Arquivo mensais:fevereiro 2015

Santayana: A “nota” da Petrobras e a “nota” da Moody’s

Por Mauro Santayana | Via Jornal do Brasil

A agência de classificação de “risco” Moody’s acaba de rebaixar a nota de crédito da Petrobras de Baa2 para Ba2, fazendo com que ela passe de “grau de investimento” para “grau especulativo”.

Com sede nos Estados Unidos, o país mais endividado do mundo, de quem o Brasil é, atualmente, o quarto maior credor individual externo, a Moody’s é daquelas estruturas criadas para vender ao público a ilusão de que a Europa e os EUA ainda são o centro do mundo, e o capitalismo um modelo perfeito para o desenvolvimento econômico e social da espécie, que distribui, do centro para a “periferia”, formada por estados ineptos e atrasados, recomendações e “notas” essenciais para a solução de seus problemas e a caminhada humana rumo ao futuro.

O que faz a Petrobras?

Produz conhecimento, combustíveis, plásticos, produtos químicos, e, indiretamente, gigantescos navios de carga, plataformas de petróleo, robôs e equipamentos submarinos, gasodutos e refinarias.

De que vive a Moody’s?

Basicamente, de “trouxas” e de conversa fiada, assim como suas congêneres ocidentais, que produzem, a exemplo dela, monumentais burradas, quando seus “criteriosos” conselhos seriam mais necessários.

Conversa fiada que primou pela ausência, por exemplo, quando, às vésperas da Crise do Subprime, que quase quebrou o mundo em 2008, devido à fragilidade, imprevisão e irresponsabilidade especulativa do mercado financeiro dos EUA, a Moody’s, e outras agências de classificação de “risco” ocidentais, longe de alertar para o que estava acontecendo, atribuíram “grau de investimento”, um dos mais altos que existem, ao Lehman Brothers, pouco antes que esse banco pedisse concordata.

Conversa fiada que também primou pela incompetência e imprevisibilidade, quando, às vésperas da falência da Islândia – no bojo da profunda crise europeia, que, como se vê pela Grécia, parece não ter fim – alguns bancos islandeses chegaram a receber da Moody’s o Triple “A” (ilustração), o mais alto patamar de avaliação, também poucos dias antes de sua quebra.

Afinal, as agências de classificação europeias e norte-americanas, agem, antes de tudo, com solidariedade de “classe”. Quando se trata de empresas e nações “ocidentais”, e teoricamente desenvolvidas – apesar de apresentarem indicadores macro-econômicos piores do que muitos países do antigo Terceiro Mundo – as agências “erram” em suas previsões e só vêem a catástrofe quando as circunstâncias, se impõem, inapelavelmente, seguindo depois o seu caminho na maior cara dura, como se nada tivesse acontecido.

Quando se trata, no entanto, de países e empresas de nações emergentes, com indicadores econômicos como um crescimento de 400% do PIB, em dólares, em cerca de 12 anos, reservas monetárias de centenas de bilhões de dólares, e uma dívida pública líquida de menos de 35%, como o Brasil, o relho desce sem dó, principalmente quando se trata de um esforço coordenado, com outros tipos de abutres, como o Wall Street Journal, e o Financial Times, para desqualificar a nação que estiver ocupando o lugar de “bola da vez”.

Não é por outra razão que vários países e instituições multilaterais, como o BRICS, já discutem a criação de suas próprias agências de classificação de risco.

Não apenas porque estão cansados de ser constantemente caluniados, sabotados e chantageados por “analistas” de aluguel – como, aliás, também ocorre dentro de certos países, como o Brasil – mas também porque não se pode, absolutamente, confiar em suas informações.

Se houvesse uma agência de classificação de risco para as agências de “classificação” de risco ocidentais, razoavelmente isenta – caso isso fosse possível no ambiente de podridão especulativa e manipuladora dos “mercados” – a nota da Moody’s, e de outras agências semelhantes deveria se situar, se isso fosse permitido pelas Leis da Termodinâmica, abaixo do zero absoluto.

