Casa, entidade responsável pelos menores infratores em São Paulo, é exemplo do caos. Em maio,CartaCapital revelou com exclusividade que um terço das unidades da Fundação Casa tem superlotação. A situação é tão crítica que, em agosto passado, o Ministério Público denunciou o governo Geraldo Alckmin (PSDB) e a Fundação Casa por conta da superlotação. Em fevereiro deste ano, promotores de Justiça criticaram o fracasso de gestão do governo de São Paulo no atendimento a menores infratores e publicaram carta aberta intitulada “A falência da Fundação Casa“.

Por conta de situações como a de São Paulo, em vez de passarem por um processo socioeducativo de correção, a esmagadora maioria dos menores infratores vive em reclusão e sem atividades psicoeducativas para a reintegração social. À superlotaçãosomam-se denúncias de maus tratos, que resultam em uma reincidência de cerca de 43% dos menores presos, de acordo com Conselho Nacional de Justiça. Para o coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do Unicef no Brasil, Mário Volpi, seria necessário o Estado brasileiro pensar em alternativas viáveis para cuidar de seus jovens. “Se prender não é uma medida eficaz para que o jovem não volte a cometer infrações, resta pensar em soluções para que ele não entre no mundo do crime”, diz.

EUA eliminam empresas, indivíduos e barcos de Cuba de lista de sanções por terrorismo

Via Opera Mundi

Retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado.

O governo dos Estados Unidos retirou nesta terça-feira (24/03) as sanções contra 45 companhias, indivíduos e embarcações de Cuba por o que Washington chamava de “apoio ao terrorismo ou ao narcotráfico”, em um novo passo para suavizar as restrições à economia cubana, segundo o processo de aproximação bilateral. Foram eliminados da lista seis indivíduos, 28 entidades e 11 embarcações.

A retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado, medida que o governo cubano reivindica e que os Estados Unidos ainda estão avaliando. A inclusão de Cuba nesta relação é um dos argumentos que Washington utiliza para recrudescer a política de sanções econômicas e de perseguição internacional dos ativos da ilha e é parte do bloqueio econômico imposto ao país há mais de meio século.

Retomada das negociações gerou expectativas sobre futuro, sobretudo econômico, de Cuba. Agência Efe

Várias das empresas têm relação com a indústria turística de Cuba, como a Caribbean Happy Lines e a agência de viagens Guama; ou com atividades pesqueiras e navais, como a Abastecedora Naval e Industrial e as Pescados e Mariscos do Panamá. Mais de 30 dos 45 indivíduos, entidades e navios retirados da lista são registrados em território panamenho, mesmo procedendo de Cuba.

As sanções impediam que indivíduos ou entidades americanas realizassem transações financeiras com as pessoas e empresas afetadas, e congelavam qualquer ativo que pudessem ter sob jurisdição americana.

A retirada faz parte de “uma revisão interna e está de acordo com a linha política do presidente (Barack Obama) em relação a Cuba”, afirmou à Efe o porta-voz do Tesouro, que pediu o anonimato.

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(*) Com Efe

“Nossa greve não existe para a Rede Globo”, afirmam professores de São Paulo

Via Jornal GGN

Presidente do sindicato enviou carta ao diretor de Jornalismo da emissora, pedindo “coerência” na cobertura das manifestações que ocorrem no Estado.

Jornal GGN – Durante semanas o governo do Paraná, capitaneado por Beto Richa (PSDB), enfrentou uma greve geral que pôs mais de 100 mil professores nas ruas, em protesto por melhores condições de trabalho e renda. Apesar da dimensão dos atos, a grande mídia deu pouco espaço às demandas dos educadores, e o mesmo ocorre, agora, em São Paulo, Estado governado pelo correligionário de Richa, Geraldo Alckmin. “Nossa greve não tem a devida cobertura na maior rede de televisão do país”, escreveu o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (APEOESP).

