Por Heldo Siqueira
Há algum tempo li um artigo do professor Eugênio Bucci1 em que dizia que ninguém havia escrito o que ele queria ler sobre a relação entre o capital e a mídia e escrevia, basicamente para ter o que ler. Não sou especialista em política ou ciências sociais, mas após ler várias interpretações sobre as manifestações nas últimas semanas, sinto-me em condição parecida. Recorro ao método dialético, segundo o qual: se observa a realidade diretamente, formula-se a teoria e analisa se a teoria se encaixa à realidade (concreto pensado). Acredito que à esquerda e à direita, por motivos justos ou escusos, temos mais wishfull thinking que análises objetivas, com teorias querendo ser encaixadas na marra à realidade.
No lado da esquerda, acredito que a questão principal é querer pregar na direita o ódio aos mais pobres e às políticas sociais. Essa afirmação, apesar de cair como uma luva para o discurso da luta de classes, parece uma simplificação do discurso da direita. É improvável que alguém se oponha à melhoria das condições de vida da população. Entretanto, o debate gira em torno de como oferecer tais melhorias. Segundo os conservadores, oferecer serviços através do Estado é uma maneira de distribuir dinheiro dos outros. Não se questiona, por exemplo, o fato de que a principal atividade da segurança é defender a propriedade privada e que os que tem mais propriedade são os mais beneficiados. Além disso, um dos principais papéis da educação é preparar os trabalhadores para serem empregados das empresas. Quanto à justiça, o custo da burocracia e dos advogados acaba a tornando mais um mediador de conflitos da classe média e menos um instrumento de garantias de direitos. Dito isso, um debate sobre o financiamento do Estado, que poderia ensejar em uma reforma tributária que a tornasse mais justa é perdido. Ao contrário ficamos em um debate infrutífero sobre a intenção dos mais ricos que serve apenas como panfleto.
Para a direita, as manifestações parecem bem-sucedidas por engendrarem uma reflexão sobre a corrupção e, supostamente, enfraquecerem o governo federal. Chegam ao absurdo de identificar espontaneidade no movimento, com a confusão, deliberada ou não, deste conceito com o de liberdade em relação aos partidos políticos. À esquerda e à direita há um equívoco nessa questão. Enquanto a esquerda fica tentando identificar quais partidos estão envolvidos nas manifestações, sob a premissa traiçoeira, de que apenas partidos políticos ou sindicatos tem o direito de organizar a sociedade. No extremo oposto, ignora-se que há grupos por trás do processo de mobilização e que estes estão organizados por algum interesse. Ninguém se organiza sem interesse! Como naquele provérbio sobre a guerra, não ter interesses é o equivalente a estar morto. Tanto os novos grupos da direita “Movimento Brasil Livre” e “Estudantes pela Liberdade”, quanto os grupos de mídia com a Rede Globo à frente, tem o legítimo direito de terem interesses e reivindicá-los nas ruas, conclamando o máximo de pessoas que puderem2.
Uma outra reflexão importante é o que tornaria ilegítimo algum tipo de protesto ou manifestação. Em uma sociedade em que os bens se convertem em mercadorias, a produção é feita para a venda e não para o consumo. Seria ingenuidade pensar que grupos organizados ou partidos políticos pudessem se opor a essa lógica. Como bom consumidor de organização popular os grupos capitalistas financiam aquelas manifestações que lhes são interessantes. Não se trata de fundar ou manter uma ou outra organização, mas simplesmente de incentivar que haja a influência no debate para o seu lado. Como vendedores de organização popular, esses grupos entregam o trabalho que lhes é encomendado (e no caso da manifestação do dia 15/03, com extrema competência!). Difundir ideologia é uma tarefa tão cara quanto nobre e ter alguém para pagar as contas sempre ajuda3. Caso esses movimentos tivessem uma ideologia diferente da que pregam, os recursos que os financiam seriam dados a outros que representassem a lógica dos financiadores. Mesmo assim, em alguns momentos, o fiador e o financiado se confundem de uma maneira que um passa pelo outro. Quer dizer, o debate real é com os interesses que estão financiando o grupo organizado e não com o grupo. Ou seja, enquanto a sociedade passa a discutir temas genéricos como corrupção e liberdade econômica, o clima esquenta para o governo.
