A corrupção varejista e a solução real

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Por Rennan Martins | Vila Velha, 13/03/2015

Ilustração de Daniel Kondo

E eis que finalmente tivemos acesso a íntegra da tão especulada lista de Janot, na qual a procuradoria-geral da República indicou ao STF os nomes dos políticos citados nas delações premiadas da Lava Jato, dizendo ainda contra quem havia indícios suficientes para abertura de inquérito e quais deles se recomendava o arquivamento das denúncias.

A cobertura realizada pela imprensa corporativa deu a impressão de que o Partido dos Trabalhadores seria majoritário, que podíamos esperar até mesmo o nome da presidenta Dilma Rousseff caso levássemos em conta o panfleto de campanha da Veja. A realidade pregou uma peça nos oportunistas e quem lá se achou foi o próprio senador Aécio Neves, acompanhado de 33 parlamentares do PP, herdeiro do Arena, que por sua vez fora o partido sustentáculo da ditadura militar.

A despeito da concretude dos fatos a hipocrisia permanece soberana no debate. A narrativa midiática continua partidarizando a questão e fazendo os leigos pensarem que a corrupção é um problema de “decência”, “ética” e “bons costumes”. Enquanto isso, a CPI da Petrobras dá show de incredibilidade, conseguindo a façanha de unir situação e oposição na defesa do lobista Eduardo Cunha, mal disfarçando que congressistas citados nos autos integram a comissão, ou seja, investigam a si mesmos.

Os indignados, que no próximo domingo darão sua demonstração de força, não deram maior amostra de coerência. Enquanto batiam panelas não atinaram que o candidato que apoiaram nas últimas eleições consta na lista, que os próximos na linha de poder – que assumiriam num eventual impeachment – são o vice-presidente Michel Temer e o presidente da câmara Eduardo Cunha, ambos do PMDB e também no meio. Está na hora dos revoltados online acharem outro motivo para histeria, pois o quadro prova que contra a corrupção é que não é.

O que esta crise nos expõe é que o esquema de propinoduto instalou-se em nossa maior estatal após o governo FHC mudar a lei de contratações, tornando desnecessária a licitação, o que abriu brecha para todo tipo de negociata e acordo entre a iniciativa privada e os agentes públicos. Os que bancaram essa medida tinham consciência de seu poder destrutivo e a intenção era após a vinda à tona dos desvios vir candidamente a público com a “solução”: privatizar a Petrobras.

Agora estes mesmos senhores se aproveitam do clima pesado e em conjunto com a mídia aliada espalham aos quatro ventos que não temos condição de bancar os investimentos necessários para a exploração do pré-sal, que precisamos entregá-lo as petroleiras estrangeiras. O senador José Serra já levantou a bandeira.

É preciso ressaltar a sociedade que a corrupção que representa a entrega de mais de 80 bilhões de barris com potencial de bancar saúde, educação e um salto tecnológico nacional é infinitamente mais perversa que essa que assistimos.

O Brasil tem uma ótima oportunidade de combater o histórico patrimonialismo e promiscuidade entre setor público e privado empunhando uma reforma política que proíba o financiamento de campanha por empresas, mecanismo chave de toda troca de favores escusos. Aproveitemos a crise para aperfeiçoar a democracia e fortalecer a Petrobras, não nos deixemos levar pelos arroubos falso moralistas.

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