Arquivo mensais:fevereiro 2015

Carta aberta a Joaquim Barbosa

Por Weber Figueiredo da Silva

Prezado colega Joaquim Barbosa.

Você cobrou a exoneração do Ministro da Justiça por ter recebido advogados das construtoras, alegando no seu Twitter: “Reflita: vc. defende alguém num processo judicial. Ao invés de usar argumentos/métodos jurídicos perante o juiz, vc. vai recorrer à Política?”

Permita-me ponderar, caro colega da UERJ, a Política com P maiúsculo, conforme você bem escreveu, é a mais nobre das atividades humanas, pois é a partir dela que se constrói uma sociedade rumo ao eldorado ou rumo ao abismo.

É conveniente deixar claro que todos nós queremos a punição de corruptos, o fim da corrupção e a repatriação dos bilhões evadidos. No entanto, esse problema da Petrobras & construtoras está indo muito além disso. Já extrapolou as decisões (aplaudidas) de um único juiz e passou a ser uma questão de Estado.

Explico: (1) Países ricos são aqueles que têm autonomia tecnológica, isto é, dominam o conhecimento que transforma a natureza em riqueza, desde os projetos de engenharia até o produto final. (2) Dentre as grandes empresas sediadas no Brasil, praticamente apenas a Petrobras & construtoras têm autonomia tecnológica. As outras grandes empresas, por serem mundiais, produzem bens aqui mas não desenvolvem a tecnologia no Brasil. (3) Quem domina a tecnologia tem o poder das decisões econômicas e a primazia dos melhores lucros.

A Petrobras é responsável por cerca de 10% dos investimentos realizados no País, cujo efeito multiplicador no crescimento da economia é exponencial. São razões de estado, portanto, que deveriam levar o governo a interceder politicamente no show de horrores que está provocando paralisação de setores produtivos da economia, desemprego e redução do PIB.

O que a Petrobras e construtoras têm de perene são as suas máquinas, equipamentos, outros bens materiais, o petróleo, trabalhadores e tecnologia, sinônimo de conhecimento, que nada têm a ver com os desvios de dinheiro provocados por meia dúzia de dirigentes ironicamente colocados em liberdade “premiada”.

Digo, por experiência própria vivenciada no poder executivo estadual, que a corrupção pode ser totalmente debelada sem prejudicar as (únicas) grandes empresas nacionais que desenvolvem tecnologia de forma autônoma.

Infelizmente, ao contrário do que se esperava, a forma seletiva de divulgação de passos inconclusos e não julgados do processo ‘lava-jato” está acarretando mais malefícios do que benefícios, até porque as tais delações (absurdamente) premiadas saíram dos bafos de bandidos confessos.

Mas isso agora é o de menos. O pior é ver os negocistas e golpistas de plantão se aproveitando de todo esse caldeirão de manchetes cientificamente encomendadas para enlamear, não os corruptos, mas a empresa Petrobras e as construtoras visando à enfraquecê-las para desnacionalizá-las.

Reflita, caro Joaquim, (i) com tantas instituições há décadas sugando bilhões de dólares da nossa economia sem qualquer reação do judiciário, ministérios públicos e imprensa; (ii) com um processo criminoso de privatizações que aniquilou empresas e inteligências brasileiras sem que houvesse um só pio desses órgãos; (iii) e o que vemos agora é a exploração malévola para destruir o que de melhor nos resta na engenharia brasileira.

Se o problema fosse realmente punir corruptos, eles não estariam em liberdade premiada. O alvo é realmente quebrar as últimas grandes empresas nacionais de engenharia; e logo a engenharia, um dos ramos do conhecimento que mais cria postos de trabalho em todas as áreas.

Isso é muito triste para um país que já tem mais de 70% do seu PIB controlado por não residentes. Será que você e o voluntarioso juiz Moro conseguem enxergar que existe algo que vai muito além dos “argumentos/métodos jurídicos” a que você se refere?

Nenhum “argumento/método jurídico” pode estar acima dos interesses da sociedade, nem pode ser usado para, por consequência, desgraçar a vida de milhares de famílias inocentes que dependem do funcionamento pleno das empresas nacionais que geram conhecimento e riquezas.

