Arquivo mensais:janeiro 2015

Um ano depois, De Braços Abertos reduz fluxo na Cracolândia em 80%

Via Jornal GGN

Há um ano, a equipe do prefeito Fernando Haddad (PT) colocava em prática uma ação na Cracolândia que acendeu o sinal vermelho de críticos Brasil afora. O “De Braços Abertos” rendeu discussões fervorosas sobre a legitimidade de um programa que, numa análise simplória, dá comida e renda a usuários de drogas que não necessariamente se comprometem a suspender o vício.

Pela primeira vez, no entanto, a cidade de São Paulo assistiu ao governo local trabalhar o “resgate social dos usuários de crack por meio de trabalho remunerado, alimentação e moradia digna”, não com “intervenções violentas”.

Um ano depois, eis o resultado: a chamada Cracolândia perdeu território no Centro de São Paulo, e o fluxo de usuários que consomem crack a céu aberto no local foi reduzido em 80%.

“Atualmente, de acordo com o Secretaria Municipal de Saúde, o fluxo, como é chamada a cena de uso de drogas, está concentrado apenas na região da Alameda Cleveland com a Rua Helvetia e recebe em média 300 pessoas por dia.” Antes, cerca de 1,5 mil usuários circulavam pela região.

Além disso, presença mais ostensiva do poder público na região tem impactado também nos números relativos à segurança pública. A Polícia Militar registrou diminuição de 80% nos roubos de veículo e de 33% no furto a pessoas em relação ao ano anterior, antes da implantação do programa, e efetuou número 83% maior de prisões por tráfico de entorpecentes.

Os números do programa

Dos 453 cadastrados hoje no programa, 63% são homens (286) e 37% são mulheres (167). Desse total, há seis adolescentes e 30 crianças. Elas são encaminhadas para creches e escolas da rede municipal e para os Centros para Crianças e Adolescentes (CCA) para atividades no contraturno.

Entre os beneficiários, 290 são do município de São Paulo, 63 de outras cidades do estado, 99 de outros estados e um estrangeiro.

As equipes de assistência social estimam que cerca de 70% chegaram a passar pelo sistema prisional. Cinco têm ensino superior completo e outros nove, incompleto. 70 completaram o ensino médio, e outros 13 não foram alfabetizados. Do total de cadastrados, 18 ingressaram em cursos no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

Os participantes hoje residem em sete hotéis da cidade. Segundo a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, há 50 pessoas que, apesar de não morarem nos hotéis, continuam no programa – há pessoas que voltaram para as famílias, mas continuam nas atividades no programa e outras que optaram por viver em Centros de Acolhida fora da região.

Atualmente 21 beneficiários estão em processo de autonomia e trabalhando fora do programa. Dezesseis deles foram contratados em agosto de 2014 pela empresa Guima Conseco para prestar serviços em equipamentos públicos municipais. Eles recebem R$ 820 por mês, vale refeição de R$ 9,10 por dia, cesta básica no valor de R$ 81,33 e Vale Transporte.

Outros 321 trabalham no serviço de varrição de ruas e limpeza de praças e, destes, 100 participam de cursos de capacitação, como cursos de estética e beleza, jardinagem e inclusão digital. A remuneração é de R$ 15 por dia, mais três refeições.

Há ainda um grupo de 75 participantes em processo de inserção nas frentes de trabalho, que por ora residem nos hotéis e recebem assistência social, psicológica e em saúde, mas não recebem remuneração.

Os índices de segurança pública

Os números da Polícia Militar apontam para queda na criminalidade entre 2013, quando ainda não existia o programa, e 2014. Em 2014 a PM registrou 17 furtos de veículos e 392 furtos a pessoas, enquanto em 2013 os números foram 34 e 582, respectivamente – uma queda de 50% e 33%. As prisões por tráfico de entorpecentes realizadas pela PM saltou de 96, em 2013, para 176 em 2014, um acréscimo de 83% no número de registros.

Ao longo do último ano foram realizadas 6.344 abordagens pela Guarda Civil Metropolitana na região, em apoio ao trabalho da Polícia Militar, e 319 prisões, das quais 91 com crack. No total, a GCM apreendeu 2.486 pedras de crack. Somente em três das maiores apreensões ocorridas em julho, por exemplo, foram apreendidas 513 pedras e, junto aos traficantes, mais de R$ 10 mil.