O tratamento não passou em branco. Em carta a Ali Kamel, diretor de Jornalismo da maior emissora do país, a Rede Globo, Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da APEOESP, cobrou coerência e isonomia na cobertura das manifestações em São Paulo. “Os professores da rede de ensino público de São Paulo estão em greve desde o dia 13 de março. Para a Rede Globo, no entanto, nossa greve não existe”, introduziu a dirigente.

Maria Izabel destacou que cerca de 40 mil professores marcharam na Rua da Consolação na sexta-feira (20), mas não houve menção nos telejornais da Globo. “A mesma emissora, porém, fez grandiosas reportagens ao vivo nas manifestações do dia 15 de março, na Paulista. Por que a diferença de tratamento?”, questinou.

Segundo a presidente, mesmo com o protesto tendo atingido cerca de 135 mil professores, que estão parados aguardando negociação com o governo Alckmin, a Globo segue sem ouvidos para a entidade que representa a categoria. Em contrapartida, os microfones estão sempre abertos à Secretaria de Estado de Educação, em defesa da gestão tucana.

“A ética do bom jornalismo determina que todas as partes envolvidas em determinado fato sejam ouvidas e que sejam divulgadas suas posições”, lembraram os professores. “Se a Rede Globo defende a liberdade de expressão, deve cumprir as regras do Estado democrático de direito. Como concessão pública, deve cumprir seu papel de informar à população sobre todos os fatos que possam interessar.”

A próxima assembleia estadual acontece em 27 de março, às 14h, no MASP. A APEOESP demanda aumento salarial de 75,33% para equiparação salarial com as categorias de ensino superior. Entre outros pedidos estão o de desmembramento de salas de aula superlotadas, a conversão de bônus salarial em reajuste, garantia de direitos na contratação de professores temporários, limitação de 25 alunos por sala nos ensinos fundamental e médio, atendimento médico, infraestrutura adequada e educação integrada no lugar de escolas integrais.

A oligarquia financeira e midiática e o furto da democracia. Entrevista especial com Luiz Gonzaga Belluzzo

Por Ricardo Machado | Via IHU

“O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, pelo despotismo daquilo que se imagina que seja a economia”, constata o economista.

De poucas mas contundentes palavras, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é muito direto ao analisar a atual conjuntura econômica e política do Brasil. Tem um jeito calmo de falar, mas é firme nas análises. “O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo”, dispara, em entrevista por telefone à IHU On-Line.

Para ele, a “exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, levantando problema para vícios como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica, a resistência daqueles que, na verdade, conseguem ter maior apropriação da riqueza e do poder”, avalia.

“O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, do despotismo daquilo que se imagina que seja a economia”, descreve Belluzzo. Na opinião do professor, a despeito da ausência de uma tradição democrática mais contundente no Brasil, há uma crise global mais ampla, “onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo”, frisa. Frente a este cenário, o pesquisador argumenta que há, para além de todas as complexidades, uma espécie de ódio de classe, cujos odiados são os pobres. “Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas”, critica.

Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, atualmente, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.
É autor, entre outros, de O capital e suas metamorfoses (São Paulo: Unesp, 2013), Os antecedentes da tormenta: origens da crise global (Campinas: Facamp, 2009) e de Temporalidade da Riqueza – Teoria da Dinâmica e Financeirização do Capitalismo (Campinas: Oficinas Gráficas da UNICAMP, 2000). Depois da Queda (BELLUZZO, Luiz Gonzaga e ALMEIDA, Júlio Gomes de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002)

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Frente a atual crise econômica, há alternativas que derivam de uma perspectiva não alinhada ao modo capitalista dominante na atualidade?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão que exige muita investigação porque se imaginarmos que houvesse uma alternativa ao capitalismo, devemos considerar autores como Wolfgang Streeck — ele escreveu um livro chamado Tempo Comprado – A crise adiada do capitalismo democrático (Coimbra: Actual, 2013) — ou como István Mészáros.

Quando o Marx falou na superação do capitalismo, ele se referiu a uma transfiguração interna que propõe a superação como uma possibilidade, mas não como um desfecho inevitável. Socialismo ou barbárie, ele proclamou. O que está acontecendo hoje no mundo inteiro revela que a economia capitalista está atormentada cada vez mais por contradições internas que sugerem algumas soluções de ultrapassagem, que não encontram forças sociais e políticas capazes de levar adiante um processo de transformação.

