Arquivo mensais:fevereiro 2015

Muda-se o nome, mas a política continua a mesma

Por Emanuel Cancella | Via APN

A indicação de Aldemir Bendine para presidente da Petrobrás não mudará em nada os rumos da empresa. Queríamos que a direção da empresa fosse mais sintonizada com o povo brasileiro, com a defesa de seu caráter público, com a garantia de transparência e de combate rigoroso à corrupção. Bendine é um nome de confiança da Dilma que irá dar continuidade a atual política encaminhada pela Petrobrás. Continuará o jogo de interesses políticos, a privatização da empresa, as terceirizações, o apoio aos leilões do petróleo, o desinvestimento, a discriminação com os trabalhadores, em especial, os aposentados. Queremos um presidente e uma direção da Petrobrás sintonizados com a população e que fosse eleita pelos próprios trabalhadores.

A Petrobrás acabou de ganhar o “Oscar” da indústria do petróleo. O prêmio OTC (Offshore Tecnology Conference 2015), concorrendo com as principais petroleiras do mundo. Os trabalhadores petroleiros, muitos que trabalham em áreas complexas como em refinarias, terminais, plataformas, outros em centros de pesquisa, setores administrativos, alguns em turnos ininterruptos que incluem trabalho no carnaval, natal, ano novo. Quando a maioria da população está de folga com a família, lá está o petroleiro trabalhando. A sociedade tem que saber que o petroleiro durante a operação “Lava a Jato” que investiga a corrupção na Petrobrás aumentou a capacidade de refino, levou a Petrobrás ao primeiro lugar na produção de óleo, passando a americana Exxon Mobil, e é a quarta do mundo na produção de óleo e gás. E o pré-sal cuja a tecnologia foi desenvolvida por esses próprios petroleiros e que já produz 715 mil barris por dia é o suficiente para abastecer países como Uruguai, Paraguai, Bolívia e Peru.

É desses petroleiros, homens e mulheres que vestem a camisa da Petrobrás, que o Sindipetro-RJ e a Federação Nacional dos Petroleiros defende que saia o presidente e a diretoria da Petrobrás. E que fossem escolhidos pelos próprios trabalhadores, para evitar os esquemas políticos de corrupção e jogos de interesses escusos.

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Emanuel Cancella é Secretário Geral do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros.

Vamos falar de governabilidade

Por Luís Fernando Vitagliano | Via Brasil Debate

A ascensão do PT ao governo federal em 2002 foi desafio para a governabilidade. De um lado, dispunha de pouco apoio político no Congresso e ampliou o leque de alianças; de outro, a desconfiança dos setores econômicos não proporcionou apoio do empresariado.

Ao contrário do que supõe o senso comum, um governo eleito não dispõe de todos os poderes políticos de uma sociedade. Em qualquer lugar do mundo, a composição é necessária, independentemente do regime político ou do grupo que ascende ao poder. Negociação é componente fundamental de um bom governo. Para realizar boas medidas, é preciso antes saber fazer boas negociações.

Não vou entrar no mérito das polêmicas recentes sobre temas específicos como o seguro-desemprego, a taxa de juros ou as políticas sociais e as contas públicas. Este artigo pretende tratar das macrodecisões do governo Dilma e da relação com as estruturas políticas que geram apoio ou críticas ao governo. Vamos tratar de governabilidade.

Para a Ciência Política, governabilidade é o conceito ligado à capacidade de governo em aprovar projetos junto ao Legislativo. Basicamente, estamos olhando para os partidos políticos e a composição que sustenta o governo no Congresso. Enquanto, nos EUA e Europa, por exemplo, a governabilidade pode ser definida por dois ou três partidos – ou a China que é um caso de partido único –, no Brasil são 28 partidos com representação no Legislativo e, para se construir maioria simples, é preciso pelo menos cinco ou seis partidos na base do governo.

As características do nosso sistema político são desastrosas quando o propósito é a negociação para a governabilidade. A articulação obriga qualquer governo a abrir mão de parte do seu projeto político para compor maioria no Congresso.