Lecionei durante 36 anos na Faculdade de Engenharia da universidade a qual você pertence, a UERJ. Sabemos o quanto é árduo a formação de engenheiros desenvolvedores de tecnologia. E o que temos visto em todo esse episódio do “petrolão” é a lubrificação dos dutos que podem, mesmo que não houvesse intenção, levar o nosso petróleo gratuitamente para alhures e destruir o que nos resta de tecnologia própria nas empresas de energia e construção civil-mecânica.

Acredite, caro Joaquim, os abutres já estão a grasnar: “entreguem tudo às empresas estrangeiras”; e, se elas tomarem conta do pedaço que nos resta, adeus à soberania e à tecnologia nacional. E isso, acredito, nem você nem o juiz Moro querem. Certo?

Seria muito bom que juristas de escol colocassem os seus saberes para impedir a alienação de riquezas e patrimônios nacionais. Que achas da ideia? Se você puder convide o juiz Moro e apareçam em dois atos em defesa da Petrobras e Soberania Nacional: dia 24/02, terça-feira, às18h, na Associação Brasileira de Imprensa, e no dia seguinte, 25/02, quarta-feira, às 17h, no Clube de Engenharia.

O que está em jogo são os destinos soberanos do Brasil. Quebrem-se os políticos e dirigentes corruptos, mas não a grande estatal e a engenharia nacional.

Cordialmente.

***

Weber Figueiredo da Silva é professor de engenharia do CEFET-RJ.

Argenleaks, Politileaks e a marcha contra Cristina

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

Amanhã, 18 de fevereiro, uma marcha estrepitosa, estimulada pelos setores concentrados da mídia e da economia, tentará minar e até destituir a presidenta Cristina Kirchner, se conseguir o nível de tumulto e comoção daquela de 11 de abril de 2012 que, em Caracas, depôs por 48 horas o então presidente Hugo Chávez. Em princípio, convocada por cinco promotores desavindos com o governo, a título de lembrar o primeiro mês da morte do promotor Alberto Nismman, ela foi logo instrumentalizada politicamente pelos Grupos Clarín, La Nación e Perfil, que controlam a mídia privada. A marcha de los fiscales (promotores), como se autodenomina, é considerada um desafio político tão inquietante como aquele da revolta do campo, que ameaçou a chefa do Estado argentino, pouco depois de ela haver assumido a Casa Rosada, em 2008, ainda que dois dos responsáveis pela convocação tenham sido envolvidos em processos de acobertamento da causa.

Neste contexto, os livros Argenleaks e Politileaks, do jornalista Santiago O’Donnel, traduzem-se numa referência para entender o processo argentino e latino-americano na sua relação com os Estados Unidos e o chamado mundo ocidental. Eles são considerados de suma importância, por desvendarem, através da publicação, edição e análise dos cables (documentos secretos) da embaixada estadunidense em Buenos Aires. É que eles indicam o nível de relacionamento, as opiniões e mesmo delações feitas pelas principais figuras da oposição, além de donos, editores e repórteres especiais de jornais, que costumam frequentar a sede da representação na Avenida Colômbia, 4300, ou trocar ideias com seus diplomatas e agentes secretos, em lautos almoços e jantares, em residências privadas ou nos finos restaurantes portenhos.

O jornalista Santiago O’Donnell, editor internacional do Página 12, recebeu, pessoalmente, em Londres, das mãos de Julian Assange, diretor do Wikileaks, um pen-drive de 2.700 documentos (cables, telegramas, emails) trocados pela Embaixada Americana, em Buenos Aires, com a sede do Governo em Washington. Ele, na verdade, integra o pacote de mais de de dois milhões de documentos publicados pelo site, em 2012, com grande repercussão internacional. O que O’Donnel encontrou nesse minúsculo dispositivo foram provas cabais daquilo que era simples voz corrente: a sistemática intromissão dos EUA nos assuntos internos daquele país, começando pelo tutelamento da mídia hegemônica, entidades empresariais, setores da sociedade e dos principais líderes oposicionistas com vistas a sabotar e torpedear as iniciativas envolvendo a emancipação e a soberania do país. No caso específico do ex-procurador Alberto Nisman, essa intromissão, que também arrolou os serviços secretos da CIA, do israelense Mossad e do britânico MI6, resultaram no prolongamento indefinido das investigações sobre o atentado da AMIA, onde morreram 85 pessoas e outras 252 ficaram feridas. Isto foi ao ponto de, até hoje, passados 21 anos, de marchas e contramarchas, não produzir qualquer conclusão confiável, além de continuar a produzir mais controvérsias, destruição de reputações de juízes, promotores, jornalistas e mortes, como a de Nisman, encontrado morto numa poça de sangue no banheiro de seu apartamento de Buenos Aires, no último dia 18 de janeiro.

