
Integrantes do Movimento Brasil Livre.
O cenário global de desestabilização, crise do capital e decadência das antigas potências é de complexidade notável e neste diálogo os associados travaram um debate que ensaia um sentido geral dos acontecimentos. Confira as argumentações.
Tania Faillace – Sei que desde 2013, por ocasião das manifestações de rua, que foram
orientadas desde os Estados Unidos, através do Facebook, e seguem o padrão estabelecido pela Escola da Revolução, na Sérvia, que antes se chamava Otpor, e agora Canvas, e que até aquele ano havia preparado intervenções em 35 países. Foi organizada e financiada pela CIA, até que andasse com seus próprios recursos (essas intervenções são bem pagas por uma das partes em litígio), e se gaba de ter sido responsável pela “primavera árabe” e o que se seguiu.
As manifestações do dia 15 tiveram outro patrocínio, embora os fins sejam convergentes. Foram realizadas em intenção às investigações que chegavam muito perto dos cofres de tesouro da Suíça.
Lembrem que seus financiadores foram empresários ligados a uma transnacional da cerveja, com sede na Suíça, casualmente. Interbev, HSBC…
Rennan Martins – As movimentações de junho de 2013 iniciaram com pautas progressistas, eram protestos com alguns milhares de integrantes que queriam deter o aumento das passagens e promover a discussão sobre o acesso à cidade e a tarifa zero. Tanto o é que o próprio Movimento Passe Livre nasceu no Fórum Social Mundial.
Depois que a inteligência notou que era possível manobrar a pauta e fez uso de sua imprensa para isso, daí virou aquilo que vimos, um monte de coxinhas de verde e amarelo indignados “contra a corrupção”, tomando vodka com energético e achando que manifestação era micareta.
No dia em ocupamos o Congresso Nacional a indignação era principalmente contra a brutalidade policial e a manipulação dos acontecimentos pela imprensa, que mostrava os MPL como baderneiros enquanto víamos vídeos em que ficava claro que a PM estava surrando os cidadãos. Fizemos também diversas palavras de ordem contra figuras como Marco Feliciano, Bolsonaro e políticos fisiológicos como Renan Calheiros.
Na segunda manifestação tudo já havia mudado, a mídia falava de protestos cívicos e manobrava pra empurrar sua agenda com base nesses protestos e aí sim testemunhei que aquilo tinha se tornado algo parecido com o que ocorreu no último dia 15.
Tania Faillace – Você não está sabendo de toda a missa, porque foi leitor e espectador da mídia. Quem convive com os movimentos sociais, sabe quando há novidades.
Essa história das passagens é uma espécie de senha identificadora.
Entre tantos problemas sociais tão sérios, por que o destaque à passagem de ônibus, quando já existe o vale-transporte e montoeiras de isenções para os mais variados tipos de usuários? Por que não o vale-moradia? O vale-refeição? O vale-farmácia? O vale-material escolar?
Porque é uma reivindicação fácil, e não envolve projetos ou programas públicos, altos financiamentos, esquemas especiais. Então é fácil de montar e desmontar. Nem mesmo exige a elaboração de propostas técnicas, planilhas de custo, etc.
Sem falar que a maioria desses jovens têm carro próprio.
Mas minhas informações privilegiadas decorrem de que eu conheço pessoalmente vários deles em minha cidade, e acompanhei o início das manifestações antes que se tornassem… hum, estranhas, com aquele negócio das máscaras, e uma série de outros detalhes. E eles, de início, estavam muito vaidosos de terem “amigos” nos Estados Unidos, que se davam ao trabalho de orientá-los. Então falavam livremente. Devem ter sido repreendidos depois e aprenderam a calar-se.
Eis outra peculiaridade da cultura brasileira: as pessoas gostam de falar. Nem precisa ser delação premiada.
Rennan Martins – À época eu já acompanhava tanto a grande mídia quanto a alternativa, desvinculada dos interesses do capital.
