Arquivo mensais:fevereiro 2015

O alvo é a democracia

Por Paulo Moreira Leite | Via paulomoreiraleite.com

Bem medidas as coisas, o ataque de Joaquim Barbosa e Sergio Moro as reuniões do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, com advogados de acusados da Lava Jato é uma tentativa de afrontar a autoridade da presidente Dilma Rousseff.

Não cabe a um magistrado aposentado, dizer a presidente da República o que ela deve fazer. O ministro da Justiça pode, deve e já foi criticado por várias razões. Só não pode ser judicializado.

Nem Joaquim Barbosa nem Sergio Moro podem dar a impressão aos brasileiros de que tem a atribuição de definir funções e estabelecer limites a um ministro de Estado.

A democracia não é uma gritaria irracional de arquibancada, onde vence quem fala mais grosso. Magistrados falam pelos autos, lembrou Sérgio Moro, ontem. Lembrou mas curiosamente não cumpriu. Assim como Joaquim Barbosa. Ele evitava receber advogados quando estava no STF mas agora recomenda aos réus da Lava Jato que procurem o juiz.

Vivemos sob o regime de divisão de poderes, que devem ser respeitados em suas diferenças e funcionar em harmonia.

A atuação do ministro da Justiça é extensão legítima da soberania da presidente, que recebeu do eleitor a incumbência de montar seu governo e orientar seus atos. A não ser em bailes de carnaval, não se pode “exigir” da presidente que demita seu ministro, da mesma forma que não se podia “exigir”, antes, que fosse nomeado. (Exigir, explica o mini-Houaiss, significa “pedir em tom autoritário, determinar por ordem ou intimação”).

Cardozo não só tem o direito de receber advogados sempre que julgar necessário. Tem o dever de agir desse modo — toda vez que considerar que essa decisão pode ser útil para realizar sua obrigação política fundamental, que é garantir e defender a Constituição, onde vigora a noção de que toda pessoa é inocente até que se prove o contrário.

Uma recusa pode ser considerada omissão — e isso sim seria grave, digno de indignação.

Lançar suspeitas sobre um ministro que recebe um advogado é um exercício primário de linchamento.

Trai o vício típico de quem se acha no direito de acusar sem provar — o que é lamentável mas não é novo.

O argumento de que advogados devem dirigir-se a juízes e não a políticos seria apenas ridículo se não fosse, antes de tudo, vergonhoso.

Numa democracia, nenhuma autoridade tem o monopólio da defesa dos direitos da cidadania, até porque não há garantia de que esteja sempre a disposta a honrar este dever. Foi um senador conservador de Alagoas, Teotônio Vilela, quem abriu a porta das cadeias para ouvir os presos políticos que enfrentavam a tortura da ditadura. Foram familiares, foram advogados, que se dispuseram a colher relatos de horror e sofrimento. Alguns eram políticos. Outros, se tornaram.

Mesmo em tribunais superiores, em teoria muito mais protegidos em suas prerrogativas especiais, a regra era o silencio das togas encurvadas, da boca fechada. Denuncias de tortura e execução estavam disponíveis em quantidade, em corajosos depoimentos de réus e testemunhas, mas ninguém foi investigado por isso. Nenhum processo foi anulado porque um cidadão fora pendurado no pau-de-arara ou havia sido submetido ao interrogatório com choques elétricos. Sobraram denúncias, arquivadas cuidadosamente, e só divulgadas quando nada mais poderia ser feito para localizar e punir os responsáveis.

Há um outro ponto. Nas últimas semanas, denúncias de abuso nas delações premiadas e nas prisões preventivas de acusados da Operação Lava Jato se tornaram frequentes, gerando um ambiente de mal-estar nos meios jurídicos. Marco Aurélio Mello, um das vozes mais respeitadas do Supremo, já manifestou seu descontentamento. Celso Bandeira de Mello, um de nossos grandes advogados, também. O que se assiste é uma tentativa de blindagem: intimida-se um ministro na tentativa de calar quem poderia falar, paralisar quem poderia reagir.

Essa é a questão.

HSBC: jornal cede a pressões, ignora denúncias e colunista pede demissão

Via RBA

O mais conservador diário britânico é acusado mau jornalismo e de tratar as acusações recentes contra o HSBC de acordo com interesses e contratos comerciais.