Evasão

Segundo as equipes de assistência social, desde o início das ações, 113 pessoas deixaram o programa por motivos diversos.

As ações do programa De Braços Abertos são coordenadas pelas secretarias municipais de Saúde (SMS), Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), Desenvolvimento,Trabalho e Empreendedorismo (SDTE), Segurança Urbana (SMSU) e Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC).

Com informações da Prefeitura de São Paulo

Cai a confiança na imprensa

Por Luciano Martins Costa | Via OI

Uma reportagem no Estado de S. Paulo comenta resultado de um estudo global sobre o nível de confiança das sociedades nacionais em governos, empresas, ONGs e mídia. O Edelman Trust Barometer, em sua 14ª edição, faz um levantamento em 27 países, por meio de 33 mil entrevistas, sendo 27 mil do público em geral e 6 mil no grupo composto por uma seleção de pessoas com educação superior, hábito de consumir notícias diversas vezes por semana e que acompanham temas sociais e políticos. Portanto, pode-se dizer que esse estrato específico de 6 mil entrevistados representa o cliente típico da imprensa.

Os dados referentes ao Brasil serão divulgados em fevereiro, em dois seminários marcados para o Rio de Janeiro e São Paulo, e prometem ser muito úteis para os estudiosos das relações entre mídia e sociedade. O texto publicado pelo Estado se refere apenas ao grau de confiança que o público em geral deposita em empresas familiares, em comparação com a credibilidade das empresas de capital aberto e as estatais.

No resumo distribuído pela Edelman, a análise é mais ampla: por exemplo, observa-se que a confiança na mídia caiu 4 pontos de 2013 para 2014, em todo o mundo. Mas o mais interessante é observar como os novos meios digitais e outros processos de comunicação desvinculados da mídia tradicional passaram a contar com muito mais credibilidade, avançando no campo antes dominado por aquilo que chamamos classicamente de imprensa.

O estrato da amostragem considerado como “público informado” declara que, ao buscar informações sobre qualquer assunto, confia tanto na mídia tradicional quanto nos sistemas de busca online. No Brasil, esse aspecto é ainda mais diferenciado: as ferramentas de busca como o Google têm a confiança de 81% dos consultados.

Em um ano, a mídia tradicional perdeu 7 pontos na classificação da credibilidade, com 74% de citações, seguida de portais, blogs e congêneres, com 65%, e mídias sociais e outras fontes digitais, com 63% cada. A pesquisa permite associar o nível de confiança nos meios à formação da opinião sobre marcas de produtos e serviços, indicando que cresce a influência de funcionários e cidadãos comuns em relação às fontes institucionais, como dirigentes de empresas.

Estratégia equivocada

Observando-se apenas esse contexto do estudo, pode-se constatar uma importante mudança no comportamento dos indivíduos, tanto em seu papel de cidadãos como na qualidade de consumidores.

A análise que acompanha os dados da pesquisa indica que as pessoas ainda consideram importante a qualidade específica daquilo que lhes é entregue em troca de seu dinheiro ou de seus impostos, mas aumenta a expectativa quanto a outras questões, como a conduta de empresas e instituições em geral, ou seja, atributos éticos tornam-se tão valiosos quando os aspectos operacionais.

Esses indicadores explicam em grande parte o distanciamento, quase animosidade, que se nota, no Brasil, entre grandes parcelas da população e o conjunto das instituições. De certa forma, também justificam, parcialmente, o nível maior de confiança nas empresas que têm uma face – a cara do dono –, em comparação com as organizações sem rosto. Torna-se interessante, por exemplo, observar como o empresário Abílio Diniz, que era o retrato do grupo Pão de Açúcar, vai transferir sua reputação para o novo grupo empresarial a que está se associando.

No campo político, a pesquisa mostra como pode ser um erro estratégico grave a opção da maioria dos governantes, inclusive no âmbito federal, de buscar o poder no voto para exercê-lo no ambiente restrito das instituições partidárias. Se, como mostra o estudo, a sociedade quer ver a face que personifica a instituição, as estratégias de comunicação que despersonalizam empresas e outras entidades podem estar seriamente equivocadas.