Desse modo, os documentos do Wikileaks renderam a O’DOnnell dois livros “Argenleaks” e “Politileaks”, escritos em espanhol, ainda não traduzidos no Brasil, mas que já podem ser baixados, ao preço de dez dólares, pelo celular ou micromputador, nas lojas da Apple e da Amazon. Eles são agora considerados essenciais para entender o momento do vizinho do Prata, sobretudo o “Politileaks”, o último a ser lançado, já que escarafuncha a relação promíscua de Nisman, que poucos dias antes de sua morte, tinha denunciado a presidenta Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman de acobertarem os cidadãos iranianos acusados de autores do atentado da AMIA .

O Café na Política entrevistou O’Donnell, quando ele relatou sua experiência no trato com esses documentos, num vídeo através do Skype, ainda em preparação, assim como analisa a situação deflagrada pela súbita morte do procurador, anunciada em 18 de janeiro último. O vídeo, que ainda depende de um contato final com O’Donnel, será apresentado neste espaço, e transmitido pela TV Cidade Livre de Brasília, Canal 12 da NET (DF) e postado no Youtube. Enquanto isso, convidamos o leitor a apreciar algumas das conclusões do escritor argentino, que ainda teve uma experiência de quatro anos de repórter policial no Washington Post e no Los Angeles Times.

***

PS Desenvolvimentistas: O doutor em economia e associado, professor Adriano Benayon muito apropriadamente comentou este texto.

Realmente valeria ver o Politikleaks.

De qualquer forma, os antecedentes conhecidos da intervenção imperial, nos mais diversos países, de todos os continentes – além do que vem fazendo o governo argentino, para ter um pouco mais de autonomia em setores importantes da economia e dos próprios poderes públicos – levam à conclusão de que, mais uma vez, a oligarquia angloamericana se vale do terrorismo de Estado, com a ação dos serviços secretos a seu serviço, para gerar crises políticas destinadas a controlar por inteiro os países visados.

Isso é confirmado também pelo resumo de Leite Chagas das informações em poder de G. O’Donnel.

Brasil e Europa: políticas econômicas na contramão

Por Fabrício Augusto de Oliveira | Via Brasil Debate

Enquanto a Europa ensaia uma política anticíclica para se reencontrar com o crescimento, o Brasil, com recessão já batendo às portas, implementa uma política pró-cíclica. Significa atividade econômica encolhendo, com efeitos perversos para o emprego, a renda e as políticas sociais.

No final de 2012, a economista e presidente Dilma Rousseff, em viagem à Europa, condenou a política de austeridade imposta aos países da União Europeia pela troika BCE/FMI/Comissão Europeia e sugeriu que seus líderes importassem a política econômica anticíclica implementada no Brasil para enfrentar a crítica situação econômica com que este bloco se defrontava como consequência da crise da dívida soberana.

Segundo seus argumentos, “o modelo de austeridade estava fadado ao fracasso” e os resultados da política implementada produziria apenas “mais recessão e empobrecimento das classes médias”.

Dilma estava correta em seu argumento sobre a terapia prescrita pela troika para corrigir os acentuados desequilíbrios fiscais de alguns países, notadamente Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, os quais se manifestaram como desdobramento da crise do subprime, e desvelaram as fragilidades da economia real de alguns de seus membros.

Ao contrário do que esperava a troika, as políticas de austeridade apenas agravaram os problemas com a recessão que se produziu, acompanhada de aumento considerável do desemprego, encolhimento das receitas fiscais e avanço na desmontagem de programas do welfare, quando naquele momento, o mais importante era dar força à atividade econômica, estimulando a demanda.

Tanto isso é verdade que ainda hoje a União Europeia continua mergulhada em sérias dificuldades econômicas, com alguns de seus países não conseguindo sair da recessão, ameaçada insistentemente por um processo de deflação, devido à fraqueza da demanda, e ainda correndo riscos de desintegração. Tal situação levou o BCE a decidir, recentemente, mesmo com a resistência da Alemanha, injetar liquidez na zona do euro, por meio da compra de títulos públicos, visando a reverter este quadro, tal como ocorreu nos Estados Unidos após a crise do subprime.