Fachada da sede do HSBC em Genebra, Suíça, paraíso fiscal para dinheiro de origens duvidosas

Londres – Vários jornalistas do britânico “The Daily Telegraph” denunciaram a censura de notícias do veículo relacionadas a empresas e governos, como os de Rússia e China, por pressões comerciais. Os profissionais revelaram a insatisfação no programa “Newsnight”, exibido na noite de ontem (18) pela BBC, pouco depois que um conhecido colunista de política do jornal, Peter Oborne, ter pedido demissão pelos mesmos motivos.

Ele acusou o veículo de não fazer uma cobertura adequada sobre o caso da chamada “lista Falciani” – informações sobre contas do HSBC em Genebra (suíça) que abriga bilhões de correntistas de vários países, num esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Em comunicado divulgado pela internet, Oborne explicou que deixava o cargo após cinco anos ao denunciar que, por interferência da diretoria, o jornal conservador mais prestigiado do país estaria cedendo a interesses comerciais com o HSBC, em vez de apurar devidamente as irregularidades e crimes denunciados.

O colunista político Peter Oborne mostra sua indignação em telejornal da BBC

O colunista pediu uma investigação independente sobre a mistura de interesses jornalísticos e comerciais no jornal, que nos últimos meses retomou um acordo publicitário com o banco que tinha perdido anteriormente por “notícias desfavoráveis”. Oborne afirmou que renunciava “por questão de consciência” depois de várias decisões da diretoria lhe parecerem corruptas.

Segundo o colunista, a maioria dos funcionários do jornal não confia no diretor-executivo do “Telegraph Media Group”, Murdoch MacLennan, nem nos proprietários da empresa, os irmãos David e Frederick Barclay.

No “Newsnight”, jornalistas apoiaram publicamente a denúncia de Oborne e explicaram casos em que notícias tiveram de ser barradas ou modificadas para satisfazer interesses comerciais.

Exemplos dessas notícias, segundo os profissionais, contrariavam interesses do banco Royal Bank of Scotland, continham informações sobre os governos de Rússia e China e, inclusive, em um caso inédito, a crítica do filme infantil “Meu Malvado Favorito 2″, que teve de ser “melhorada” por interesses comerciais com a distribuidora.

O órgão britânico de monitoramento dos padrões da imprensa afirmou que o “The Daily Telegraph” realmente publicou bem menos notícias que outros jornais sobre o escândalo do HSBC e em nenhum deles fez um trabalho de investigação.

O grupo editor do “Telegraph” nega as acusações e garantiu em comunicado que “a distinção entre publicidade e a agraciada atividade editorial” do jornal “sempre foi fundamental” para a empresa. “Negamos qualquer alegação em sentido contrário”, diz a nota, que lamenta que Oborne tenha iniciado “um ataque infundado e cheio de inexatidões” contra a publicação.

Nos últimos dias, a imprensa britânica e do restante da Europa repercutiram a notícia, a partir dos documentos conhecidos como “lista Falciani”, que a filial suíça do banco britânico HSBC escondeu durante anos cerca de 106 mil contas com dinheiro não declarado.

No Reino Unido, o caso da possível fraude fiscal do HSBC chegou ao governo. Em 2011, o primeiro-ministro, David Cameron, nomeou para um cargo oficial Stephen Green, que foi presidente do banco de 2006 a 2010, quando as irregularidades foram cometidas.

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Com reportagens da Efe.

Para sindicalista, lucro da Caixa reforça que não há motivos para abertura de capital

Via Brasil de Fato

Governo admitiu que estuda a possibilidade de abrir o capital do banco público.

No final de 2014, além dos pacotes que mexem em direitos trabalhistas como o seguro desemprego, o governo também admitiu que a abertura de capital da Caixa Econômica Federal estaria em análise.

Principal fomentador de políticas públicas no país como o Minha Casa Minha Vida e o FIES e administradora de mais de 132 milhões de contas do FGTS, essa abertura significaria uma mudança drástica nos rumos do banco.

Mas o balanço de 2014 do banco, divulgado na última quinta-feira (12) pelo Dieese, mostra que ele continua ganhando espaço no mercado, o que diminui os motivos para uma abertura de capital. O saldo das operações de crédito atingiram R$ 605 bilhões, sendo quase R$ 340 bilhões na área habitacional. No ano passado foram conquistados cerca de 6 milhões de clientes, o que fez o número de correntistas e poupadores chegar a 78,3 milhões.