A observação diária da imprensa revela que a mídia tradicional se dirige preferencialmente às instituições, e que tanto governos quanto empresas também se fecham nessa conversação que exclui o cidadão comum.

O retrato pintado pelo Edelman Trust Barometer indica um novo caminho: se as pessoas tendem a confiar mais em seus pares do que na imprensa ou nas instituições, a sucessão de crises que testemunhamos só será sustada se houver um redirecionamento na comunicação, visando mais o ser humano do que suas representações formais.

A Petrobrás e a campanha do capital internacional: Entrevista com Fernando Siqueira

Por Rennan Martins | Vila Velha, 20/01/2015

Charge de Carlos Latuff

Prossegue a oportunista campanha da imprensa que instrumentaliza as revelações do esquema de corrupção atuante na Petrobras para justificar a desnacionalização e entrega do petróleo brasileiro ao cartel internacional, ainda mais corruptos, já que se apoiam também em guerras e no uso de mercenários para garantir seus interesses em diversas partes do mundo.

Cumprindo nossa missão de fazer o contraponto à narrativa hegemônica, atuando na guerrilha semiológica, como propôs Umberto Eco, o Blog dos Desenvolvimentistas segue colhendo e disseminando informações a fim de retratar o mundo de uma perspectiva que não a dos poderosos, essa já fartamente propagandeada.

É pra isso que entrevistei mais uma vez Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Siqueira defende que se deve investigar cada indício de corrupção, mas que a Petrobras é vítima dos saqueadores, “e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar”. Ressalta que é uma companhia em melhor situação que as outras cinco grandes petrolíferas internacionais, lastreada em 84 bilhões de barris, e é justamente por essa riqueza que é tão atacada.

Confira essa importante entrevista:

Qual a posição da AEPET em relação ao cartel/propinoduto que saqueou a Petrobras?

Achamos essa prática execrável, que deve ser punida com o máximo de rigor e prisão de todos os envolvidos. Em todo o Brasil. O ponto positivo é que a operação lava-jato trouxe as informações necessárias, inclusive dos corruptores, o que só foi possível com as delações premiadas. Vimos denunciando em todas as AGO´s (Assembleia Geral Ordinária, anual, dos acionistas) os indícios da corrupção (por exemplo, a cartelização pela prática de EPCismo – contratação de obras por pacote fechado – que sistematizou a cartelização). Mas não dispúnhamos das provas concretas. Sabíamos que o Duque (segundo dizem, concunhado do Zé Dirceu), o Paulo Roberto, o Barusco tinham procedimentos suspeitos, mas faltavam as provas. Agora temos a chance de deflagrar um combate sem tréguas à corrupção. Em todos os segmentos do País. Mas alguns membros do Ministério Público têm alertado para o risco de impunidade. A sociedade não pode aceitar um novo Satiagraha, que deu em nada.

Procedem os rumores de que a estatal está atolada em dívidas?

A Companhia tem realmente uma grande dívida. Porque tem a maior carteira de campos de petróleo a serem postos em produção. Portanto é uma dívida positiva, visto que é uma dívida para investimentos, os quais dão retorno superior a 80% ao ano. O retorno demora um pouco, mas já temos uma produção superior a 700 mil barris por dia no pré-sal. E o pré-sal já tem uma reserva descoberta de cerca de 70 bilhões de barris, que somada aos 14 bilhões pré-existentes, chegam a 84 bilhões de barris. Portanto, a dívida, além de ser positiva, tem um grande lastro.

O que explica a grande queda nos preços das ações da estatal? Em que extensão o escândalo de corrupção influencia nessa questão?

Há vários fatores. A queda do preço internacional do petróleo (temporária), a explicitação da nefasta corrupção, além da campanha sistemática da mídia defensora do capital internacional. Eles querem tirar a Petrobrás da condição de operadora única do pré-sal, pois isto inibe os dois focos de corrupção: superdimensionamento dos custos de produção, ressarcidos em petróleo e a medição fraudulenta da produção. Embora haja corrupção dessas empreiteiras em todos os segmentos do País, a da Petrobrás foi exacerbada ao máximo para desmoralizar a empresa. Na realidade a Petrobrás é vítima, e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar. Ela tem 88000 empregados sérios, honestos e competentes.