Veja o governo Dilma que, com 10 partidos representados no primeiro escalão do governo, não foi capaz da influenciar na eleição para presidência da Câmara e agora tem na casa um político não só independente em relação aos interesses do governo, mas que muitas vezes poderá se comportar como adversário político mesmo sendo da base aliada.

Mas, não é só isso. Para governar também é preciso mobilizar interesses materiais, então os cientistas políticos passaram a chamar a atenção para outro tipo de interferência sofrida pelo Legislativo e distinguiram a governabilidade política da governabilidade econômica.

A capacidade que grandes empresas e organizações patronais têm de fazer valer seus interesses junto ao Estado e sua capacidade para mobilizar a chamada opinião pública em seu favor fez com que se considerasse o fato de que as elites econômicas também disputam a governabilidade, ou, pelo menos, influenciam nesse processo.

O que ocorre hoje não é novidade.

A ascensão do PT ao governo federal em 2002 complicou-se em ambas as governabilidades. De um lado o partido dispunha de pouco apoio político no Congresso e se obrigou a ampliar o leque de alianças. De outro lado, a desconfiança dos setores econômicos não proporciona ao governo apoio junto ao empresariado.

Com essa conjuntura inóspita, o Partido foi forçado a buscar condições de governabilidade muito particulares. O PT, sob a batuta de Lula, desenvolveu uma nova fonte para sua governabilidade mobilizando os setores sociais que o elegeram.

Num processo ambíguo e cheio de contradições, a presença dos movimentos sociais, sindicatos, associações da sociedade civil e movimentos de esquerda puderam influenciar decisões, manifestando apoio ao governo ou enfrentando outras forças políticas numa disputa do que antes lhes era renegado e exclusivo do capital e das oligarquias políticas.

Os governos petistas pautaram-se sempre pela conciliação. Para isso, construíram alianças, compuseram propostas, abriram mão de alguns avanços em função da resistência conservadora. A opção foi pelo consenso. Mas, em todos os momentos, os caciques políticos e as elites econômicas tiveram que conviver com a posição dos setores sociais no processo de construção do consenso.

O primeiro governo Dilma seguiu a mesma linha de Lula, ainda que com resultados mais modestos. Enfrentou talvez reação mais intensa dos setores tradicionais da governabilidade política e econômica porque viram nela menos mobilização dos setores sociais. Agora as deliberações do seu segundo governo diminuem ainda mais a relação com a governabilidade social.

O problema é que isso pode gerar ainda mais dificuldades.

Ao sinalizar ao mercado financeiro e a governabilidade econômica e nomear Joaquim Levy para a Fazenda, Dilma decidiu aproximar-se das elites econômicas para não manter-se em conflito com os setores descontentes e re-estabelecer a confiança. Depois se preocupou em nomear ministros que pudessem construir sua governabilidade política. Para ficar apenas em alguns dos exemplos, Cid Gomes, Kassab, Katia Abreu e George Hilton são da base política e foram nomeados com a incumbência de dar sustentação partidária ao governo.

Agora vemos que, mesmo com todos os esforços de articulação política, Eduardo Cunha furou o bloqueio e elegeu-se presidente da Câmara. É importante lembrar que foi dele a mobilização para derrubar o decreto que regulamentava a participação dos conselhos sociais.

Dilma investiu na governabilidade política e econômica ao passo em que se afastou da articulação da governabilidade social. Suas primeiras medidas distanciam o governo de sua base – e, certa forma, da militância do seu próprio partido. Os acontecimentos podem rumar para o conflito aberto quando o Ministro da Fazenda, representante da governabilidade econômica, não dialoga com os representantes da governabilidade social e impõe suas medidas, e o presidente da Câmara pode criar constrangimentos.

Não estamos tratando de autonomia, são enfrentamentos políticos. E é assim, na definição das decisões e preferências, que o governo determina seu rumo. De fato, ou a governabilidade social entra no cálculo, ou o projeto político do PT perde espaço.

