
Brasil de Fato
Semana passada o panelaço que ocorreu durante o pronunciamento da presidente gerou uma boa discussão disponível aqui. Ela prosseguiu enriquecedora e por isso fizemos mais este post.
Tania Faillace – Acho que o pessoal ainda não entendeu que não há um governo unificado com uma diretriz (boa ou má) integrada. A coalizão feita e acertada ainda no início dos 2000 não buscou a convergência ideológica ou política, mas juntar votos.
Desse erro básico, fundamental, decorrem todos os outros, inclusive as contradições. E o único remédio para isso, seria proibir definitiva e taxativamente as coalizões a qualquer nível.
A comunicação nem sempre resolve, a menos que ela tenha características de transparência. No mais das vezes, a comunicação do Executivo é uma comunicação de propaganda ou autojustificativas.
Falta TRANSPARÊNCIA e INTERAÇÃO.
Quanto aos think thanks vocês pensam nos norte-americanos. Graças a Deus não temos nada parecido por aqui. Os think thanks são máquinas de manipulação das mentes para fins específicos. Até para aprovar guerras e barbarismos, como todo a campanha desenvolvida a partir das Torres Gêmeas para suspender os direitos civis dos cidadãos, e a tortura rotineira das pessoas.
Nada de think thanks, porque nem os intelectuais (e eu sou uma) nem os cientistas são à prova de corrupção e mau caratismo. A comunicação necessária é bem simples: relatar fielmente as reuniões do governo, quem disse isso e quem disse aquilo, e o que foi votado. Sabendo disso, o cidadão saberá se não estão usando erradamente os impostos, ou quem e porquê está trancando decisões que lhe pareçam importante.
Sem think thanks. Atas simplificadas, cortando o palavreado que sabemos dos discursos de tribuna. Assim: ministro X pede verbas para controle da Aids em tal região, onde há tantos infectados, representando tantos por cento da população… ministro tal propõe uma superponte e uma superestrada para a Festa do Pepino.
São exemplos cômicos até. O objetivo foi mostrar como deve ser a informação útil para a população – se ela se preparar para fiscalizar devidamente o governo que elegeu. Com o tempo saberá se a super-ponte é necessária, ou se trata de um conchavão com empreiteiros, e se as informações sobre o avanço da Aids em tal região são verdadeiras ou se destinam a favorecer a compras de um determinado laboratório, quando, na verdade o problema maior da região é a falta de saneamento básico. E assim por diante.
Sem think thanks. A educação político-ideológica de um povo não cabe a um governo mas às instâncias de organização popular; sindicatos, partidos, associações, e até igrejas.
Não precisamos de sofisticação. Precisamos de FRANQUEZA e TRANSPARÊNCIA. e possibilidade de diálogo com o poder público em todos os níveis. Só assim iremos construindo uma democracia substantiva e não apenas representativa.
André Luís – O que você falou tem várias causas que está ligado a reforma política, na verdade desde a redemocratização do país na década de 80, passando pela constituição não conseguimos montar um modelo político que escape desta teia de aranha.
Quando o PT ganhou a eleição em 2002 (pode escrever PSDB em 1994, Collor em 1990 e até Sarney), foi necessário para governar ter um apoio do congresso para suas propostas (para bem ou para mal do país) e é isso que causa todas estas crises os quais nenhum governo conseguiu sair (talvez o que tenha se saído melhor foi o de Itamar Franco, mas por questões da conjuntura daquela época).
Temos também problemas estruturais e históricos pelo modo como foi formado o país (partidos fracos, falta de comunicação entre eleito e eleitores, sistema político viciado etc.), vários governos tentaram ultrapassar esses obstáculos e os que conseguiram melhor foram os que mais avançaram o país.
Houve desde a república diversas tentativas de se montar um sistema político no país e todos fracassaram redondamente, já tentaram não ter partidos nacionais, não ter partido nenhum, ter partidos contra e a favor, ter bipartidarismo estilo anglosaxão e multipartidarismo. Todos os sistemas partidários faliram. Temos que pensar o estrutural e não o conjuntural.
