Arquivo mensais:fevereiro 2015

Com intervenção dos EUA, caos no Iêmen gera risco de uma guerra maior

Por Thalif Deeb | Via Carta Maior

Caos político atual, com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a renunciar em massa, ameaça tornar o país um Estado falido.

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando o Iêmen norte e sul se uniram em um único país sob a bandeira República Árabe do Iêmen em maio de 1990, um jornal britânico ressaltou com sarcasmo: “dois países pobres agora se tornaram um país pobre.”

Desde seu nascimento, Iêmen continuou a ser categorizado pela ONU como um dos 48 países menos desenvolvidos do mundo, o mais pobre dos pobres, dependente de auxilio estrangeiro e batalhando pela sobrevivência econômica.

Mas o caos político atual – com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a resignar em massa semana passada – ameaça tornar o país em um estado falido.

E, mais significante, Iêmen também corre o risco de se dividir em dois novamente – e pode estar a caminho de outra guerra civil.

Charles Schmitz, um analista do Instituto do Oriente Médio, foi citado semana passada dizendo: “Estamos olhando para a ruptura de um país, e estamos entrando em um processo longo de negociações, mas também podemos estar entrando em uma guerra.”

Em um relatório divulgado na terça-feira, o Grupo de Crise Internacional com sede em Bruxelas disse que a caída do governo botou de pé a transição atribulada e “levanta o verdadeira perspectiva de fragmentação territorial, colapso econômico e violência disseminada se não houver um acordo logo.”

O governo do presidente Abdu Rabbu Mansour Hadi era um aliado próximo dos EUA, que cooperava com os ataques de drones americanos contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) localizada nas regiões remotas do Iêmen.

Os EUA estavam tão confiantes com seu aliado que as demissões no governo “surpreenderam oficiais americanos,” de acordo com o New York Times. Matthew Hoh, membro sênior no Centro de Políticas Internacionais (CIP), disse à IPS, “não sei se o Iêmen irá se dividir em dois ou não. Mas acredito que o medo maior é de que o Iêmen descenda ao caos massivo com violência entre muitas facções como vemos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, todas as nações que foram recipientes da política externa americana de intervencionismo.”

De acordo com um diplomata Árabe, os Houthis que tomaram o poder são parte integral do setor xiita muçulmano, os Zaydis, e são aparentemente financiados pelo Irã. Mas o país é dominado por uma maioria sunita e que é apoiada pelo vizinho Arábia Saudita, ele disse, o que poderia fomentar um conflito sectário – como na Síria, Iraque e Líbano.

Ironicamente, todos eles, incluindo os EUA, têm um inimigo em comum na AQAP, o qual se disse responsável pelo recente massacre nos escritórios da revista satírica em Paris.

“Em suma, é uma bagunça política monumental,” disse o diplomata, falando como anônimo.

Vijay Prashad, George e Martha Kellner Chair em História do Sul da Ásia e Professor de Estudos Internacionais na Faculdade Trinity, disse à IPS que é muito difícil avaliar o que irá acontecer no Iêmen a esta altura.

“As linhas de batalha estão longe de serem claras,” ele disse. O chamado governo pró-EUA tem, desde 2004, jogado um jogo muito delicado com os Estados Unidos em termos de contra-terrorismo.

De um lado, ele disse, o governo do ex presidente Ali Abdullah Saleh e depois Hadi, sugeriu aos EUA que fossem anti al-Qaeda. Mas por outro lado, usaram o fato da al-Qaeda para ir atrás de seus adversários, incluindo os Zaydis (Houthis).

“Esse jogo duplo sempre foi conhecido pelos americanos. Cooperavam com isso. Foi o que permitiu a AQAP tomar Jar e outras regiões do Iêmen e segurá-las com alguma facilidade,” disse Prashad.

Ele dispensou como “ridículas” as alegações de que os Zaydis são “representantes do Irã”. Disse que são uma confederação tribal que encarou o limite da espada de Saleh-Hadi.