Em sua configuração atual, o capitalismo global parece incapaz de incluir a sociedade em seu movimento. O capitalismo colocou um espartilho na sociedade e empurrou muita gente para fora do jogo. A exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica que não encontram solução diante da resistência daqueles que se apropriam das engrenagens da riqueza e do poder. Isso tudo cria um clima muito grave e não pode ser tratado de maneira abstrata. É preciso que se aglutinem as forças sociais capazes de levar adiante esta transformação. Obviamente não se vai reinventar o socialismo soviético, uma experiência histórica desastrada e cruel, não seria desejável. Então é preciso encontrar um novo caminho, chamado por Marx de democratização radical da sociedade. Não consigo vislumbrar um encadeamento de forças capazes de fazer isso.

Vamos tomar o exemplo da política econômica brasileira, a do ajuste fiscal. O que ela revela? As forças que elegeram a Dilma são as mais vulneradas pelo ajuste fiscal. A tentativa de se fazer um ajuste fiscal de cima para baixo não vai funcionar porque a presidente não tomou em conta aqueles que a elegeram. É o vezo tecnocrático.

Voltamos ao capitalismo. “Salvar o capitalismo” é uma missão que já foi atribuída a Keynes , o que é uma impropriedade, porque ele não queria salvar nada, senão conduzir a sociedade à boa vida, como mostram os biógrafos dele. Estou escrevendo um livro sobre ele chamado “Keynes além da economia”, para mostrar que ele tinha uma visão muito mais profunda e ampla da sociedade do que os economistas tentam fazer crer com o propósito de transformá-lo no idiota dos déficits orçamentários e da política fiscal.

IHU On-Line – O que se pode esperar de uma política econômica sustentada na opinião de agências internacionais de riscos que, meses antes do Lehman Brothers quebrar, avaliaram o banco com a melhor nota AAA?

Luiz Gonzaga Belluzzo – As ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Isso se transformou em um instrumento poderoso de persuasão e não somente as agências de risco, mas também as auditorias, estão sendo avaliadas negativamente, sobretudo as que têm a obrigação de dar transparência às empresas, aos balanços, aos negócios. Ao contrário, elas contribuem para ocultar.

As agências de risco são estelionatárias, não têm nenhuma legitimidade, no entanto o que se observa é que os pigmeus ou gigantes do mercado ameaçam com essa redução da nota do Brasil, com a perda do grau de investimento. Isso é uma forma de constranger os países, assim como foi feito no passado de outra maneira, como na Crise de 1930, durante o final do século XIX início do século XX, feito pelos Money Doctors, agora é feito através das agências de risco que são essas auditorias que fazem as maiores falcatruas, mas são consideradas guardiãs da transparência e da moralidade.

O que se tem hoje é uma supremacia exercida também por intermédio dos meios de comunicação, totalmente submetidos a este tipo de perspectiva e isso acaba, por exemplo, na difusão de boatos como os de que a Dilma faria um “sequestro da poupança”. Isso é terrorismo. Não tem pé nem cabeça, é uma coisa criminosa, mas isso é feito de dentro do mercado por um sujeito que se diz funcionário de um banco e as pessoas acreditam. Então vivemos em uma sociedade de massas tecnológica que se comunica através dos whats apps da vida, difundindo uma interpretação das coisas do mundo que revela “o medo da verdade”, como dizia o filósofo Theodor Adorno, medo de um certo grupo que envolve os mercados financeiros, a grande imprensa internacional.

IHU On-Line – Trata-se de um complexo sistema biopolítico?

Luiz Gonzaga Belluzzo – É o que o Foucault explicou em O nascimento da biopolítica (Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2008). Isso não é uma questão da supremacia do mercado, mas da forma como se governa.

O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo.

Um sistema, na verdade, ultradiscricionário, com o poder concentrado em poucas instâncias, com uma massa de pessoas manipulada pela opinião dominante. Em um país com as carências culturais gravíssimas como o Brasil tem, essa carência de espírito crítico afeta muito menos os desfavorecidos e muito mais os que se consideram informados e qualificados. Não vou falar cultos porque eles não sabem direito o que isso significa.