Em um mundo normal, nenhum investidor acreditaria mais na Moody’s, ou investiria um “cent” em suas ações, para deixar de apostar e aplicar seu dinheiro em uma empresa da economia real, que, com quase três milhões de barris por dia, é a maior produtora de petróleo do mundo, entre as petrolíferas de capital aberto, produz bilhões de metros cúbicos de gás e de etanol por ano, em sua área, é a mais premiada empresa do planeta – receberá no mês que vem mais um “oscar” do Petróleo da OTC – Offshore Technologies Conferences – em tecnologia de exploração em águas profundas, emprega quase 90.000 pessoas em 17 países, e lucrou mais de 10 bilhões de dólares em 2013, por causa da opinião de um bando de espertalhões influenciados e teleguiados por interesses que vão dos governos dos países em que estão sediados aos de “investidores” e especuladores que têm muito a ganhar sempre que a velha manada de analfabetos políticos acredita em suas “previsões”.

Neste mundo absurdo que vivemos, que não é o da China, por exemplo, que – do alto da segunda economia do planeta e de mais de 4 trilhões de dólares em ouro e reservas monetárias – está se lixando olimpicamente para as agências de “classificação” ocidentais, o rebaixamento da “nota” da Petrobras pela Moody’s, absolutamente aleatório do ponto de vista das condições de produção e mercado da empresa, adquire, infelizmente, a dimensão de um oráculo, e ocupa as primeiras páginas dos jornais.

E o pior é que, entre nós, de forma ridícula e patética, ainda tem gente que, por júbilo ou ignorância, festeja e comemora mais esse conto do vigário – destinado a enfraquecer a maior empresa do país – que não passa de um absurdo e premeditado esbulho.

Marcha dos sem-teto alerta contra racionamento seletivo do governo Alckmin

Via RBA

Concentração no Largo da Batata: Luciana Genro discursa aos manifestantes; crise reflete falta de políticas públicas

Caminhada do Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, ao Palácio dos Bandeirantes reúne 9 mil pessoas; manifestantes protestam contra falta de água em bairros da periferia.

São Paulo – “Não vamos permitir que os pobres paguem pela falta d’água”, diziam os sem-teto que saíram em passeata pela avenida Faria Lima no final da tarde desta quinta-feira (26), em ato contra a falta d’água na região metropolitana. Sem confrontos com a polícia e em meio a uma animação que agregou bom humor à marcha, no que parecia ainda uma ressaca do carnaval, cerca de 9 mil pessoas se deslocaram da concentração no Largo da Batata, em Pinheiros, pela avenida Faria Lima em caminhada que por volta de 21h chegou à sede do governo do estado, no Morumbi.

Na avaliação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), responsável por puxar a mobilização popular, o problema do abastecimento é consequência da falta de políticas públicas da gestão do governador Geraldo Alckmin. “O racionamento já existe na periferia. E não é redução de pressão, é corte. São muitos dias sem água nas torneiras das famílias pobres. É o racionamento seletivo. O que o governo fez foi pegar o dinheiro da tarifa e entregar para os acionistas da Sabesp, para o capital estrangeiro, em vez de se preparar para o período de seca”, afirma o coordenador nacional MTST, Guilherme Boulos.

A manifestação começou por volta das 17h, e quando saiu em marcha pela Faria Lima, o trânsito ficou totalmente interrompido no sentido da zona sul. Com o avançar da noite, os sem-teto apertaram o pé para chegar ao Palácio dos Bandeirantes em tempo de serem recebidos pelo governador.

Alckmin não apareceu, e quem recebeu a comissão formada por lideranças do MTST e dos demais movimentos apoiadores da marcha foi o chefe da Casa Civil, Edson Aparecido. Uma carta de recomendações foi entregue a Aparecido, incluindo pedidos que iam desde a distribuição de caixas d’água para famílias de baixa renda até o fim dos chamados ‘contratos de demanda firma’, da Sabesp, que beneficiam com tarifas menores as empresas que compram mais água da companhia, seguindo a lógica do mercado de que quem compra mais, paga menos.

“Água não é mercadoria, é um bem essencial à vida, um direito da população. É inadmissível que o consumidor comum pague multa por aumento no consumo, enquanto o Shopping Iguatemi, o Clube Pinheiros, a Rede Globo, têm desconto por jogar água no bueiro”, disse Boulos.

