Arquivo mensais:março 2015

Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos

Brasil de Fato

No último domingo diversos bairros de classe média e alta fizeram a orquestra da indignação com suas respectivas panelas. Este não foi uma resposta ao pronunciamento, os envolvidos nem mesmo ouviram o que a presidenta tinha a dizer. A estridência do metal expressava um sentimento anticorrupção que tentaram expressar, mas o curioso disso tudo é que a maioria dos indignados votaram no candidato derrotado da oposição, Aécio Neves, e agora ignoram solenemente o fato dele ter sido citado na lista da Lava Jato, enquanto Dilma Rousseff, não.

Sem mais delongas, fiquem com este interessante debate.

Tania Faillace – Não vejo porque fazer todo esse auê com o panelaço. Já foram feitos muitos e muitos panelaços, e até durante a ditadura militar. Seu significado é sempre o mesmo: manifestar inconformidade com o status quo na área política e pública. Não tem poder transformador, pois não passa de uma vaia, de um bullying, e está também dispensado de ser orgânico e coerente em suas reivindicações, porque sua grande característica é ser divertido. Todos gostam de fazer panelaços porque é uma espécie de regressão à irresponsabilidade infantil – ninguém será castigado nem responsabilizado, e não precisa comportar-se seriamente. Se pintar reclamação, é só jogar fora a panela, e adotar um ar respeitável.

Eu também já fiz panelaço, e é relaxante, emocionalmente relaxante, e deixa as pessoas bem humoradas e sorridentes, dispostas a fazer piadas sobre tudo.

Quanto às observações de Miguel do Rosário sobre a atitude do governo, são impressões subjetivas, de quem não está por dentro do assunto, nem frequenta movimentos políticos contra ou a favor. Puro achômetro.

O governo brasileiro é produto de uma coalizão – isso ainda não ficou claro? Esse governo, pois, não tem uma linha definida de atuação. Se fosse um governo do PT, não teria engolido a Ana Amélia, nem o Levy, nem o Wagner. E já teria feito sinalização positiva para a Reforma Agrária e a taxação das grandes fortunas. Pelo contrário, está propondo ajustes fiscais que cairão sobre o cidadão comum, não sobre os super-ricos em especial. Por que acontece isso? Porque os progressistas não têm maioria no Congresso nem na própria coalizão.

Por outro lado, denunciar a coalizão poderia agudizar a crise – e os gringos estão esperando por isso. Canvas – antiga Otpor – já está preparada para entrar em ação com seus mascarados, e possivelmente, ações violentas.

Rennan Martins – O governo ser de coalizão não é desculpa para o tantos erros do governo, principalmente no que se refere a comunicação, que é uma esculhambação sim. Miguel está certo quando diz que um think thank formado por intelectuais de esquerda aflitos e prontos para cooperar faria uma diferença enorme na correlação de forças.

A apatia do Planalto tem deteriorado a situação a tal ponto que quando a presidenta resolve fazer algo o bombardeio reacionário já está pronto. Tania, se a coalizão impedirá para sempre o PT de continuar avançando na agenda progressista, bem, então que desistamos de fazer política.

Roberto Oliveira – O Governo Federal não tem Comunicação Social. Simplesmente não tem.

Acho muito perigoso ignorar essa classe média ignorante. É uma pequena parcela da sociedade? Sim. Mas, é gente que influencia outras pessoas e cria o climão “apocalíptico”.

E é um erro enorme imaginar que o discurso reacionário e desinformado não chega às classes mais populares. É só dar uma passeada pelas redes sociais e comentários de rodapés do noticiário político para ver o quanto essa lobotomia já foi introduzida entre os mais pobres.

O Governo e o PT precisa mudar sua estratégia comunicacional para ontem! É desesperador essa letargia.

Tania Faillace – Não existem think tanks no Brasil. Nem na esquerda nem na direita. Essa é uma invenção norte-americana.

E os partidos não funcionam como empresas comerciais, com organogramas funcionais, e sim com concessões mútuas entre as tendências e grupos internos.

No caso do PT, a rota de inflexão foi a gestão do José Dirceu, que perseguiu a esquerda e conseguiu alijá-la das posições de comando, e a invenção da filiação online, com o inchaço havido por meio de oportunistas não-ideológicos, e até os acertos havidos com o Garotinho, no Rio, etc., e depois a introdução do Valério na eleição seguinte (Valério que entrou justamente para fazer a política do PSDB dentro do PT). O que causou revolta à esquerda do Partido, mas a maioria agora era a maioria amorfa e silenciosa, com esperança de arranjar uma vaguinha nas nominatas.

Que o pessoal da Engenharia e outras áreas técnicas desconheça tão completamente como funcionam os grupos sociais, a dinâmica social em qualquer agrupamento, se compreende, – só lidam com objetos inertes, projetos definidos tecnicamente, não lidam com seres humanos (sociólogos estariam mais à vontade no assunto), vontades convergentes, divergentes, conflitantes, jogos de interesses abertos ou disfarçados.

Mas um jornalista tem a obrigação de conhecer a dinâmica das relações humanas e dos grupos de quaisquer natureza.