“Enquanto o mercado financeiro acumula perdas desde a crise de 2008, a Caixa tem atropelado o setor privado, incomodando e despertando a cobiça. De janeiro a dezembro, o banco injetou quase R$ 700 bilhões na economia, o que corresponde a aproximadamente 13,4% do PIB. Tudo isso significa que a Caixa 100% pública é o melhor modelo para os brasileiros”, argumenta Jair Pedro Ferreira, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal, Fenae.

Ainda conforme a análise do Dieese, o lucro líquido da Caixa foi de R$ 7,1 bilhões. O saldo em ativos próprios alcançou R$ 1,1 trilhão. As contratações em operações de saneamento e infraestrutura somaram R$ 33,3 bilhões. Um total de R$ 5 bilhões foi disponibilizado em crédito rural, além dos programas de transferência de renda terem distribuído R$ 28 bilhões para 176 milhões de beneficiados.

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Com informações da Contraf/CUT.

Lindberg sugere que efeito Orloff pode tornar Dilma a Cristina de amanhã

Por Renato Rovai | Via Revista Fórum

Nos anos 80 uma propaganda de vodca fez muito sucesso com o slogan: “eu sou você amanhã”. À época a expressão se tornou sinônimo de um efeito político nas relações entre Brasil e Argentina. O que iria acontecer com o Brasil, se tornava realidade primeiro na Argentina. Desde a democratização, passando por inúmeros planos econômicos e pela política de privatizações que lá foi conduzida primeiro por Menen e que aqui só se viabilizou com a posse de FHC, porque Collor não deu conta do recado, a Argentina por muito tempo antecipou o Brasil.

E nesses casos, isso sempre tinha por trás a mão grande dos interesses americanos. Hoje, o senador Lindberg (PT-RJ) traz luz novamente a essa questão ao comentar a passeata com nome bem marqueteiro, “Marcha do silêncio”, que reuniu de 100 mil a 400 mil pessoas a depender da fonte informativa, em Buenos Aires, na tarde de ontem.

Lindberg avalia que o momento político vivido por lá é de radicalização total e, no texto que segue abaixo, prevê que isso pode também vir a acontecer no Brasil. Seu alerta merece ser tratado com a responsabilidade política que o momento exige.

Passei o Carnaval com minha esposa e nossas duas pequeninas em Buenos Aires. Acabei acompanhando mais de perto a cena política. Aqui, o clima é de profunda radicalização política. A morte do promotor Nisman incendiou o país. Os conservadores e a direita argentina estão se aproveitando da crise e lançaram uma grande ofensiva para desestabilizar o governo. Quis ver de perto. Estou agora na Plaza De Mayo debaixo de muita chuva. Não tem menos de cem mil pessoas. É a marcha do silêncio convocada por promotores argentinos e apoiada pelo grupo Clarin e por todas as agremiações conservadoras e de direita do país. É o mesmo clima que querem criar em toda América Latina. Movimentos golpistas, de desestabilização democrática. Querem varrer os governos populares na América Latina. Com certeza, essa marcha vai animar o discurso golpista já encampado pelo PSDB, que teima em não reconhecer a derrota nas urnas. Temos que organizar as forças populares no Brasil para resistir a essa ofensiva. Precisamos de unidade nos movimentos sociais. Para isso, é fundamental corrigirmos rumos do nosso governo. Temos que fazer com que os mais ricos paguem a conta pelo reequilíbrio fiscal, porque é o justo a se fazer. Isso nos coloca um discurso de ofensiva e de demarcação de campo. Nós surgimos para defender o povo mais pobre, os trabalhadores do Brasil. E isso fizemos nesses 12 anos. Amanhã, escreverei com mais detalhes sobre a situação argentina. A marcha está no fim e quero ver o discurso de encerramento.

Mobilização para evitar um grande salto para o caos

Por J. Carlos de Assis | Via Jornal GGN

As teorias de sistemas complexos nos dizem que, em situações caóticas, pequenas alterações nas condições iniciais de um sistema provocam grandes transformações nas suas condições finais. A metáfora universal para isso é que uma borboleta que bate asas na Argentina provoca um tufão na Califórnia. Vivemos uma situação caótica. Alterações que estão ocorrendo nas condições prevalecentes do sistema econômico e político podem levar tanto a grandes transformações benéficas, mas também a transformações desastrosas. Neste último caso, não tenham dúvida: todos perderão, exceto os ricos.