Do Largo da Batata à sede do governo do estado, a Polícia Militar apenas acompanhou, com efetivo de não mais de meia dúzia de agentes, além de poucas viaturas. A PM também não registrou nenhum ato de depredação do patrimônio público.

Entre os manifestantes, um grupo pintado com carvão formou a ala do Volume Morto, em alusão à água da reserva técnica do sistema Cantareira, que está sendo usada pela Sabesp para manter o abastecimento. Um caminhão-pipa doado ao movimento também acompanhou os sem-teto, mas não sem a escolta de militantes fantasiados de agentes da Polícia Militar. Um boneco de Alckmin foi carregado pela Faria Lima dentro de uma banheira. De tempos em tempos, sem-teto davam banho no boneco com canequinhas.

A auxiliar de limpeza Luciana Dias, coordenadora de grupo no acampamento do MTST no Campo Limpo, marchou vestindo um jaleco branco. “Estou representando os profissionais da saúde, que vão ser ainda mais importantes nesse período. Sem água não tem saúde, e as pessoas já estão começando a adoecer usando água suja, que não sabemos de onde vem e nem como tratar.”

Já durante a reunião na sede do governo os sem-teto que engrossavam o coro por água do lado de fora começaram a se dispersar.

Chamado pelo MTST, responsável majoritariamente pela massa de gente que se espalhou pelas ruas até o Palácio dos Bandeirantes, o ato contra a falta d’água contou também com apoio e presença da CUT, União Estadual dos Estudantes (UEE), Sindicato dos Trabalhadores de Água e Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema), coletivos Juntos e Rua. Candidata à presidência nas últimas eleições, Luciana Genro, do Psol, também engrossou o caldo dos articuladores do movimento desta quinta.

Empresas europeias estão na mira da Operação Lava Jato

Por Fernando Caulyt | Via Carta Capital

Citadas no escândalo, companhias como Rolls-Royce, Skanska, Techint e SBM Offshore tiveram mais de 30 bilhões de reais em contratos com a Petrobras.

“Clube” de empreiteiras teria fraudado licitações da Petrobras e pago propina para agentes públicos

Além de grandes empreiteiras brasileiras, empresas europeias estão na mira da Polícia Federal (PF) no caso de corrupção da Petrobras. Desde que, em março de 2014, foi deflagrada a Operação Lava Jato, Rolls-Royce (Reino Unido), Skanska (Suécia), Techint (Itália) e SBM Offshore (Holanda) foram citadas no escândalo. Juntas, elas tiveram mais de 30 bilhões de reais em contratos com a estatal.

No maior escândalo da história da Petrobras, a suspeita da PF é que parte do dinheiro obtido através de pagamento de propina por diversas empresas seria repassada por funcionários da estatal para o caixa de partidos como PT, PMDB e PP.

A Skanska ganhou licitações para manutenção de plataformas, construção de uma usina térmica no estado do Rio e outros serviços avaliados em mais de 700 milhões de reais. A Techint obteve, só em um consórcio com a Andrade Gutierrez, um contrato no valor de 2,5 bilhões de reais para a construção de uma unidade de coque no Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj).

A Rolls-Royce foi citada pelo ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco. No acordo de delação premiada feito com o MPF, ele afirmou que a empresa britânica assegurou um contrato de 100 milhões de dólares com a estatal por meio do pagamento de propina. A multinacional inglesa fornece turbinas de geração de energia para plataformas de petróleo.

A holandesa SBM Offshore, que fornece navios-plataforma para a estatal e que tem contratos que somam cerca de 27 bilhões de dólares, é investigada por supostamente obter vantagens indevidas e pagar propina a funcionários públicos federais. Em novembro passado, a Controladoria-Geral da União (CGU) apontou “graves irregularidades” na relação entre as duas companhias.

Em dezembro, a Petrobras suspendeu as empreiteiras Skanska e Techint, juntamente com outras 21 empresas suspeitas, de participarem de futuras licitações.