“São decididamente contra a al-Qaeda, e não tornariam necessariamente fácil a existência da AQAP,” disse Prashad ex Edward Said Chair na Universidade Americana de Beirute e autor de “Primavera Árabe, Inverno Libanês.”

Hoh disse à IPS: “baseado nos resultados de décadas de influencias norte-americana em tentar escolher ganhadores e perdedores nesses países ou continuar a jogar o jogo geopolítico absurdo de apoiar uma teocracia repressiva, Arábia Saudita, contra outra, Irã, em guerras representadas, o melhor para os Iemenitas é que os americanos não se metam ou tentam posicionar um lado contra o outro.” A política externa americana no Oriente Médio pode ser categorizada como um desastre, especialmente para o povo do Oriente Médio.

“Os únicos beneficiários das políticas americanos no Oriente Médio tem sido os grupos extremistas, os quais tiram vantagem da guerra, dos ciclos de violência e ódio, para recrutar e preencher sua mensagem e propaganda, e companhias de armas americanas e ocidentais que vêem lucros aumentando cada ano,” disse Hoh, que serviu junto com o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA no Iraque e nos times da embaixada no Afeganistão e no Iraque.

Quando os dois Iêmen se uniram, a maioria das armas que o pais unificado herdou vieram da Rússia, que era um aliado militar próximo do Iêmen do Sul.

Os aviões de guerra do Iêmen e seus helicópteros da ex União Soviética – incluindo MiG-29 jatos e Mi-24 helicópteros de ataque – foram mais tarde reforçados com sistemas de armas americanos e ocidentais, incluindo naves de transporte (transferidas da Arábia Saudita), helicópteros Bell, mísseis anti-tanque TOW e tanques de batalha M-60.

Nicole Auger, uma analista militar monitorando o Oriente Médio/África no Internacional Forecast, uma líder em inteligência defensiva de mercado e meteorologia industrial, disse à IPS que armas americanas e auxilio militar tem sido cruciais para o Iêmen ao longo dos anos, especialmente pelo financiamento do Departamento de Defesa 1206 “treinar e equipar.”

Desde 2006, ela apontou, Iêmen recebeu um pouco mais de 400 milhões de dólares no auxilio da seção 1206 a qual apoiou a Força Aérea Iemenita (com aquisições de transporte e naves de vigilância), suas unidades de operações especiais, seu monitoramente de fronteiras e suas guardas costeiras.

Enquanto isso, o auxilio militar americano sob os programas Financiamento Externo Militar (FMF) e Treinamento e Educação Internacionais Militares (IMET) aumentou substancialmente, ela disse.

Também, o Iêmen está recebendo assistência com os programas de Não-Proliferação, Anti-Terrorismo, Não-Exploração e Programas Relacionados (NADR) e de Controle Internacional de Narcóticos e Aplicação da Lei (INCLE).

De acordo com a justificação orçamentária congressista americana – o apoio americano ao setor militar e de segurança “irá continuar uma prioridade em 2015 de forma a avançar com a paz e a segurança no Iêmen.”

Fase My Way da Operação Lava Jato mira Renato Duque e João Vaccari

Via Jornal GGN

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi eleito para o vazamento seletivo do dia: obrigado a prestar depoimento, foi o único nome divulgado dos 62 mandados.

A nona fase da Operação Lava Jato, deflagrada pela Política Federal do Paraná nesta manhã, concentra-se na denúncia de esquema de corrupção dentro da Diretoria de Serviços da Petrobras, então comandada por Renato Duque. Essa etapa é chamada de Operação My Way (meu jeito, em português) e é a segunda depois da conhecida como “Juízo Final”.

Renato Duque teria sido indicado ao cargo pelo PT, no esquema de divisão de gabinetes negociado pelos partidos políticos dentro da estatal. Outro levantamento nesta fase será se o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, esteve envolvido como operador na diretoria. A área é importante neste momento de investigação porque pelo setor de Serviços passavam os procedimentos de contratações e licitações.