Vejamos uma situação que leva a um risco de perda generalizada. A estagnação da economia não é um fenômeno recente; vem de 2014, ou mesmo antes. Entretanto, o novo Governo, comandado pelo ministro Levy, não parece muito preocupado com isso. Está preocupado sobretudo com o déficit em conta corrente – 91 bilhões de dólares no ano passado – e com a forma de financiá-lo. Certamente, no curto prazo, não pode ser pela via do aumento do superávit comercial. Somos exportadores quase que exclusivamente de commodities, e quantidades exportadas e preços delas estão em baixa.

Um esforço heroico no sentido de financiar exportações de manufaturados seria inútil no curto prazo: não podemos concorrer com a China, e não temos como entrar em escala nos mercados dos países ricos, os quais estão, também eles, estagnados (Europa, Japão) ou virtualmente estagnados (EUA). Na realidade, a prioridade das políticas econômicas de todos os países industrializados avançados é aumentar exportações, não importar. Nesse contexto, a busca de tratados de livre comércio com a Europa e os Estados Unidos não passa de um sonho ilusório da FIESP, que parece pouco preocupada com a saúde da indústria interna.

Diante desse quadro, a única forma de continuar fechando a balança de conta corrente é tomando capital ou empréstimos externos. E aqui entra a primeira maldição de nossa política macroeconômica condicionada: só atraímos empréstimos externos se mantivermos elevadas taxas de juros básicas, talvez não tão exageradas como estão hoje, mas de qualquer forma altas. Não arriscaria dizer qual o nível exato da taxa de juros que deveria ser adotado para conciliar necessidades internas de desenvolvimento com o imperativo de equilibrar a balança com empréstimos; só posso dizer que perdemos soberania nessa questão.

O condicionamento externo não para aí. Em condições normais, para favorecer a retomada da economia seria necessário fazer uma política fiscal expansiva, a saber, aumentar os gastos públicos relativamente às receitas. Não podemos fazer isso, segundo a lógica convencional de Levy. É que agências de risco nos desclassificaríamos para empréstimos públicos e privados, o que resultaria em contração das disponibilidades de recursos de curto prazo para fechar o déficit corrente. Diante disso, o rumo dado à economia é do “ajuste” fiscal, que vai da subida de tarifas e impostos a cortes de benefícios trabalhistas e previdenciários.

Resta a política cambial. A desvalorização tímida que se nota, embora positiva, não é suficiente para estimular exportações de manufaturados na escala necessária porque chegou atrasada. Seria necessário uma desvalorização maior, o que resultaria em mais inflação, e que de qualquer modo implicaria um sacrilégio contra o tripé sagrado da política fiscal austera, da política monetária restritiva e do câmbio flutuante. Poder-se-ia recorrer a políticas heterodoxas de controle cambial. Claro, isso jamais seria uma iniciativa de Levy. De qualquer modo, quando se está perto do incêndio, políticas como essa não dariam certo, se isoladas.

Então quais serão as condições finais desse caos? Vejamos: a economia vai se contrair. Considerando, além do efeito Levy o efeito Petrobrás, poderemos ter uma queda de 4 a 5%, similar à queda de 4% de 2009. Isso implicará um crescimento dramático do desemprego. A dívida pública, por sua vez, continuará subindo no ritmo da taxa básica de juros, pelo mínimo. A inflação evidentemente aumentará por cima da meta. Tudo considerado, a relação dívida/PIB estará sob o duplo efeito do aumento da dívida e da queda do PIB, com um resultado líquido de uma imediata deterioração das condições fiscais.

Nada disso, exceto o desemprego, seria intolerável em situações normais. O que torna todo o processo intolerável é que não nos dizem o que haverá depois do “ajuste”. É que, se pela lógica de Levy o “ajuste” é necessário por causa das condições fiscais atuais, um novo “ajuste” vai se impor se as condições fiscais piorarem. Tudo dentro do figurino que levou à crise grega, à crise portuguesa, à crise espanhola, à crise irlandesa, e outras mais. Uma situação permanente de ajustes sobre ajustes, com a deterioração do mercado de trabalho até o ponto de desempregar-se um quarto da força de trabalho, como na Grécia e Espanha.