Acho um erro deslegitimar a pauta do transporte público porque ele é sim precário, caro e até hoje só serve pra levar e trazer os cidadãos do trabalho.
Aqui em Brasília mesmo se você quer sair e voltar tarde ou precisa de carro particular ou muito dinheiro para pagar um táxi.
Além disso temos, em todo o país, a Máfia do Transporte Público que se alia a oligarquias locais via financiamento de campanha, elegendo e comprando seus vereadores e prefeitos que sempre aumentam o aporte de dinheiro público e as tarifas sem contrapartida alguma das concessionárias. Na própria lista do HSBC está o senhor Jacob Barata, empresário antigo de ônibus do Rio de Janeiro, isto mostra com clareza o quão saqueador é o esquema.
Minha tese é de que houve um movimento espontâneo de pauta legítima que depois foi manobrado, aliás, os serviços de inteligência são experts em se aproveitar de problemas internos para avançar com sua agenda, não sei o que há de errado nessa possibilidade.
Tania Faillace – Sim, mas não é o único problema. E não se resolve com tarifas reduzidas, mas com uma política de transporte coletivo que também seja público. É esse um dos nós, aliás, o sucateamento da frota pública para sua compra barata pelo privado. O resto é cortina de fumaça.
O que falei é que é uma coisa você saber das coisas porque lê muito, visita muitos sites, e outra, quando você é militante de rua, participa de reuniões com as pessoas, e sabe como as coisas se colocam na vida real, conhece a formação dos grupos, a influência dos partidos, e até das empresas de transporte no conjunto.
O caso é que essa senha é fácil. Por isso pegou desde a Mídia Ninja até o Xuí. Não é local, é gringo esse movimento, e tem a ver com os coxinhas, sim, embora sejam construções diferenciadas (Guerra Assimétrica), para usos diferenciados para públicos diferenciados, que ora estão com os invasores de terrenos PÚBLICOS (nunca invadem terrenos privados), ora com as passagens que nenhum trabalhador usuário de ônibus aprova e acompanha (fica furioso com a demora nas viagens, a perda de tempo) e mais ainda, quando esses “bonecos” impediram a audiência pública onde a população real, dos bairros, teria a oportunidade de falar.
Não se deixem mistificar, porque, quando acordar, sofrerá muito mais. Nesse melting pot tem até uns darks, Ongs, e obviamente, também uns coxinhas. Posso lhe garantir que essas não são cabeças de trabalhadores.
André Luís – Desconfiem dos governos que ficam falando em ordem e em regularizar o transporte público, estes são os verdadeiros culpados pelo caos na mobilidade urbana, aqui no Rio, essa crise da mobilidade urbana começou com a perseguição aos motoristas de vans e acusações falsas contra trabalhadores os associando a milicianos, esta campanha levou ao caos na mobilidade urbana, pois aumentou o preço das passagens e piorou o serviço público, tente aqui no Rio chegar em casa depois de determinado horário, você não consegue por falta de transporte.
Tania Faillace – A bagunça é um dos métodos do neoliberalismo anarquista para chegar e dominar.
É preciso que a sociedade esteja dividida e em confronto caótico, para que os espertos tomem conta. Essa é uma velha estratégia.
Na ditadura, apesar da repressão, conseguiam-se manter Grupos de Discussão e Trabalho, e manter acesos o estudo, a pesquisa, e a experimentação. Bautista Vidal viveu e trabalhou nesse período.
Nesse sentido digo que o neoliberalismo é pior que o próprio fascismo, porque propõe a desorganização social, a perda de organicidade de uma sociedade e suas instâncias de organização e atuação.
O transporte público, como seu nome indica, deveria ser objeto de políticas públicas, em termos de planejamento racional, em modalidades, trajetos, periodicidade. Não pode ser produzido a partir de demandas pontuais, ou da vontade de empreendedores particulares.
O empreendimento particular, em princípio poderia participar, mas de acordo com as diretrizes de uma política pública de mobilidade urbana, em que todos participassem para estabelecer prioridades e diretrizes gerais.
