Arquivo mensais:janeiro 2015

Preso na Lava Jato expõe falência da política

Via Brasil 247

Em defesa no processo da operação Lava Jato, executivo Gerson de Mello Almada, vice-presidente da construtora Engevix, relaciona o esquema de corrupção do doleiro Alberto Youssef ao financiamento privado dos partidos: “O pragmatismo nas relações políticas chegou, no entanto, a tal dimensão que o apoio no Congresso Nacional passou a depender da distribuição de recursos a parlamentares. O custo alto das campanhas eleitorais levou, também, à arrecadação desenfreada de dinheiro para as tesourarias dos partidos políticos”; ele diz que sofreu “achaques” do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, “em nome de partido, ou em nome de governo”.

Em sua defesa no processo da operação Lava Jato, o executivo Gerson de Mello Almada, vice-presidente da construtora Engevix, relacionou o esquema de desvios e suborno de agentes públicos do esquema de Alberto Youssef ao sistema de financiamento privado dos partidos.

Na petição assinada pelo advogado, Antonio Sergio de Moraes Pitombo, o empresário diz que sofreu “achaques”, do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, e de outros administradores da petroleira, “em nome de partido, ou em nome de governo”.

A declaração expõe falência da política e a urgência em se acabar as doações privadas nas campanhas.

Leia trechos em questão da petição, disponível na íntegra:

“A denúncia não pode ser recebida, pois não conta a verdade, fim precípuo do processo penal. Vale registrar alguns fatos notórios, outros emergentes dos próprios autos do inquérito policial, que desapareceram da acusação: faz mais de doze anos que um partido político passou a ocupar o poder no Brasil. No plano de manutenção desse partido no governo, tornou-se necessário compor com políticos de outros partidos, o que significou distribuir cargos na Administração Pública, em especial, em empresas públicas e em sociedades de economia mista.

O pragmatismo nas relações políticas chegou, no entanto, a tal dimensão que o apoio no Congresso Nacional passou a depender da distribuição de recursos a parlamentares. O custo alto das campanhas eleitorais levou, também, à arrecadação desenfreada de dinheiro para as tesourarias dos partidos políticos.

Nessa combinação de interesses escusos, surgem personagens como PAULO ROBERTO COSTA, que, sabidamente, passou a exigir percentuais de todos os empresários que atendiam a companhia. Leia-se, exigir. O que ele fazia era ameaçar, um a um, aos empresários, com o poder econômico da PETROBRÁS. Prometia causar prejuízos no curso de contratos.”

Dona de restaurante é condenada a pagar R$ 10 mil por repreender beijo gay

Via SpressoSp

Agência Brasil

Casal teria trocado um beijo rápido enquanto almoçava, quando os dois foram repreendidos de imediato e de maneira desproporcional pela dona do local.

A dona de um restaurante foi condenada a pagar uma indenização por repreender o beijo de um casal gay em São Vicente, litoral sul de São Paulo. Ela deverá indenizar cada um em R$ 10 mil, por danos morais.

Segundo o relato do casal ao juiz, eles trocaram um beijo rápido enquanto almoçavam, quando foram repreendidos de imediato e de maneira desproporcional pela dona do restaurante.”Afasta, afasta, afasta eu não estou brincando, nessa hora me queima, está cheio de peão”, teria dito a mulher na presença de outras pessoas.

O relator Alexandre Bucci justificou seu voto em favor do casal afirmando que “a abordagem preconceituosa e discriminatória, feita de maneira discreta ou não, por si só, gera danos morais, ferindo a dignidade, a imagem e a honra dos autores, justificando plenamente o dever de indenizar”.

Com informações de Folha de S.Paulo

Cristina Kirchner diz estar ‘convencida’ de que morte de promotor não foi suicídio

Via Opera Mundi

Para a mandatária, Alberto Nisman se baseou em ‘pistas falsas’ para acusá-la e a morte dele é uma ‘operação contra o governo’.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse estar “convencida” de que a morte do fiscal Alberto Nisman “não foi um suicídio”. Em carta publicada nesta quarta-feira (22/01) em seu blog, a mandatária confrma a tese de alguns analistas de que foram apresentadas “pistas falsas” a Nisman, e diz que a morte dele é uma “operação contra o governo”.

Nisman vivia no bairro Puerto Madero, em Buenos Aires, e tinha sofisticado aparato de segurança para garantir sua integridade física. Agência Efe

O fiscal, que denunciou um suposto encobrimento, por parte da presidente e de altos funcionários do governo, do atentado terrorista realizado contra a AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), há 21 anos, foi encontrado morto no domingo (18/01), com um tiro na cabeça, um dia antes de comparecer no Congresso para dar detalhes sobre a denúncia.