No nosso caso, não discutirei por enquanto o caos político, que já se anuncia. Estamos numa situação em que, se agravada, todos perderão, exceto os ricos e os especuladores. Poderá haver uma alternativa? Sim, poderá. Exigirá uma mobilização nacional. Mas que não se tenham muitas ilusões. A curto prazo alguma forma de “ajuste” será inevitável pois temos uma conta a pagar por equívocos anteriores, quando estivemos em condições de fazer uma política soberana e não fizemos, surfando na onda das exportações de commodities. Nossa alternativa consiste em mudar o eixo de nossas relações produtivas internacionais mediante uma articulação estratégica com a China, que está aberta a isso. Tratarei disso no próximo artigo.

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J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe-UFRJ, professor de Economia Internacional a UEPB.

O petróleo, a hegemonia e a distribuição do poder

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/02/2015

A ordem global unipolar, irradiada desde Washington e possibilitada após a queda da URSS em 1991, chega a nossos dias seriamente debilitada, o que por sinal comprova a falsidade da pretensiosa tese de Fukuyama, postulante do fim da história.

As cada vez mais recorrentes crises financeiras provocadas por um capitalismo altamente desregulado, conjugadas a crises sociais decorrentes de desastrosos planos de liberalização e austeridade, somam-se as crises humanitária e ambiental, frutos, em seu tempo, das guerras expansoras de mercado e da superexploração de recursos naturais, necessária num sistema onde a lógica predominante é a do crescimento infinito.

Os desmandos e arbitrariedades de uma potência que instrumentaliza os conceitos de democracia e direitos humanos objetivando impor sistemas e governos que lhes garantam hegemonia política e econômica, aliados a negligência do vencedor que se julga incontestável, foram fértil terreno de construção de projetos políticos alternativos, principalmente no que se refere a América Latina e aos países em desenvolvimento de maneira geral.

Eis que estes projetos chegaram ao poder em diversas partes do mundo e iniciou-se a construção de alianças e instituições alheias as receitas ocidentais que constam no FMI e Banco Mundial. Acontecimentos emblemáticos deste movimento foram a Cúpula Celac-China e o acordo dos BRICS para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Essas instâncias de cooperação internacional constituem verdadeiro terremoto geopolítico que atinge frontalmente o projeto de globalização encabeçado pelos EUA e União Europeia.

Um dos produtos naturais desta realocação de poder é a desdolarização da economia mundial, pois, os governos do Sul Global não mais pretendem se manter expostos a inconsequente política do FED, que exporta problemas internos, fazendo com que outros países paguem a conta de uma economia imensamente endividada. Há também uma crescente desconfiança em relação ao real valor do dólar, dado que a moeda não possui lastro e os EUA a imprimem a torto e a direito para cumprir seus compromissos.

A fuga do petrodólar causa graves preocupações a uma Casa Branca de influência declinante, que responde escalando as hostilidades, intervenções e manobras econômico-financeiras, estas com fins claramente políticos.

Desde o início de 2014 os EUA coordenam, com os eternos aliados na Arábia Saudita, a inundação do mercado de petróleo que derrubou o preço do barril em mais de 50%. Esta medida afeta diretamente regimes de alta dependência das receitas do petróleo e derivados, entre eles, não por acaso, a Rússia e a Venezuela. Outras ações desestabilizadoras se somam a campanha, inclusive em países aparentemente não envolvidos, caso do Brasil.

OTAN, Rússia e Ucrânia

A Rússia enfrenta a expansão da OTAN até sua imediata fronteira desde o golpe orquestrado que se deu na Ucrânia. Após a derrubada do avião civil voo MH17 da Malaysia Airlines, uma verdadeira operação de falsa bandeira realizada pela Junta de Kiev, obteve-se o pretexto para a imposição de sanções e histérico bombardeio midiático sobre a “agressão russa”, que curiosamente jamais mostra imagens e vídeos das supostas tropas moscovitas invadindo território ucraniano.