A etapa focada na Diretoria de Renato Duque coincidiu com o depoimento prestado pela ex-gerente de Abastecimento, Venina Velosa da Fonseca, nesta terça-feira (03), que enfatizou e desviou boa parte das perguntas para a mesma resposta: não poderia falar porque a área responsável era a de Engenharia e Serviços.

“Contribuíram para esta nova etapa da operação as informações oriundas da colaboração de um dos investigados, além da denúncia apresentada por uma ex-funcionária de uma das empresas investigadas”, disse a Polícia Federal, em nota, que enfatizou que a fase também é fruto da “análise de documentos e contratos apreendidos anteriormente”.

Vaccari foi eleito para o vazamento seletivo do dia. A lista de nomes dos que tiveram mandados judiciais não foi liberada. Entretanto, a condução coercitiva (quando o denunciado é obrigado a prestar depoimento) do tesoureiro foi curiosamente divulgado pela imprensa. Não se sabe os demais alvos dos 62 mandados judiciais realizados nesta quinta-feira (05).

O nome de João Vaccari Neto foi levantado pelo delator Pedro Barusco, ex-gerente da Diretoria de Serviços, que acusou o tesoureiro de receber propinas. Barusco contou que chamava Renato Duque de “my way”, nome emprestado para a fase da Operação.

Ao todo, um mandado é de prisão preventiva, três de prisão temporária, 18 de condução coercitiva e 40 de busca e apreensão. As ações de 200 policiais federais com o apoio de 25 servidores da Receita Federal estão sendo feitas em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Santa Catarina.

Apesar de ser duas fases após a considerada “juízo final”, que na época entendia-se produzir o maior efeito de provas das investigações, essa etapa é para recolher informações. Assim explicou o procurador da República, Carlos Fernando dos Santos Lima, que disse ser uma “semeadura de provas”, buscando saber “informações a respeito de doações que ele [Vaccari Neto] solicitou, legais ou ilegais, envolvendo pessoas que mantinham contratos com a Petrobras”.

Portanto, Vaccari só será ouvido. Apesar de deixar claro que esse é “basicamente o motivo” pelo qual foi emitido o mandado de condução coercitiva, o procurador deixou mostrar conclusões além das provas, já previamente desenhadas pela equipe de investigação (MPF, PF e Justiça Federal): “não posso dizer exatamente o destino [do dinheiro desviado] porque nem sempre doações passam pelo caminho legal”, ao responder a pergunta se os bens iam para o PT.

Os envolvidos são denunciados por crimes de fraude a licitação, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

4 dias após vitória, Cunha cria a CPI da Petrobras

Via Brasil 247

Eleito no último domingo como presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) acaba de autorizar, nesta manhã, a criação da CPI que investiga a Petrobras; gesto foi parabenizado pelo tucano Antonio Imbassahy e conclamado pelo líder do DEM, Mendonça Filho, que disse que a estatal está “jogada na lama, desmoralizada”; aberto agora o prazo para a indicação dos integrantes da comissão; líder do PT, deputado Sibá Machado disse ontem que partido reivindicará a presidência ou a relatoria.

Apenas quatro dias depois da eleição que lhe deu o cargo de presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) leu nesta manhã o ato de criação da CPI da Petrobras. O requerimento foi apresentado pelo líder do PSDB, Carlos Sampaio.

Ontem, foi confirmado o número de 182 assinaturas para criar o colegiado, pouco mais do que as 171 necessárias. Segundo o ato de criação, a CPI terá 26 membros titulares e igual número de suplentes, mais um titular e um suplente atendendo ao rodízio entre as bancadas não contempladas.

Está aberto agora o prazo para a indicação dos integrantes da comissão. O líder do PT na Câmara, deputado Sibá Machado (AC), disse nesta quarta-feira que o partido reivindicará a presidência ou a relatoria da comissão.