Assim que a maioria das críticas feitas ao PT como se se tratasse de uma entidade burocrática regida por regulamentos cartoriais, não têm sentido porque falam de “conceitos”, não de “realidades”, e presumem uma homogeneidade que não existe nem no seio das famílias.

E veja você o mensalão – claro que foi uma falsa bandeira. Isto é, os mensalões são de uso corrente em todas as casas legislativas que eu conheço e conheci desde que sou jornalista. Todo o mundo sabe que existem, cochicha-se nos corredores a respeito, ou até promovem-se vaias a partir das galerias (já assisti e participei de várias), identificamos os legisladores que “comem bola” – mas uma coisa é saber, outra coisa é provar, e o MP não tem gosto nem vontade para se meter nesses assuntos.

Então, me diga, como o mensalãozinho do José Dirceu explodiu para a mídia? Só por denúncia interna, de quem participava do mesmo. Justamente para fazer o estrago que fez, e Dirceu provar sua boa fé, aceitando ser indiciado e preso.

Já ouviu falar do cabo Anselmo nas agitações na marinha antes de 1964? Em 1968, a mesma pessoa participava da direção da UNE. Os estudantes dos estados não sabiam que o Congresso seria em Ibiúna. Só a direção… e os órgãos de segurança. E a direção esteve em Ibiuna, e encomendou milhares de pãozinhos de uma só vez, assinalando de vez que seria ali o Congresso.

Eu trabalhava na ZH, não sabia onde seria o Congresso, mas recomendava discrição aos estudantes que nos procuravam e que expulsassem de suas reuniões quaisquer pretensos jornalistas que se apresentassem. Estávamos sabendo que tínhamos espiões dentro da redação e nossos telefones estavam grampeados. E sabíamos também quem eram esses espiões.

Isso em Porto Alegre, claro.

Então faz muito tempo que os brasileiros vêm dançando segundo a música dos gringos. E não acordam, e confiam em eventos milagrosos, sem se mexerem, nem se organizarem.

Agora, que vem guerra mesmo, que se vai fazer? Vai-se discutir detalhes formais, de um projeto de recolonização que tem mais de 50 anos, tentando achar um bode expiatório fácil, porque organizar-se para lutar contra o inimigo real, lá fora, não se tem cacife nem coragem?

Rennan Martins – Criticar o PT e seus erros não é ignorar a ameaça externa e recolonizadora, o que estás a postular é uma falsa dicotomia. Podemos sim, criticar o governo, principalmente nos pontos mais vulneráveis no que concerne aos ataques do império. Faço exatamente isso, minha pauta ultimamente está voltada para produção quase exclusiva de conteúdo para conscientização sobre o que realmente está em jogo na Petrobras.

Compreendo as influências que um governo de coalizão tem sobre uma agenda e também entendo que as propostas precisam se ajustar a correlação de forças, porém, a meu ver o que me pedes é apoio acrítico ao PT e não foco no inimigo real.

Roberto Oliveira – Que me desculpem os petistas, mas quem estava na vaia que a presidenta levou em São Paulo não era a “elite”, tampouco a “burguesia” brasileira. Ou o Governo e o PT acordam, ou a coisa ficará cada vez pior. Este é o preço salgado da letargia comunicacional do Governo Federal.

Muitas pessoas das camadas mais populares acabam reproduzindo o comportamento da classe média burra e desinformada por um mimetismo bisonho. Este ódio já se encontra muito difundindo entre a tal “nova classe média”.

E o “inimigo externo”, travestido em nossas Globos, Folhas e Estadões, deita e rola.

Rennan Martins – O que indigna o trabalhador que votou no PT por pragmatismo e consciência de que esse papo de corrupção proveniente do PSDB e correlatos não passa de oportunismo é este ajuste fiscal que está a todo vapor. Votaram em Dilma justamente por reconhecer que este partido mudou a realidade da maioria da população, e agora se veem perplexos diante dessa guinada ortodoxa que lhes ataca frontalmente.

Daí temos que a esquerda orgânica que foi crucial para a reeleição não se sente a vontade para defender o governo, enquanto as forças reacionárias não ficarão satisfeitas nem se toda a agenda tucana for praticada pois a questão já se impregnou de ódio de classe.

Então temos essa cínica imprensa que antes não convencia o trabalhador, somente a classe média alienada, instrumentalizando a raiva legítima das massas por votar em “Mais Mudanças” e ganhar retrocesso. E não, de nada adianta recorrer ao argumento da correlação de forças e do governo de coalizão para o caso Levy, Dilma foi reeleita com o keynesianismo moderado do Mantega e tomou a opção de abandoná-lo.

Roberto Oliveira – Não sei se as “massas” chegam a ter esta percepção, pelo menos creio que não por enquanto. Os trabalhadores sindicalizados e mais esclarecidos e as pessoas ligadas a movimentos sociais podem ter esta percepção. Entretanto, o que sinto é muito mais uma tremenda ignorância política que envolve toda a sociedade brasileira, inclusive os pobres que foram beneficiados pelas políticas sociais do governo petista. Essa “idiotia política” é como um oba oba, um movimento de manada. Xinga-se por xingar. O importante é fazer parte da trupe barulhenta. E é justamente aí que o governo peca e muito ao não oferecer informação às pessoas e permitir que estas sejam embaladas pelas torcidas organizadas.