A operação mal esconde a intenção real de Washington, que é controlar o fluxo de gás natural russo até a Europa. O FMI anunciou há poucos dias uma “ajuda” de US$ 17,5 bilhões ao governo ucraniano presidido pelo magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde no mínimo 2006, segundo vazamentos do Wikileaks. A mais importante contrapartida para os “parceiros” ocidentais é a “reforma do setor energético”, que evidentemente privatizará o setor, entregando-o a corporações norte-americanas.

É também significativo que o secretário de Estado ianque, Johnn Kerry, tenha sido excluído das negociações do segundo acordo de cessar-fogo de Minsk, o que denota que era visto como parte não cooperante. Somado ao fato dos EUA terem anunciado o envio de 600 militares a Ucrânia para fins de treinamento das forças locais, entende-se bem quem está forçando o conflito para a via bélica.

Venezuela e a oposição cooptada

O projeto chavista/bolivariano liderado pelo presidente eleito democraticamente Nicolás Maduro é alvo de incessante intervenção estrangeira, que se materializa numa oposição altamente ligada e financiada por interesses norte-americanos. A maior jazida petroleira do mundo é venezuelana e esta é a causa concreta de tanta sanha.

No ano passado a Venezuela enfrentou violentos protestos oposicionistas que incendiaram prédios públicos, armazéns e escolas e assassinavam motoqueiros que eram atingidos no pescoço por arames farpados estendidos nos piquetes. A desonestidade da oposição ficou evidente quando descobriu-se que diversas fotos por eles divulgadas como se fossem dos confrontos locais nada mais eram que imagens retiradas de buscas na internet.

Atualmente o governo local passa por sérios problemas financeiros por conta da redução no preço do barril, o que dá abertura a mais inquietações que serão outra vez aproveitadas por interesses escusos.

Brasil, Petrobras e corrupção

Por aqui a Operação Lava-Jato expõe as entranhas do esquema de propinas instalado há muito na Petrobras e nas grandes empreiteiras. As revelações, que poderiam servir para um amplo debate sobre a reforma do sistema político e a separação mais criteriosa do setor público e privado, são distorcidas e transformadas em ataque ao regime de partilha e ao próprio governo, que bancou esta legislação e a destinação de recursos do pré-sal para a educação.

A mídia brasileira, que segundo o professor Nilson Lage é “coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa”, pinta a baixa das ações da estatal como fruto do esquema de corrupção descoberto e não pela queda geral do setor causada pela sobreoferta do mercado de petróleo. O nível de enviesamento do noticiário e consequente alienação dos cidadãos é tão preocupante que muitos chegam a ridicularizar os que falam de interesses estrangeiros intervindo na Petrobras, esquecendo que há poucos meses descobriu-se o esquema de espionagem da National Security Agency à estatal. Enquanto isso, a Petrobras se torna a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto, descobre novas reservas e é premiada por conta das tecnologias de ponta que desenvolve.

O sucesso inegável da empresa é escondido pelos veículos submissos e cobiçado pelo capital internacional, que se satisfaz com as difamações e inverdades difundidas enquanto atua pelo lobby para primeiramente quebrar o monopólio de operações da estatal no país e em seguida acumular forças para privatizá-la, culminando no total controle dos mais de 80 bilhões de barris do pré-sal.

O desafio do tempo

O fator chave desta ofensiva é que a estratégia de manter a superprodução petroleira e o baixo preço do barril não pode ser mantida indefinidamente por conta dos efeitos colaterais que lhe são inerentes. Os atuais preços inviabilizam a exploração do petróleo não convencional – que é a aposta norte-americana para a independência energética – e atingem a saúde das finanças sauditas. Ou seja, Washington sabe que essa guerra econômica possui prazo, sob pena de arruinar setores chaves da economia nacional e enfraquecer a Arábia Saudita, parceiros fundamentais no que se refere a manutenção do dólar como moeda padrão para transações de petróleo e derivados.

A conjuntura é, portanto, de aumento da agressividade ianque frente aos que divergem das regras do “livre” mercado (livre somente se manipulado pelos próprios), e ainda mais hostilidade e ingerência aos que ousam negociar petróleo em moedas que não o dólar.

As nações atingidas recorrem, por sua vez, ao apoio da China por meio de empréstimos e aumento de comércio entre as partes. A Venezuela já obteve ajuda financeira de Pequim, enquanto a integração econômica sino-russa se dá em velocidade crescente. No entanto, a atuação chinesa não se trata de solidariedade, os estrategistas chineses têm interesse em substituir o dólar, substituindo-o por um yuan lastreado em ouro, e sabem ainda que se derrubado o governo russo, os próximos a serem submetidos a “disciplina” são eles.