O momento é claramente delicado para manter e avançar nas políticas que representam de fato mudanças e marcaram a passagem do PT pelo Palácio do Planalto. Assim, é fundamental perceber que a governabilidade social permitiu vitórias importantes para os governos Lula e Dilma. Essa costura não foi apenas uma inovação do petismo, mas também o pilar dos projetos sociais. Um cálculo político astuto e inovador que parece ter sumido neste início de segundo mandato.

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Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.

Grécia: Grandes manifestações de apoio ao Governo do Syriza

Via Esquerda.net

Milhares de pessoas manifestaram-se, nesta quarta-feira, em Atenas e nas principais cidades da Grécia, em apoio ao governo do Syriza, enquanto reunia em Bruxelas o Eurogrupo.

Manifestação em Atenas contra a chantagem, 11 de fevereiro de 2015 – Foto de left.gr

Para esta quarta-feira foi convocada uma reunião extraordinária do Eurogrupo (que junta os ministros das finanças dos países que fazem parte do euro e os representantes da comissão europeia e do banco central europeu) para discutir a situação da Grécia. A antecipação da reunião do Eurogrupo significou uma pressão sobre o governo grego com o objetivo de esvaziar a cimeira europeia e aumentar a chantagem sobre o povo grego.

Milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas de Atenas e das principais cidades gregas em defesa da política anti-austeridade do governo do Syriza e em resposta à chantagem da troika e do Eurogrupo.

Aspeto parcial da manifestação em Salónica – foto keeptalkinggreece

Nem a chuva nem a neve foram impeditivo a que muitos milhares de pessoas se manifestassem pela dignidade e em defesa da democracia.

As manifestações, convocadas por movimentos de cidadãos e divulgadas nas redes sociais decorreram em Atenas, Salónica, Patras e noutras cidades gregas.

Também em Portugal e noutras cidades europeias decorreram ações de solidariedade.

Para os próximos dias, nomeadamente para o próximo domingo estão convocadas ações de solidariedade com o povo grego e o governo do Syriza em Portugal e em diversos países da Europa.

Faixa na manifestação de Atenas

O assombroso silêncio no Brasil em torno do escândalo HSBC

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Simplesmente inaceitável o silêncio no Brasil em torno do vazamento das contas secretas do HSBC na Suíça.

Passo pelos sites das grandes empresas jornalísticas e a cobertura ou é nula ou é miserável.

Os números justificariam barulho. Muito barulho. No caso brasileiro, são 8.667 contas num total de 7 bilhões de dólares sonegados.

Me chamou a atenção, também, a atitude dos colunistas. Onde a indignação? Onde a estridência habitual? Onde o sentido de notícia?

Passei no twitter de Noblat. Nos últimos dois dias, uma centena de tuítes. Zero sobre os chamados Swissleaks.

Também dei uma olhada em Reinaldo Azevedo, verborrágico, torrencial nos textos. Nada sobre o HSBC.

São dois entre tantos.

A ausência deles do debate mostra uma coisa que sempre tive clara. A valentia deles vai até onde não existe risco de publicar algo que contrarie interesses de seus patrões.

É o colunismo sabujo, o colunismo papista, o colunismo patronal – ou, simplesmente, o colunismo chapa branca.

E se algum patrão dos colunistas estiver na lista? Na Argentina, o Clarín encabeça o pelotão dos sonegadores.

Melhor, então, ignorá-la.

No mundo inteiro, jornais garimparam nomes de integrantes da lista. No Brasil, apareceu – parece piada de humor negro – com algum destaque um morto: o banqueiro Edmond Safra.

Graças a um site angolano, soube-se que o Rei do Ônibus do Rio, Jacob Barata, também está listado.

A última vez que vi Barata no noticiário foi no casamento de uma neta. Gilmar Mendes foi um dos padrinhos.

Imagine, apenas imagine, que haja consequências jurídicas para Barata, e que o caso chegue ao Supremo.

Como agiria Gilmar?

Jornalista, como pregava o maior de nós, Pulitzer, não tem amigo. Porque amizades interferem no noticiário.

Da mesma forma, juízes não deveriam ter amigos. Mas, no Brasil, têm.

Não me surpreende a mídia no escândalo do HSBC. Conheço-a bem para esperar qualquer coisa diferente.

