Uma interpretação do descontrole cambial

11 Flares Twitter 0 Facebook 11 Filament.io 11 Flares ×
Por Heldo Siqueira

O aviso de Mário Henrique Simonsen, de que a inflação aleija mas o câmbio mata, é sempre atual quando tratamos de desenvolvimento macroeconômico. Os economistas do novo desenvolvimentistas também destacam o papel do “câmbio industrial” em neutralizar a doença holandesa e estimular as exportações[1]. O debate torna-se particularmente importante na medida em que vivemos um ciclo de desvalorização do real. O período que se deu entre fevereiro de 2013 e o início março de 2015 o dólar passou de R$ 1,97 para R$ 2,86, em uma desvalorização de 45,1%[2]. Esse cenário recrudesceu-se desde o início do ano, quando a proporção de reais para a moeda americana ainda era de R$ 2,65.

Mesmo assim, segundo o Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não há crise cambial[3]. Essa afirmação parece estar ancorada na percepção de que há uma tendência de desvalorização de várias moedas em relação ao Dólar e o Real está acompanhando a tendência. A moeda da comunidade europeia, por exemplo, desvalorizou-se 21,4% entre junho de 2014 e março de 2015. No caso do Real, esse valor chegou a 30,1%.

Uma vez que a moeda americana segue é o parâmetro para a conversão de outras é necessário estabelecer outro indicador, além de outras moedas, para tentar entender sua trajetória. Um indicador particularmente interessante é o preço do petróleo. O gráfico 1 mostra a uma comparação entre a trajetória do barril tipo Brent de petróleo frente ao Dólar entre 2002 e 2015 e o Real.

Heldo1

 

Observa-se que a trajetória da moeda brasileira frente o indicador de trajetória do petróleo em Dólares tem uma tendência aproximada. Na crise de 2008 houve uma apreciação do Real, dada a abrupta perda desvalorização do petróleo, que dissipa. O final do ano de 2014 também marca uma nova desvalorização da commodity. Trata-se de uma indicação de que o Dólar está se valorizando frente ao preço do petróleo! A mesma análise pode ser feita para o Euro.Heldo2

Mesmo tendo uma trajetória de desvalorização menos acentuada durante a crise de 2008, o que explica em parte a penúria econômica de alguns dos países que o utilizam frente a crise, observa-se que o Euro também seguiu a trajetória de desvalorização frente ao Dólar que ocorreu no final de 2014. A última comparação que deve ser feita é a do Real com o Euro frente.Heldo3

Nesse caso, pode-se observar ainda outras tendências. Uma desvalorização relativa do Real, entre 2002 e 2005, revertida até a crise econômica de 2008. Posteriormente uma nova apreciação do real que se reverte desde meados de 2013. Mesmo assim, a desvalorização experimentada pela moeda brasileira parece ser equivalente a do Euro. Nesse sentido, a prática de defender a manutenção das taxas de câmbio, apesar de populares em termos políticos, pode ser realmente artificial, como mencionava o Ministro da Fazenda Joaquim Levy em Janeiro[5].

Referências:

[1] https://jlcoreiro.wordpress.com/2015/03/13/os-descalabros-de-edward-amadeo

[2] Os dados são do Ipeadata e do Banco Central, do último dia útil de cada mês até 02/03/2015.

[3] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/03/depreciacao-do-real-nao-mostra-descontrole-cambial-diz-barbosa.html

[4] Mais especificamente: (1/Brent)x50 . A multiplicação por 50 permitiu melhorar a escala de visualização.

[5] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/levy-diz-nao-ter-intencao-de-manter-cambio-artificialmente-valorizado.html

***

Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>