Sem informação, estes milhões se penduram naqueles que gritam mais alto.

Neste vídeo das vaias desta semana, o que vejo é comportamento de manada. Muitos daqueles que gritavam eram montadores de estandes, trabalhador pobre, deslumbrado pela vaia à presidente que partia de algumas pessoas da classe média imbecilizada. Os pobres mimetizarão esta classe média estúpida. Questão de tempo para estar “tudo dominado”.

Rennan Martins – Aí é que está, os indignados de classe média e alta já estavam desde antes nessa histeria e não comoviam os trabalhadores.

Que elemento então foi inserido pra que aderissem a esse comportamento de manada? As medidas que sinalizam arrocho, como por exemplo as restrições a direitos trabalhistas e aumento da dificuldade do crédito geram um sentimento de que foram enganados, então a imprensa direciona essa raiva contra o PT ao invés do arrocho.

Papa defende financiamento público de campanhas eleitorais

Via Terra

Francisco declarou que candidatos devem, antes de tudo, conhecer as propostas dos seus próprios partidos, coisa que muitas vezes não acontece.

Segundo Francisco, “interesses” não podem afetar candidatos.

O papa Francisco defendeu que as campanhas eleitorais sejam financiadas com dinheiro público para evitar que “interesses” influenciem a atuação dos candidatos. A declaração está em uma entrevista do Pontífice à revista La Carcova News, publicação paroquial de um bairro pobre da periferia de Buenos Aires.

Perguntado se tinha alguma sugestão aos governantes argentinos, que estão em ano eleitoral, ele respondeu: “Primeiro, que proponham uma plataforma clara. Que cada um diga ‘no governo, nós faremos isso e aquilo’. Muito concreto! A plataforma eleitoral é algo sério, ajuda as pessoas a verem aquilo que cada um pensa.”

Além disso, Francisco declarou que candidatos devem, antes de tudo, conhecer as propostas dos seus próprios partidos, coisa que muitas vezes não acontece. Em seguida, o Papa declarou que é preciso chegar a um modelo de campanha que não seja financiado.

“O financiamento da campanha eleitoral envolve muitos interesses, que depois cobram a conta. Evidentemente, é um ideal, porque é preciso de dinheiro para manifestos, para a televisão. Em todo caso, que o financiamento seja público. Eu, como cidadão, sei que financio esse candidato com essa exata soma de dinheiro, que tudo seja transparente e limpo”, explicou.

Dilma Rousseff, Presidenta do Brasil, país membro do BRICS, é próximo alvo de Washington

Por F. William Engdahl | Via redecastorphoto

Para ganhar o segundo turno das eleições contra o candidato apoiado pelos Estados Unidos, Aécio Neves, em 26 outubro de 2014, a presidenta recém-reeleita do Brasil, Dilma Rousseff, sobreviveu a uma campanha maciça de desinformação do Departamento de Estado estadunidense. Não obstante, já está claro que Washington abriu uma nova ofensiva contra um dos líderes chave do BRICS, o grupo não alinhado de economias emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Com a campanha de guerra financeira total dos Estados Unidos para enfraquecer a Rússia de Putin e uma série de desestabilizações visando a China, inclusive, mais recentemente, a “Revolução dos Guarda-Chuvas” financiada pelos Estados Unidos em Hong Kong, livrar-se da presidente socialmente propensa do Brasil é uma prioridade máxima para deter o polo emergente que se opõe ao bloco da Nova (des)Ordem Mundial de Washington.

A razão por que Washington quer se livrar de Rousseff é clara. Como presidente, ela é uma das cinco cabeças do BRICS que assinaram a formação do Banco de Desenvolvimento do BRICS, com capital inicial autorizado de 100 bilhões de dólares e um fundo de reserva de outros 100 bilhões de dólares. Ela também apoia uma nova Moeda de Reserva Internacional para complementar e eventualmente substituir o dólar. No Brasil, ela é apoiada por milhões de brasileiros mais pobres, que foram tirados da pobreza por seus vários programas, especialmente o Bolsa Família, um programa de subsídio econômico para mães e famílias da baixa renda. O Bolsa Família tirou uma população estimada de 36 milhões de famílias da pobreza através das políticas econômicas de Rousseff e de seu partido, algo que incita verdadeiras apoplexias em Wall Street e em Washington.

Líderes do BRICS

Apoiado pelos Estados Unidos, seu rival na campanha, Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), serve aos interesses dos magnatas e de seus aliados de Washington.

O principal assessor econômico de Neves, que se tornaria Ministro da Fazenda no caso de uma presidência de Neves, era Armínio Fraga Neto, amigo íntimo e ex-sócio de Soros e seu fundo hedge Quantum. O principal conselheiro de Neves, e provavelmente seu Ministro das Relações Exteriores, tivesse ele ganhado as eleições, era Rubens Antônio Barbosa, ex-embaixador em Washington e hoje Diretor da ASG em São Paulo.