Por isso defendo o voto distrital com parlamentarismo.
Tania Faillace – Eu não tenho opinião firmada sobre o modelo institucional mais adequado, mas observei que nossa história tem seguido ciclos. Ora seu rumo é em direção à soberania; ora é de volta à dependência quase colonial.
Em 1961, houve o movimento para impedir a posse do vice Jango, que era um trabalhista notório, quando houve o episódio da Legalidade, etc.
Jango tinha menos dotes políticos e de estadista que Brizola. No governo aceitava idéias generosas – algumas mirabolantes – mas não tinha condições executivas nem de articulação. Era uma boa pessoa, com boas intenções. Certamente Brizola, em seu lugar, teria alcançado algum resultado.
De todo o jeito, as idéias generosas mas fantasiosas que eram anunciadas todos os dias, mas não executadas, serviram de pretexto para armar a direita e desencadear o golpe, que foi arquitetado pelos gringos – como já tinha acontecido em 1954.
A direita veio com uma fachada conservadora (nada de coxinhas, nem liberação sexual, como agora), mas o objetivo final era o desmonte de nossas estruturas estatais e econômicas.
Apenas que os militares, na época, estavam interessados em perseguir os socialistas, os comunistas, os obreiristas, os trabalhadores, mas não tinham intenção de se submeter aos apetites dos gringos. Em sua gestão, as estatais brasileiras atingiram um desenvolvimento extraordinário, e a dependência estabeleceu-se em termos do endividamento para o “Brasil Grande”, mas não em termos de entrega de patrimônio e recursos naturais aos gringos, com exceção daquelas primeiras fazendas na Amazônia, muitas delas griladas com violência pelos terratenentes de várias origens.
Assim que os gringos perderam a paciência e resolver mudar o jogo. Apoiaram a democratização, desde que sem eleição direta, para escolherem o candidato. Os militares aceitaram, porque não tinham opção, não eram populares e certamente não enfrentariam o Tio Sam. O objetivo era implantar o neoliberalismo entreguista de uma vez por todas. Sarney, Collor, FHC, a estrela máxima.
Porque os governos da frente popular não mudaram o roteiro, o script? Porque só tinham o cabeça de proa, não tinham o timão, o governo em si, cuja maioria não queria mudança alguma. Não foi só o congresso que resistiu a mudanças expressivas, que fossem além do assistencialismo, os partidos da coalizão não eram do campo popular, e estavam na coalizão exatamente para impedir que ele se tornasse instrumento popular.
Mais, os partidos da coalizão tinham (e têm) feudos definidos, ministérios definidos onde pintam-e-bordam, fora do alcance do titular do Executivo.
Como é que isso aconteceu?
Resta descobrir.
Atualmente, o próprio PT não tem influência alguma sobre a coalizão. E a nomeação de Levy, Wagner e Ana Amélia, são até cômicas, sem relação alguma com o que se chamaria governo popular. Isto é, a força popular ofereceu apenas a porta-bandeira, mas as demais alas estão sob controle absoluto das outras forças, estas não-populares.
Essa é a caixa preta: que ocorreu para que os partidos que eram de oposição abrissem mão de seus projetos concorrendo e legitimando o processo neoliberal que já corria? A birra contra a Dilma é por conta de algumas rebeldias dela aqui e ali. Inclusive sua determinação de investigar os crimes cometidos contra a área pública.
Querem vê-la morta. O bullying midiático objetiva obrigá-la a deixar de investigar e livrar a cara dos garotos. E nós, o povo, não sabemos o que está acontecendo lá, dentro do Palácio, e quais são as condições que emudecem a presidente, que a impedem de imitar a Cristina argentina, que já levou pancada na cabeça, e mil grilos de saúde (provocados) , mas que, com suas denúncias, conseguiu aglutinar o povo em torno de si (menos os sionistas, seus grandes opositores, representantes dos gringos de sempre).