De acordo com comunicado da estatal, a medida, cautelar e em caráter preventivo, tem a finalidade de resguardar a petroleira e suas parceiras de danos de difícil reparação financeira e de prejuízos à imagem. O bloqueio, porém, não afeta contratos já firmados ou em andamento.

A decisão, que se aplica em grande parte a construtoras nacionais, deve levar a Petrobras a recorrer a empresas estrangeiras para compensar a perda na lista de fornecedores. A contratação de estrangeiras, porém, pode ser dificultada pela exigência de conteúdo local feitas pelo governo em seus contratos.

As principais empresas suspeitas de participarem do cartel são: Odebrecht, UTC, Camargo Corrêa, Techint, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Promon, MPE Montagens Industriais, Skanska, Queiroz Galvão, Iesa, Engevix, Setal, GDK, OAS Construções e Galvão Engenharia. Há investigações também sobre o envolvimento de fornecedoras como Alusa, Carioca Engenharia, Schahin, Setal Engenharia e dos estaleiros Keppel Fels e Jurong, de Cingapura.

De acordo com dados do Ministério Público Federal (MPF), os crimes já denunciados envolvem o desvio de cerca de 2,1 bilhões de reais. Já foram recuperados 500 milhões, e 200 milhões em bens de réus estão bloqueados.

Na sexta-feira 20, o MPF ajuizou cinco ações de improbidade administrativa, que cobram 4,47 bilhões de seis empresas investigadas por desvios – Camargo Corrêa, Sano-Sider, Mendes Júnior, OAS, Galvão Engenharia, Engevix e seus executivos.

Empresas negam irregularidades

A Rolls-Royce afirmou, por meio de nota, que a empresa não recebeu detalhes das alegações feitas recentemente na imprensa e que não foi abordada por autoridades brasileiras:

“Nós temos sempre sido claros que não vamos tolerar conduta empresarial imprópria de qualquer tipo e tomaremos todas as medidas necessárias para assegurar a conformidade, inclusive cooperando com as autoridades em qualquer país.”

Já a Skanska disse que “a empresa conduz seus negócios com alto grau de integridade e ética e está à disposição das autoridades para colaborar nas investigações”.

A Techint, por sua vez, afirmou que respeita rigorosamente a legislação brasileira e que “não houve irregularidade nas contratações dos projetos que executou ou executa para a Petrobras”. A empresa criticou, ainda, o bloqueio imposto pela estatal.

“A decisão tomada pela Petrobras não possui caráter cautelar, mas de efetiva e concreta penalização antecipada e sem provas, em flagrante violação ao princípio de presunção de inocência. A Techint lamenta a postura precipitada e desprovida de qualquer fundamento adotada por sua cliente”, afirmou a empresa, por e-mail.

Procurada pela DW Brasil, a SBM Offshore não se manifestou até o fechamento da reportagem.

Grécia: Presidente do Parlamento anuncia auditoria da dívida

Via Esquerda.net

Serão formadas três comissões: além da auditoria, serão investigadas as responsabilidades pela assinatura do primeiro resgate, e também o pedido de reparação à Alemanha pela Segunda Guerra Mundial.

A presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou. Foto left.gr

A presidente do Parlamento da Grécia, Zoe Konstantopoulou, anunciou a constituição de uma comissão de auditoria da dívida grega. Para Zoe Konstantopoulou, a auditoria será “uma ferramenta que permitirá reparar uma grande injustiça cometida para com o povo grego”.

Além dessa comissão de auditoria, o Parlamento deverá constituir outras duas comissões: uma para investigar a situação que deu origem ao primeiro plano de resgate à Grécia de maio de 2010; e outra para examinar os pedidos de reparação à Alemanha pela Segunda Guerra Mundial.

O anúncio foi feito depois de um encontro entre a presidente do Parlamento e o seu homólogo cipriota, Yiannakis Omirou, em que Zoe Konstantopoulou afirmou que os memorandos da troika levaram os Parlamentos de ambos os países a serem chantageados. Konstantopoulou prometeu ajuda ao Parlamento cipriota para levantar a verdade sobre as causas que levaram ao memorando para Chipre.