A ASG é o grupo de consultores de Madeleine Albright, ex-Secretária de Estado norte-americana durante o bombardeio da Iugoslávia em 1999. Albright, dirigente do principal grupo de reflexão dos Estados Unidos, o Conselho sobre Relações Exteriores, também é presidente da primeira ONG da “Revolução Colorida” financiada pelo governo dos Estados Unidos, o Instituto Democrático Nacional (NDI). Não é de surpreender que Barbosa tenha conclamado, numa campanha recente, o fortalecimento das relações Brasil-Estados Unidos e a degradação dos fortes laços Brasil-China, desenvolvidos por Rousseff na esteira das revelações sobre a espionagem norte-americana da Agência Nacional de Segurança (NSA) contra Rousseff e o seu governo.

Surgimento de escândalo de corrupção

Durante a áspera campanha eleitoral entre Rousseff e Neves, a oposição de Neves começou a espalhar rumores de que Rousseff, que até então jamais fora ligada à corrupção tão comum na política brasileira, estaria implicada num escândalo envolvendo a gigante estatal do petróleo, a Petrobras. Em setembro, um ex-diretor da Petrobras alegou que membros do governo Rousseff tinham recebido comissões em contratos assinados com a gigante do petróleo, comissões estas que depois teriam sido empregadas para comprar apoio congressional. Rousseff foi membro do conselho de diretores da companhia até 2010.

Agora, em 2 de novembro de 2014, apenas alguns dias depois da vitória arduamente conquistada por Rousseff, a maior firma de auditoria financeira dos Estados Unidos, a Price Waterhouse Coopers se recusou a assinar os demonstrativos financeiros do terceiro trimestre da Petrobras. A PWC exigiu uma investigação mais ampla do escândalo envolvendo a companhia petrolífera dirigida pelo Estado.

A Price Waterhouse Coopers é uma das firmas de auditoria, consultoria tributária e societária e de negócios mais eivadas de escândalos dos Estados Unidos. Ela foi implicada em 14 anos de encobrimento de uma fraude no grupo de seguros AIG, o qual estava no coração da crise financeira norte-americana de 2008. E a Câmara dos Lordes britânica criticou a PWC por não chamar atenção para os riscos do modelo de negócios adotado pelo banco Northern Rock, causador de um desastre de grandes proporções na crise imobiliária de 2008 na Grã-Bretanha, cliente que teve que ser resgatado pelo governo do Reino Unido. Intensificam-se os ataques contra Rousseff, disto podemos ter certeza.

A estratégia global de Rousseff

Não foi apenas a aliança de Rousseff com os países do BRICS que fez dela um alvo principal da política de desestabilização de Washington. Sob seu mandato, o Brasil está agindo com rapidez para baldar a vulnerabilidade à vigilância eletrônica norte-americana da NSA.

Dias após a sua reeleição, a companhia estatal Telebras anunciou planos para a construção de um cabo submarino de telecomunicações por fibra ótica com Portugal através do Atlântico. O planejado cabo da Telebras se estenderá por 5.600 quilômetros, da cidade brasileira de Fortaleza até Portugal. Ele representa uma ruptura maior no âmbito das comunicações transatlânticas sob domínio da tecnologia norte-americana. Notadamente, o presidente da Telebras, Francisco Ziober Filho, disse numa entrevista que o projeto do cabo será desenvolvido e construído sem a participação de nenhuma companhia estadunidense.

As revelações de Snowden sobre a NSA em 2013 elucidaram, entre outras coisas, os vínculos íntimos existentes entre empresas estratégicas chave de tecnologia da informática, como a Cisco Systems, a Microsoft e outras, e a comunidade norte-americana de inteligência. Ele declarou que:

A questão da integridade e vulnerabilidade de dados é sempre uma preocupação para todas as companhias de telecomunicações.

O Brasil reagiu aos vazamentos da NSA periciando todos os equipamentos de fabricação estrangeira em seu uso, a fim de obstar vulnerabilidades de segurança e acelerar a evolução do país rumo à autossuficiência tecnológica, segundo o dirigente da Telebras.

Até agora, virtualmente todo tráfego transatlântico de TI encaminhado via costa leste dos Estados Unidos para a Europa e a África representou uma vantagem importante para espionagem de Washington.

Reagindo aos vazamentos de Snowden, o governo Rousseff ordenou a extinção dos contratos com a Microsoft para serviços de e-mail com Outlook. Rousseff declarou na época que o gesto visava ajudar a “impedir possíveis espionagens”. Em vez disso, o Brasil está se nacionalizando com o seu próprio sistema de e-mail, denominado Expresso, desenvolvido pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), de propriedade do Estado. O Expresso já é utilizado por 13 dos 39 ministérios do país. O porta-voz do Serpro, Marcos Melo, declarou:

O Expresso está 100 por cento sob nosso controle.