Por que Dilma não fala? Não conta qual é a arma que tem contra o pescoço?
É por aí.
Ronaldo Abreu – Há uma necessidade de se mostrar via propaganda mesmo na TV várias questões. Por ex: o projeto de cabo no atlântico de fibra ótica até Portugal. O povo não sabe disso. Se souber e enxergar os benefícios, vai apoiar e defender dos interesses externos. Mas o governo ajuda a alienar mais ainda a massa. A Dilma estava inaugurando o Minha Casa Minha Vida na Bahia com o bicho pegando em tudo quanto é lugar. Ora, parece que só quer saber do público que ela entende como eleitor dela. Assim, o panelaço fica cada vez mais raivoso. Vide o caso das domésticas. Ok, formalizar o trabalho doméstico é bom, mas deixa as pessoas abaterem do IR. Todo mundo ganha. Mas não, ficou apontando o dedo acusando de classe média escravocrata. Assim não se chega a lugar algum. Bota na conta dos ricos, tributando dividendos e aumentando IOF de empréstimos intercompanhias que é uma distribuição de lucros disfarçada entre matriz e filial. Se não equilibrar estas questões só vai acirrar a disputa.
Tania Faillace – Você já está querendo falar da sintonia fina do discurso. Estamos muito longe disso. Precisamos saber antes de tudo, quais são os compromissos e acertos da coalizão, e porque a presidente não tem liberdade para chamar os ministros que bem entender.
É evidente que, por seu gosto, ela não chamaria nem o Levy, nem o Wagner, nem a Ana Amélia, que é oposição ao PT em seu estado (RS), e não só por isso, mas porque é representante do Agronegócio – e é realmente de um humor kafkiano designá-la para Reforma agrária.
O Levy é homem do FMI, com quem o Brasil tem diversas diatribes, e sabe muito bem como essa instituição usurária altera juros como bem entende, na hora que bem entende, e impõe condições também quando bem entende (e que sua atual presidente, a Lagarde, armou uma armadilha sexual contra o ex-presidente para defenestrá-lo do cargo e tomar seu lugar). E a nossa presidente não teria escolhido por gosto o Wagner, que faz uns dois anos esteve envolvido numa história que não lembro direito, mas em que foi acusado de fazer o jogo do Pentágono na América.
São três inimigos explícitos do campo popular.
Por que estão lá?
Qual é o acerto?
Temos que ir atrás e investigar.
Que é que você faz? Economista? Advogado? Engenheiro? Aposentado? Filósofo? Jornalista? Militar? Como pode usar suas habilidades e boas relações para saber o que se comenta a respeito do ministério, e como os partidos da coalizão se garantem seus privilégios de mandar totalmente em seus feudos? E isso não de agora. Nas gestões do Lula ocorria igual.
O inimigo está dentro de casa. É preciso identificá-lo. Lembrem que, na Argentina, o Kirchner teve uma morte duvidosa, e a Cristina volta e meia sumia num hospital (?) com males não revelados. Que Chávez denunciou ter sido envenenado com substância radioativa (como Fidel Castro) – numa imitação do homicídio contra o agente da KGB alguns anos antes, lembra? Que Lula, Cristina, Lugo, Chavez, Dilma, todos ficaram doentes ao mesmo tempo?
Nem os filmes de James Bond apresentavam tanto suspense.
Quem vai lá e tenta saber o que vem acontecendo dentro das embaixadas norte-americanas por toda esta nossa América Latina?