Mas e o governo: não tem nada a dizer?

Estamos tão bens de dinheiro nos cofres públicos para desprezar a busca dos bilhões sonegados?

Não é o que parece.

Considere o que a Espanha está fazendo. O ministro das Finanças, Cristóbal Montoro, anunciou que estuda “medidas legais contra o HSBC por sua participação em fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e outros atos criminosos cometidos por cidadãos espanhóis”.

Em 2010, o governo espanhol teve acesso a 650 nomes de pessoas com conta secreta no HSBC na Suíça.

Foi atrás de um por um. A família Botin, que controla o Santander, fez um acordo extrajudicial com o governo. Pagou 200 milhões de euros, cerca de 600 milhões de reais.

A oposição de esquerda na Espanha luta para que a legislação seja alterada para que sejam publicados todos os nomes de todos os envolvidos em evasão fiscal.

No Brasil, o quadro é completamente distinto – e para pior.

Pouco antes de Joaquim Levy ser nomeado ministro da Fazenda, o banco em que ele trabalhava, o Bradesco, foi pilhado numa história de sonegação no paraíso fiscal de Luxemburgo.

A Globo carrega uma espetacular história de sonegação já há dois anos – sem quaisquer consequências legais ou financeiras.

A Globo continua a receber seu mensalão publicitário como se honrasse todos os seus compromissos com o Tesouro.

Ou os espanhóis – e o mundo – estão errados, ou errados estamos nós.

Faça sua escolha.

Santayana: O dólar vermelho

Por Mauro Santayana, em seu blog

A imprensa internacional destaca o crescimento da economia norte-americana, o que está sendo negado por observadores como o ex-secretário do Tesouro dos EUA John Craig Roberts, que afirma que os números são falsos, fruto de manipulação de dados de financiamento do sistema de saúde.

Enquanto isso, cresce o protagonismo diplomático, econômico e geopolítico da China, segunda economia do mundo, dona das maiores reservas monetárias do planeta e principal credora dos Estados Unidos, que substitui Washington e a Europa como fonte de liquidez cambial, empréstimos internacionais Estado a Estado e financiamento para infraestrutura.

A ofensiva financeira de Pequim ocorre, também, em regiões em que há forte influência brasileira, e que já foram consideradas, no passado, como um “quintal” exclusivo dos norte-americanos, o que faz com que o “establishment” dos Estados Unidos esteja, há anos, preocupado com o tema.

Já em 2012, um relatório do “Diálogo Interamericano”, produzido pelos economistas Kevin P. Gallagher, Amos Irwin e Katherine Koleski, intitulado “The New Bank in Town” (“Um novo banco na cidade”), abordando o financiamento chinês na América Latina, mostrava que, em 2010, bancos estatais chineses emprestaram a países da região mais do que o Banco Mundial, o Banco Interamericano e o Eximbank juntos, alcançando, de 2005 a 2012, mais de 75 bilhões de dólares.

Em 2013, essa quantia já chegava, no caso venezuelano, a 50 bilhões de dólares, na Argentina, a 14 bilhões de dólares, no Brasil, a 13 bilhões de dólares (10 bilhões a serem pagos em petróleo pela Petrobras), no Equador, a mais de 9 bilhões, e a outros países, a quantias menores de 5 bilhões de dólares, porém significativas para o porte de sua economia.

Desse montante, 54 bilhões de dólares foram aplicados em infraestrutura, 26 bilhões de dólares em energia e o restante em outras áreas, como a mineração.

Na primeira semana de 2015 ocorreu em Pequim a reunião ministerial do Fórum China–Celac, com a presença de aproximadamente 20 países.

Na ocasião o presidente Xi Jinping afirmou que a China pretende investir 250 bilhões de dólares na América Latina nos próximos dez anos, quantia que poderia chegar a 500 bilhões de dólares com o dinheiro de fundos e investidores privados.

Há obras tocadas e planejadas por empresas chinesas em toda a América Latina e Caribe, da futura ferrovia transoceânica Brasil–Peru à remodelação do Porto de Santiago, em Cuba, onde a China pretende seguir o Brasil, na intenção de instalar empresas voltadas para a venda de produtos aos EUA, quando acabar o bloqueio.