O gesto de Cunha foi aplaudido pelos oposicionistas. O deputado do PSDB Antonio Imbassahy (BA) deu parabéns ao presidente da Casa. O líder do DEM, Mendonça Filho, comemorou a investigação contra a empresa que, segundo ele, está “jogada na lama, desmoralizada”.

O deputado Afonso Florence (PT-BA) subiu à tribuna para criticar a “falta de respeito” nos discursos da oposição e pediu para que a comissão “não seja um instrumento da política, mas da República, do poder Executivo, de investigação, de punição”.

O parlamentar criticou o vazamento de depoimentos na Operação Lava Jato, “informação seletiva” que vem sendo usada contra o governo e o Partido dos Trabalhadores. “Estamos pagando a conta inclusive da ação de outros partidos”, disse.

Petrobrás: A maior derrota em doze anos

Por Breno Altman, em seu blog

Pela primeira vez, desde 2003, a Petrobras deixará de ser dirigida por um representante do campo popular que governa o país.

O novo presidente da estatal provavelmente sairá dos quadros de seus adversários – leia-se, alguém crítico ao regime de partilha e à política de conteúdo nacional, talvez até favorável à sua privatização.

O profissional indicado, imagina-se, terá que se comprometer junto ao governo de sublimar suas posições pessoais sobre esses assuntos para assumir o cargo.

Mas os riscos de retrocesso são evidentes e perigosos.

O PT e a esquerda estão perdendo os principais postos da direção econômica do governo, dando lugar a expoentes do pensamento seguidamente derrotado pelas urnas nesse século.

Os brutais erros cometidos pela atual gestão da Petrobrás, na tentativa de conter desabrida ofensiva para desidratar a empresa, tornaram inevitáveis mudanças de comando.

Decididas há dois meses, poderiam ter significado, por exemplo, a nomeação do petroleiro Jacques Wagner para sua presidência, com boas chances de estancar a crise e reorganizar a companhia sem dormir com o inimigo.

Ficou tarde demais para uma solução caseira e classista.

O governo demorou para reagir, não o fez a altura e foi obrigado a jogar a toalha, ganhando tempo para reorganizar a casa.

A presidente teria o caminho de fechar o capital da companhia e reduzir a capacidade ofensiva das forças privatistas. Seria, no entanto, medida incoerente com a orientação de profundo recuo adotada depois das eleições.

Na lógica da estratégia pós-outubro, restou nova capitulação ao mercado.

Trata-se da maior derrota do projeto democrático-popular em doze anos.

Será árduo o combate para recuperar a empresa sem o país perder sua principal ferramenta de desenvolvimento ou vê-la condicionada por interesses imperialistas.

BCE e Alemanha declaram guerra à Grécia

Via Esquerda.net

Medida aprovada pela instituição dirigida por Mário Draghi significa o começo da asfixia da economia grega e um golpe de Estado financeiro. Documento do governo alemão exige a capitulação de Atenas e a reversão de todas as medidas já tomadas pelo governo Tsipras. Este afirma que “é óbvio que estas sugestões não serão aceitas”.

Draghi mostrou as garras do BCE. Foto de European Parliament

Num momento em que decorrem as negociações entre o novo governo grego e a União Europeia, o Banco Central Europeu, dirigido pelo italiano Mário Draghi, tomou na noite desta quarta-feira uma decisão que significa um primeiro passo para a asfixia da economia grega.

Sem qualquer aviso, o conselho de governo do BCE decidiu deixar de aceitar como garantia os títulos da dívida grega nas suas operações de liquidez, argumentando que não é possível assumir que o plano de resgate da Grécia vá terminar com êxito.

A decisão deixa apenas um fio de ligação entre o sistema financeiro grego e o europeu: o ELA, o sistema de ajuda de emergência do BCE, que é mais oneroso e que tem um prazo para terminar se não houver acordo: 28 de fevereiro.

