
Podemos deter o aquecimento global? Só se alterarmos de modo radical nosso sistema capitalista, sustenta a ensaísta Naomi Klein. Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, explica porque chegou o momento de abandonar os pequenos passos em favor de um enfoque radicalmente novo.
Isso é detalhado em seu livro recentemente traduzido ao espanhol, Isso muda tudo, o capitalismo contra o clima.
Por que não conseguimos deter a alteração climática?
Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências lamentáveis.
A catástrofe equivocada no momento equivocado?
O pior momento possível. A conexão entre gases estufa e aquecimento global vem sendo uma questão política central para a Humanidade desde 1988. Foi precisamente na época em que caiu o Muro de Berlim, e Francis Fukuyama atestou “o fim da História”, a vitória do capitalismo ocidental. Canadá e os EUA assinaram o primeiro acordo de livre comércio, que serviu de protótipo para o resto do mundo.
Assim, você diz, começou uma nova era de consumo e energia precisamente no momento em que a sustentabilidade e a contenção teriam sido mais adequadas?
Exatamente. E foi precisamente nesse momento em que nos disseram que já não havia nada parecido à responsabilidade social e á ação coletiva, e que deveríamos deixar tudo com o mercado. Privatizamos nossas ferrovias e a rede energética, a OMC e o FMI se comprometeram com um capitalismo desregulado (selvagem?) Infelizmente, isso levou a uma explosão das emissões.
Você é ativista e culpa o capitalismo por tudo ao longo dos anos. Atribui-lhe a culpa também da mudança climática?
Não há razão para ironias. Os números contam qual é a história completa. Durtante os anos 90, as emissões elevaram-se na taxa de 1% anual. Desde el año 2000, foram subindo em média 3.4 %. Exportou-se globalmente o modelo americano e se expandiram rapidamente bens de consumo, que imaginávamos essenciais para satisfazer nossas necessidades. Começamos a nos ver essencialmente como consumidores. Quanto a comprar como forma de vida se exporta a todos os rincões do globo, isso exige energia. Muita energia.
Voltemos à primeira pergunta: porque não pudemos deter essa mudança?
Descartamos sistematicamente as ferramentas. Hoje se zomba de todas as normas e regulamentações de toda a espécie. Os gov ernos já não aplicam normas severas que ponham limites às companhias petrolíferas e demais empresas. Essas crises nos caem em cima no pior momento possível. Não temos mais tempo. Estamos num momento de agora ou nunca. Se não agirmos como espécie, nosso futuro está em perigo. Temos que reduzir as emissões de modo radical.
Voltemos a outra pergunta: Você não usa indevidamente a mudança climática para criticar o capitalismo? [1]
Não. O sistema econômico que criamos criou também a mudança climática. Isso eu não inventei. O sistema é prejudicial, a desigualdade econômica é excessiva e a falta de contenção por parte das companhias energéticas é desastrosa.
Seu filho Tomás tem dois anos e meio. Em que espécie de mundo ele viverá em 2030, quando sair da escola?
É isso o que se está decidindo agora mesmo. Vejo sinais de que podería haver um mundo radicalmente diferente do que temos hoje e de que a mudança poderia ser positiva ou extremamente negativa. Já está claro que, pelo menos em parte, será um mundo pior. Vamos sofrer a mudança climática e muitos mais desastres naturais, isso é certo. Mas temos tempo ainda de impedir um aquecimento verdadeiramente catastrófico. Temos tempo de mudar nosso sistema econômica para que não se torne mais brutal e impiedoso ao enfrentar a mudança climática.
Que se pode fazer para melhorar a situação?
Temos que tomar hoje algumas decisões sobre quais valores são importantes para nós, e como queremos realmente viver. E, certamente, há uma diferença entre a temperatura que sobe apenas 2 graus, ou 4 ou cinco a mais. Ainda nos é possível tomar as decisões corretas.
Passaram-se 26 anos desde que se fundou o IPCC (Intergovernamental sobre mudança Climática) em 1988. Sabemos, pelo menos, desde então, que as mudanças de CO2 causadas pela queima de petróleo e carvão são responsáveis pela mudança climática. Mas pouco se fez para encarar o problema. Já não teremos fracassado?
Eu vejo a situação de modo diferente, dado o enorme preço que teremos que pagar. Enquanto tenhamos a menor oportunidade de êxito ou de minimizar o dano, temos que continuar lutando.
Faz vários anos, a comunidade internacional estabelelceu um objetivo parea limitar o aquecimento global a dois graus centígrados. Ainda o considera alcançável?