Nesse caso, é importante separar os dois interesses. Aparentemente os interesses dos organizadores (exceto a Rede Globo que, na verdade, também se confunde com os financiadores) converge para o clima das que conseguiram criar4. Muita empolgação para criar um clima de tensão e poucas propostas efetivas. Não se pode esperar muito mais de um grupo de jovens com grandes aspirações políticas e pouca vivência sobre como o debate político se dá. Não há, portanto, ilegitimidade no movimento que, ao contrário, parece levar segmentos da sociedade avessos a manifestações públicas às ruas, mesmo que com ideias arcaicas e bolorentas. Nesse sentido, trata-se de um movimento salutar para a democracia pois permite o debate de temas como intervenção militar ou nacionalismo.
Move-se então, a análise para os interesses dos financiadores. De fato, parecem preocupados em pressionar o governo e para eles quanto mais genérica a pauta das ruas mais fácil incluir qualquer coisa no discurso e manipular seu resultado. Uma convergência interessante é o fato de que os escândalos de corrupção versarem sobre o setor de petróleo e haver interesses internacionais ligados a essa indústria financiando as manifestações5. Trata-se, de um (dos poucos) segmento no qual o Brasil possui tecnologia e estoque de capital para concorrer em nível mundial. Outros beneficiários da instabilidade política, que tentaram se manter afastados do processo de mobilização, mesmo tendo dado incentivo, foram os políticos do PSDB. Por questões alegadamente ideológicas, o partido se vinculou irremediavelmente com o processo de privatização. Ao mesmo tempo, sempre se colocaram claramente contra o regime de partilha adotado para o pré-sal e a favor da abertura do setor para estrangeiras6.
Quanto a seletividade da indignação, ela parece não ser em relação ao PT. Ao contrário, políticos de várias agremiações estão sendo investigados e denunciados, inclusive vinculados aos partidos da oposição. Além disso, vários processos com o tema da corrupção encontram-se espalhados por varas pelo país sem que haja qualquer revolta em relação ao seu conteúdo. Uma visão alternativa da seletividade diz respeito ao caso da lava-jato versar sobre a Petrobrás! O ataque ao PT parece ser um subproduto do clima de indignação, por se tratar do partido que abriga a titular do governo federal, responsável pela petrolífera e principal fiador do regime de partilha. Fosse qualquer outro partido na mesma situação estaria sendo atacado! Mais que isso, sabe-se lá qual seria a posição do PT caso estivesse na oposição do processo que lidera.
O debate deve ser sobre se trazer novas empresas para acelerar o processo de exploração do pré-sal é de interesse nacional ou se o controle da exploração é mais importante. Deter o controle sobre o capital, sob a hegemonia da sociedade capitalista, equivale a participar das tomadas de decisão de investimento. Privatizar o setor ou abri-lo é equivalente a terceirizar essas decisões a interesses diversos. Mais que isso, trata-se de um setor que foi o cenário dos principais conflitos em nível mundial nos anos 2000 e permanece respondendo por eles.
Não se trata de defender o PT ou a corrupção. A indignação frente aos escândalos é legítima e deve ser incentivada. A utilização destas pautas para ajudar na tramitação de projetos de lei que modifiquem a regulação do setor do petróleo também parece justificável, uma vez que os interesses são alegadamente ideológicos. O que parece realmente equivocada é a postura do governo frente a questão. Se o debate é sobre a Petrobrás e sobre a corrupção, as duas frentes devem ser exploradas. As medidas sobre a corrupção são bem-vindas, mas não são o tema central. O autismo se resume em achar que o debate é sobre a corrupção. Trata-se de um bom momento para tentar aprovar medidas sobre o tema, que sejam consistentes. Mesmo assim o ataque não vai parar, porque não é o foco do debate! É preciso fazer uma defesa efetiva da estatal brasileira e colocar o debate sobre a exploração do pré-sal publicamente e não deixar que os interesses privados (internacionais) controlem o debate de maneira enviesada.
Referências:
1 BUCCI, Eugênio. Alguns amigos que eu tenho (e de como o capital aprendeu a falar). Revista Praga, nº 3, São Paulo, 1997.
2 http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/partido-novo-de-ideias-liberais-quer-tirar-sindicatos-e-partidos-das-ruas.html
3 O nosso grupo de desenvolvimentistas que o diga!
4 A relação entre o PSDB e a mídia paulista é, aparentemente, equivalente.
5 http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/quem-esta-por-tras-do-protesto-pro-impeachment/
6 http://www.plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=84854 e http://www.pt.org.br/serra-apresenta-projeto-para-enfraquecer-petrobras/
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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.