Assim, a iniciativa privada que se apresentasse, se apresentaria já preparada para preencher alguns dos nichos sobrantes e dentro de suas especificidades e exigências.
Hoje ocorre o contrário.
É a essência do neoliberalismo – que antes se chamava capitalismo selvagem. Mas de selvagem nada tem, porque é muito premeditado para retirar poder e iniciativa do poder público político, e consequentemente, do povo que o elege.
Heldo Siqueira – O verdadeiro motivo das manifestações está em segundo plano. Não interesse para a direita. Podia ser uma micareta no lugar das passeatas que faria o mesmo efeito!
Entendo que o diversionismo é realmente a estratégia. É traiçoeira mas com um ponto fraco (desde que se entenda o debate): abre espaço pra esquerda utilizar o mesmo discurso difuso sobre corrupção para fazer discutir efetivamente o tema. Mas isso não é o suficiente!
O importante é identificar os interesses, trazê-los às claras e o combatê-los.
Tania Faillace – Os interesses podem dividir-se em vários níveis e conforme os atores.
No que se refere à pressão imediata contra a Dilma é no sentido de que afrouxe as investigações, e a divulgação dos nomes dos implicados, e sirva de uma vez a pizza que os citados ambicionam.
Também não se deseja que venham à tona todas as ilegalidades procedidas durante o processo de privatizações e desnacionalizações do período Fernando Henrique Cardoso, que incluiriam gente muito importante, daqui e do Além Mar, inclusive das Sete Irmãs do Petróleo, além do Soros, e indo mais longe, se puxariam os negócios que interessam também ao Reino Unido e outros amigos.
Nunca deixem de lembrar que temos 26 bases militares norteamericanas a nossa volta; a IV Frota custodiando o pré-sal de norte a sul; a mesma IV Frota que pretende um porto especial nas costas uruguaias junto ao Brasil; que há uma base da Otan nas ilhas Malvinas, dotadas de artefatos nucleares; que deve ser construída uma nova base militar norte-americana no Paraguai, próxima à Hidrelétrica de Itaipu.
Os interesses são PETRÓLEO e ÁGUA, além de terras raras, que são notáveis em Raposa do Sol, nação ianomâmi que o Príncipe Charles forçou Lula a desmembrar de Roraima em 2002.
Já levantei o caso da Coca-Cola roubando água do Aquífero Guarani, e remetendo-o por tubulações a navios-tanques nos portos catarinenses, o que foi descoberto há uns cinco anos ou mais atrás, por ocasião daqueles desastres catarinenses, com enchentes e desmoronamentos, o que descobriu as tubulações. Não sei se foi feita uma denúncia e encetado um processo contra ela, pois justificaria que fosse expulsa do País, o que a Bolívia fez: tocou Coca-Cola porta a fora.
Além disso, a Chevron foi flagrada pela Petrobrás, roubando petróleo do pré-sal, e a Dilma a expulsou do Brasil – o mesmo que fez Correa, quando a empresa poluiu a Amazônia equatoriana. Já se vê que essas empresas não têm motivos para gostar de nós, nem da nossa presidente, que mostrou bastante determinação e iniciativa.
Heldo Siqueira – Pois é, contra esses interesses capitalistas que se está brigando. Sem grana esse milhão de coxinhas viram meia dúzia de risoles de azeitona.
Tania Faillace – Sim, é por aí. O problema é que o povo brasileiro não tem consciência disso.
Acho que a primeira medida seria pôr a mão na grande imprensa e obrigá-la a se comportar bem. Critique o que criticar, mas abra espaço para o contraditório com o mesmo destaque.
Essa regra já existe em termos de imprensa, não sei porque não é usada.
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Tania Faillace é jornalista e escritora.
Rennan Martins é jornalista e editor do Blog dos Desenvolvimentistas.
André Luís é economista e funcionário do BNDES.
Heldo Siqueira é mestre em economia e professor da Cândido Mendes.
