O essencial artigo intitulado Momento decisivo, do doutor em economia e colaborador do portal Desenvolvimentistas, Adriano Benayon, teve boa repercussão e gerou alguns questionamentos por parte de Nelson Prata, integrante do nosso grupo de discussões via e-mail.
Por serem considerações relevantes para interpretação política e histórica do Brasil, principalmente levando-se em conta o momento chave que vivemos, reproduzimos o debate travado entre as partes para o público em geral.
Segue a íntegra:
Nelson Prata – Concordo que o momento é decisivo. Pergunto ao senhor onde está a esquerda, o centro e até mesmo a direita nacional?
Adriano Benayon – Em todos os partidos representados no “governo”, na “oposição”, bem como nas correntes de opinião influentes na academia, no Judiciário, no MP e em outras instituições, prevalece a falta de comprometimento com os interesses nacionais o desconhecimento dos reais problemas do País e, sobre tudo, das causas desses problemas. Não faz diferença significativa, se essas agremiações e pessoas se consideram de direita, de centro ou de esquerda. O império investe, há mais de 80 anos, em alienação e ignorância, e está colhendo os frutos.
Nelson Prata – Digo a direita, pois a desindustrialização crescente do Brasil, na prática, atinge-os diretamente, não é? Temos também, pelo menos na teoria, um partido de esquerda no poder.
Adriano Benayon – Não necessariamente os empresários devem ser de direita, e muitos não o são nem foram. Por outro lado, a divisão esquerda/direita é uma das mais manipuladas pelos serviços secretos estrangeiros e seus agentes locais.
Lula, por exemplo dividiu a esquerda, competiu e tirou espaço da esquerda nacionalista, que tinha dois expoentes pelo menos: Leonel Brizola e Miguel Arraes, ambos dotados de boa visão dos interesses nacionais e conscientes de que nosso verdadeiro inimigo é o império angloamericano.
Nelson Prata – Qual a razão da vergonhosa capitulação do governo?
Adriano Benayon – Trata-se apenas de mais um engodo, um dos muitos que se têm sucedido desde a derrubada de Vargas em 1954. Eu diria que o PT, desde o início, é o produto de uma negociação com a oligarquia: ele finge ser de esquerda, mas apenas negocia com a oligarquia, concedendo-lhe quase tudo, em troca de esta lhe permitir expandir suas bases e apoio popular, mediante algumas medidas que, necessariamente, são positivas para a economia do País.
Mas isso agora está indo pelo ralo, porque os líderes do PT nunca tiveram a clarividência para compreender que, com as estruturas econômicas que se consolidavam e ampliavam (desnacionalização, desindustrialização, concentração), a economia – com qualquer política macroeconômica – daria com os burros n’água, e eles (os petistas) seriam colocados no banco dos réus para pagar o pato, como responsáveis por esse fracasso e pelo caos que se instala no País.
Nelson Prata – Se um governo, que sempre, quando oposição, denunciou, prometeu mudanças, e, quando no poder se omite, ou se encolhe, como esperar do povo uma reação? A esquerda está paralisada há anos. Não cuidou, nem ao menos de ter uma imprensa alternativa e de porte, para fazer o contraponto.
Adriano Benayon – O imperativo de sobrevivência de uma nação e de um povo não pode (e não deve) ficar dependente da ação do governo, mesmo porque se trata de um falso governo, impotente diante da lógica de poder do sistema político em que pretendeu – e conseguiu até há um tempo – florescer.
A essência do ser, como ensina Spinoza, é o esforço, energia ou élan de perseverar no ser (conatus sese preservandi).
Se, em toda a história da humanidade, não tivessem existido senão bons governos, nunca teria havido revolução alguma que se justificasse.
Nelson Prata – O senhor mesmo é um exemplo de consciência condenada ao “silêncio”, pois não lhe dão espaço na grande mídia. Até mesmo as empresas de comunicação do governo, não dão espaço suficiente a vozes e pensamentos alternativos, parecem, ao contrário, preocupadas em manter um falso diálogo pseudoideológico, sem nenhuma consequência prática. As redes sociais, são as únicas opções libertárias. Porém sabemos serem inócuas em termos de mobilização significativa da população.
Diante desse quadro fica difícil reagir, não?
Adriano Benayon – Se julgarmos uma tarefa difícil, temos duas alternativas: 1) ou a abandonamos, de imediato: 2) tratamos de cumpri-la assim mesmo. Se seguirmos a primeira, já estamos ferrados de antemão. Se adotarmos a segunda, temos alguma chance, e os caminhos só vão sendo encontrados, à medida que seja iniciada a busca.