“A denúncia de Nisman nunca foi em si mesma a verdadeira operação contra o governo. Nisman não sabia e provavelmente nunca soube. A verdadeira operação contra o governo foi a morte do fiscal depois de acusar a presidente, seu chanceler e o secretário geral do La Cámpora de ser encobridores dos iranianos acusados pelo atentado terrorista à AMIA”, afirmou.

A mandatária menciona alguns artigos publicados pela imprensa argentina, entre eles a análise de Raúl Kollmann, publicado pelo jornal Página/12 que, segundo ela, derruba como um “castelo de cartas” o que fora apresentado como “denúncia do século”.

Após relembrar casos de supostos suicídios e que seguem sem esclarecimentos adequados, Kirchner acrescenta que “o usaram vivo e depois precisaram dele morto” e pontua uma série de questionamentos ao caso da morte de Nisman. “Por que iria se suicidar se não sabia que era falsa a informação que tinha? Porque iria se suicidar alguém que sendo fiscal gozava, ele e sua família, de uma excelente qualidade de vida? Por que foi autorizado o acesso à casa de Nisman a um médico privado de uma obra social antes de informar o juiz, os superiores, os forenses?”.

“Hoje não tenho provas, mas tampouco tenho dúvidas”, disse Kirchner, para quem o caso foi trazido à tona para aproveitar a comoção mundial decorrente do atentado terrorista na França.

Entenda o caso

O atentado à AMIA, em 1994, foi o maior ato terrorista já realizado na Argentina, matando 85 pessoas.

Em 2006, uma decisão da Justiça argentina considerou o governo iraniano culpado de ter planejado o atentado, que teria sido executado pelo grupo libanês Hezbollah, com ajuda do Irã, que nega as acusações.

A pedido da Argentina, a Interpol determinou ordem de captura de cinco cidadãos iranianos e um libanês. Na lista dos acusados, estão iranianos que ocupavam altos postos no governo do então presidente Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997) – entre eles, o ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi e o próprio Rafsanjani.

A grande empulhação dos colunistas econômicos

Por Marco Piva | Via Carta Maior

Grande parte dos colunistas de economia da imprensa comercial brasileira, autodenominada grande imprensa, comete uma fraude contra os cidadãos.

Grande parte dos colunistas de economia da imprensa comercial brasileira, autodenominada “grande imprensa”, comete uma fraude contra os cidadãos que acompanham as notícias no dia a dia. Eles têm uma verdadeira obsessão quando tratam de assuntos da sua área: a obsessão de acreditar que falam ou escrevem sem ideologia nenhuma, que seus comentários são isentos, práticos e objetivos, e que só mesmo a cegueira política não é capaz de enxergá-los como grandes pensadores críticos do país. Ora, ter uma visão ideológica e não assumi-la é a pior forma de cinismo e de empulhação. Essa gente não fez nem TCC no ensino médio para saber que qualquer coisa que se diga, se fala desde um lugar, desde uma teoria de interpretação sobre a realidade que se vê. E acreditar nos pilares do liberalismo sem freio, na aposta que a mão invisível do mercado pode tudo, forma um conceito tão atrasado quanto aquela regra do futebol que permitia ao goleiro segurar a bola com a mão por quanto tempo quisesse.

Pois bem. Um dos esportes prediletos desses colunistas de uma só forma de ver a economia é criticar os governos ditos bolivarianos como a Venezuela, o Equador, a Bolívia e a Argentina, não faltando tremendos esforços para incluir o Brasil na lista. A tese vale para todos: são governos gastões, populistas, anti-iniciativa privada, inimigos dos Estados Unidos e por aí vai. Dizem os guardiões do pensamento do mercado que a situação nesses países vai de mal a pior por obra e culpa dos governantes de plantão, casualmente todos eles de esquerda.

Não é que as previsões para os demais países latino-americanos também não são nada animadoras para 2015? Vamos pegar o exemplo de nações governadas pela direita para que a análise não seja entorpecida. O México terá um de seus piores anos. Indústrias norte-americanas instaladas em território mexicano estão demitindo e fechando suas portas. As chamadas “fábricas maquiladoras”, eixo central da integração do Nafta, estão indo se instalar em outras freguesias. O petróleo, principal receita do país, está com a produção em baixa e preços achatados no mercado internacional. Como entrou de sócio menor no acordo comercial com Estados Unidos e Canadá, os mexicanos correm o risco de voltar a níveis produtivos anteriores a 1980. O PIB deste ano está previsto para 1,0%. A pobreza e a violência só crescem.

