Por Rennan Martins | Vila Velha, 04/02/2015

Charge de Aroeira
Foi uma derrota acachapante do governo. No domingo, Eduardo Cunha elegeu-se presidente da Câmara, o terceiro na linha do poder, com o apoio de 267 parlamentares, quase o dobro do candidato petista Arlindo Chinaglia, que obteve somente 136 votos.
O discurso de campanha sobre independência e o tom conciliador que assumiu na posse não disfarçam suas opiniões, que constituem oposição ferrenha a propostas de grande apelo popular como o fim do financiamento de campanhas por pessoas jurídicas e a democratização dos meios de comunicação. Pode ser também esquecida a intenção de tornar lei o casamento igualitário já reconhecido pelo judiciário, Cunha é autor do curioso projeto de criminalização da “heterofobia”, que cá entre nós, só existe na cabeça dos inseguros.
A vitória do político-empresário Eduardo Cunha é também uma lição – que provavelmente não será compreendida – ao governo. Diante da guinada conservadora do legislativo, fruto da aderência dos eleitores ao cínico discurso único da imprensa hegemônica, houve uma capitulação do Planalto, que a fim de obter aliados distribuiu ministérios a figuras contestadíssimas como Joaquim Levy, Kátia Abreu, entre outros. O apoio não foi concretizado, o que se obteve é um dos maiores entusiastas do antipetismo num cargo chave para a dita governabilidade.
Alguns comentaristas ressaltaram o caráter oposto das propostas da Fazenda, de cortes orçamentários e superavit, as de Cunha, que fala de Pacto Federativo e Orçamento Impositivo. Suspeito que os dois conseguirão chegar a um denominador comum de “populismo” e corporativismo para o baixo clero parlamentar, conjugado ao arrocho nos setores que afetam a sociedade em geral. O perfil dos dois é de alinhamento aos poderosos, estão, portanto, a meio caminho do entendimento.
Mais relevante que a conjuntura é entender o significado deste apoio esmagador que recebeu o peemedebista. O brilhante escritor paquistanês, Tariq Ali, há muito diagnostica um fenômeno que ocorre nas democracias liberais, a formação do que ele batizou de “extremo centro”. Este bloco político é constituído por figuras originárias tanto da esquerda quanto da direita que aderem a uma gestão política empresarial onde negociam suas decisões de forma a obter o maior ganho pessoal ou partidário em todas elas.
Ali sustenta que conforme o capitalismo amadurece, o poder econômico avança sobre o sistema político e passa a cooptá-lo, resultando numa homogeneização de posições defensoras dos interesses dos principais financiadores de campanha, no caso do Brasil, as empreiteiras e bancos.
É sintomático deste processo o fato de Eduardo Cunha ser um campeão no recebimento de doações para campanha, tendo declarado ao TSE a arrecadação da bagatela de R$ 6,8 milhões no último pleito, chegando inclusive a formar uma bancada particular por conta da ajuda financeira prestada aos colegas na corrida eleitoral.
A corrupção das instituições democráticas pelo lobby acelera a deslegitimação da política frente a população, o que pode alimentar perigosamente as forças antidemocráticas já em ascendência nos últimos tempos.
A adesão cada vez maior a agenda neoliberal acelera o desgaste da frente trabalhista encabeçada por Dilma Rousseff, o extremo centro assume o controle e quem perde é a democracia e a sociedade civil, que se verão bloqueados por um congresso regressivo e servil a interesses privados.