Diálogos Desenvolvimentistas: Mensagens e sentidos da falsa campanha contra a corrupção

Heldo Siqueira – Estive refletindo sobre as condições para um impeachment e as da reação do governo. Não sou especialista no assunto, mas entendo que os julgamentos do mensalão e da operação lava-jato desnudaram uma ruptura que havia no nosso mundo político. No caso do mensalão, banqueiros, administradores de bancos e as equipes de publicidade nacionais foram presos com penas exemplares por operarem o esquema do PT. No outro, donos e administradores de grandes empreiteiras nacionais estão presos por cooperarem com o esquema de propinas da Petrobrás.

Em comum, vemos setores do capital nacional, tanto financeiro quanto produtivo, colocados no banco dos réus e condenados. Ou seja, jogou-se na vala comum a influência econômica que os grandes capitalistas nacionais poderiam ter de influenciar os processos judiciais. Enquanto isso, escândalos como o do HSBC e das empresas internacionais no metrô de São Paulo são abafados. A nudez a que me refiro é que, se em outras épocas o interesse do capital nacional era equivalente ao interesse do capital internacional, o que tornava os capitalistas brasileiros simpatizantes dos golpes, hoje há uma luta política descarada em relação ao capital nacional. Inclusive com notícias (desmentidas pelo juiz Moro) de que capitalistas brasileiros são presos políticos em Curitiba.

Essa me parece uma diferença fundamental do processo que vivemos agora para aquele que já vivemos outros tempos. O problema é que o governo não consegue se comunicar direito e parece não aproveitar esse elemento.

Gustavo Santos – Faz sentido. Além disso há uma mensagem adicional:

Não coopere ou financie o PT, se fizer isso, nos vingaremos de você. Coopere e financie apenas a oposição.

Heldo Siqueira – Mas acho que o não cooperar ou ajudar o PT é o espantalho que a oposição achou. Porque a oposição é esperta o suficiente para não assumir que está contra o capital nacional. Por isso o PT é o inimigo perfeito.

Quando falo da questão da guerra da imprensa é que o PT tem medo de assumir-se como liderança do capital nacional (o que seria um contrassenso do ponto de vista ideológico, mas não político) e permite que os capitalistas brasileiros apoiem o coro da mídia contra eles mesmos. Ninguém ajudou mais o capital nacional nos últimos tempos, seja com empréstimos, incentivos ou desonerações e, no entanto, os capitalistas são a favor do PSDB, mesmo sendo presos arbitrariamente por um juiz próximo ao tucanato. A batalha da comunicação está sendo perdida porque não se entendeu o debate! Não é PT x PSDB, nem Capital x Trabalho.

É capital nacional x capital internacional. Enquanto se tratar o debate como PT x PSDB vai ser uma lavada da oposição… E essa operação lava-jato é a ocasião perfeita, porque os caras estão sendo presos (junto com o Eike Batista). Acredito que seja mais fácil trazer para o lado do governo o capital nacional nesse momento.

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Heldo Siqueira e Gustavo Santos são economistas.

Justiça da Argentina arquiva denúncia de Nisman contra Cristina Kirchner

Via Opera Mundi

Juiz Daniel Rafecas decidiu “não dar continuidade” ao caso; em comunicado, judiciário alega que indícios “estão longe de cumprir os critérios mínimos”.

A Justiça argentina rejeitou nesta quinta-feira (26/02) a denúncia apresentada pelo promotor Alberto Nisman, encontrado morto no mês passado, contra a presidente Cristina Kirchner. A presidente era acusada de ter acobertado o suposto papel do Irã em atentado contra uma entidade judaica que aconteceu em Buenos Aires e deixou 85 pessoas mortas, em 1994.

Secretário de Segurança do governo, Sergio Berni, testemunhou hoje sobre operação realizada pelas forças de segurança argentinas. EFE

Em nota, o Judiciário argentino argumentou hoje que o juiz Daniel Rafecas rejeitou abrir investigação sobre as acusações de Nisman. “A análise das evidências apresentadas junto com a denúncia inibem o início de um processo penal, porque não só deixam órfão de qualquer sustento típico o fato descrito, como também uma suposta manobra de ‘encobrimento’ e/ou ‘entorpecimento da investigação’ do atentado”, justificou o juiz.