A Colômbia, outra menina dos olhos dos colunistas econômicos brasileiros, teve forte queda de produção e mal ultrapassou o 1% do PIB em 2014. As previsões para esse ano são ainda mais sombrias. Aberto desde sempre ao capital estrangeiro especulativo, o país começa a assistir a saída desses capitais numa escala sem precedente. Pesa ainda a desvantagem de não ter muito para onde correr, já que a produção agrícola do país depende de commodities, cujos preços estão em baixa no mercado internacional, sem falar do problema da violência política, ainda sem solução definitiva.

O Peru, depois de três anos seguidos de crescimento, viu uma marcha à ré em 2014. Sua principal riqueza, as jazidas de minério, perdeu espaço para novos centros de produção na África e Ásia. Sem uma indústria forte, pouco terá a oferecer para garantir emprego e renda aos seus cidadãos.

Vamos colocar o Chile no rol dos países mais abertos economicamente, embora tenha um governo de inspiração esquerdista moderada. O cobre, de longe a grande cartada do país, está com preços em queda. Os investimentos externos estão caindo para os piores níveis da história e, o que é pior, iniciam um movimento de fuga, o que levou a presidente Michelle Bachelet a decretar apressadamente uma nova lei de “inversiones extranjeras”, mais liberal e sem grandes contrapartidas como a anterior.

Nesse cenário, o Banco Mundial destaca que a América Latina cresceu 1,0% em 2014, a média mais baixa dos últimos 12 anos. A projeção de crescimento do PIB é de 2,4% para este ano, um verdadeiro risco para a continuidade dos programas sociais que diminuíram em 24% a pobreza no continente. Nenhum país latino-americano ou caribenho crescerá vigorosamente, com a única exceção da Bolívia, que ainda colhe os frutos da nacionalização do setor de gás e energia. Então, onde está escrito que os únicos países que estão em difícil situação econômica são aqueles cujos governos tem ideias de esquerda? Em qual manual ficou provado que a melhor maneira de levar a economia de uma nação é abrindo todos os flancos para o investimento estrangeiro e para a total privatização dos setores estratégicos? Quem disse que desenvolvimento não combina com justiça social?

Sem dúvida, falta muito para que famosos colunistas econômicos tenham a humildade de reconhecer que, sim, falam em nome de uma ideologia a qual devotam crença inabalável e que prestam um desserviço aos consumidores de notícia quando emitem opiniões baseados em só um lado da moeda. A América Latina vive uma crise econômica que é resultado da queda brutal das commodities de matérias primas, do rearranjo do poder econômico mundial baseado na financeirização dos ativos, da precarização de seu parque industrial, da histórica falta de investimento em inovação e tecnologia e do profundo ódio que os donos locais do dinheiro nutrem contra qualquer coisa que sinalize uma pequena mudança em seu status quo.

Por isso, debater a regulação econômica da mídia é mais do que necessário; é urgente, é “pra ontem”. Somente assim poderemos almejar uma sociedade com mais pluralismo e mais democracia, com cidadãos que poderão olhar criticamente uma notícia sob variados pontos de vista e não apenas a partir da “verdade única” dos colunistas, desses endeusadores do oráculo do mercado.

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Marco Piva é jornalista.

O veto de Dilma e a hora dos cartolas assumirem responsabilidades

Por Glauco Faria | Via Revista Fórum

A queda da proposta generosa de refinanciamento das dívidas dos clubes traz a oportunidade de se fazer uma discussão mais ampla sobre o fortalecimento do futebol brasileiro. É hora dos dirigentes serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que podem fazer pelo esporte.

O veto da presidenta Dilma Rousseff à emenda incluída pelo deputado Jovair Arantes (PTB-GO) à Medida Provisória 256, que garantia aos clubes de futebol a possibilidade de pagar suas dívidas com a União em um prazo de 20 anos, sem contrapartidas, é um caso emblemático que diz muito a respeito de como se dão as relações do futebol com a política no Brasil. E também sobre como os cartolas dos times daqui lutam para fugir de suas responsabilidades.

Em 2014, muito em função das críticas em relação à realização da Copa do Mundo no país, Dilma buscou um movimento de aproximação e diálogo que acabou deixando à margem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Realizou encontro com editores e jornalistas esportivos e também se reuniu com o Bom Senso FC, associação que congrega jogadores de futebol que buscam mudanças na modalidade. O governo também participou das discussões sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que pretende estabelecer uma solução financeira para a crise econômica vivida pelos clubes, contanto que eles se adaptem a determinadas normas de gestão financeira e de responsabilidade fiscal.

Como se trata de uma discussão difícil, que pode resultar em punições como o rebaixamento para clubes que não honram compromissos como o pagamento de atletas e funcionários, por exemplo, a chamada bancada da bola resolveu tentar dar um chapéu no processo de diálogo, empurrando goela abaixo um refinanciamento generoso, sem sanções. Para isso, o deputado Arantes, ex-presidente do Atlético-GO, incluiu a proposta em uma MP que, no Legislativo, se tornou um festival de isenções e benefícios tributários a diversos setores, graças a emendas parlamentares de todo tipo.