Bem, ainda é uma possibilidade física. Teríamos que reduzir imediatamente as emissões globais em 6% ao ano. Os países mais ricos teríam que carregar um peso maior, o que significa que os EUA e Europa teríam que cortar emissões entre 8% e 10% ao ano. Imediatamente. Não é impossível, só que é politicamente irreal com nosso atual sistema.
Diz você que nossas sociedades não são capazes disso?
Sim. Necessitamos uma mudança espetacular, tanto na política como na ideologia, porque há uma diferença fundamental entre o que os cientistas nos dizem que temos que fazer e nossa atual realidade política. Não podemos mudar a realidade física, assim temos que mudar a realidade política.
Pode uma sociedade que se centra no crescimento combater de fato com êxito a mudança climática? [2]
Não. Um modelo econômico baseado num crescimento indiscriminado, leva inevitavelmente a um maior consumo e a maiores emissões de CO2. Pode e deve haver crerscimento no futuro em muitos setores de baixas emissões na economia, em tecnologias verdes, em transporte público, em todas as atividades que propiciam serviços, artes e, sem dúvida, na educação. Agora mesmo, o núcleo de nosso produto interior bruto compreende só o consumo, as importações e exportações. Aí deve haver cortes. Qualquer outra proposta seria enganar-se a si mesmo.
O FMI diz o contrário. Diz que o crescimento econômico e a proteção do clima não se excluem mutuamente.
Não analisam os mesmos números que eu. O primeiro problema é que em todas essas conferências sobre o clima, todo o mundo age como se fôssemos chagar a nossa meta por meio de um compromisso próprio e de obrigações voluntariamente aceitas. Ninguém diz às empresas petrolíferas que devem ceder. O segundo problema é que essas empresas lutarão como feras para proteger o que não querem perder.
Seriamente, quer eliminar o livre mercado para salvar o clima?
Não falo de eliminar mercados, mas nos faz falta muito mais estratégia, direção e planejamento, e um equilíbrio muito diferente. O sistema em que vivemos está abertamente obcecado pelo crescimento, considera bom todo o crescimento. Mas há fomas de crescimento que não são boas. Tenho clareza de que minha posição entra em conflito direto com o neoliberalismo. É verdade que, na Alemanha, ainda que vocês tenham acelerado a mudança para a energia renovável, o consumo de carvão está, na verdade , aumentando?
Isso era certo entre 2009 e 2013.
Para mim, isso é a expressão da renúncia a tomar decisões sobre o que é preciso fazer. Alemanha tampouco vai cumprir seu objetivo de reduzir emissões nos próximos anos.
A presidência de Obama foi o que de pior poderia ter acontecido ao clima?
De certo modo. Não que Obama seja pior que um republicano, o que não é, e sim, porque nesses oito anos foram a maior oportunidade desperdiçada de nossas vidas. Havia os fatores certos para uma convergência realmente histórica: consciência, pressa, ânimo, sua maioria política, o fracasso dos Três Grndes Fabricantes de automóveis norteamericanos e até a possibilidade de encarar de vez a mudança climática e o falido mundo financeiro desregulado. Mas quando assumiu o cargo, não teve coragem de agir. Não venceremos essa batalha a menos que estejamos dispostos a dizer porque Obama considerou que o fato de ter controle sobre bancos e companhias de automóveis era mais uma corvéia que uma oportunidade. Estava prisioneiro do sistema. Não quis mudá-lo.
Os EUA e China chegaram finalmente a um acordo inicial sobre o clima em 2014.
O que, certamente, é algo bom. Mas tudo o que pode ser penoso no acordo não entrará em vigor até que Obama termine seu mandato. O que mudou foi que Obama disse: “Nossos cidadãos estão manifestando, não podemos ignorá-los”. Os movimentos de massa são importantes, têm repercussões. Mas, para empurrar nossos líderes até onde têm que chegar, os movimentos devem fazer-se mais fortes.
Qual deveria ser sua meta?
Nos últimos 20 anos, a extrema direita, a absoluta liberdade das empresas petrolíferas e a liberdade do 1% dos super-ricos da sociedade se converteram em norma política. Temos que deslocar de novo o centro político norte-americano da franja direitista a seu lugar natural, o verdadeiro centro.
Senhora, isso não tem sentido, porque é uma ilusão. Pensa você em avançar demais. Se você quer eliminar o capitalismo antes de elaborar um plano para salvar o clima, sabe você que isso não vai acontecer.