Em 2015, eleita para o segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff não quis comparecer à reunião anual que se realizou em Davos, na Suíça, no final do mês de janeiro, preferindo se refugiar na Bolívia e comparecer à posse de Evo Morales.

O Fórum Mundial de Davos é um encontro anual que reúne líderes da economia mundial, incluindo governos, empresários, intelectuais e organismos internacionais, e seria uma boa oportunidade para a presidente defender a política ortodoxa que começou a implementar no Brasil neste segundo mandato e convencer os agentes econômicos e as instituições de que o país se colocara no rumo esperado pela elite internacional, representante, de uma maneira geral, do capital financeiro. Seria, certamente, aplaudida entusiasticamente, inclusive, e, não se pode desconsiderar, talvez ironicamente, pela Chanceler alemã, Angela Merkel, principal líder da ortodoxia mais atingida por suas críticas anteriores.

Há muitas hipóteses para explicar o motivo de seu não comparecimento a este encontro em Davos, mas nenhuma é tão forte como a que se refere ao fato de que teria dificuldades para defender a política ortodoxa que condenara veementemente há pouco mais de dois anos, e de ter de reconhecer que o Brasil, ao invés de estar exportando, tornou-se importador da política de austeridade da Europa, exatamente num momento em que esta, tendo aparentemente reconhecido seus malefícios e incapacidade para resolver os problemas do bloco, começou a abrandá-la com o afrouxamento do controle quantitativo da liquidez e do crédito.

Seria de fato uma tarefa difícil. Isso porque não é fácil explicar como se mudou de visão em tão pouco tempo. Enquanto a Europa começa a buscar outro caminho, visando a fortalecer a demanda e a atividade econômica para sair da ruína em que se encontra, o Brasil se dispõe a iniciar o seu percurso, aniquilando a demanda e a oferta e abrindo mão, assim, do crescimento econômico, quando se sabe ser este essencial para preservar e dar continuidade às conquistas alcançadas nos últimos anos em termos de emprego, renda e de redução das desigualdades no País.

Ou seja, enquanto a Europa ensaia, ainda que tardiamente, exatamente uma política anticíclica para se reencontrar com o crescimento, o Brasil, com uma recessão já batendo às portas, passa, em sentido oposto, a implementar uma política pró-cíclica, significando que a atividade econômica deve continuar se encolhendo, com efeitos perversos para o emprego, a renda dos trabalhadores e as políticas sociais, que já começam a se manifestar.

Não são boas as perspectivas que se descortinam para o país nos próximos anos ao se aventurar nessa estratégia equivocada. Depois de exagerar na política anticíclica para manter vigoroso o consumo sem se preocupar com o lado da oferta, a política econômica brasileira renuncia a medidas que poderiam reequilibrar essa equação, deixando de encaminhar reformas importantes para estimular o investimento, a produtividade e a redução do custo-Brasil, e passa a acatar, candidamente, as ordens emanadas do mercado financeiro para soterrar a única fonte que vinha mantendo algum oxigênio para a atividade produtiva, o consumo.

A crença de que a recomposição do tripé macroeconômico em níveis que agradem o mercado traga de volta em algum momento os investimentos e o crescimento, depois de saneada a economia pela recessão, o desemprego e o aumento das desigualdades só é verdadeira para o capital financeiro, por garantir, com isso, um Estado solvente, capaz de preservar, sem riscos, seus ganhos fabulosos.

Para a economia real e a população em geral, que até o momento só foram prejudicadas com as medidas adotadas, representa sacrifícios inúteis, enquanto não forem desbloqueados os caminhos para um efetivo desenvolvimento econômico e social do País, o que nada tem a ver com o “austericídio”, como alguns analistas têm rotulado a política ortodoxa posta em movimento pelo governo neste segundo mandato. O exemplo da Europa está aí, bem à vista, para os que ainda acreditam ser este um caminho profícuo para o Brasil retornar à trajetória de crescimento econômico.

***

Luiz Augusto de Oliveira é Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e autor, entre outros, do livro “Dívida pública do Estado de Minas Gerais: a renegociação necessária”, de 2012.

A seca não vem da Amazônia

Por Vinícius Gorczeski e Bruno Calixto | Via Amazonidade

Popularizou-se no mundo a teoria segundo a qual a seca no Sudeste seria efeito do desmatamento no Norte. O problema, porém, tem outras causas.