IHU On-Line – Após a reunião do Ministro Joaquim Levy com a Standard and Poors , na primeira semana de março, ele prometeu “ajustes estruturais”. De que ordem devem ser tais ajustes? Como fica o papel do Estado neste contexto?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um exemplo claro de que ele (Joaquim Levy) teve que ajoelhar no milho para a Standard and Poors. Isso é um clássico. Eu comentei dos Money Doctors, que eram, na verdade, emissários dos banqueiros ingleses que vinham aqui ensinar os nativos como eles deviam se comportar em relação às políticas econômicas. O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, pelo despotismo daquilo que se imagina que seja a economia. Eles operam as questões como se fosse um jogo de lego e não levam em conta a resistência das pessoas e entidades sociais, o que causa o desgaste muito grande do governo, porque o Estado se apequenou e não exerce o seu papel de mediador entre as visões e os interesses divergentes, que é sua função na democracia, e acaba servindo de instrumento para as ordens das agências de risco, que são os instrumentos que o mercado usa para “colocar ordem na casa”.

Como defende Dani Rodrik, a experiência mostra que o movimento de entrada de capitais frequentemente prejudica os países e os coloca em dificuldades. É isso que acontece sempre no Brasil, nos períodos de bonança e crescimento há a entrada de capitais que depois se transforma em uma ameaça porque a política econômica fica à mercê dos humores deles. Criam-se problemas cambiais, problemas com as taxas de juros, e não há nenhuma liberdade para se fazer a política monetária e fiscal, sem contar as facilidades de sonegar e enviar dinheiro para a Suíça. A questão do Swissleaks tem a ver com a globalização financeira, foi isso que abriu as comportas para que a sonegação e evasão de divisas se tornasse uma prática dos ricos.

Keynes advertiu isso em seus trabalhos preparatórios à conferência de Bretton Woods. Dizia que era preciso ter um controle muito rigoroso dos movimentos de capitais para inibir as instabilidades e as falcatruas fiscais. Por exemplo, há a ameaça de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, coisa que será feita com muito cuidado, porque se ela subir, os ativos dos países emergentes vão sofrer e isso significa a desvalorização do câmbio, a subida da taxa de juros para conter a saída. Mas, depois do chamado Quantitative Easing, a estrutura de ativos dos bancos americanos está povoada de títulos do governo muito valorizados e a subida imprudente dos juros vai jogar os preços para baixo. Pode ocorrer um crash e a economia americana também vai sofrer.

IHU On-Line – De que forma esta lógica coloca em causa qual é o verdadeiro poder soberano, a democracia ou a economia de mercado?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu li o Yanis-Varoufakis, o ministro grego, e quando lhe perguntam sobre o déficit democrático ele solta uma gargalhada. Ele diz: “Déficit democrático? Não se tem democracia”. A democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais. Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo.

IHU On-Line – Do que se trata, exatamente, o princípio da “Santíssima Trindade” da “teologia” dos economistas?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A “Santíssima Trindade” é o tripé macroeconômico. A economia transformou-se, como disseram Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1985), no mito. A economia cria figuras como o tripé que eu comparei à Santíssima Trindade, na realidade a uma espécie de Santíssima Trindade, porque junto com o mistério há uma riqueza maior que essa banalidade do tripé.

Depois de 1971, quando Friedman advogou a taxa de câmbio flutuante nas economias centrais — ou seja, nas economias que têm moedas conversíveis — ele estava pensando nos interesses dos Estados Unidos. Aliás, o câmbio flutuante só é interessante para países que têm moeda conversível, para os demais as condições são muito menos favoráveis, porque a volatividade é desastrosa. As pessoas não sabem direito o que é o sistema monetário. A dificuldade de lidar com isso é muito grande.

