Por Cesar Fonseca | Via Independência Sul Americana
A greve dos caminhoneiros é fruto do ajuste fiscal de Joaquim Levy. No ambiente em que os procuradores tentam inviabilizar a vida das indústrias que empreitam obras da Petrobras, responsável pela saúde da economia, no ambiente da proposta nacionalista, o ajuste fiscal vai se tornando veneno letal. Acelera a insuficiência das imunidades do corpo econômico nacional, tornando-o passível de sofrer mortíferas infecções, expostas, por sua vez, no grande hospital global em que se transformou a economia mundial, em guerra monetária praticada pelos ricos contra os emergenes. Nesse contexto, ajuste fiscal elimina experiência nacionalista brasileira, tradução da ascensão de nova classe média, cuja saúde, expressa em poder de compra interno, é fundamental para a indústria nacional. O desequilibrio fiscal é a representação da ascensão social dada pelo Estado Social, como expressão legítima do desenvolvimento com característica essencialmente brasileira, sul-americana, voltada à melhor distribuição da renda nacional. O ajuste Levy restaura o status quo ante à experiência nacionalista distributivista e sinaliza ressurreição da desigualdade social. Basta observar que a terapia levyana extrai renda dos mais pobres, via aumento de impostos e tarifas, deixando os mais ricos soltos no pasto para se alimentarem de gordo capim. A selvageria econômica está de volta. A oposição, se tivesse vencido as eleições, estaria produzindo essa terra arrasada. Agora, tenta jogar Joaquim Levy às feras e se movimenta para apoiar impeachment da presidenta Dilma Rosseff. Para tanto, tem o largo apoio do poder midiático para veicular suas idéias golpistas, como se vê na Folha de São Paulo, o artigo do tucano Alberto Goldiman, defendendo o impedimento dilmista, e no jornal O Globo o editorial que se exulta com a crise da Petrobras para pedir o fim do modelo de partilha da extração de óleo na camada do pré sal, vocalizando o desejo das multinacionais, favoráveis ao modelo de concessão. Os conservadores entreguistas jogam para parar o Brasil, a fim de saboreá-lo como verdadeiros abutres.
Levy puxou o freio da economia que já vinha em ritmo lento e agora vai para a paralisação.
Fez isso para atender a demanda do mercado financeiro que não estava satisfeito com o avanço dos gastos públicos responsáveis pela ascensão de uma classe social emergente, cujas consequências apontavam para formação de mercado interno sem o qual a indústria nacional não tem como desovar a sua produção.
Como diz bem em entrevista à Carta Capital, o compositor genial Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, na Era Lula, estava em curso uma experiência brasileira de novo crescimento econômico.
O Estado Social avançava gerando como subproduto o desequilíbrio fiscal, sinalizador de nova história, em País em que o equilíbrio fiscal é tradução de desigualdade social.
As elites não suportaram os 12 anos de nacionalismo imprimido por esse experimento econômico brasileiro voltado para as classes sociais mais pobres.
Maiores gastos para com os menos favorecidos, evidentemente, aumentaram a inflação, principalmente, porque o governo não teve coragem de atuar mais decididamente sobre os juros, a fonte de renda dos especuladores na terra da especulação.
Os pobres encontraram espaço maior.
Passaram a comer mais.
Maior acesso à alimentação por conta de vantagens sociais e econômicas diferenciadas asseguradas pelo Estado Social movimentou as forças produtivas.
Agora, sem consumidor interno, com sua renda disponível para o consumo roubada pela suspensão dos subsídios, o ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro Neto, tenta montar, às pressas, programa nacional de exportação.
Imagina que obterá recompensa no mercado internacional.
Parece não perceber que os países emergentes estão sob ataque de guerras monetárias patrocinadas pelos governos dos países ricos.
Os Estados Unidos começaram o conflito monetário.
Elevaram a oferta de moeda na circulação e reduziram os juros.
Com moeda desvalorizada e as empresas americanas dispondo de custo mais barato para produzir, estão frente a situação vantajosa, para ocupar mercados dos outros.
Ou seja, as exportações brasileiras, que estão mais caras por conta dos juros mais altos do mundo, da carga tributária extorsiva e da inflação em alta, não têm como ganhar corrida competitiva com empresas multinacionais, favorecidas pela guerra monetária, desencadeada por Tio Sam, depois da crise global de 2007-2008.
