Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos

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Brasil de Fato

No último domingo diversos bairros de classe média e alta fizeram a orquestra da indignação com suas respectivas panelas. Este não foi uma resposta ao pronunciamento, os envolvidos nem mesmo ouviram o que a presidenta tinha a dizer. A estridência do metal expressava um sentimento anticorrupção que tentaram expressar, mas o curioso disso tudo é que a maioria dos indignados votaram no candidato derrotado da oposição, Aécio Neves, e agora ignoram solenemente o fato dele ter sido citado na lista da Lava Jato, enquanto Dilma Rousseff, não.

Sem mais delongas, fiquem com este interessante debate.

Tania Faillace – Não vejo porque fazer todo esse auê com o panelaço. Já foram feitos muitos e muitos panelaços, e até durante a ditadura militar. Seu significado é sempre o mesmo: manifestar inconformidade com o status quo na área política e pública. Não tem poder transformador, pois não passa de uma vaia, de um bullying, e está também dispensado de ser orgânico e coerente em suas reivindicações, porque sua grande característica é ser divertido. Todos gostam de fazer panelaços porque é uma espécie de regressão à irresponsabilidade infantil – ninguém será castigado nem responsabilizado, e não precisa comportar-se seriamente. Se pintar reclamação, é só jogar fora a panela, e adotar um ar respeitável.

Eu também já fiz panelaço, e é relaxante, emocionalmente relaxante, e deixa as pessoas bem humoradas e sorridentes, dispostas a fazer piadas sobre tudo.

Quanto às observações de Miguel do Rosário sobre a atitude do governo, são impressões subjetivas, de quem não está por dentro do assunto, nem frequenta movimentos políticos contra ou a favor. Puro achômetro.

O governo brasileiro é produto de uma coalizão – isso ainda não ficou claro? Esse governo, pois, não tem uma linha definida de atuação. Se fosse um governo do PT, não teria engolido a Ana Amélia, nem o Levy, nem o Wagner. E já teria feito sinalização positiva para a Reforma Agrária e a taxação das grandes fortunas. Pelo contrário, está propondo ajustes fiscais que cairão sobre o cidadão comum, não sobre os super-ricos em especial. Por que acontece isso? Porque os progressistas não têm maioria no Congresso nem na própria coalizão.

Por outro lado, denunciar a coalizão poderia agudizar a crise – e os gringos estão esperando por isso. Canvas – antiga Otpor – já está preparada para entrar em ação com seus mascarados, e possivelmente, ações violentas.

Rennan Martins – O governo ser de coalizão não é desculpa para o tantos erros do governo, principalmente no que se refere a comunicação, que é uma esculhambação sim. Miguel está certo quando diz que um think thank formado por intelectuais de esquerda aflitos e prontos para cooperar faria uma diferença enorme na correlação de forças.

A apatia do Planalto tem deteriorado a situação a tal ponto que quando a presidenta resolve fazer algo o bombardeio reacionário já está pronto. Tania, se a coalizão impedirá para sempre o PT de continuar avançando na agenda progressista, bem, então que desistamos de fazer política.

Roberto Oliveira – O Governo Federal não tem Comunicação Social. Simplesmente não tem.

Acho muito perigoso ignorar essa classe média ignorante. É uma pequena parcela da sociedade? Sim. Mas, é gente que influencia outras pessoas e cria o climão “apocalíptico”.

E é um erro enorme imaginar que o discurso reacionário e desinformado não chega às classes mais populares. É só dar uma passeada pelas redes sociais e comentários de rodapés do noticiário político para ver o quanto essa lobotomia já foi introduzida entre os mais pobres.

O Governo e o PT precisa mudar sua estratégia comunicacional para ontem! É desesperador essa letargia.

Tania Faillace – Não existem think tanks no Brasil. Nem na esquerda nem na direita. Essa é uma invenção norte-americana.

E os partidos não funcionam como empresas comerciais, com organogramas funcionais, e sim com concessões mútuas entre as tendências e grupos internos.

No caso do PT, a rota de inflexão foi a gestão do José Dirceu, que perseguiu a esquerda e conseguiu alijá-la das posições de comando, e a invenção da filiação online, com o inchaço havido por meio de oportunistas não-ideológicos, e até os acertos havidos com o Garotinho, no Rio, etc., e depois a introdução do Valério na eleição seguinte (Valério que entrou justamente para fazer a política do PSDB dentro do PT). O que causou revolta à esquerda do Partido, mas a maioria agora era a maioria amorfa e silenciosa, com esperança de arranjar uma vaguinha nas nominatas.

Que o pessoal da Engenharia e outras áreas técnicas desconheça tão completamente como funcionam os grupos sociais, a dinâmica social em qualquer agrupamento, se compreende, – só lidam com objetos inertes, projetos definidos tecnicamente, não lidam com seres humanos (sociólogos estariam mais à vontade no assunto), vontades convergentes, divergentes, conflitantes, jogos de interesses abertos ou disfarçados.

Mas um jornalista tem a obrigação de conhecer a dinâmica das relações humanas e dos grupos de quaisquer natureza.

Assim que a maioria das críticas feitas ao PT como se se tratasse de uma entidade burocrática regida por regulamentos cartoriais, não têm sentido porque falam de “conceitos”, não de “realidades”, e presumem uma homogeneidade que não existe nem no seio das famílias.

E veja você o mensalão – claro que foi uma falsa bandeira. Isto é, os mensalões são de uso corrente em todas as casas legislativas que eu conheço e conheci desde que sou jornalista. Todo o mundo sabe que existem, cochicha-se nos corredores a respeito, ou até promovem-se vaias a partir das galerias (já assisti e participei de várias), identificamos os legisladores que “comem bola” – mas uma coisa é saber, outra coisa é provar, e o MP não tem gosto nem vontade para se meter nesses assuntos.