Na esteira das revelações do esquema muitos analistas criticaram o modelo de partilha. Que pensa a AEPET sobre o atual modelo de exploração?

O modelo de partilha, não é o ideal, faltando, inclusive fixar o percentual do óleo-lucro que fica com a União. Mas é muito melhor do que o de concessão que eles defendem. A concessão dá todo o petróleo para quem produz. Por ela, o Brasil fica com 10% de royalties e cerca de 20% em impostos – tudo em dinheiro. No mundo, os países exportadores ficam com a média de 80% do petróleo produzido. Em nossa visão o modelo ideal é a volta do modelo existente antes da era FHC, previsto no artigo 177 da Constituição Federal de 1988: o Monopólio Estatal do Petróleo, conforme constava na Lei 2004/53. Ou a contratação por prestação de serviços, como é na Venezuela.

A proposta de retorno do regime de concessões interessa ao país? Quem ganha e quem perde com este modelo?

O modelo de concessão é pernicioso para o País, é puro entreguismo, pois conforme dito acima, só favorece as concessionárias integrantes do cartel internacional, em detrimento do povo brasileiro. Quem ganha com esse modelo é esse cartel do petróleo e os defensores do modelo, que, provavelmente, não fazem essa defesa gratuitamente.

A narrativa da grande mídia retrata nossa estatal como se estivesse à beira da falência. Por quê? Com que objetivos?

Faz parte da campanha do capital internacional. A Petrobrás, comparada às cinco grandes companhias petrolíferas internacionais, está muito melhor que elas. Aumentou suas reservas, aumentou a produção, o faturamento bruto, enquanto as outras têm indicadores negativos nesses quesitos. Ela ainda tem 70 bilhões de barris de petróleo descobertos no pré-sal, que fazem dela uma potência econômica e tecnológica. Aliás, ela poderia estar bem melhor se o Governo Dilma, por ditames eleitoreiros, não a houvesse obrigado a importar derivados e revender para suas concorrentes por preços inferiores. Segundo o Conselheiro Administrativo eleito, Silvio Sinedino, presidente da Aepet, esse rombo já atingiu a R$ 60 bilhões.

Que postura devem assumir os brasileiros que valorizam uma Petrobras forte e nacional?

Devem assumir a sua defesa como vítima da corrupção e combater sem tréguas essa prática. Lembrar que a Companhia é a mais estratégica do País e que ela pode alavancar o desenvolvimento tecnológico, econômico e financeiro, gerando empregos, tecnologia e desenvolvimento sustentado. Gosto sempre de citar a Noruega, que passou de segundo país mais pobre da Europa para o mais evoluído do Planeta: tem o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todos por cinco anos consecutivos, o melhor bem-estar social e a segunda renda per capta do planeta. Por que a Noruega cresceu assim? Porque soube usar o petróleo que descobriu no Mar do Norte na década de 70. Desenvolveu-se magistralmente e criou um fundo soberano pós-petróleo, que já chega a US$ 900 bilhões. E nós temos muito mais petróleo do que eles, além de imensas riquezas fora do ramo petróleo – minérios, biodiversidade, água.

Nível do Cantareira continua baixando, apesar de chuvas

Via Agência EFE

O nível do Sistema Cantareira caiu nesta quinta-feira (16) a 6,2% apesar das chuvas que caem há duas semanas em São Paulo, que passa por sua pior crise hídrica desde 1930.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) comunicou que o sistema opera com 6,2% da segunda cota do “volume morto”, reserva técnica que começou a ser usada em novembro.

Nível do Sistema Cantareira caiu nesta quinta-feira a 6,2%. EFE/Sebastião Moreira

O nível do Cantareira estava em 6,4% antes da forte tempestade com granizo e descargas elétricas de ontem, que manteve em estado de alerta vários bairros e deixou 200 mil residências sem luz até hoje de manhã, segundo a AES Eletropaulo.

A nova queda acontece um dia depois de o novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, admitir que o sistema pode secar totalmente em março, embora com os atuais níveis de chuvas o Ministério de Ciência e Tecnologia preveja que o conjunto de açudes pode “sobreviver” até junho.

Ontem, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, admitiu pela primeira vez que a capital e vários municípios passam por racionamento de água e o atribuiu a que a reguladora nacional ordenou reduzir a pressão utilizada para a provisão.