Se verdadeiro ou ainda incerto, o fato é que sob Rousseff e de seu partido o Brasil está trabalhando para fazer o que ela considera ser o melhor para interesse nacional do Brasil.

A geopolítica do petróleo também é chave

O Brasil também está se livrando do domínio anglo-americano sobre sua exploração de petróleo e de gás. No final de 2007, a Petrobras descobriu o que considerou ser uma nova e enorme bacia de petróleo de alta qualidade na plataforma continental no mar territorial brasileiro da Bacia de Santos. Desde então, a Petrobras perfurou 11 poços de petróleo nesta bacia, todos bem-sucedidos. Somente em Tupi e em Iara, a Petrobras estima que haja entre de 8 a 12 bilhões de barris de óleo recuperável, o que pode quase dobrar as reservas brasileiras atuais de petróleo. No total, a plataforma continental do Brasil pode conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo, transformando o país numa potência de petróleo e gás de primeira grandeza, algo que a Exxon e a Chevron, as gigantes do petróleo norte-americano, se esforçaram arduamente para controlar.

Em 2009, segundo cabogramas diplomáticos norte-americanos vazados e publicados pelo Wikileaks, a Exxon e a Chevron foram assinaladas pelo consulado estadunidense no Rio de Janeiro por estarem tentando, em vão, alterar a lei proposta pelo mentor e predecessor de Rousseff em seu Partido dos Trabalhadores, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, ou Lula, como ele é chamado.

Esta lei de 2009 tornava a estatal Petrobras operadora-chefe de todos os blocos no mar territorial. Washington e as gigantes estadunidenses do petróleo ficaram furiosos ao perderem controles-chave sobre a descoberta da potencialmente maior jazida individual de petróleo em décadas.

Para tornar as coisas piores aos olhos de Washington, Lula não apenas afastou a Exxon Mobil e a Chevron de suas posições de controle em favor da estatal Petrobras, como também abriu a exploração do petróleo brasileiro aos chineses. Em dezembro de 2010, num dos seus últimos atos como presidente, ele supervisionou a assinatura de um acordo entre a companhia energética hispano-brasileira Repsol e a estatal chinesa Sinopec. A Sinopec formou uma joint venture, a Repsol Sinopec Brasil, investindo mais de 7,1 bilhões de dólares na Repsol Brasil. Já em 2005, Lula havia aprovado a formação da Sinopec International Petroleum Service of Brazil Ltd, como parte de uma nova aliança estratégica entre a China e o Brasil, precursora da atual organização do BRICS.

Washington não gostou

Em 2012, uma perfuração conjunta, Repsol Sinopec Brazil, Norway’s Stateoil e Petrobras, fez uma descoberta de importância maior em Pão de Açúcar, a terceira no bloco BM-C-33, o qual inclui Seat e Gávea, esta última uma das 10 maiores descobertas do mundo em 2011. As maiores do petróleo estadunidense e britânico absolutamente sequer estavam presentes.

Com o aprofundamento das relações entre o governo Rousseff e a China, bem como com a Rússia e com outros parceiros do BRICS, em maio de 2013, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, veio ao Brasil com sua agenda focada no desenvolvimento de gás e petróleo. Ele se encontrou com a presidenta Dilma Rousseff, que havia sucedido ao seu mentor Lula em 2011. Biden também se encontrou com as principais companhias energéticas no Brasil, inclusive a Petrobrás.

Embora pouca coisa tenha sido dita publicamente, Rousseff se recusou a reverter a lei do petróleo de 2009 de maneira a adequá-la aos interesses de Biden e de Washington. Dias depois da visita de Biden, surgiram as revelações de Snowden sobre a NSA, de que os Estados Unidos também estavam espionando Rousseff e os funcionários de alto escalão da Petrobras. Ela ficou furiosa e, naquele mês de setembro, denunciou a administração Obama diante da Assembleia Geral da ONU por violação da lei internacional. Em protesto, ela cancelou uma visita programada a Washington. Depois disso, as relações Estados Unidos-Brasil sofreram um grave resfriamento.

Antes da visita de Biden em maio de 2013, Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado Movimento Passe Livre, relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica “Revolução Colorida”, ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento.

Washington enviara claramente um sinal de que Rousseff teria que mudar de curso ou enfrentar sérios problemas. Agora que ela ganhou a reeleição e derrotou os oligarcas bem financiados da direita e a oposição, está claro que Washington vai lançar mão de uma energia renovada para tentar se livrar de mais um líder do BRICS, numa tentativa cada vez mais desesperada de manter o status quo. Parece que o mundo já não se põe mais em prontidão como fez nas décadas passadas quando Washington dava suas ordens de marcha. O ano de 2015 será uma aventura não só para o Brasil, mas para todo o mundo.

***

Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.

Tradução de Renato Guimarães.

Diálogos Desenvolvimentistas: Quem banca o seu representante? (II)

Em continuação ao debate publicado no dia 10/03 de mesmo título, publicamos sua segunda parte abaixo, complementando essa importante discussão sobre representatividade, democracia e a influência do poder econômico sobre os processos decisórios.