Golpe de Estado financeiro

A medida significa uma pressão brutal sobre a Grécia justamente no dia em que o ministro das Finanças grego se encontra como o homólogo alemão, e já está a ser considerada como um golpe de Estado financeiro, desferido por uma instituição não-eleita contra um governo acabado de ser eleito pelo seu povo.

O Ministério das Finanças grego recordou, porém, que o sistema bancário grego “está adequadamente capitalizado e protegido através do acesso à Assistência de Emergência de Liquidez” (o ELA) e que “o BCE está a pôr pressão sobre o Eurogrupo para que se realize um acordo rápido entre a Grécia e seus parceiros”, seguindo a linha de declarações otimistas dadas durante o périplo de Yanis Varoufakis por diversos países europeus.

Mas a medida parece ter sido tomada em sincronia com as pressões que a Alemanha quer pôr sobre a Grécia, no dia em que Varoufakis se reúne com Schauble, o ministro das Finanças germânico.

Um documento a que a Reuters teve acesso mostra que as exigências germânicas à Grécia são nada menos que a capitulação do seu novo governo.

Alemanha quer forçar a capitulação de Tsipras

O documento exige a manutenção da troika no país (Varoufakis anunciou que não negociaria com ela); o cumprimento de todos os pagamentos ao BCE e ao FMI; a manutenção dos superavits primários de 3% do PIB em 2015 e 4,5% em 2016 (Varoufakis tinha proposto 1%); o despedimento de 150 mil funcionários públicos (o novo governo recontratou aqueles postos em mobilidade); a manutenção do salário mínimo (o governo grego aumentou-o); a continuação das privatizações (Atenas suspendeu-as).

Uma fonte oficial grega ouvida pela Reuters disse que “é óbvio que estas sugestões não serão aceitas pelo governo grego. Eles estão a atacar o recente mandato dado pelo povo grego e isto não vai ajudar à perspetiva de crescimento da Europa”.

Eduardo Cunha e o extremo centro brasileiro

Por Rennan Martins | Vila Velha, 04/02/2015

Charge de Aroeira

Foi uma derrota acachapante do governo. No domingo, Eduardo Cunha elegeu-se presidente da Câmara, o terceiro na linha do poder, com o apoio de 267 parlamentares, quase o dobro do candidato petista Arlindo Chinaglia, que obteve somente 136 votos.

O discurso de campanha sobre independência e o tom conciliador que assumiu na posse não disfarçam suas opiniões, que constituem oposição ferrenha a propostas de grande apelo popular como o fim do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas e a democratização dos meios de comunicação. Pode ser também esquecida a intenção de tornar lei o casamento igualitário já reconhecido pelo judiciário, Cunha é autor do curioso projeto de criminalização da “heterofobia”, que cá entre nós, só existe na cabeça dos inseguros.

A vitória do político-empresário Eduardo Cunha é também uma lição – que provavelmente não será compreendida – ao governo. Diante da guinada conservadora do legislativo, fruto da aderência dos eleitores ao cínico discurso único da imprensa hegemônica, houve uma capitulação do Planalto, que a fim de obter aliados distribuiu ministérios a figuras contestadíssimas como Joaquim Levy, Kátia Abreu, entre outros. O apoio não foi concretizado, o que se obteve é um dos maiores entusiastas do antipetismo num cargo chave para a dita governabilidade.

Alguns comentaristas ressaltaram o caráter oposto das propostas da Fazenda, de cortes orçamentários e superavit, as de Cunha, que fala de Pacto Federativo e Orçamento Impositivo. Suspeito que os dois conseguirão chegar a um denominador comum de “populismo” e corporativismo para o baixo clero parlamentar, conjugado ao arrocho nos setores que afetam a sociedade em geral. O perfil dos dois é de alinhamento aos poderosos, estão, portanto, a meio caminho do entendimento.