“Os indícios colhidos estão longe de cumprir os critérios mínimos”, informou uma declaração do Centro de Informação Judicial, a agência de notícias do judiciário, de acordo com a Reuters.

Encontrado morto em seu apartamento em 18 de janeiro, Nisman, tinha acusado a chefe de Estado, o chanceler argentino, Héctor Timerman, e vários colaboradores por orquestrar um plano para livrar os suspeitos iranianos do ataque à entidade judaica Amia, que ocorreu há mais de 20 anos.

O falecimento do promotor de 51 anos aconteceu poucas horas antes do seu comparecimento ao Congresso, onde, tinha assegurado, iria fazer revelações explosivas sobre o ataque. Quem deu continuidade à investigação foi o promotor Gerardo Pollicita, que pediu a Rafecas para processar Cristina Kirchner e o resto dos acusados por Nisman no dia 13 de fevereiro.

Nisman vivia no bairro Puerto Madero, em Buenos Aires, e tinha sofisticado aparato de segurança para garantir sua integridade física. EFE

‘Prematuro’

Há mais de um mês, as circunstâncias da morte do promotor ainda não foram esclarecidas. Hoje, a fiscal encarregada em analisar o polêmico episódio, Viviana Fein, afirmou que ainda é “prematuro” descartar qualquer hipótese.

“Com as medidas periciais que tenho pendentes, é prematuro dizer se o mataram, se ele se suicidou ou se induziram essa morte. Tenho provas concretas, mas falta bastante”, declarou Fein, em entrevista publicada pelo jornal La Nación.

Suicídio ou assassinato, a morte de Alberto Nisman gerou uma onda de revolta da população no país e levou o governo a reformar o serviço secreto argentino. Em todas as ocasiões, Cristina Kirchner classificou as acusações de “absurdas”.

Também conhecida como 18F, manifestação foi apelidada de marcha dos guarda-chuvas. EFE

Senado criará CPI para investigar caso HSBC

Por Luiz Claudio Cunha | Via Viomundo

BRASÍLIA, 25 – Uma CPI no Senado Federal, uma investigação da Receita Federal e da Polícia Federal e um esforço de jornalistas e da mídia para quebrar o silêncio em torno da lista de 8.667 brasileiros com contas no banco HSBC.

Este é o conjunto de medidas propostas pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), hoje, da tribuna do Senado, para desvendar o ‘SwissLeak’, nome do escândalo que envolve mais de US$ 200 bilhões de depósitos em 100 mil contas bancárias vazadas do HSBC em Genebra e que sugerem evasão fiscal e lavagem de dinheiro em nível planetário.

“A denúncia contra o HSBC mostrou o Brasil no topo da cadeia criminosa”, lembrou Randolfe, citando o quarto lugar brasileiro entre os países com maior número de clientes listados no vazamento do HSBC e lembrando a nona posição do Brasil (US$ 7 bilhões) entre os dez países com maior volume de dinheiro depositado. “Em moeda nacional, isso representa uma quantia equivalente a R$ 20 bilhões, exatamente o que o Governo Dilma pretende arrecadar com o pacote de maldades que resume o ajuste fiscal desenhado pelo ortodoxo ministro da Fazenda, Joaquim Levy”, disse Randolfe.

O ‘SwissLeaks’, que ganhou manchetes e espaços generosos nos grandes jornais e revistas do mundo, não teve aqui o mesmo tratamento: “Estranhamente, no Brasil, o caso do HSBC mereceu um estridente silêncio da grande imprensa”, lamentou o senador, lembrando que a pauta do ‘SwissLeaks’ vaza na imprensa brasileira pelo esforço de blogs e blogueiros desvinculados da grande mídia: “Blogs como Megacidadania e O Cafezinho, sites como Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo ou blogueiros como Miguel do Rosário e Luís Nassif vasculham e revelam dados que não se vê, nem se lê nos grandes veículos de comunicação”, lembrou Randolfe Rodrigues.

O senador escreveu que, na terça-feira (17), o site Jornal GGN, de Nassif, repassou uma informação de um jornalista de Hong Kong, na China, que conseguiu descobrir os nomes e endereços de 93 contas da lista do HSBC relacionadas a brasileiros. “Uma ninharia perto dos quase 9 mil brasileiros que fazem parte desta listagem ainda inédita”, observou Randolfe.