André Luís – Mesmo que você contribua para seu candidato e este receba recursos de grandes empresas, nunca teremos condições de termos a mesma influência destas (a não ser com deputados ideológicos), nem sabemos se estes vão nos defender.

No caso do voto distrital talvez isso aconteceria, pois estaríamos mais perto dos eleitos e poderíamos cobrar mais efetivamente.

Os deputados entre defender os interesses de seus eleitores e de seus contribuintes, sempre preferirão o de seus contribuintes, pois estes nas próximas eleições contribuirão para suas campanhas de novo e seus eleitores podem ser enganados por promessas, discursos, uma posição em determinado assunto e uma ou outra obrinha do orçamento (que às vezes a burocracia atrasa).

Eu mesmo nesta eleição vi o pessoal do meu bairro em que nasci votar em candidatos que só aparecem em eleição (mesmo depois de um ano de enchente).

Temos de mudar conceitos.

Weber Figueiredo – Temos de mudar conceitos. Isso!

Tania Faillace – Receio que não tenhamos tempo. Acho que lhe enviei um artigo do politólogo argentino Atílio Boron sobre o fato de Barack Obama ter recebido uma ordem do CMI (Complexo Militar Industrial) para arranjar um pretexto qualquer de atacar Venezuela imediatamente.

Teremos guerra nos vizinhos, e teremos guerra aqui dentro. O panelaço foi um sinal de entendimento para começar ações aqui, possivelmente depois de começarem na Venezuela.

Serão ações terroristas, atentados. E olho vivo nos meninos e meninas, nos coxinhas, que são elementos comandados pelo CANVAS, a serviço dos norteamericanos.

A República de Weimar foi derrubada também por movimentos jovens, e sabemos o que aconteceu nos anos seguintes.

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Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET-RJ.

André Luís é economista e funcionário do BNDES.

Tania Faillace é jornalista e escritora.

Lava Jato: CGU abre processos contra mais dez empresas investigadas

Via Jornal do Brasil

Nesta quarta-feira (11), a Controladoria-Geral da União (CGU) ordenou a abertura de processos administrativos contra dez empresas investigadas pela Operação Lava Jato. Entre as empreiteiras que serão alvo da apuração da CGU estão a Odebrecht e a Andrade Gutierrez.

A CGU também investigará a Alumni Engenharia, a GDK, a Promon Engenharia, a Fidens Engenharia, a Sanko Sider, a Odebrecht Óleo e Gás, a Odebrecht Ambiental e a SOG Óleo e Gás.

De acordo com a controladoria, as empreiteiras serão notificadas nos próximos dias sobre o processo administrativo de responsabilização. E caso sejam responsabilizadas, podem ficar impedidas de celebrar novos contratos com a administração pública, além de terem de pagar multas.

Ainda de acordo com a CGU, há a possibilidade de novos processos serem abertos contra outras empresas.

Cunha dará depoimento à CPI da Petrobras na quinta-feira

Via Correio do Brasil

Além de Cunha, a comissão deve contar com o depoimento do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), alvo de investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), deve depor na CPI da Petrobras na quinta-feira, informou nesta terça o presidente da comissão, deputado Hugo Motta (PMDB-PB).

Motta disse ter recebido um telefonema em que Cunha expressou novamente seu desejo de prestar esclarecimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara que apura denúncias de corrupção em contratos da Petrobras.

Antes mesmo da confirmação oficial do STF, o presidente da Casa havia comparecido de surpresa à CPI na semana passada para declarar que estava à disposição da comissão.

– Recebi uma ligação do presidente (Cunha) expressando o seu desejo de vir a esta comissão e nós estamos aqui marcando para a próxima quinta-feira – disse Motta.

Segundo o presidente da CPI, além de Cunha, a comissão deve contar com o depoimento do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli no mesmo dia.

Na última sexta-feira, o ministro do STF Teori Zavascki, relator do caso, autorizou a abertura de 21 inquéritos para investigar 49 pessoas, sendo 47 políticos com ou sem mandato e outros dois supostos envolvidos.

Cunha e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), estão entre os investigados. Ambos são alvo de requerimentos de convocação à CPI protocolados na segunda-feira.

O envolvimento de parlamentares em esquema de corrupção na Petrobras é apurado pela Justiça com base nos depoimentos de delação premiada do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef no âmbito da Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

As denúncias de corrupção na empresa motivaram a criação neste ano da CPI na Câmara, que tem a primeira oitiva nesta terça, quando os deputados devem ouvir o ex-gerente da estatal Pedro Barusco, que também fechou acordo de delação premiada à Justiça.

“Em política econômica, a política é o substantivo, a economia é adjetivo”: Entrevista com Adhemar Mineiro

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/03/2015

Trajetória da taxa básica de juros de janeiro de 2011 a atual.