Olhe, se você quer deprimir-se, tem muitas razões pra isso. Mas continuará equivocado, porque o fato é que centrar-se em mudanças graduais supostamente viáveis, como o comércio de emissões e a troca de lâmpadas, fracassou miseravelmente. Em parte isso se deve ao fato de na maioria dos países o movimento ambiental permaneceu elitista, tecnocrático e supostamente neutro politicamente durante duas décadas e meia. Já vemos hoje quais são os resultados a que nos levaram o caminho equivocado. As emissões estão aumentando e aqui temos a mudança climática. Em segundo lugar, nos EUA, todas as transformações importantes legais e sociais dos últimos 150 anos foram resultado de movimentos sociais massivos, seja em favor das mulheres, contra a escravidão, ou em prol dos direitos civis. Necessitamos de novo esta fortaleza, e rapidamente, porque a causa da mudança climática é o sistema político e econômico vigentes. Seu enfoque é muito tecnocrático e estreito.
Se tenta você solucionar um problema específico revirando toda a ordem social, não vai resolvê-lo. É uma fantasia utópica.
Se a ordem social é a raiz do problema, é diferente. Olhando de outra perspectiva, nadamos literalmente em exemplos de pequenas soluções: há tecnologias verdes, leis locais, tratados bilaterais e impostos ao CO2. Por que não temos tudo isso em escala global?
Diz você que todos esses pequenos passos – tecnologia verde e impostos ao Co2 e um comportamento ecológico individual – não têm sentido?
Não. Todos deveríamos fazer o que pudéssemos, de certo. Mas não podemos nos engtanar com que isso seja suficiente. O que digo é que esses pequenos passos são muito pequenos, se não se convertem num movimento de massas. Necessitgamos uma transformação econômica e política, que se gaseia em comunidades mais fortes, empregos sustentáveis, maior regulamentação e um afastamento dessa obsessão de crescimento. Essas são as boas notícias. Temos, realmente, a oportunidade de resolver muitos problemas imediatamente.
Não parece contar com a razão coletiva de políticos e empresários.
Porque o sistema não pode pensar. O sistema recompensa a ganância a curto prazo, o que significa dizer, lucros rápidos. Observe Michael Bloomberg, por exemplo…
…empresario e antigo prefeito de Nova Iorque…
…que entende la gravidade da crise do clima como político. Como empresário, prefere investir num que se especializa em ativos de petróleo e gás. Se uma pessoa como Bloomberg não pode resistir à tentação, se pode concluir, por esse caso, que não é grande a capacidade de auto-conservação do sistema.
Um capítulo especialmente de seu livro é o de Richard Branson, presidente do Grupo Virgin.
Sim, estava esperando.
Branson apresentou-se como um homem que quer salvar o clima. Tudo começou com um encontro com Al Gore.
E em 2006 se comprometeu num ato que acolhia a a Clinton Global Initiative onde investiria 3 bilhões de dólares para pesquisar tecnologias verdes. Naquela época, eu pensava que seria um aporte realmente fantástico. O que não me ocorreu pensar foi “que sujeito tão cínico você é”.
Branson só estava simulando e só investiu uma parte desse dinheiro.
Talvez fosse sincero na ocasião, se investiu uma parte desse dinheiro.
Desde 2006, Branson acrescentou 160 novos aviões em suas numerosas linhas aéreas, e incrementou suas emissões em 40%.
Sim.
Qual a lição dessa história?
Que temos que pôr sob suspeita o simbolismo e os gestos que fazem as estrelas de Hollywood e os super-ricos. Não podemos confundi-los com um plano cientificamente sério para reduzir emissões.
Na América do Norte e Austrália, se gasta muito dinheiro tentando negar a mudança climática. Por que?
É diferente da Europa. Se trata de uma indignação semelhante à de quem se opõe ao aborto e ao controle das armas. Não se trata de que se esteja protegendo um modo que não querem mudar. É que entenderam que a mudança climática põe em cheque o núcleo de seu sistema de crenças contrário ao governo e em prol do livre mercado. De modo que tem que negá-lo para proteger sua própria identidade. Por isso existe essa diferença de intensidade: os iberais querem agir um pouquinho na proteção do clima. Mas ao mesmo tempo, esses liberais têm uma série deoutras questões que figuram de modo mais destacado em sua agenda. Mas temos que entender que os mais duros que negam a mudança climática entre os conservadores, farão tudo o que for possível para impedir que se aja.
Com estudos pseudocientíficos e desinformação?
Com tudo isso, certamente.
Isso explica porque relaciona toas essas questões – meio ambiente, igualdade, saúde pública e trabalho – que são populares entre a esquerda? Por razões puramente estratégicas?
Essas questões têm relação e nos falta mesmo conecta-las no debate. Só há um modo de vencer uma batalha contra um pequeno grupo de pessoas que te enfrentam porque têm muito a perder: há que se iniciar um movimento massivo que abarque a toda aquela gente que tem muito o que ganhar. Só se pode derrotar a quem te nega tudo, se te mostras igualment apaixonado mas também quando es superior em número. Porque na verdade, os que mandam são muito poucos.
