Por Nelson Antonio Prata | 27/02/2015
O ótimo artigo de Mauro Santayana intitulado A “nota” da Petrobras e a “nota” da Moody’s acerta na mosca, desmascarando a agência de classificação de risco Moody’s. Algo estranho está acontecendo nos bastidores do grande poder hegemônico. Refiro-me ao programa Sem Fronteiras, exibido no dia 26/02 na Globo News. Uma nova apresentadora, jornalista, Michelle Marinho, abordou o tema dos denominados paraísos fiscais sediados na Europa, que estão sendo objeto de grande escândalo, o Swissleaks e o Luxleaks, a partir da revelação do enorme volume de recursos “investidos” em instituições suíças e luxemburguesas.
Para espanto geral , Luxemburgo, país de apenas 500 mil habitantes opera um volume de recursos da ordem de 3 trilhões de dólares, pasmem, o 2º maior volume de recursos circulantes, atrás apenas dos EUA. Uma em cada 10 multinacionais utilizam as instituições luxemburguesas e de outros paraísos fiscais para cuidar de seus “investimentos”. Isto acontece há décadas.
Porém, quando tratava-se de “investir” recursos provenientes do chamado 3º Mundo, ou emergentes, o silêncio era total. Tudo revestido da maior normalidade. Com a deflagração da crise de 2008, atingindo duramente os países desenvolvidos e hegemônicos, parece que a ficha deles caiu. O feitiço parece ter se virado contra o feiticeiro, ou melhor o tiro parece ter saído pela culatra. Estão a descobrir que o capital não tem pátria.
Os cidadãos ingleses antes fleumáticos, estão agora estupefatos com o fato de que países diminutos como a Suíça e Luxemburgo, estejam blindados, no interior de um “paraíso”, neste caso literal, com recursos inimagináveis, sem produzir quase nada, enquanto o resto chafurda num lodaçal econômico que parece não ter fim.
O grande Capital, agigantado na segunda metade do século passado, cevou-se no crescimento da economia americana do pós-guerra, onde a ciência, a tecnologia, o conhecimento financiado pelo povo americano do norte, do centro e do sul, bem como pelos povos explorados do globo, foi apropriado pelas chamadas oligarquias, inflando as transnacionais e os grandes conglomerados que passaram a se espraiar pelo planeta, no bojo da Pax Americana.
Durante a Guerra Fria, por óbvia conveniência, permitiram uma distribuição de resultados, construindo o American Way of Life. Terminado o conflito o grande capital revelou sua verdadeira face, seu apetite insaciável cujo objetivo único é o de se reproduzir e acumular, tal qual Leviatã. Assim, o capital, abandonou sua sede, em busca de maiores vantagens e menores custos, deixando um rastro de cemitérios industriais, desemprego e fome, experimentada apenas em 1929, pelos cidadãos do chamado 1º Mundo.
Diferentemente do passado, hoje a reação tende a tornar-se cada vez mais consciente, pois os cidadãos dão-se conta de que a expertise de gerenciamento financeiro prima pela redução das obrigações fiscais devidas pelas transnacionais. A elas interessa pagar menos impostos, se possível nada pagar. Danem-se o povo e seu trabalho. Do povo, esperam, seja apenas uma massa passiva e subserviente de consumo. Mas o, nível de informação hoje, não é o mesmo de 1929. Os europeus estão reagindo e ao que tudo indica também os americanos. O surpreendente é que não só o povo, mas também governos estão cada vez mais dando-se conta de que foram e estão sendo usados para a reprodução capitalista desenfreada e via de consequência sofrendo todo o desgaste social e político decorrente da política de terra arrasada deixada pelo capital, ao migrar sem rumo ao sabor das manipulações dos experts.
Economistas, cientistas políticos e intelectuais, ao estudarem o fenômeno, descobriram, por exemplo o engenhoso mecanismo para permitir a livre circulação financeira. Trata-se de uma técnica camaleônica utilizada no ambiente jurídico-legislativo, que do lado dos paraísos flexibiliza a legislação de modo a facilitar a circulação dos volumes financeiros globais (liberdade de entrada e saída de capitais), sob o manto do sigilo. Do lado dos centros de geração de recursos e riquezas, (os espoliados), um verdadeiro arsenal jurídico-legislativo facilita a drenagem destas riquezas e recursos, como exemplo temos as famosas contas CC-5, no Brasil, além de uma parafernália legal, inclusive constitucionalizada (Artigos 164 e 166 da CR), geradora de uma espécie de monopólio no controle da emissão e circulação de moedas.
Os exemplos da Argentina e da Rússia, são emblemáticas amostras da tomada de consciência de governos. Outro fato também emblemático é o da criação dos BRICS e do seu Novo Banco de Desenvolvimento. O século XXI, tem tudo para ser eletrizante, veremos no que vai dar.