Na semana passada o Comitê de Política Monetária decidiu mais uma vez pela alta de 0,5% da taxa Selic, quando alcançamos a modesta cifra de 12,75% anuais. A ortodoxia econômica – repudiada pela presidenta durante a campanha – assume agora posição central, com direito a pronunciamento oficial em sua defesa e até mesmo repúdio público a gestão anterior por parte do novo e poderoso ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A guinada de retorno aos preceitos do Mercado iniciou o arrefecimento das atividades produtivas, consumo e expectativas. O ajuste fiscal que afeta a arrecadação demandará por sua vez mais cortes e a perigosa espiral de encolhimento pode entrar em cena. A quebradeira de 2008 ensinou pouco ou nada aos tomadores de decisão e a hegemonia neoliberal prontamente se recompôs. Este quadro suscita questionamentos importantes ao debate. Por quê tanta insistência numa política econômica que já se provou equivocada? A quem interessa a manutenção dela? Que opções tem os países que não querem se submeter aos caprichos do mercado financeiro?

Para analisar esta questão crucial o Blog dos Desenvolvimentistas conversou com Adhemar Mineiro, economista, técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), assessor da Rede Brasileira de Integração dos Povos (REBRIP) e integrante da Secretaria de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores. Mineiro considera que as relações de poder no Brasil estão dominadas pelo setor financeiro, beneficiário das taxas de juros que voltaram a subir. Nos lembra que as decisões econômicas são guiadas pela política, expressam a correlação de forças de um país e aponta o mercado interno e a integração regional como alternativa ao modelo desregulador e liberalizante que outra vez vem à tona.

Confira a íntegra:

Semana passada o Copom anunciou o quarto aumento consecutivo da Selic e chegamos ao maior patamar da taxa em 10 anos. Como uma taxa de juros alta como a nossa influi na economia?

Essas altas taxas de juros desincentivam o investimento produtivo (embora parte importante deste no Brasil seja financiado via BNDES, que até aqui não toma a taxa SELIC como referência direta), e penalizam o consumo (créditos mais caros) e os endividados em geral. Mas o mais importante é que garantem uma alta rentabilidade ao setor rentista da sociedade (os donos dos ativos financeiros), e promovem a concentração de renda (se um setor é remunerado a 12,75% ao ano, enquanto a renda nacional fica estagnada, é evidente que está havendo concentração de renda em benefício dos aplicadores do mercado financeiro).

Quem se beneficia e quem é prejudicado com juros elevados?

Os beneficiários são os donos dos ativos financeiros, e os intermediários financeiros – bancos e outros. Os prejudicados são os que dependem de crédito para o consumo e o investimento, e os endividados em geral. Pode-se dizer também que, ao atingir o consumo e o investimento e frear a atividade econômica, os trabalhadores em geral são prejudicados, pois veem atingida sua renda e ameaçados seus empregos.

Por que em nosso país os juros são tão maiores que no resto do mundo? Como explicar essa “cultura” rentista?

Creio que isso expressa o poder que têm no Brasil os detentores dos ativos financeiros e os intermediários financeiros. A situação é bem complicada, pois no Brasil, da propriedade dos ativos financeiros, da propriedade da terra, da propriedade do solo urbano e outros, a classe de proprietários deriva não apenas poder econômico e financeiro, mas poder político (pela via do financiamento de campanha) para manter o status quo e operar a seu favor a política fiscal (isto é, manter a tributação regressiva no país), o gasto público em seu benefício, e outras benesses resultantes do controle do poder político, contribuindo para ainda maior concentração da renda e da propriedade no futuro.

Quando se questiona o aumento de juros as explicações sempre giram em torno do combate a inflação. Este é o único instrumento que pode ser empregado? Se não, que outros métodos poderiam ser usados?

Esse é talvez o pior instrumento a ser empregado, pois ao inibir o investimento, funciona como uma camisa de força ao crescimento econômico, já que sem expansão da produção não se pode crescer em função dos efeitos sobre a inflação e sobre o balanço de pagamentos oriundos do crescimento sem investimento. Além disso, no curto prazo, o aumento dos juros é custo para vários setores, e como tal, também um propulsor da inflação. Para pensar os instrumentos, se deveria refletir sobre as causas da inflação no Brasil. Seguramente elevadas margens de lucros, elevados custos financeiros, dolarização de alguns preços importantes, remuneração de concessões, entre outros, estão na raiz da inflação brasileira. Atacar essas causas nos remete, entretanto, à questão anterior e à discussão sobre o poder político da classe de proprietários no Brasil, ou seja, o poder político é que dá o tom do debate. A política de combate à inflação adotada acaba refletindo a essência – em política econômica, a política é o substantivo, a economia é adjetivo – e penaliza a renda e o emprego dos trabalhadores e dos mais pobres, garantindo os elevados rendimentos do chamado “andar de cima”, os proprietários da riqueza no país.

Quais são os efeitos da guinada ortodoxa que o governo deu? Há chance da recessão se instalar este ano?

O “clima de recessão” já está instalado, em função da própria adoção do discurso de freio da economia via políticas monetária e fiscal adotado pelas autoridades econômicas, o que você está chamando de “guinada ortodoxa”. O que vai acontecer de fato depende de muita coisa, e com a instabilidade internacional e as indefinições da política interna, qualquer um que fizer previsões para além de três meses, e isso sendo muito condescendente, está obviamente ou chutando ou em realidade propagandeando seus próprios interesses.