A maior crise hídrica da história do Brasil é culpa do governo, de São Pedro, das mudanças climáticas ou de seu vizinho gastador? Existe uma corrente crescente de sem-água que acreditam que a causa da seca histórica está em outro lugar. Ela seria consequência do desmatamento na Amazônia. A explicação inspira campanhas de ONGs como o Greenpeace e a WWF. Uma pesquisa feita pelo Instituto ReclameAqui a pedido de ÉPOCA mostra que 40% dos cidadãos dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro dizem que a devastação na Amazônia é uma das principais causas da seca. Reportagens sobre isso apareceram em veículos da imprensa internacional, como a BBC, o jornal britânico The Guardian e o americano Wall Street Journal.

A tese influente surgiu em uma entrevista coletiva do pesquisador Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no dia 30 de outubro de 2014 em São Paulo. Ele apresentava seu estudo O futuro climático da Amazônia. A pesquisa aprofunda uma função conhecida da floresta. A mata gera a umidade que forma as chuvas da Região Norte e também viaja para o sul do continente, engrossando as nuvens na Bolívia, no Paraguai, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. O estudo descreve um risco real de que, com menos floresta, esse sistema entre em colapso. Não avalia se o processo já estaria em andamento. Mas, em entrevistas a jornalistas, Nobre foi menos cauteloso que seu estudo. “A seca no Sudeste tem relação direta com o desmatamento na Amazônia.” Procurado por ÉPOCA, Nobre endossou que o desmatamento lá é a principal razão para a falta de chuvas cá. Suas declarações repercutiram.

A atmosfera, no entanto, é mais complexa. Na verdade, como explicam climatologistas e meteorologistas, as vilãs da história são as áreas de alta pressão atmosférica formadas sobre o continente. O fenômeno impediu a entrada, no Sudeste, de frentes frias vindas do sul e de ventos úmidos oriundos da Amazônia, segundo Franco Villella, do Instituto Nacional de Meteorologia. O bloqueio espantou os cientistas porque, embora seja comum no inverno, ocorreu em janeiro de 2014 e repetiu-se em 2015. Prever fenômenos como esse é mais arriscado que cravar a temperatura do próximo domingo. “A seca tem razões de escala global, que precisam ser mais bem estudadas. Não dá para atribuir a ocorrência ao desmatamento na Amazônia, como não se pode afirmar que seja um efeito do aquecimento global”, diz Villella. Foram necessários três anos para que uma agência americana elaborasse um estudo realmente abrangente que explicasse uma das piores secas da história californiana, que começou em 2011.

O desmatamento na Amazônia ainda é alto, e a fiscalização tem de melhorar. Mas faz anos que seu ritmo cai. A área de florestas derrubadas baixou de 29.000 quilômetros quadrados em 1995 para 4.800 em 2014. Se o desmatamento na Amazônia fosse a causa da seca no Sudeste, a primeira região afetada seria o entorno da floresta. As chuvas se reduziriam drasticamente na Bolívia e no Paraguai. Nesses locais, aconteceu o oposto. O desvio do fluxo de chuvas que iria para o Sudeste foi demonstrado por dados do Inpe e do Sistema de Proteção da Amazônia. Os ventos chuvosos rumaram para Rondônia, Bolívia e Peru em janeiro de 2014 e em 2015.

O Brasil tem sete biomas, todos importantes para o clima. É normal que as atenções se concentrem na Amazônia. A derrubada de árvores centenárias, gigantescas e raras no Norte comove mais do que o desmatamento no Cerrado ou na Mata Atlântica, ambos mais relevantes para proteger os mananciais que abastecem o Sudeste. O bioma amazônico é o único a ter um fundo de recursos. Criado em 2008, seu caixa registra R$ 1 bilhão, e dele saíram R$ 390 milhões até dezembro. Para quem milita pela conservação e por mais pesquisas na Amazônia, é tentador associar, numa única narrativa dramática, os dois grandes fenômenos: a devastação na Amazônia e a seca no Sudeste. Uma história tão cativante tem alto poder de captação de recursos de entes públicos e privados.Também é um jeito de as ONGs ambientalistas fazerem o morador da cidade grande sentir na pele os efeitos da destruição na longínqua Região Norte. A estratégia, entretanto, é arriscada.