Com a admissão da existência de racionamento, a Justiça autorizou novamente a cobrança de multas pelo excesso de consumo, como o tinham decretado as autoridades, mas que estava suspensa porque para ser efetiva tinha que ter reconhecimento oficial por parte do governo.

O juiz José Renato Nalini, presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, emitiu ontem à noite uma decisão na qual revogava a suspensão e aprovava de novo a decisão do governador.

“Ninguém sobrevive sem água”, indicou o magistrado em sua decisão de defesa da aplicação de multas para evitar um “prejuízo à saúde pública”.

São Paulo sofreu em 2014 sua pior crise hídrica desde 1930, com uma seca que disparou o alarme em todos seus reservatórios e que obrigou o governo a adotar medidas como as de bonificar usuários que reduzam o consumo e punir com multas os que o aumentam.

As chuvas de 2014 no sudeste do Brasil foram muito inferiores às esperadas e as chuvas registradas no início de 2015, com forte intensidade, ventos e tempestades elétricas, só serviram para manter estáveis os níveis dos reservatórios por poucos dias.

Bom mesmo é ser rico no Brasil e gastar nos EUA

Por Ricardo Kotscho, em seu blog

Se já tinham alguma desconfiança, os ricos brasileiros e seus blogueiros de estimação agora é que vão ter certeza mesmo de que Barack Obama é comunista.

Na contramão das medidas econômicas recessivas que vêm sendo estudadas pelo governo Dilma 2, o presidente dos EUA vai anunciar nesta terça-feira, em seu discurso anual sobre o Estado da União, que enviará projeto ao Congresso com proposta que prevê aumentar os impostos dos mais ricos e dos bancos e, ao mesmo tempo, desonerar a carga tributária da classe média.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, novo “czar” da economia brasileira, poderia aproveitar sua viagem esta semana a Davos, na Suíça, onde representará nosso país no Fórum Econômico Mundial, para perguntar aos seus colegas americanos como é possível fazer um “ajuste fiscal”, tirando de quem tem mais e vive da especulação financeira, para beneficiar quem vive apenas do seu trabalho, ao contrário do que o ministro vem planejando por aqui.

O “Plano Robin Hood” de Obama prevê um aumento da arrecadação de US$ 320 bilhões nos próximos dez anos, com a maior taxação de grandes bancos, casais que ganham mais de US$ 500 mil por ano e cobrança de impostos sobre heranças _ algo simplesmente fora de cogitação dos ajustes de Dilma-Levy.

De outro lado, a proposta do governo americano prevê uma desoneração de US$ 175 bilhões dos impostos pagos pela classe média no mesmo período, segundo notícia publicada nesta segunda-feira no New York Times, venerável publicação que, perto dos jornalões brasileiros, deve parecer um perigoso porta voz do socialismo, a ameaçar a liberdade de expressão em todo o mundo.

O principal jornal americano já prevê que Obama “vai enfrentar forte resistência num Congresso agora controlado pelo Partido Republicano”, o equivalente, mal comparando, ao nosso PSDB.

O mais curioso e triste para nós é que Obama, que perdeu as últimas eleições parlamentares nos Estados Unidos, mostra coragem para enfrentar a oposição republicana, mesmo estando em minoria, enquanto Dilma Rousseff, que acabou de vencer as eleições gerais no Brasil, com ampla maioria no Congresso Nacional, faz exatamente o contrário, para agradar ao mercado.

Até agora, mesmo com a presidente se mantendo em ensurdecedor silêncio desde que tomou posse no segundo mandato, há 19 dias, seus ministros e assessores só vêm anunciando medidas que oneram a classe média, como o aumento dos impostos de profissionais liberais e prestadores de serviço que formaram pequenas empresas na forma de pessoas jurídicas, mais conhecidos por “PJ”, além de restringir o acesso a benefícios sociais e liberar o aumento de tarifas.

Chega agora a cheirar a ironia a ameaça feita por tucanos emplumados, às vésperas da eleição de outubro, de que deixariam o Brasil se Dilma se reelegesse. Para quê?