Ronaldo Abreu – Mas a massa tem que saber de alguns pontos essenciais para ajudar a pelo menos brecar uns ataques. Mas o que vejo (inclusive com os blogueiros pró Dilma) uma visão romântica do brasileiro. E isto é oba oba. Brasileiro por motivos históricos tem no consciente coletivo que o Estado tem dinheiro infinito, que não tem que ter deveres, somente direitos, etc i isto pela desinformação da midia, politicos, sistema educacional e ao meu ver por que temos ainda a cultura do doutor, ou seja, eu não chego a doutor mas quero uma forra. Não se desenvolve com este tipo de mentalidade coletiva. Como ninguém sabe o que seremos ou queremos ser daqui a 10, 15 anos, vira farinha pouca meu pirão primeiro.
O governo adorou este pseudo pleno emprego mas a maioria dos postos de trabalho são de baixa qualificação. Propaganda oba oba. E o bônus demográfico está indo embora… Por exemplo: soube que a kodak fabrica um scanner especial que poderia ser fabricado aqui segundo eles se tivéssemos escala. Ok, o setor público usa papel aos montes e pelo menos poderia digitalizá-los e e gerar arquivos eletrônicos com assinatura eletrônica acessível a qualquer computador. Mas e o reacionarismo cartorial que ainda temos a cultura do papel? Poderíamos ter uma fabricação caseira de qualidade. Outro ex: com um litoral deste só temos indústria naval para o petróleo. E o frete que é todo estrangeiro? Porque não nos especializamos em alguns tipos de embarcações e fazemos uma empresa estatal de frete marítimo?
Ficar discutindo politica macro, filosofias esquerda x direita etc não dá resultado prático. Já ouvi de pessoas bem de direita que por ex, o Kissinger não é nem direita nem esquerda, é pragmático em prol dos interesses dos EUA conforme a conveniência. Os militares eram considerados de direita, mas na economia criaram várias estatais (algo de governo socialista).
Precisamos menos oba-oba e retóricas e mais ações inteligentes e práticas.
Tania Faillace – Acho os assuntos todos muito interessantes, mas para outro momento. Un dois meses atrás, se falava disso, promover talvez um evento, do qual resultariam um ou vários grupos de trabalho para discutir e desenvolver propostas de políticas estruturais, desenvolvimentista, industriais, ou o que seja – e criar um canal de comunicação com o governo federal (em sua área tecnológica, no quadro de efetivos concursados, há bons técnicos – e provocar uma discussão e um intercambio sociedade civil/instâncias federais, num trânsito de duas mãos para a retomada de um desenvolvimento autônomo e independente (como poderíamos ter tido, se o Bautista Vidal tivesse maior presença na União que o Delfim Neto).
Agora, porém, estamos numa situação emergencial.
Haverá invasão na Venezuela ou não?
Haverá atentados nos demais países da AL (inclusive o nosso), ou não?
Teremos personalidades de destaque atingidos por drones especiais, ou não?
Haverá insurreição de marginais e coxinhas no Brasil e na Argentina e na Venezuela, ou não?
As informações agora necessárias referem-se à segurança nacional. Quem é quem, e quem é o cabo Anselmo.
E tomem nota que o Narcotráfico está enfiado nisso até suas mimosas orelhas, assim como seus dignos amigos nas altas camadas da sociedade.



O objetivo principal é se contrapor à tendência da sociedade brasileira, no fim dos anos 1990, de questionar o sistema econômico e de exigir a expansão dos direitos formalmente garantidos na Constituinte de 1988. A Constituição, como se sabe, foi feita sob a égide da “sociedade civil organizada”. Acontece que, na época, cerca de 51% da população brasileira era excluída da sociedade e a “sociedade civil organizada” era apenas uma metáfora para as entidades corporativas, como os sindicatos, federações de indústrias, OAB e setores fortemente apoiados por lobbies. O pesquisador Francisco Fonseca demonstrou como a imprensa, na época, deu voz ao chamado “Centrão” para conter o ímpeto progressista da Constituinte em seu início. Esse alinhamento está triunfando ao transformar o Brasil num país conflagrado, com a criação de legiões de midiotas que repetem o discurso raivoso da imprensa.

