Diálogos Desenvolvimentistas: O povo brasileiro e sua natureza

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Operários, de Tarsila do Amaral (1933)

A questão do subdesenvolvimento brasileiro e a índole de nosso povo é o destaque deste debate de ricas análises e ideias. Os que desejam construir um país justo, soberano e desenvolvido muito se afeiçoarão as reflexões deste diálogo.

Confira:

Norton Seng – Onde estão nossos governantes?

Com uma dívida elevada e que não para de crescer, e com níveis insuportáveis de impunidade e corrupção, e desvios bilionários, também crescentes, entre tantos outros dados negativos e tão enraizados em nosso país, conclui-se que o Brasil jamais se reerguerá. A Alemanha, por exemplo, é o maior exportador de café solúvel do mundo e ganha bilhões de dólares com o nosso café ‘in natura’ – mesmo sem ter um pé de café. Assim, os alemães devem morrer de rir com a estultice dos que gerenciam o nosso país.

Tristemente, o mesmo acontece com a nossa madeira, exportada em toras; nosso couro, exportado cru; nossa soja, em grãos; nossas pedras preciosas e semipreciosas, ouro, mármore, cristal, minério de ferro, com o maior teor de pureza do mundo, todos ‘in natura’, nossas frutas, exportadas em xarope e processadas (envasadas) nos EUA e vendidas para o mercado europeu e asiático. A lista é imensa.

A pauta de exportações brasileiras, hoje, aponta o mesmo porcentual de mais de 70% de produtos primários, quer dizer, exportamos hoje o mesmo que exportávamos há 70 anos!

Parece claro que seríamos, se tivéssemos uma maioria de governantes sérios e nacionalistas, ao longo de nossa história, um dos países mais ricos do mundo. Mas esse deletério e anacrônico processo, pelos inegáveis registros e fatos, mostra que isso dificilmente acontecerá.

Nelson Antônio Prata – Isto é a prova de que o maior inimigo é o interno. Ele está encastelado no próprio governo, desde sempre.

Gustavo Santos – Se o maior inimigo é interno, somos sub-raça? O que querem dizer com isso? Vocês estão reproduzindo (de graça e alegremente) conteúdo feito por agências de inteligência estrangeiras para aviltar e humilhar o povo brasileiro e para jogar brasileiros contra brasileiros, acabando com nossa autoestima e capacidade de termos esperança e de acreditarmos em nós mesmos. Esta é uma velha tática dos impérios sanguinários para subjugar os povos mais pacíficos.

Prefiro mil vezes ser brasileiro do que ser um povo que apoiou alegremente vários holocaustos. Prefiro perder do lado do meu povo do que vencer do lado de povos poderosos mas capazes das maiores atrocidades por se acharem superiores ou mais humanos do que os outros, que possuem menos tecnologia ou capacidade militar.

É para isso que estamos nessa Terra? Subjugar ou ser subjugado? Não é assim que pensa o povo brasileiro.

O que há de mais profundo no povo simples do Brasil é a ausência do censo de superioridade que os povos do Velho Mundo tanto valorizam e tentam impor aos mais fracos. Se tem um lugar do Mundo que dá chances para um futuro realmente promissor para a humanidade, onde as pessoas sinceramente acreditam na igualdade entre as raças, os povos e as culturas é aqui.

O Brasil, desse povo alegremente mestiço pode mostrar realmente um futuro de paz para a humanidade, apesar de toda propaganda e sabotagem contrária.

Tecnologia, poder, capacidade organização e manipulação podem subjugar, podem causar admiração, mas não alimentam a alma, não trazem paz e alegria.

Nós podemos aprender com o Velho Mundo e Império do Norte, mas eles também precisam aprender muito conosco, para começar: tolerância sincera e depois a experiência de que é possível ser feliz sem ser superior e em especial sem ser materialmente superior.

É honroso ser brasileiro. Mesmo na derrota, mesmo sendo fraco.