Enquanto muita gente acha que Pequim está louca de emprestar dinheiro a países como a Argentina e a Venezuela, os chineses avançam, inexoravelmente, ampliando seu poder na região, aproveitando-se da perda de influência dos EUA e da retirada do Brasil, que, devido a “razões de política interna” (pressão contra o BNDES) recua.

Vannuchi: ‘Eduardo Cunha trabalha para a antirreforma política’

Via RBA

Para analista, presidente da Câmara segue rota de colisão com o governo e, após aprovar nova CPI da Petrobras e o orçamento impositivo, acelera para legalizar o financiamento privado de campanha.

Cunha cria comissão especial para analisar projeto que regulamenta o financiamento privado

Segundo o analista político da Rádio Brasil Atual, Paulo Vannuchi, o novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segue “a passos fortes” em rota do colisão com o governo Dilma.

Depois de aprovar a criação de uma nova CPI da Petrobras – que vai limitar as investigações sobre corrupção apenas de 2004 para cá – e o chamado orçamento impositivo, que obriga o governo a repasses obrigatórios de recursos públicos para emendas dos congressistas, Cunha determinou a instalação de comissão especial para tratar da reforma política, baseado em um projeto que Vannuchi classifica como “antirreforma”.

A comissão especial, que visa agilizar a tramitação do projeto sem que seja apreciado por outras comissões da Casa, será presidida por Rodrigo Maia (DEM-RJ), filho do ex-prefeito fluminense César Maia e “inimigo figadal” de Lula e Dilma, na definição de Vannuchi. Já a relatoria do projeto ficou com o PMDB, isolando assim o PT, que tem a maior bancada da Câmara.

“Me pergunto se não é a antirreforma vestida de reforma política. O PT e seus aliados querem uma reforma política que responda àquele grito da juventude de junho de 2013, aos milhões de pessoas que foram as ruas para aperfeiçoar o atual sistema de representação”, afirmou o analista.

O projeto a ser apreciado pela comissão foi elaborado pelo então deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP), mas em total desacordo com o partido. O texto propõe mudanças como o fim do voto obrigatório, o fim da reeleição para o Executivo e a unificação dos calendário eleitorais, com de quatro em quatro anos para todos os cargos – presidência, governo estadual e prefeituras, além do Legislativo. Contudo, a proposta mais polêmica é sobre o financiamento de campanha.

Para Vannuchi, o intuito é “impedir a tese do financiamento público” e legalizar o financiamento privado de campanha, que representa “a mãe de todos os males da corrupção”. A proposta também vai de encontro com a decisão do Supremo Tribunal Federal, que já formou maioria contra o financiamento de campanhas por empresas e aguarda o posicionamento do ministro Gilmar Mendes, que, em abril de 2014, pediu vista do processo.

Ouça o comentário completo da Rádio Brasil Atual.

Os 35 anos da Revolução Iraniana e as mensagens enviadas ao mundo

Por Beto Almeida

Já que estamos todos falando, diuturnamente, de petróleo e Petrobrás, falemos hoje de um país petroleiro, o Irã, que neste dia 11 de fevereiro festeja os 35 anos de sua Revolução, comemorada com gosto de resistência daquele povo na defesa de sua soberania, pelo o que envia mensagens importantes a todos os países, mas muito especialmente ao Brasil, também ameaçado, em razão, entre outras, da grandeza dos mananciais petrolíferos que possui e da importante, eficiente e potente empresa estatal petroleira que construiu.

