Por Bruno Galvão
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É praticamente impossível alguém que tenha acesso à internet no Brasil não ter visto anúncios da Empiricus sobre o “fim do Brasil” ou a crise da Petrobras. O autor é muito esperto porque reuniu fatos verossímeis como a crise no Brasil e a queda dos preços das ações com a sensação forte de incomodo na classe média (condições econômicas inferiores a suas expectativas, ascensão de pobres e derrotas eleitorais), mais um anti-patriotismo arraigado (a solução é se mudar do Brasil), com o total apoio do establishment (combinando críticas muito fortes ao governo e crítica à heterodoxia) e alguns conselhos de finanças pessoais. Obviamente, ele é um sucesso completo.
Interessante observar ainda é o fato da elite e da classe média nunca terem sido tão ricas em dólar como agora. Em 2002, os gastos dos brasileiros no exterior foi de US$ 2,4 bilhões. Em 2014, esses gastos foram de US$ 25,4 bilhões. Mas, ao conversarmos com muitas pessoas de classe média alta, o que ouvimos é exatamente o contrário do que esses números mostram. A situação econômica do Brasil (e das pessoas individualmente) estaria atualmente na maior crise já vivida no Brasil e muito pior do que antes do governo Lula entrar. Como é possível entender que a classe média tradicional e a elite odeiem tanto o governo que permitiu a elas fazerem o que mais gostam (sair do Brasil e ir para o exterior)? Além do massacre da mídia contra o governo e o incomodo com a ascensão das classes mais pobres, é a própria possibilidade de ir ao exterior a um custo tão baixo que torna a percepção do Brasil tão ruim. O Brasil não tem estrutura econômica para sustentar tanto poder de compra em dólar. E então, o visitante ao exterior pensa: que merda de país, a custo tão barato, eu tenho uma vida tão melhor em Miami. “A solução do Brasil é o aeroporto” é a conclusão deste raciocínio, a saída do Brasil, que sempre foi desejada por tanta gente, passa a ser viável para um grande número de pessoas. Se a viagem ao exterior tivesse um elevado custo, a conclusão contrária ao Brasil não seria tão grave. A melhor a qualidade de vida no exterior seria comparada a um custo comparativamente mais alto.
No entanto, os equívocos da sinopse do livro são muito grandes. Vejamos.
1. “A inflação foge do controle, mostrando que estamos prestes a voltar a condições anteriores a 1994.”
É um total absurdo essa alegação, pois:
i) Diferente do governo FHC, a inflação está dentro da meta desde 2004;
ii) A inflação é bem menor do que na média do período de 1999 a 2003;
iii) Falar que estamos prestes a voltar as condições anteriores a 1994 é completamente irreal.
2. “O crescimento econômico é o menor desde a era Collor.” Em 2009 foi menor. Não saiu o resultado de 2014 ainda, mas é provável que seja maior do que o de 1998. O fato é estamos tendo em crescimento medíocre como o da era FHC. Agora querer falar “nossa, que desastre” e “como era bom com FHC” não dá, né?
3. Outra piada é dizer que vivemos em censura. Se isso fosse verdade, diria que este é o governo mais incompetente da face da Terra, pois mesmo em censura a imprensa só fala mal o dia inteiro. Não dá pra acreditar nisso.
4. A atribuição da “estagflação” à heterodoxia necessita uma dose grande de ignorância.
i) Se estamos vivendo uma estagflação, o período do santo FHC de 1998 a 2003 também seria. Seria o governo dele também heterodoxo.
ii) Se formos medir heterodoxia pelo nível de superavit primário, pela taxa de juros e pelas privatizações; o Brasil sem dúvida está entre os mais ortodoxos do mundo.
iii) Até concordo com o autor, quando ele afirma que a “estagflação” do Brasil não pode ser atribuída ao cenário externo. Mas, o problema desse argumento é que ele só consegue tornar esses absurdos em algo muito verossímil para a classe média brasileira, porque a mediocridade do governo Fernando Henrique foi atribuída com sucesso às crises internacionais do final dos anos 90 e começo do 2000. Sob FHC o Brasil contou com uma extraordinária quantidade de fluxo de capitais externos e mesmo assim tivemos taxas de crescimento medíocres, explosão do desemprego, aumento forte da relação dívida pública, apagão e entrega do patrimônio nacional. Contudo, com um trabalho muito bem-sucedido de revisionismo histórico, postulou-se que as mazelas da economia brasileira no período não poderiam ser creditadas à política econômica da época e que a combinação de crescimento moderado e distribuição de renda anos depois do governo tucano ter saído só foi possível por conta do governo anterior, de FH.
É esse revisionismo histórico que permite a classe média acreditar que Fernando Henrique foi um grande governante e que o PT está destruindo o Brasil, apesar de a própria classe média ter passado por situação financeira muito pior nos oito anos de PSDB.
Engraçado que a Argentina se “argentiniza” antes dos governos populistas do Kirchner. Mas, a culpa é dos Kirchners.
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Bruno Galvão é doutor em economia.