Bom mesmo é ficar rico no Brasil, ir às compras e investir em imóveis nos Estados Unidos, sem nenhuma ameaça de taxação das suas fortunas. Tem lugar melhor no mundo para ser banqueiro ou herdeiro que vive de rendas? Quando começa a faltar água e luz, é só pegar um avião, de preferência um jatinho particular, e ir para suas casas em Punta ou Miami. Seu rico dinheirinho estará garantido pelo nosso fisco camarada, e não tem nenhum Obama que o ameace.

E vamos que vamos.

Em tempo (atualizado às 11h30) _ Acabo de ler na manchete do UOL: “Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99% no mundo até 2016, diz ONG”.

Estudo da organização britânica Oxfam informa que a “explosão da desigualdade” está dificultando a luta contra a pobreza global. “Apesar de o assunto ser tratado de forma cada vez mais frequente na agenda mundial, a lacuna entre os mais ricos e o resto da população continua crescendo a ritmo acelerado”, advertiu a diretora executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyma.

A presidente Dilma e o ministro Levy bem que poderiam ler este estudo antes de apresentar as propostas brasileiras em Davos.

Barack Obama já está fazendo sua parte para evitar que este abismo entre ricos e pobres cresça ainda mais.

E nós?

Como Brasil, Holanda chama embaixador na Indonésia após execuções

Via Opera Mundi

Ambulâncias com corpos dos executados deixaram a prisão neste domingo (18/01) na Indonésia. Agência Efe

Nigéria, Maláui e Vietnã não se pronunciaram a respeito de execuções; rei holandês interveio pessoalmente para tentar evitar execução.

O rei da Holanda, Willem-Alexander, se envolveu pessoalmente nos trâmites para tentar evitar a execução de Ang Kiem Soei – um dos cinco estrangeiros fuzilados no sábado (17/01) na Indonésia. O monarca conversou com o presidente indonésio, Joko Widodo, para pedir clemência para o cidadão holandês, sem sucesso. O mesmo procedimento foi adotado pela mandatária brasileira, Dilma Rousseff. Vietnã, Maláui e Nigéria não se pronunciaram a respeito da morte de seus cidadãos.

O primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, também entrou em contato com Widodo para interceder por Soei. O resultado foi classificado pela chancelaria holandesa como “trágico e muito decepcionante”.

Como resposta ao que considerou ser “uma inaceitável negação da dignidade humana e da integridade”, o ministro das Relações Exteriores da Holanda, Bert Koenders, disse neste domingo (18/01) que convocou o embaixador do país europeu na Indonésia, Nikolaos van Dam, para voltar a Amsterdã para consultas. O gesto, também realizado pelo governo brasileiro, indica um descontentamento com a política da indonésia e pode comprometer as relações bilaterais entre os países.

Em um comunicado divulgado hoje, Koenders ressaltou que o governo holandês fez tudo o “que foi possível” para evitar a execução, tendo realizado diversos contatos com o governo de Joko Widodo neste sentido.

“A Holanda continua a ser contra a pena de morte e a execução de prisioneiros. É um castigo cruel e desumano”, afirmou Koenders. Ele ressaltou ainda que o país seguirá com os esforços para combater a pena de morte na Indonésia e em todo o mundo”.

O governo brasileiro afirmou que execução de Marco Archer Cardoso Moreira cria “uma sombra” nas relações diplomáticas entre os países, como confirmou o chanceler do país, Mauro Vieira, em entrevista coletiva concedida ontem:

Demais estrangeiros

Além do brasileiro Marco Archer e o holandês Soei, também foram executados outros três estrangeiros. Embora o governo vietnamita não tenha se pronunciado até o momento a respeito da execução da cidadã Tran Tri Bich Hanh, de 37 anos, a imprensa local repercutiu o caso destacando que ela foi condenada em 2011 por envolvimento com nove casos de tráfico de drogas.

Hanh foi presa por portar 1,1 quilo de metanfetamina no corpo e pediu para ser executada sem algemas.

Os outros dois condenados à morte na Indonésia eram o nigeriano Daniel Enemuo e o malaui Namona Demisa. Nenhum dos dois governos se pronunciou a respeito.

Enquanto o governo do Maláui se encontra em meio a uma enchente, que deixou metade do país em situação de emergência, com centenas de mortos e milhares de desabrigados, a Nigéria vivencia uma guerra civil que já matou milhares devido à ação do grupo Boko Haram.