Então, me diga, como o mensalãozinho do José Dirceu explodiu para a mídia? Só por denúncia interna, de quem participava do mesmo. Justamente para fazer o estrago que fez, e Dirceu provar sua boa fé, aceitando ser indiciado e preso.

Já ouviu falar do cabo Anselmo nas agitações na marinha antes de 1964? Em 1968, a mesma pessoa participava da direção da UNE. Os estudantes dos estados não sabiam que o Congresso seria em Ibiúna. Só a direção… e os órgãos de segurança. E a direção esteve em Ibiuna, e encomendou milhares de pãozinhos de uma só vez, assinalando de vez que seria ali o Congresso.

Eu trabalhava na ZH, não sabia onde seria o Congresso, mas recomendava discrição aos estudantes que nos procuravam e que expulsassem de suas reuniões quaisquer pretensos jornalistas que se apresentassem. Estávamos sabendo que tínhamos espiões dentro da redação e nossos telefones estavam grampeados. E sabíamos também quem eram esses espiões.

Isso em Porto Alegre, claro.

Então faz muito tempo que os brasileiros vêm dançando segundo a música dos gringos. E não acordam, e confiam em eventos milagrosos, sem se mexerem, nem se organizarem.

Agora, que vem guerra mesmo, que se vai fazer? Vai-se discutir detalhes formais, de um projeto de recolonização que tem mais de 50 anos, tentando achar um bode expiatório fácil, porque organizar-se para lutar contra o inimigo real, lá fora, não se tem cacife nem coragem?

Rennan Martins – Criticar o PT e seus erros não é ignorar a ameaça externa e recolonizadora, o que estás a postular é uma falsa dicotomia. Podemos sim, criticar o governo, principalmente nos pontos mais vulneráveis no que concerne aos ataques do império. Faço exatamente isso, minha pauta ultimamente está voltada para produção quase exclusiva de conteúdo para conscientização sobre o que realmente está em jogo na Petrobras.

Compreendo as influências que um governo de coalizão tem sobre uma agenda e também entendo que as propostas precisam se ajustar a correlação de forças, porém, a meu ver o que me pedes é apoio acrítico ao PT e não foco no inimigo real.

Roberto Oliveira – Que me desculpem os petistas, mas quem estava na vaia que a presidenta levou em São Paulo não era a “elite”, tampouco a “burguesia” brasileira. Ou o Governo e o PT acordam, ou a coisa ficará cada vez pior. Este é o preço salgado da letargia comunicacional do Governo Federal.

Muitas pessoas das camadas mais populares acabam reproduzindo o comportamento da classe média burra e desinformada por um mimetismo bisonho. Este ódio já se encontra muito difundindo entre a tal “nova classe média”.

E o “inimigo externo”, travestido em nossas Globos, Folhas e Estadões, deita e rola.

Rennan Martins – O que indigna o trabalhador que votou no PT por pragmatismo e consciência de que esse papo de corrupção proveniente do PSDB e correlatos não passa de oportunismo é este ajuste fiscal que está a todo vapor. Votaram em Dilma justamente por reconhecer que este partido mudou a realidade da maioria da população, e agora se veem perplexos diante dessa guinada ortodoxa que lhes ataca frontalmente.

Daí temos que a esquerda orgânica que foi crucial para a reeleição não se sente a vontade para defender o governo, enquanto as forças reacionárias não ficarão satisfeitas nem se toda a agenda tucana for praticada pois a questão já se impregnou de ódio de classe.

Então temos essa cínica imprensa que antes não convencia o trabalhador, somente a classe média alienada, instrumentalizando a raiva legítima das massas por votar em “Mais Mudanças” e ganhar retrocesso. E não, de nada adianta recorrer ao argumento da correlação de forças e do governo de coalizão para o caso Levy, Dilma foi reeleita com o keynesianismo moderado do Mantega e tomou a opção de abandoná-lo.

Roberto Oliveira – Não sei se as “massas” chegam a ter esta percepção, pelo menos creio que não por enquanto. Os trabalhadores sindicalizados e mais esclarecidos e as pessoas ligadas a movimentos sociais podem ter esta percepção. Entretanto, o que sinto é muito mais uma tremenda ignorância política que envolve toda a sociedade brasileira, inclusive os pobres que foram beneficiados pelas políticas sociais do governo petista. Essa “idiotia política” é como um oba oba, um movimento de manada. Xinga-se por xingar. O importante é fazer parte da trupe barulhenta. E é justamente aí que o governo peca e muito ao não oferecer informação às pessoas e permitir que estas sejam embaladas pelas torcidas organizadas.

Sem informação, estes milhões se penduram naqueles que gritam mais alto.

Neste vídeo das vaias desta semana, o que vejo é comportamento de manada. Muitos daqueles que gritavam eram montadores de estandes, trabalhador pobre, deslumbrado pela vaia à presidente que partia de algumas pessoas da classe média imbecilizada. Os pobres mimetizarão esta classe média estúpida. Questão de tempo para estar “tudo dominado”.

Rennan Martins – Aí é que está, os indignados de classe média e alta já estavam desde antes nessa histeria e não comoviam os trabalhadores.

Que elemento então foi inserido pra que aderissem a esse comportamento de manada? As medidas que sinalizam arrocho, como por exemplo as restrições a direitos trabalhistas e aumento da dificuldade do crédito geram um sentimento de que foram enganados, então a imprensa direciona essa raiva contra o PT ao invés do arrocho.

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