A tentativa exportadora para a Europa, também, pode ser sonho de noite de verão.
Os europeus enfrentam deflação, ou seja, excesso de oferta, que joga os preços para baixo.
Buscam, desesperadamente, um pouco de inflação.
Ainda, assim, Mário Draghi, presidente do BC europeu, partiu para a mesma jogada do BC de Tio Sam: ampliar a oferta monetária e segurar juro na casa dos zero ou negativo.
Tudo para tentar reanimar a produção, o emprego, a renda, a arrecadação e os investimentos, vislumbrando exportações.
O esforço exportador brasileiro, para a Europa, tende a se frustrar.
Restaria exportar mais para a China.
Será possível?
Difícil.
Os chineses não estão exportando, satisfatoriamente, nem para a Europa, nem para os Estados Unidos.
Lutam, comercialmente, com o Japão, que, ao adotar a mesma política monetária expansionista americana e europeia, levou os países asiáticos a uma competição comercial sangrenta.
Todo a Ásia tenta se proteger das exportações japonesas, fazendo o mesmo que o governo do Japão: desvalorização cambial e juro baixo.
Voltando-se para dentro, sustentada por estoques altos de alimentos e minérios, para bancar a custo baixo a manufatura, de modo a poder crescer 7%/ano, nos próximos cinco ou dez anos, a China importará menos produtos primários brasileiros.
O que os concorrentes querem é destruir o Brasil, tomando seu mercado.
E, nesse sentido, a arma com a qual o governo brasileiro, nos últimos anos, utilizou para enfrentar os desafios da economia mundial, o seu mercado interno, está sendo destruída pelo ajuste fiscal de Levy.
O chicago boy brasileiro teria muito que aprender com Napoleão, genial estrategista de guerra.
Primeiro, parece que ele não está percebendo que o Brasil está sob ataque e que a economia atual é campo de guerra.
Se destrói a arma nacionalista, perderá a guerra, certamente.
Parece insanidade total destruir o mercado interno, a alavanca econômica de qualquer país desenvolvido, em nome de ajuste fiscal, de modo a buscar alternativa no mercado internacional, para onde toda a luta econômica se desloca, com todos utilizando armas da desvalorização cambial para travar guerra monetária.
Certamente, a economia, no final do primeiro mandato dilmista não vinha bem, em meio a uma conjuntura interna afetada pelo que a oposição, ingenuamente, fingiu desconhecer, ou seja, a guerra monetária em curso.
Em vez de se fazer planejamento para o segundo mandato ancorado num pacto social em que o preço do ajuste fosse distribuído igualitariamente entre capital – especialmente, o financeiro, especulativo – e o trabalho, o que Levy apresenta?
Arrocho em cima dos assalariados, retirando-lhes benefícios trabalhistas, e tentativa de desestabilizar a Previdência Social.
Não se fala nada de ajuste em cima dos especuladores, dos agiotas, cobrando mais impostos deles, como o de operações financeiras.
Seria tirar de quem tem para dar aos que pouco possuem.
Avança Levy sobre a galinha dos ovos de ouro, isto é, da renda disponível para o consumo.
Levanta o argumento de que assim agindo está fazendo poupança para o setor privado investir.
Mas, como mostram as pesquisas sobre os ânimos dos empresários, ninguém se dispõe aos investimentos, sem consumidor.
O ajuste Levy, como está se vendo, nos seus primeiros lances, é remédio que eliminada as imunidades do corpo econômico nacional, a sua capacidade de consumo.
Expõe-o, consequentemente, a moléstias, qual fragilizado doente em hospital infectado de bactérias.
Resultado da precipitação da estratégia errada levyana: a inflação sobe mais forte, cresce o desemprego, os preços de produtos essenciais à vida produtiva, como os dos combustíveis, produzem paralisações dos caminhoneiros etc.
Cria-se expectativa negativa que inviabiliza os investimentos e o emprego.
A política macroeconômica, como dizia Keynes, precisa estar de olho em duas variáveis, emprego e investimento, dependentes, por sua vez, de alocações monetárias e fiscais dadas pelo governo.
Nesse ambiente em que os procuradores tentam inviabilizar as indústrias que empreitam serviços à Petrobras, matando a galinha dos ovos de ouro, em nome do combate à corrupção detonada pela Operação Lava Jato, a economia brasileira, sob Levy, segue o caminho do calvário.
Uma conspiração interna neoliberal produz acelerado economicídio.