Por que não acredita que a tecnologia possa salvar-nos?
Há um grande progresso na armazenagem de energias renováveis, por exemplo, e na eficiência solar. Mas… e na mudança climática? Eu não tenho fé suficiente para dizer: “Como acabaremos inventando alguma coisa na hora, deixemos de lado todos os outros esforços. Isso seria uma insnsatez.
Gente como Bill Gates vê as coisas de modo diferente.
E eu acho ingênuo seu fetichismo tecnológico. Em anos recentes testemunhamos certos fracassos espetaculares, em que alguns tipos mais espertos meteram a mão até o fundo numa escala grandiosa, sem falar dos derivados que desencadearam a crise ou a catástrofe petrolífera da costa de Nova Orleans. Na maioria das vezes, nós destruímos as cosias e não sabemos como consertá-las. Agora mesmo, o que estamos destruíndo é nosso planeta.
Ouvindo-a, se poderia ter a impressão de que a crise do clima é uma questão de gênero.
Por que você diz isso?
Bill Gates diz que temos que avançar e idear novas invenções para controlar o problema, e em última instãncia, esta Terra nossa tão complicada. Por outro lado, diz você: paremos, temos que adaptar-nos ao planeta e nos tornarmos mais leves. As companhias petrolíferas norte-americanas estão dirigidas por homens. E você, uma mulher crítica, a descrevem como uma histérica. Não lhe parece absurdo?
Não. A industrialização em seu conjunto estava ligada com o poder, para ver se seria o homem ou a natureza que dominaria a Terra. A alguns homens parece difícil reconhecer que não temos tudo sob controle, que acumulamos todo esse CO2 ao longo dos séculos, e hoje a T nos diz: olhe, não passas de um convidado em minha casa.
Convidado da Mãe Terra?
Isso não soa lá muito bem. De certo modo, você tem razão. A indústria petrolífera é um mundo dominado pelos homens, muito semelhante ao da altas finanças. É algo do domínio dos machos. A idéia norte-americana eaustsraliana de “descobrir um país infinito do qual se possam extrair inesgotáveis recursos, tem uma história de dominação, que representa tradicionalmente a natureza como uma mulher fraca e torpe1. E a idéia de estar em relação de interdependência com o resto do mundo natural se consider uma debilidade. Por isso é duplamente difícil aos machos-Alfa reconhecer que se equivocaram.
Há em seu livro uma questão de que parece querer desviar-se. Ainda que você critique às empresas, não diz você a seus leitores, que são clientes dessas empresas, que também são culpados. Tampouco diz você alguma coisa do preço que terá de pagar cada um de seus leitores pela proteção do clima.
Oh, eu creio que a maioria das pessoas ficaria encantada de pagar por isso. Sabem que proteção do clima exige um comportament razoável: dirigir menos, voar menos e consumir menos. Ficariam encantados de usar energias renováveis se lhes fossem oferecidas.
Porém a idéia não é o bastante grande, não é?
(riso) Exatamente. O movimento verde levou décadas instruindo as pessoas para que usassem seu lixo como abono, para que reciclasse e andasse de bicicleta. Mas observe o que sucedeu com o clima durante essas décadas.
E sua maneira de viver é benéfica ao clima?
Não o bastante. Ando de bicileta, uso transporte público, converso por Skype, divido um carro híbrido e reduzi meus voos a um décimo do que eream antes de começar esse projeto. Meu pecado está em usar táxis e, desde que saiu o livro, em voar muito. Mas não creio que seja possível ser perfeitamente verde e viver sem emitir CO2, o único fator concernente a essa questão. Se assim fosse, então ninguém poderia dizer uma única palavra [4].
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Naomi Klein é autora, entre outros livros, de A doutrina do Choque e No Logo.
Tradução: Tania Jamardo Faillace
Notas da tradutora:
[1] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.
[2] Essa intervenção do entrevistador é muito tola. Nossos produtos e nossos dejetos e efluentes são consequência de nosso modelo de vida em sociedade, e esta depende do modelo econômico, social e político que adotamos, sendo o modelo econômico o primeiro condicionante, porque determina os demais.
[3] E voltamos a Freud, e a encarar o grande nó existencial e psicológico do indivíduo humano e suas relações parentais: o complexo de Édipo. A desqualificação da mulher, simbolicamente, continua a ser a sujeição da mãe à vontade do filho. A tragédia está equivocada: Édipo não matou o pai, deve, isso sim, ter morto a mãe, mesmo simbolicamente, como ainda hoje faz todos os dias.
[4] Para quem não sacou o gracejo: Naomi se refere, que, ao falar emitimos C02 pela boca. Ao respirar, também.