Tal como o Irã , em 1953, alvo de um golpe de estado patrocinado pelo imperialismo inglês que veio a derrubar o presidente Mossadeg, um nacionalista que corajosamente havia nacionalizado o petróleo iraniano, também o Brasil veio a sofrer, em 1954, um ano após a criação da Petrobrás, um processo de desestabilização golpista que levou à morte o igualmente nacionalista e popular presidente Getúlio Vargas. Tal como ocorreu no Irã, o imperialismo também não aceitou, nem respeitou a soberana decisão do povo brasileiro que, por meio de uma campanha de popular “O petróleo é nosso!”, que uniu militares, trabalhadores, estudantes e donas de casa, e, nas ruas, conquistou a criação da Petrobrás, sancionada por Vargas em outubro de 1953. Essa mesma mídia que hoje afirma que a Petrobrás precisa ser privatizada, que não tem sentido a presença da estatal na exploração e produção do petróleo pré-sal, é a mesma mídia que dizia, em 1953, que Vargas era louco por “criar uma empresa de petróleo num país que não o possui”.

É esta mesma mídia, teleguiada pelas grandes corporações internacionais, que busca desconstituir a imagem da grande Nação Persa que ora, sob vento e tempestade, envia ao mundo a suprema mensagem de ter sido capaz de resistir por 35 anos às mais sórdidas agressões, sabotagens, sanções e boicotes praticados pelos países imperiais derrotados com a nacionalização do petróleo iraniano, uma das primeiras decisões da Revolução de 11 de fevereiro de 1979.

Mesquitas e revolução

Aquela revolução surpreendeu ao mundo por seu enraizamento popular, convocando homens, mulheres (é possível que o nosso editor encontre fotos de mulheres iranianas com o chador e a metralhadora na ação de derrubada da ditadura sanguinária do Xá), transformando criativamente e inteligentemente as mesquitas, além de local sagrado para as preces, também em sagrado local para cultuar a libertação, para projetar a transformação, para sonhar e organizar a independência. Tal como Chávez e seu movimento bolivariano e os Capitães da Revolução dos Cravos em Portugal transformaram os quartéis em espaços libertários, também o povo persa enriqueceu as mesquitas com o local de conquistar o futuro.

Hoje o futuro chegou para a Nação Persa. A indústria petroleira iraniana é totalmente nacionalizada. Aqui começam as mensagens que a Revolução Iraniana, nos seus 35 anos de edificação e resistência, envia ao mundo, particularmente ao Brasil, que viu uma tenebrosa transação desnacionalizar boa parte das ações da Petrobrás, a preços indecentemente desvalorizados, na Bolsa de Nova York, em 1997. O Irã prova que é possível resistir e que mesmo agredido, cercado, sabotado, sancionado, pode-se avançar, progredir e ter uma indústria de petróleo sem um único técnico que não seja iraniano (antes de 1979, os técnicos eram ingleses em sua maioria), além de possuir uma importantíssima capacidade de refino.

Como esta mídia que está tentando demolir a Petrobrás e também o governo que ampliou sua presença na economia petroleira não informa, vale dizer que a refinaria de Shazand, próxima à cidade de Arak, será a primeira no Irã com capacidade processar 4 mil barris diários, convertendo mais de 90 por cento do óleo cru que recebe em gasolina, gás liquefeito, propano, querosene, diesel , óleo e alcatrão. A maior do mundo! É impossível não notar o contraste desta informação com a declaração da ex-presidente da Petrobrás, Graça Foster, de que a estatal brasileira não teria condições de construir sozinha, ou seja, sem capital externo, novas refinarias, propagando com isto uma nuvem de dúvidas e interrogantes. Se o Brasil é a quinta ou sexta economia do mundo e não tem capacidade para construir novas refinarias, como é que o Irã que nacionalizou praticamente toda sua economia petroleira tem? Esta seria apenas um delas, claro…

Quem é ameaça?

Nestes 35 anos, o Irã realizou regularmente 8 eleições presidenciais pelo voto direto. Os EUA, nenhuma! O Irã não atacou, não agrediu, não invadiu nenhum país em todo este período. Já os EUA intervieram militarmente em Granada, Panamá, Somália, Iraque, Afeganistão, Líbia, apoiam oficialmente a agressão contra a Síria, apoiam a ação imperialista da França contra o Mali, apoiam as sanguinárias intervenções militares de Israel contra a Palestina, contra o Líbano (onde foi derrotado), instalaram prisões e centros de tortura em 54 países do mundo e mantiveram o bloqueio ilegal contra Cuba. Mas, graças ao controle do fluxo midiático internacional, uma avalanche diária de mentiras apregoa que o Irã é seria supostamente uma ditadura, um perigo para a humanidade, inclusive por pretender ter acesso pleno ao desenvolvimento da tecnologia nuclear. Afinal, os EUA não têm tecnologia nuclear e não foi o único país a usar a bomba atômica contra o povo japonês, no maior atentado terrorista registrado na era moderna?