Usar argumentos sem embasamento contribui com a ignorância científica da população e pode atrapalhar uma boa causa. A tese desastrada sobre a seca ter nascido na Amazônia poderá, no futuro, ser usada contra os ambientalistas. O relatório de Nobre é relevante: ele atesta a importância da Amazônia para o fluxo de chuvas na América do Sul. Sem ela, Sudeste, Sul e vastas áreas em países vizinhos se tornariam desertos. Não é preciso mais que isso para convencer a sociedade.

***

Sugerido por Anderson Marques, autor do blog Amazonidade.

Luciano Coutinho continua à frente do BNDES

No fim do ano passado os bastidores e notícias já indicavam uma possível guinada ortodoxa da política econômica da presidenta Dilma. Neste ínterim, o Blog dos Desenvolvimentistas publicou, no dia 15 de dezembro, um artigo intitulado Uma defesa da política econômica de Dilma, onde os doutores em economia Gustavo Santos e Luis Carlos Magalhães se juntaram ao jornalista e escritor Laurez Cerqueira para construir esta importante argumentação em contraponto ao pensamento único neoliberal, predominante nas análises da imprensa.

Foi também neste texto, de considerável repercussão, que o Blog recomendou a manutenção do então presidente do BNDES, senhor Luciano Coutinho, à frente da instituição. E é com satisfação que soubemos do fato. Instituições de financiamento e desenvolvimento estatais são fundamentais para a autonomia do Estado em termos de criação e prática de políticas públicas.

Confira a notícia da Agência Brasil:

A Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto informou que o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, vai permanecer no cargo. O convite foi feito nesta quinta-feira (19) pela presidenta Dilma Rousseff.

O economista Luciano Coutinho está à frente do banco desde 2007, quando foi indicado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para substituir Demian Fiocca. Professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luciano Coutinho foi secretário-geral do Ministério da Ciência e Tecnologia entre 1985 e 1988, no governo de José Sarney. Antes de entrar no BNDES, atuava como consultor na área de investimentos.

Ex-sócio da LCA Consultores, ele prestou serviço a grandes empresas como a Vale e a Ambev.

Luciano Coutinho formou-se em economia em 1968, pela Universidade de São Paulo, onde também coordenou o programa de pós-graduação, de 1974 a 1979. Em 1980, foi professor visitante na Universidade do Texas. Em janeiro de 1994, na Universidade de Paris XIII, também foi professor visitante e palestrante. Coutinho foi consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), do Banco do Nordeste e de governos estaduais.

 

Veríssimo: O contexto maior

Por Luís Fernando Veríssimo | Via O Globo

Mais do que em qualquer outro confronto, na luta pela Petrobras, e por tudo que ela simboliza além da exploração de uma riqueza, se definem os lados com nitidez.

Recomenda-se a desiludidos com a atualidade em geral e com o PT em particular a procurar refugio no contexto maior. O contexto maior não absolve, exatamente, o contexto imediato, a triste realidade de revelações e escândalos de todos os dias, mas consola. Nossa inspiração deve ser o historiador francês Fernand Braudel, que — principalmente no seu monumental estudo sobre as civilizações do Mediterrâneo — ensinou que, para se entender a Historia, é preciso concentrar-se no que ele chamava de la longue durée, que é outro nome para o contexto maior. Braudel partia do particular e do individual para o social e daí para o nacional e o generacional, se é que existe a palavra, e na sua história da região, o indivíduo e seu cotidiano eram reduzidos a “poeira” (palavra dele também, que incluía até papas e reis) em contraste com a longue durée, o longo prazo da história verdadeira. Assim na sua obra se encontram as minúcias da vida diária nos países do Mediterrâneo mas compreendidas sub specie aeternitatis, do ponto de vista da eternidade, que é o contexto maior pedante.

Do ponto de vista da eternidade nada do que está sendo revelado, em capítulos diários, sobre o propinato na Petrobras e os partidos políticos que beneficiou deixa de ser grave, mas é impossível não ver o cerco à estatal do petróleo no contexto maior da velha guerra pelo seu controle, que já dura quase 70 anos, desde que a Petrobras venceu a primeira batalha, a que lhe permitiu simplesmente existir, quando diziam que nunca se encontraria petróleo no Brasil. Mais do que em qualquer outra frente de confronto entre conservadores e progressistas e direita e esquerda no Brasil, na luta pela Petrobras, e por tudo que ela simboliza além da exploração de uma riqueza nacional, se definem os lados com nitidez. A punição dos responsáveis pelos desvios que enfraqueceram a estatal deve ser exemplar e todos os partidos beneficiados que se expliquem como puderem, mas que se pense sempre no contexto maior, no qual a sobrevivência da estatal como estatal, purgada pelo escândalo, é vital.