Nota seca

O senador do PSOL destacou no seu texto que, para milhões de brasileiros, “o Jornal Nacional, da Rede Globo, ainda é a única, talvez a mais importante fonte de acesso às notícias do país e do mundo”. No sábado (21), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, anunciou que o HSBC entrou em sua alça de mira. O senador anotou: “Esta decisão mereceu do JN daquela noite uma nota seca, de apenas três frases e 59 palavras, lidas em 25 segundos pela apresentadora do telejornal, sem qualquer imagem ou destaque”.

Randolfe ressaltou a justificativa editorial para não revelar os nomes dos clientes brasileiros do HSBC, dada pelo jornalista Fernando Rodrigues, do Portal UOL, o único detentor no Brasil da lista integral fornecida pelo ICIJ — sigla em inglês do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo, uma rede global de 185 profissionais de investigação espalhados por 65 países: “A lista completa nunca será publicada? Não, pois seria uma invasão de privacidade indevida no caso de pessoas que podem ter aberto contas no exterior de boa fé, respeitando a lei e pagando impostos. O ICIJ vai publicar algum dia todas as informações? Não”, antecipou Rodrigues em seu blog.

​“O jornalista adianta, sem dar nomes, que há uma minoria de pessoas conhecidas — empresários, banqueiros, artistas, esportistas, intelectuais — e garante que a imensa maioria dos brasileiros da lista do HSBC é desconhecida do grande público. Seria gente anônima, portanto”, diz o senador Randolfe, fazendo uma importante ressalva: “É bom lembrar que pessoas anônimas também fazem história. No passado recente, dois anônimos, desconhecidos do grande público, vieram à luz para mudar o destino e a biografia de pessoas importantes de nossa República. O motorista Eriberto foi crucial no desfecho das investigações que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor. O caseiro Francenildo foi decisivo no caso que culminou com a demissão do ministro da Fazenda, Antônio Palocci”.

Cone de silêncio

O senador Randolfe Rodrigues destacou que a grande maioria dos nomes listados pelo HSBC pode ter realizado depósitos seguindo os trâmites da lei, mas o total desconhecimento da lista não permite dirimir as dúvidas cada vez maiores que nivelam inocentes e culpados.

“Este caso do HSBC é importante demais para ficar restrito à decisão pessoal, privativa, seletiva, monocrática de um único jornalista, de um só blog, de apenas um veículo poderoso da internet. O dinheiro sonegado e subtraído ao Brasil e aos brasileiros não pode ser envolvido pelo segredo, pelo sigilo, pela impunidade que todos combatemos”, ressaltou o senador do PSOL.

Citando as grandes organizações que reúnem jornalistas e empresários da mídia, Randolfe Rodrigues fez um apelo coletivo à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), ANJ (Associação Nacional dos Jornais), ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e ABERT (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) para que “juntem seus esforços e emprestem seu prestígio para quebrar este cone de silêncio que paira sobre a lista de brasileiros passiveis de investigação nos arquivos do HSBC.”

O senador estendeu seu apelo ao jornalista Fernando Rodrigues, ao portal UOL e ao próprio ICIJ, na pessoa de seu diretor-geral, Gerard Ryle, que “defendem juntos a livre informação e combatem qualquer tipo de censura”.

Randolfe Rodrigues terminou seu discurso citando o jornalista inglês Peter Oborne, 57 anos, comentarista-chefe de política do diário conservador Daily Telegraph, de Londres, que se demitiu semana passada em protesto pela censura que o jornal impôs ao noticiário sobre o HSBC, denunciada por ele na internet: “Uma imprensa livre é essencial para uma democracia saudável. Há um propósito no jornalismo, é não é só entreter. Não deve ceder ao poder político, grandes corporações e homens ricos. Os jornais têm o que no final das contas é um dever constitucional de dizer a seus leitores a verdade”, ensinou o jornalista inglês.

Randolfe encerrou ecoando as palavras de Oborne: “Que assim seja!”.