As mensagens iranianas ao mundo, e ao Brasil, não param por aí. A primeira reação dos EUA antes a Revolução Iraniana foi bloquear os depósitos bancários do Irã, de 100 bilhões de dólares, nos bancos internacionais. Obviamente, uma ilegalidade, mas esses países são apresentados como “democráticos”, enquanto o Irã é que estaria fora da legalidade por nacionalizar seu petróleo, escolher seu próprio caminho, realizar eleições diretas em todos os níveis, o que era proibido na ditadura do Xá Reza Pahlevi, apoiado pelo imperialismo anglo-saxônico.

Comparemos: desde os anos 50, na Era Vargas, o Brasil possui um programa nuclear, pelo qual teve sequestradas, por comandos militares dos EUA , em pleno porto de Hamburgo, as centrífugas que importara da Alemanha. O Irã, na época do Xá, recebia apoio para desenvolver seu programa nuclear, com apoio da Inglaterra e dos EUA. Após a Revolução Iraniana, estes países imperiais comandaram a imposição de sanções contra o Irã por pretender ter pleno acesso a esta tecnologia nuclear. Hipocrisia sem limites, com apoio da mídia que rotula a nação persa como ameaça, quando na realidade, quem sempre esteve e continua envolvido em guerras e em intervenções militares ilegais sobre outros povos são os EUA e a Inglaterra.

Sabotagens

Desde os anos 60 o Brasil possui um Programa Espacial, mas ele andou muito devagar nestas 5 décadas, apesar das enormes vantagens comparativas para desenvolvermos, na base de Alcântara, intensa atividade espacial. Para esta lentidão concorre, conforme já denunciou o Wikileaks, sabotagens especialmente organizadas pelos EUA contra o nosso programa espacial. Assim, enquanto até hoje estamos sem um esclarecimento cabal acerca da estranhíssima explosão em Alcântara que, no primeiro ano do governo Lula, matou os mais experimentados técnicos do Programa Espacial Brasileiro, o Irã já lançou sua primeira nave tripulada ao espaço sideral, toda a tecnologia é nacional, apesar do boicote imposto, das agressões militares constantes, das sanções econômicas, que proíbem aos persas, por exemplo, acesso a peças de reposição para sua indústria aeronáutica, ferroviária etc.

Qualquer discussão em torno da experiência iraniana é sempre motivo para um dilúvio de preconceitos e desinformações, além de acusações completamente estapafúrdias. As mulheres iranianas são apresentadas pela mídia ocidental como se fossem culturalmente atrasadas, reprimidas, sem protagonismo social, quando as estatísticas indicam que elas ocupam posição majoritária nas profissões mais especializadas, tais como medicina, engenharia espacial, indústria de medicamentos. Mas isso nunca é revelado, tampouco que a decisão de manter o uso do chador (véu), foi adotada em plebiscito nacional por mais de 90 por cento dos votos. Trata-se de uma cultura, um costume milenar.

Intolerância

Tenta-se apresentar o regime iraniano como o mais brutal, o mais cruel, o mais intolerante, sobretudo com relação às mulheres e aos homossexuais. Mas, aqui mesmo no Brasil há estatísticas estarrecedoras indicando o assassinato de pelo menos um homossexual por dia, mulheres idem, e de mais de 50 mil jovens negros e pobres por ano, uma estatística de guerra. Reflitamos, também, sobre o assassinato e violação aos direitos dos negros e hispânicos nos EUA, país possuidor da maior população carcerária do mundo. Reflitamos sobre a brutalidade, a crueldade, a intolerância dos EUA contra o povo vietnamita, iraquiano, panamenho. Reflitamos sobre a brutalidade e a intolerância da “democrática” França contra o povo da Argélia, onde deixou pelo menos 1 milhão de mortos! Reflitamos sobre crueldade e intolerância à luz das estatísticas que apontam que quase metade da população carcerária na França é de emigrantes, dos quais , metade é de muçulmanos!