Ao mesmo tempo em que a União Europeia questiona a efetividade das políticas cíclicas o Brasil adere a elas. Como explicar isto?

De novo aqui só conseguimos entender os discursos sobre a política econômica se entendemos que a política é o substantivo nessa definição, e o econômico é adjetivo na expressão. A Europa está evidentemente no centro de um debate sobre alternativas, com vários países (não só os que viveram de forma mais aguda a crise a partir de 2008, como Irlanda, Portugal, Espanha, Grécia, Lituânia, Chipre, Itália e outros, como também países do chamado “núcleo duro” da União Europeia, como a França e a Inglaterra) tendo que administrar uma saída política para o futuro, e o crescimento de partidos políticos e propostas de soluções impensáveis até 2010. E no Brasil hoje predominam os interesses dos proprietários dos ativos financeiros e os intermediários financeiros. Mas é o pêndulo da política econômica. Em 2008 e 2009, ao adotar políticas heterodoxas, o Brasil conseguiu muito mais sucesso em gerir a crise econômica que a Europa. Como explicar? Pela política, pela correlação de forças do jogo político, pela dinâmica do enfrentamento político no interior dos países.

Por quê mesmo após a quebradeira de 2008 as teorias dos “gurus” da economia continuam em alta? A academia não realizou uma autocrítica?

Em 2008 e 2009 se ensaiou, não só na academia, mas em especial entre os que tomam decisão na economia mundial, que é o que conta, um ensaio de autocrítica. Quem ler os comunicados finais dos encontros dos G20 dos EUA e da Inglaterra nesse período vai ver claramente esse ensaio. Entretanto, ele só seguiu adiante até que o mundo financeiro tivesse limpado seus passivos comprometidos, passando o risco e o chamado “mico” para o setor público. A partir de 2010, e das reuniões do G20 em Toronto, Canadá, e em Seul, na Coreia do Sul, o discurso foi mudando, e hoje temos novamente uma ampla hegemonia das posições mais ortodoxas. A academia aqui conta como formadora de opinião, com as opiniões mais ortodoxas sendo reverberadas pelos editoriais da grande imprensa, mas o mundo dos tomadores de decisão, que é o mais importante, também passou por esse processo. Entretanto, é um processo, e não está muito claro o final da história, até porque essa história não tem final, ela segue sua dinâmica. Há que considerar, nesse momento, o peso dos asiáticos entre os tomadores de decisão (que não se movem em geral pelas “academias” do Ocidente), reflexo de um mundo mais multipolar, e a busca desesperada da Europa para evitar propostas de fragmentação ou o crescimento da extrema-direita. Vamos ver o que vai acontecer nos debates nos próximos anos.

Considerando a conjuntura global de arrefecimento das atividades produtivas, que política econômica seria mais apropriada como resposta?

Do ponto de vista do Brasil, creio que se voltar mais para dentro, buscar alavancagem no mercado interno e nos investimentos em infraestrutura social e expansão da produção de bens dentro do país. Além disso, creio que seria positivo não só para o Brasil como para os demais países da região uma retomada do processo de integração regional, que foi uma via importante até meados da primeira década do Sec. XXI, mas anda meio abandonado. Quanto mais se for para o mercado global, mais instabilidade financeira e mais concorrência externa será o resultado. E, aproveitando a baixa dos preços das commodities, é hora de buscar sair dessa armadilha de ser um produtor e exportador de commodities, que representa um enorme custo social e ambiental para o país.

As turbulências do mercado internacional nos dão importante oportunidade de discutir um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil, mas isso não é um debate trivial, e nem diletante, mas um debate político de fundo, de definição de rumos. Perdemos fundamentalmente a chance de fazer esse debate no processo eleitoral do ano passado, o que foi uma pena. Suspeito que os setores dominantes agora queiram centrar o debate no epidérmico, tratando temas como a corrupção como uma questão fundamentalmente moral, quando ela é mais do que tudo um elemento estrutural no funcionamento da política no Brasil. Um exemplo? A grande imprensa fala o tempo todo na relação promíscua entre políticos (de vários partidos, de governo e oposição) e as empreiteiras, mas ninguém se anima a debater a questão do financiamento público de campanhas, que poderia ser uma forma de reduzir o poder político das empreiteiras, aliás a grande maioria dos políticos (de novo, de governo e oposição, da maioria dos partidos) nem quer ouvir falar nisso. E, ao fazer dessa questão epidérmica o centro do debate, se perde a chance, mais uma vez, de fazer um debate político de fundo, sobre o modelo de país que queremos, e as políticas para caminhar naquele sentido.

Mas, de novo, essa agenda curto-prazista e que não entra nos debates de fundo sobre os rumos da sociedade brasileira é um reflexo da correlação de forças atual, interessa aos proprietários da riqueza no país, que não querem mudar nada, ou quase nada, que, como dizia um velho compositor cubano (Silvio Rodriguez), “no es lo mismo, pero es igual”.