O problema é que fazem o Brasil lidar com isso como se fosse a Zona do Euro ou a China, que na verdade se precatou contra isso ao acumular 4 bilhões de dólares de reserva e impôs controles de capitais. Já os países ditos emergentes, toda vez que há qualquer incidente cambial, ficam mais vulneráveis e isso afeta as taxas de juros. É isso que eu falei, de que temos uma teologia do tripé, se é que se pode chamar isso de teologia. Eu como fui seminarista dos jesuítas penso que isso é um desrespeito com a teologia.

IHU On-Line – Uma argumentação recorrente, inclusive defendida pelo Ministro da Fazenda, é de que o país precisa cortar gastos e continuar elevando os juros. Mas como resolver esta contraditória equação se o principal gasto do Estado é, justamente, com os juros?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um ponto importante. Afinal, cortar gastos de quem, cara-pálida? Cortar gastos do seguro desemprego, de alguns incentivos que foram dados às empresas via concorrência externa de desoneração, corta-se o Fundo de Financiamento Estudantil – Fies etc. Então se vai em cima dos mais frágeis. Esta amarração da política econômica faz com que haja uma transferência brutal de riqueza para os rentistas, que no Brasil são os bancos e os seus clientes ricos. É para eles que transferimos os recursos em dinheiro que são capturados de quem paga impostos, ou seja, dos assalariados, aqueles que compram alguma coisa e têm que pagar os impostos. É preciso ver o que está por trás disso, então se cortam os gatos dos setores mais frágeis, que têm menor resistência. Naturaliza-se isso, porque pagar juros tornou-se algo como a lei da gravidade, ninguém discute esse aspecto da estrutura tributária e da estrutura de gastos. Eles querem cortar o Bolsa Família, é o que gritam os paneleiros aí na rua, pois acham que isso não serve, não é bom, e que eles ganham dinheiro trabalhando, o que é mentira.

IHU On-Line – De que forma a dívida externa brasileira, desde sua aquisição com os militares, impacta na fragilização do setor industrial brasileiro?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A dívida externa do governo é baixíssima por causa da acumulação de reservas. Hoje quem está endividado é o setor privado, com R$ 208 bilhões de dívida de empresas, onde boa parte delas não está protegida. Então se tem uma desvalorização cambial que prejudica gravemente o balanço das empresas, pela desvalorização cambial. O impacto da dívida, do câmbio e dos juros nas empresas é muito grande e isso afeta o nível de atividade, porque em um primeiro momento as empresas vão tentar se proteger, evitar novos investimentos. Isso é uma consequência, comentada há tempo por estudiosos da questão, o chamado descasamento da moeda. Fatura-se em real, mas se deve em dólares.

IHU On-Line – A balança comercial brasileira tem demonstrado, na média, desde 2003 um pequeno superávit das exportações em relação às importações (em 2014 foi negativa), mas a principal matriz exportadora é de commodities. Como o senhor avalia esses dados?

Luiz Gonzaga Belluzzo – O superávit que se tinha recentemente é o do agronegócio, da exportação de commodities e tem a ver com a subida de preços até 2010. O ciclo de commodities começou em 2003 e foi até 2009. Agora os preços estão caindo, por isso que se começou a apresentar déficit na balança comercial. O déficit da indústria é uma coisa pavorosa, já ultrapassou os R$ 100 bilhões.

IHU On-Line – Quais os desafios para o país retomar a industrialização e deixar de ser um exportador primário?

Luiz Gonzaga Belluzzo – O Brasil teve uma reprimarização da pauta de exportação ao longo do tempo desde os anos 1990. Essa reprimarização significa que o estímulo à exportação de manufaturas do tempo dos militares foi desmontado ao longo das décadas e, ultimamente, se agravou. Fizemos isso no momento em que a China entrou no cenário competindo, principalmente, em preços. A indústria brasileira sofreu um golpe importante nesses anos todos e recentemente ela está muito enfraquecida. Uma das questões é não permitir mais a variação cambial, que é fundamental, mas não se pode restringir a isso apenas. O Brasil tem a possibilidade de desenvolver uma política industrial embutida nos investimentos do pré-sal e de infraestrutura, assim como a tentativa de criar um elo mais forte entre o desenvolvimento do agronegócio, uma atividade muito avançada tecnicamente e os setores industriais.