Crescer sob ataque, sob sanções

O que não se informa é sobre o reduzido índice de analfabetos no Irã, sobre indicadores muito baixos de mortalidade infantil, além de ser possuidor de um cinema de altíssima qualidade, premiado no mundo inteiro, cinema estatal que reflete sobre os principais problemas da sociedade persa, dotado de tocante grau de humanismo na abordagem dos temas, sem concessões apelativas ao sensacionalismo rebaixado que se nota em outras partes. Assim como tem intensa atividade cinematográfica nacional, possui também indústria bélica moderníssima, com tecnologia totalmente nacional, única opção que lhe restou quando o país sofreu o boicote imperial e, depois, teve que defender-se da guerra lançada pelo Iraque, por 8 anos, quando Sadam era manipulado por Donald Rumsfeld., ex-secretário de defesa de Bush, aquele que depois disse que era preciso invadir o Iraque porque lá havia armas de destruição em massa, jamais comprovado. O Irã venceu a guerra. O Iraque foi invadido pelo seu antigo apoiador…

Imagine se um país como o Irã, com a tremenda riqueza petroleira que possui, não tivesse sido capaz – graças ao impulso de sua revolução, que mobilizou o melhor da energia de sua juventude- de desenvolver uma extraordinária capacidade de defesa que, além de defender o povo persa, defende como política de estado a Causa Palestina, tendo se transformado em um dos principais aliados da Síria? A reflexão é desconcertante para o Brasil que viu sua indústria bélica ser desmantelada sem resistência, juntamente com a internacionalização de sua telefonia, mineração, indústria de seguros e resseguros, medicamentos, fertilizantes, além da indústria naval e aeronáutica. Só agora, graças à mudança de rumo dos últimos 12 anos, com Lula, a indústria naval retoma novamente o caminho do desenvolvimento para voltar ocupar, em breve, a posição de ser uma das maiores do mundo.

Aposentando o dólar

Finalmente, a mensagem da política econômica e financeira do Irã. O País tem desenvolvido intensos e expansivos acordos econômicos e militares com a Rússia e a China, com a qual já comercializa petróleo e gás sem a presença de dólar, o que fortalece a soberania financeira da nação persa. O Irã é um verdadeiro eixo na região e tanto o Iraque como a Síria mantêm com os persas relações econômicas, políticas e militares de alto nível.

Certamente, o processo sofre tensões internas, sofre sabotagens externas, registra avanços e detenções, linhas políticas por vezes injustificavelmente esperançosas, como a tentativa de um acordo nuclear com os países que são potências nucleares e , simplesmente, não querem admitir que o seleto e fechado clube abra suas portas para uma Nação com tamanha independência frente aos ditames imperiais de qualquer tipo.

Unidade anti-imperialista

Nesses 35 anos, o desfile de comemoração, que normalmente registra presença de mais de 6 milhões de pessoas em Teerã, foi precedido de uma inesperada tentativa do prefeito da capital persa de vetar a sua realização.. O que teria levado o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad, amigo de Chávez, de Lula e de Evo Morales, a publicar um contundente artigo intitulado “Por que fizemos a revolução?” Não sem tensões, a manifestação foi convocada e liberada, apesar de intenções e vontades contrárias à sua realização. Uma tensão que pode estar sinalizando que mudanças políticas podem estar em curso. Não sendo cogitada nenhuma medida que não seja para consolidar o ideal revolucionário vitorioso há 35 anos, sob a liderança do Aiatolá Khomeini, que continua a lançar mensagens instigantes e encorajadoras ao mundo, especialmente às nações que percebem a urgente necessidade de formar uma ampla aliança de povos e países que comungam do ideal anti-imperialista, já que são visíveis as ações imperiais montadas como ameaças a humanidade e seu futuro!

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Beto Almeida é jornalista e membro do diretório da TeleSur.