Um dia venceremos pela tolerância, pela cordialidade, pela alegria e pela paz. Quando venceremos… quando vencermos não haverá perdedores, não haverá inferiores, apenas diferentes, humanamente diferentes.

Roberto D’Araújo – Estás a defender a velha ilusão do homem cordial? Sérgio Buarque já esmiuçou esse conceito em 1936. Desculpem os que pensam ao contrário, mas estamos cada vez mais primários em todos os sentidos: industrial, educacional, cultural, infraestrutura, transportes, saúde e, principalmente, em política. Nos últimos anos só temos assistido as velhas oligarquias retornando de mãos dadas com as falsas esquerdas. Para onde vai o país? Estamos repletos de bizarrices sob a ideologia de que esses caminhos são o jeitinho brasileiro que só nós entendemos. Tô fora!

Sem preconceito racial? Onde?

O que falta ao Brasil é exatamente uma boa dose de pessimismo do Velho Mundo, pois essa ode romântica ao otimismo, discurso afiado com essa pobre cultura “brasileira”, só traz problemas.

Para construir um país é preciso ideias e planejamento. Planejamento é justamente a área onde as visões devem lidar com eventos ruins. Sendo pessimista, viadutos e aviões não caem, reservatórios não se esvaziam, leitos de hospitais não se esgotam, orçamentos não estouram e muitas outras coisas adversas são evitadas.

A palavra tolerância é muito próxima da complacência, enfermidade arraigada na sociedade, brasileira imersa na falta de informação e enganada pelos falsos profetas.

Adriano Benayon – Penso que a posição defendida por Gustavo vai no sentido de compreender e apreciar o grande valor das virtudes humanas do povo brasileiro e que elas contribuem para formar bom ambiente no País, em todos os sentidos.

Há, porém, um porém. É que a grande abertura de muitos brasileiros às influências vindas do exterior – combinada com a devastação cultural e de valores em que o império anglo-americano vem investindo com intensidade, entre nós, há cerca de um século, e combinada ainda com as condições miseráveis para o grosso da população, decorrentes das políticas entreguistas, implantadas com radicalidade, desde 1954/1955 – acabaram fazendo, no mínimo, relativizar, se não prejudicar gravemente – esse ambiente favorável tanto à felicidade, como até a produção de condições de vida minimamente dignas.

Então, uma das coisas de que o povo brasileiro precisa conscientizar-se agora é que já apanhou de mais, devido talvez nem tanto a uma inata complacência, mas ao fato de vir sendo enganado e desinformado há tanto tempo.

E que, portanto, sem perder a bondade, tem que se endurecer para enfrentar o presente desafio, que coloca em risco até mesmo a preservação da unidade nacional e de suas condições de sobrevivência, tanto como Nação, como individualmente, para dezenas de milhões, assolados por doenças e pela perspectiva de morte muito prematura.

Sem falar na sobrevivência da dignidade de todos, pois, além dos traidores que já a perderam – se algum dia a tiveram – já que a continuidade do processo político e econômico dos últimos sessenta anos implica o aviltamento do País e a condição de cidadãos de quinta categoria dentro da ordem mundial governada pela oligarquia financeira estrangeira.

É óbvio também que o crescimento do crime organizado e do desorganizado já criaram condições próximas da convulsão social e que essa violência sem sentido, que não seja o do mal, vem comprometendo seriamente e talvez modificando a suposta boa índole do povo brasileiro, a qual, de resto, já não era tão generalizada assim, até mesmo nos bons tempos da Velha República e nos da Era Vargas que lhe seguiu. Já se praticavam então muitos crimes não só por ambição de propriedade, mas os de lavagem de suposta honra, até mesmo quando esta se julgava ofendida só por subjetivos “agravos”.

***

Norton Seng é aposentado. Presidiu o Banco do Brasil em Pequim durante vários anos.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Roberto D’Araújo é engenheiro e presidente do Instituto Ilumina.

Adriano Benayon é aposentado. Ex-diplomata e doutor em economia.

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