De acordo com a imprensa nigeriana, o governo do presidente Goodluck Jonathas não fez nenhum apelo em nome de seu cidadão para evitar a execução. Enemuo foi preso ao tentar entrar com heroína em território indonésio, vindo do Paquistão. Ele receberia US$ 2.500 pela execução do serviço.

O saldo devedor das democracias liberais

Por Rennan Martins | Vila Velha, 19/01/2015

O professor Zizek brindou-nos com seu elucidativo artigo “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”, onde traz diversas reflexões pertinentes a sociedade ocidental e seu relacionamento com o islamismo e o povo muçulmano. No último parágrafo lemos uma intrigante conclusão, que diz:

“O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.”

De fato, a democracia liberal está num processo de desgaste e perda de legitimidade frente aos cidadãos, tanto que muito se discute a dita “crise de representatividade”, ou seja, a incapacidade deste arranjo institucional de responder aos anseios da população.

É possível notar que, historicamente, as elites detentoras do poder político e econômico tentaram por diversos meios tutelar os processos de abertura e aprofundamento democrático, impondo mecanismos que afunilam e até mesmo bloqueiam as reivindicações das massas.

No caso das democracias liberais dos países desenvolvidos, que tiveram muitas de suas instituições copiadas pelas nações do Sul Global, a degeneração se deu tanto internamente quanto no âmbito externo, onde a agressividade dos EUA e União Europeia recrudesce, visando garantir interesses econômicos e geopolíticos num momento em que se vive a segunda maior crise do capitalismo.

Internamente temos as configurações que permitiram influência demasiada do poder econômico nos processos decisórios e eleições no intuito de compensar o perigoso sufrágio universal. Este poder por sua vez corrompe tanto os políticos quanto o próprio sistema, garantindo que as “decisões democráticas” sempre favoreçam os interesses da oligarquia patrocinante das campanhas eleitorais e do lobby.

Soma-se a isso a imprensa corporativa, que é uma verdadeira agência de publicidade, promovendo com eficácia e fervor os interesses de seus patrões, reproduzindo um pensamento único que retrata o mundo sempre do prisma neoliberal em termos econômicos, e conservador no âmbito social.

Exemplo ilustrador desse quadro é a pesquisa dos professores Martin Gilens, de Princeton, e Benjamin I. Page, da Northwestern Universisty, que focou na “maior democracia do mundo”, a norte-americana. Nela fizeram um levantamento exaustivo de 1.779 questionários sobre políticas públicas, entre 1981 e 2002. O que constataram foi um poder de influência que varia diretamente com o tamanho da conta bancária, ou seja, uma oligarquia. Diante disso, assim discorreram:

“… acreditamos que se os processos decisórios são dominados por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos influentes, temos que as pretensões democráticas americanas estão seriamente ameaçadas.”

Na frente internacional, esta ainda mais importante pra pensarmos os últimos acontecimentos, temos ainda menos distribuição de poder. As democracias liberais portam-se tiranicamente em relação aos Estados em desenvolvimento, fazendo de tudo para esmagar qualquer indício de nacionalismo e anseio por um desenvolvimento autônomo, de propostas que divergem das oferecidas pelo globalismo do FMI e Banco Mundial. Em suma, o respeito a autodeterminação dos povos inexiste.

O atentado a Charlie Hebdo é exposto como fruto de um pretenso “choque de civilizações” onde caberia ao ocidente desenvolvido impor belicamente toda sua “civilidade”, ganhando, neste ínterim, o controle de preciosos recursos, principalmente energéticos. Mas isso é só um detalhe.

A Al-Qaeda do Iêmen é a mais nova cabeça da Hidra a ser cortada, porém, a narrativa hegemônica “esquece” que o extremismo era minoritário e desprovido de recursos, até que foi treinado e financiado pelas potências ocidentais e monarquias sunitas locais a fim de que a desestabilização por eles promovida catalisa-se a promoção de seus interesses. O fato do Estado Islâmico ter recebido rios de dinheiro europeu e norte-americano é pouquíssimo mencionado, e assim mais uma intervenção militar genocida se avizinha.

Como diz a frase a atribuída a Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Há um quinhão de responsabilidade a ser cobrado das democracias liberais, e a liquidação da fatura é urgente.