Depreende-se deste quadro a inevitabilidade da ascensão de uma ordem global multipolar, a qual é adiada de todas as formas por um império declinante em influência política e econômica, mas, ainda assim, a mais ameaçadora força militar planetária. A integração e cooperação entre os países do Sul Global terminará por isolar os EUA, mais cedo ou mais tarde, e então entraremos numa era em que o poder estará distribuído com maior equidade, abrindo novas possibilidades de organização econômica e social.

O carnaval de rua e a economia de mercado

Por Pedro Rossi | Via Brasil Debate

O carnaval de rua é o espaço da não-mercadoria e da diluição das relações de mercado. É a festa da transgressão, não somente dos costumes morais, mas também da nossa sociabilidade cotidiana.

Em sua essência, o carnaval de rua brasileiro é uma festa que contrasta com a lógica capitalista de organização social. A ocupação dos espaços públicos, a mitigação de hierarquias, as iniciativas coletivas que organizam os blocos e as interações despretensiosas entre os foliões divergem da lógica do privado, dos empreendimentos individuais, da finalidade do lucro e das relações sociais mediadas pelo interesse próprio. O carnaval é a festa da transgressão, não somente dos costumes morais, mas também da nossa sociabilidade cotidiana.

Já dizia Marx que o capitalismo difunde um tipo de sociabilidade mediada pelo dinheiro, pelas relações de produção e pela troca de mercadorias. Todos os dias fazemos uso de produtos que são resultado do trabalho de outros e interagimos socialmente motivados pelas relações de troca de mercadorias, desde a compra na farmácia, do pedido ao garçom até a conversa com o chefe.

A legitimação do mercado como instância organizadora da sociedade tem, por um lado, o poder de aumentar a capacidade de produção e de disponibilizar a parte da população os benefícios dos avanços tecnológicos. Mas, por outro lado, difunde uma lógica de sociabilidade que passa pela valorização do indivíduo em detrimento do coletivo, do egoísmo em detrimento da solidariedade e dos interesses privados em detrimento dos interesses públicos.

Já o carnaval de rua é o espaço da não-mercadoria e da diluição das relações de mercado. Nele, o incentivo do folião difere do incentivo do indivíduo racional dos livros de microeconomia. A motivação carnavalesca é a busca por um tipo específico de libertação das emoções reprimidas pelo cotidiano, que passa pela mimetização coletiva de um comportamento expansivo que – diriam alguns economistas – configura um comportamento de manada. No carnaval de rua, a festa é a construção coletiva que cria um ambiente de frenesi social em que todos têm direito a uma alegria fugaz, como cantou Chico Buarque.

As pessoas se reúnem fora de suas posições sociais e substituem seus uniformes e roupas de marcas por fantasias que são capazes de inverter as relações tradicionais de hierarquia, de poder e de status social e de aplicar uma maquiagem sobre as desigualdades sociais, como já observou o antropólogo Roberto DaMatta.

Só no carnaval a moça pobre vira rainha e o menino rico ostenta uma vassoura de lixeiro. E a interação entre a rainha e o lixeiro é geralmente motivada por interesses transitórios, desapegados dos códigos sociais de conduta. Na folia, o indivíduo perde suas referências de identidade e se mistura com a multidão para viver um momento de alegria e irracionalidade coletiva.

Evidentemente, a sina do capitalismo de penetrar nas várias esferas da sociedade e de transformar tudo em mercadoria se apodera de parte do carnaval que vira negócio, atende aos interesses de patrocinadores, seleciona e elitiza o público pela venda de abadás, pelas festas nos clubes, etc. Contudo, ainda persiste nas ruas das cidades brasileiras, o carnaval genuíno e espontâneo que constitui um espaço de resistência ao movimento de mercantilização das esferas sociais promovido incessantemente pela economia de mercado. Brincar o carnaval na rua é vivenciar outro espaço de sociabilidade que, apesar de efêmero, consegue dar uma injeção de ânimo no povo brasileiro. Bom carnaval a todos!

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Pedro Rossi é professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e membro da Rede Desenvolvimentista.