Mais relevante que a conjuntura é entender o significado deste apoio esmagador que recebeu o peemedebista. O brilhante escritor paquistanês, Tariq Ali, há muito diagnostica um fenômeno que ocorre nas democracias liberais, a formação do que ele batizou de “extremo centro”. Este bloco político é constituído por figuras originárias tanto da esquerda quanto da direita que aderem a uma gestão política empresarial onde negociam suas decisões de forma a obter o maior ganho pessoal ou partidário em todas elas.

Ali sustenta que conforme o capitalismo amadurece, o poder econômico avança sobre o sistema político e passa a cooptá-lo, resultando numa homogeneização de posições defensoras dos interesses dos principais financiadores de campanha, no caso do Brasil, as empreiteiras e bancos.

É sintomático deste processo o fato de Eduardo Cunha ser um campeão no recebimento de doações para campanha, tendo declarado ao TSE a arrecadação da bagatela de R$ 6,8 milhões no último pleito, chegando inclusive a formar uma bancada particular por conta da ajuda financeira prestada aos colegas na corrida eleitoral.

A corrupção das instituições democráticas pelo lobby acelera a deslegitimação da política frente a população, o que pode alimentar perigosamente as forças antidemocráticas já em ascendência nos últimos tempos.

A adesão cada vez maior a agenda neoliberal acelera o desgaste da frente trabalhista encabeçada por Dilma Rousseff, o extremo centro assume o controle e quem perde é a democracia e a sociedade civil, que se verão bloqueados por um congresso regressivo e servil a interesses privados.

Venezuela pede ajuda à Unasul para dialogar com os EUA

Via Agência Brasil

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pediu hoje (4) à União de Nações Sul-Americanas (Unasul) que promova um diálogo diplomático com os Estados Unidos, dois dias depois de Washington anunciar sanções contra funcionários públicos venezuelanos e seus parentes.

“Falei com o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper. Solicitei-lhe oficialmente que assuma uma iniciativa diplomática para evitar que os Estados Unidos continuem rumo a um beco sem saída, para procurar um mecanismo de diálogo com o governo norte-americano e construir uma diplomacia de paz, de diálogo, de entendimento”, disse.

O pedido foi anunciado durante o programa Em Contato com Maduro, transmitido pela televisão estatal venezuelana.

Nicolás Maduro destacou que a iniciativa tem como propósito “deter a agressão contra a Venezuela” e disse que manterá contato com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos para unir os dois organismos na defesa da paz, do direito da Venezuela “à independência, à soberania, para deter os planos golpistas”.

Informou que entregará provas de conspirações, envolvendo banqueiros fugitivos da Justiça venezuelana, radicados em Miami, nos Estados Unidos, para combater o seu governo e dividir as Forças Armadas venezuelanas.

Por outro lado, o presidente acusou as agências internacionais de notícias de ocultar as tentativas de diálogo entre Caracas e o governo do presidente Barack Obama e “a sua intenção de, no melhor espírito da democracia chavista de paz, por meio do diálogo e da conversação, evitar danos maiores à pátria”.

Os Estados Unidos anunciaram, segunda-feira (2), novas sanções (suspensão de vistos) contra antigos e atuais funcionários do governo venezuelano,considerados “responsáveis ou cúmplices” por violações dos direitos humanos.

“Enviamos uma mensagem muito clara de que os violadores de direitos humanos, os que se beneficiam da corrupção e suas famílias não são bem-vindos aos Estados Unidos”, anunciou a porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki.

Segundo ela, “ao ignorar os repetidos apelos a uma mudança, o governo venezuelano tem continuado a demonstrar falta de respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais”.

Washington acusa Caracas de tentar “sufocar a dissidência”, reprimindo manifestantes que protestam pela deterioração da situação política, econômica e de segurança no país.

Em julho, o governo dos EUA já tinha imposto restrições na concessão de vistos a 24 dirigentes venezuelanos, que estariam envolvidos em violações de direitos humanos e na repressão de protestos de grupos opositores a Maduro.