Fernand Braudel viveu e lecionou no Brasil. Não conheço nenhum texto dele sobre sua experiência brasileira. Seria interessante saber como ele descreveria, ou preveria, hoje, a longue durée da nossa História. O que significaria, na sua avaliação, o longo dia no poder do PT? O contexto maior tudo perdoaria ou tudo justificaria? Enfim, o contexto maior de todos é o Universo, que, no fim, engole todos os significados. O que também não é um consolo.

Diálogos Desenvolvimentistas: O povo brasileiro e sua natureza

Operários, de Tarsila do Amaral (1933)

A questão do subdesenvolvimento brasileiro e a índole de nosso povo é o destaque deste debate de ricas análises e ideias. Os que desejam construir um país justo, soberano e desenvolvido muito se afeiçoarão as reflexões deste diálogo.

Confira:

Norton Seng – Onde estão nossos governantes?

Com uma dívida elevada e que não para de crescer, e com níveis insuportáveis de impunidade e corrupção, e desvios bilionários, também crescentes, entre tantos outros dados negativos e tão enraizados em nosso país, conclui-se que o Brasil jamais se reerguerá. A Alemanha, por exemplo, é o maior exportador de café solúvel do mundo e ganha bilhões de dólares com o nosso café ‘in natura’ – mesmo sem ter um pé de café. Assim, os alemães devem morrer de rir com a estultice dos que gerenciam o nosso país.

Tristemente, o mesmo acontece com a nossa madeira, exportada em toras; nosso couro, exportado cru; nossa soja, em grãos; nossas pedras preciosas e semipreciosas, ouro, mármore, cristal, minério de ferro, com o maior teor de pureza do mundo, todos ‘in natura’, nossas frutas, exportadas em xarope e processadas (envasadas) nos EUA e vendidas para o mercado europeu e asiático. A lista é imensa.

A pauta de exportações brasileiras, hoje, aponta o mesmo porcentual de mais de 70% de produtos primários, quer dizer, exportamos hoje o mesmo que exportávamos há 70 anos!

Parece claro que seríamos, se tivéssemos uma maioria de governantes sérios e nacionalistas, ao longo de nossa história, um dos países mais ricos do mundo. Mas esse deletério e anacrônico processo, pelos inegáveis registros e fatos, mostra que isso dificilmente acontecerá.

Nelson Antônio Prata – Isto é a prova de que o maior inimigo é o interno. Ele está encastelado no próprio governo, desde sempre.

Gustavo Santos – Se o maior inimigo é interno, somos sub-raça? O que querem dizer com isso? Vocês estão reproduzindo (de graça e alegremente) conteúdo feito por agências de inteligência estrangeiras para aviltar e humilhar o povo brasileiro e para jogar brasileiros contra brasileiros, acabando com nossa autoestima e capacidade de termos esperança e de acreditarmos em nós mesmos. Esta é uma velha tática dos impérios sanguinários para subjugar os povos mais pacíficos.

Prefiro mil vezes ser brasileiro do que ser um povo que apoiou alegremente vários holocaustos. Prefiro perder do lado do meu povo do que vencer do lado de povos poderosos mas capazes das maiores atrocidades por se acharem superiores ou mais humanos do que os outros, que possuem menos tecnologia ou capacidade militar.

É para isso que estamos nessa Terra? Subjugar ou ser subjugado? Não é assim que pensa o povo brasileiro.

O que há de mais profundo no povo simples do Brasil é a ausência do censo de superioridade que os povos do Velho Mundo tanto valorizam e tentam impor aos mais fracos. Se tem um lugar do Mundo que dá chances para um futuro realmente promissor para a humanidade, onde as pessoas sinceramente acreditam na igualdade entre as raças, os povos e as culturas é aqui.

O Brasil, desse povo alegremente mestiço pode mostrar realmente um futuro de paz para a humanidade, apesar de toda propaganda e sabotagem contrária.

Tecnologia, poder, capacidade organização e manipulação podem subjugar, podem causar admiração, mas não alimentam a alma, não trazem paz e alegria.