IHU On-Line – Tentando compreender a questão política em seu sentido mais amplo a partir da economia, de que maneira a democracia é permanentemente tensionada pelo capitalismo? Como isso se caracteriza no caso brasileiro?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu brinco que a ideia do Estado Democrático de Direito não “pegou” aqui. Há vários movimentos de esforço que acabaram malsucedidos ou não foram concluídos por conta da estrutura social que se tem aqui. Recentemente houve um processo econômico de inclusão, passando por inclusão de conhecimento — foi muita gente para dentro da escola, etc. —, mas isso ainda é uma coisa muito precária. Não temos, na verdade, uma tradição de contribuir à democracia para além de sua simples dimensão econômica. Ela não se sustenta só nisso, é preciso que se tenha a formação de uma cultura democrática. Temos ainda, dentro da sociedade, uma resistência muito grande aos valores democráticos.

A democracia europeia foi fustigada muito tempo pelo capitalismo, mas aqui no Brasil não se consegue fazer avançar, não se consegue dar passagem na sociedade democrática que inclui a transformação do cidadão, que ele seja capaz de compreender melhor sua situação. Não se trata apenas de uma ascensão do cidadão, mas de sua capacidade de compreensão, daquilo que está sendo obnubilado pela mídia, por exemplo. Esse passo é muito complicado e precisamos de uma política deliberada para se fazer isso. Precisamos de um debate amplo para que o cidadão tenha a capacidade por si mesmo de saber qual a importância de sua liberdade e de sua autonomia.

Vou contar uma história. Um amigo, dono de uma empresa, foi cumprimentar o jardineiro que estava com as mãos sujas e o jardineiro não pôde dar as mãos e ele deu um abraço no jardineiro. O empregado ficou absolutamente surpreso porque disse que nunca havia sido tratado dessa maneira. Esse episódio revela muito mais do que um abraço, isso é o Brasil.

IHU On-Line – O senhor considera que há um ódio de classe no Brasil?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é uma dimensão do que acabei de relatar. Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas, “eles não são o que nós somos”, ou seja, não conseguem reconhecer o outro, a alteridade. Eles não são nossos semelhantes, aí está a origem dessa coisa toda, o resto é tudo conversa mole — da Dilma ao ajuste fiscal. Eles (os ricos) perderam a eleição e durante o pleito vimos como se portaram não reconhecendo o outro, que mora no mesmo espaço jurídico-político deles. No Brasil essa é que é a barreira fundamental. Eu sempre digo que não houve liberalismo político aqui. Marx reconheceu que isso era uma invenção fantástica da ascensão burguesa e por isso queria a democracia radical.

IHU On-Line – Como a crise da economia reflete a crise do humanismo evidenciada em nossas sociedades?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A crise da economia que estamos vivendo agora e os remédios que estamos tentando administrar para debelar a crise é expressão mais escancarada desta desumanização que estamos observando. É a desumanização dos diferentes. Alguém teve a ideia de fazer um “dia do orgulho hétero”, por que isso? Será que o cara não percebe? Eu tenho algumas reservas às políticas de gênero, raça, credo. Na minha opinião elas devem ser universais, dirigidas a todos, independente de raça, credo, etc., mas por que alguém vai criar um “dia do orgulho hétero”? Afinal de contas, são os gays e as mulheres que são assassinados. O momento exige um status especial às mulheres para que não sejam agredidas, temos que caminhar na direção da universalidade, na tentativa de minorar as diferenças. Só que no Brasil as forças sociais que mandam no país tratam de acentuar as diferenças.

IHU On-Line – Que Brasil teremos nos próximos quatro anos?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Temos dificuldade de saber o que vai acontecer na próxima semana. A única coisa que eu posso fazer é uma aposta, uma aposta na estabilidade institucional, seria um horror se nós tivéssemos um golpe. Aposto na luta democrática pelo Estado de Direito para avançar no debate democrático como sugeriu Keynes, um economista que eu admiro. Era um aristocrata, mas queria que o homem se livrasse das garras da economia.