Nós podemos aprender com o Velho Mundo e Império do Norte, mas eles também precisam aprender muito conosco, para começar: tolerância sincera e depois a experiência de que é possível ser feliz sem ser superior e em especial sem ser materialmente superior.

É honroso ser brasileiro. Mesmo na derrota, mesmo sendo fraco.

Um dia venceremos pela tolerância, pela cordialidade, pela alegria e pela paz. Quando venceremos… quando vencermos não haverá perdedores, não haverá inferiores, apenas diferentes, humanamente diferentes.

Roberto D’Araújo – Estás a defender a velha ilusão do homem cordial? Sérgio Buarque já esmiuçou esse conceito em 1936. Desculpem os que pensam ao contrário, mas estamos cada vez mais primários em todos os sentidos: industrial, educacional, cultural, infraestrutura, transportes, saúde e, principalmente, em política. Nos últimos anos só temos assistido as velhas oligarquias retornando de mãos dadas com as falsas esquerdas. Para onde vai o país? Estamos repletos de bizarrices sob a ideologia de que esses caminhos são o jeitinho brasileiro que só nós entendemos. Tô fora!

Sem preconceito racial? Onde?

O que falta ao Brasil é exatamente uma boa dose de pessimismo do Velho Mundo, pois essa ode romântica ao otimismo, discurso afiado com essa pobre cultura “brasileira”, só traz problemas.

Para construir um país é preciso ideias e planejamento. Planejamento é justamente a área onde as visões devem lidar com eventos ruins. Sendo pessimista, viadutos e aviões não caem, reservatórios não se esvaziam, leitos de hospitais não se esgotam, orçamentos não estouram e muitas outras coisas adversas são evitadas.

A palavra tolerância é muito próxima da complacência, enfermidade arraigada na sociedade, brasileira imersa na falta de informação e enganada pelos falsos profetas.

Adriano Benayon – Penso que a posição defendida por Gustavo vai no sentido de compreender e apreciar o grande valor das virtudes humanas do povo brasileiro e que elas contribuem para formar bom ambiente no País, em todos os sentidos.

Há, porém, um porém. É que a grande abertura de muitos brasileiros às influências vindas do exterior – combinada com a devastação cultural e de valores em que o império anglo-americano vem investindo com intensidade, entre nós, há cerca de um século, e combinada ainda com as condições miseráveis para o grosso da população, decorrentes das políticas entreguistas, implantadas com radicalidade, desde 1954/1955 – acabaram fazendo, no mínimo, relativizar, se não prejudicar gravemente – esse ambiente favorável tanto à felicidade, como até a produção de condições de vida minimamente dignas.

Então, uma das coisas de que o povo brasileiro precisa conscientizar-se agora é que já apanhou de mais, devido talvez nem tanto a uma inata complacência, mas ao fato de vir sendo enganado e desinformado há tanto tempo.

E que, portanto, sem perder a bondade, tem que se endurecer para enfrentar o presente desafio, que coloca em risco até mesmo a preservação da unidade nacional e de suas condições de sobrevivência, tanto como Nação, como individualmente, para dezenas de milhões, assolados por doenças e pela perspectiva de morte muito prematura.

Sem falar na sobrevivência da dignidade de todos, pois, além dos traidores que já a perderam – se algum dia a tiveram – já que a continuidade do processo político e econômico dos últimos sessenta anos implica o aviltamento do País e a condição de cidadãos de quinta categoria dentro da ordem mundial governada pela oligarquia financeira estrangeira.

É óbvio também que o crescimento do crime organizado e do desorganizado já criaram condições próximas da convulsão social e que essa violência sem sentido, que não seja o do mal, vem comprometendo seriamente e talvez modificando a suposta boa índole do povo brasileiro, a qual, de resto, já não era tão generalizada assim, até mesmo nos bons tempos da Velha República e nos da Era Vargas que lhe seguiu. Já se praticavam então muitos crimes não só por ambição de propriedade, mas os de lavagem de suposta honra, até mesmo quando esta se julgava ofendida só por subjetivos “agravos”.

***

Norton Seng é aposentado. Presidiu o Banco do Brasil em Pequim durante vários anos.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Roberto D’Araújo é engenheiro e presidente do Instituto Ilumina.

Adriano Benayon é aposentado. Ex-diplomata e doutor em economia.