O veto é um alento para quem torce por um futebol mais forte no país, que ainda vive sob a sombra dos 7 a 1 da Copa, resultado que deixou à mostra as chagas da desorganização do esporte nacional. Também é positivo o fato de se formar um grupo interministerial que envolve as pastas do Esporte, da Fazenda, da Justiça, da Previdência Social e Casa Civil da Presidência da República, além de se ouvir representantes do Bom Senso Futebol Clube, dando à associação legitimidade para discutir o tema. Trata-se de uma diferença importante em relação ao que já foi feito na área.

Em 2007, o presidente Lula instituiu a Timemania, uma nova loteria que tinha como objetivo auxiliar os clubes no pagamento de suas dívidas com a União. Em troca do uso de sua imagem, os times passaram a receber 22% do valor das apostas para honrar pendências previdenciárias e tributárias. No entanto, com a arrecadação mais baixa do que o esperado e sem exigir contrapartidas mais efetivas em relação à governança, a Timemania teve pouco efeito prático. No início do ano passado, dos 55 clubes que haviam aderido à loteria, 20 estavam excluídos por inadimplência e atraso.

Um primeiro passo de muitos

Os 12 maiores clubes brasileiros de futebol devem, juntos, R$ 1,59 bilhão à União, o que não incluiu débitos de outra ordem com o poder público, como tributos estaduais e municipais. De acordo com estimativas do governo federal, o total devido por todos os clubes pode chegar a R$ 3,7 bilhões.

Mas, obviamente, não é a União a única credora dos times. Segundo dados da consultora BDO referentes ao ano de 2013, o total devido pelos 24 maiores clubes era de R$ 5,682 bilhões de reais. E se boa parte desse endividamento foi feito no passado, em função de gestões temerárias de dirigentes, outro número mostra que os atuais cartolas não são exemplo de bons gastos. De 2009 a 2013, os clubes aumentaram suas dívidas em R$ 2,8 bilhões, quase metade do montante apurado.

Ou seja, um refinanciamento sem qualquer tipo de compromisso por parte dos clubes não tende a melhorar a situação deles e do futebol de uma forma geral.

Sob o comando da CBF, o futebol brasileiro continua com competições quase sem visibilidade no exterior, com público abaixo de campeonatos nacionais como o dos EUA e de outros países com pouca tradição na modalidade. Também nesse cenário, os dirigentes de clubes têm responsabilidade direta.

Ainda que tenha havido aumento de receitas vindas de outras fontes, como licenciamento de produtos, utilização de estádios para outros fins que não o esportivo e programas de sócios e sócios-torcedores, à medida que as receitas têm aumentado, também crescem em maior grau as despesas. Práticas de gestão destinadas ao fracasso também persistem, como dirigentes emprestando dinheiro para seus próprios clubes, o que se torna um problema quando se troca o grupo que está no comando.

Os direitos de transmissão de televisão também aumentaram em valor nos últimos anos, mas menos do que poderiam. Com a dissolução do Clube dos Treze, movida pela ganância de alguns cartolas e também pela subserviência à Globo e à CBF, os times se enfraqueceram como coletivo, e a ideia de formação de uma liga, que poderia fortalecer o conjunto das equipes, não é algo que se vê no horizonte.

O que a visão limitada dos dirigentes não alcança é que o fortalecimento do futebol passa pelo empoderamento dos principais clubes, mas também dos médios, que hoje se distanciaram ainda mais dos grandes por conta da assimetria que se agravou com as negociações individuais. Sem que se leve em conta o mérito desportivo, no caso, a classificação de um time em uma competição como fator de aumento do recebimento dos direitos de TV, ainda que sejam bem sucedidos em competições, equipes de menor expressão estão fadadas a não repetir o desempenho, já que não haverá recursos para “segurar” seus principais atletas.

Ao mesmo tempo em que a fórmula fortalece as principais camisas do futebol brasileiro em relação às demais, ela não os favorece diante dos grandes ou mesmo médios da Europa. A associação com empresários e grupos econômicos que se tornam “parceiros” de clubes na aquisição de direitos federativos de atletas faz com que o lucro nas negociações de jogadores para o exterior diminua. E que não se culpe a Lei Pelé, resultado da adequação obrigatória da legislação brasileira ao fim da Lei do Passe, em função do caso Bosman. Como disse aqui o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, “a lei foi publicada em 1998 e entrou em vigor em março de 2001, ou seja, houve tempo para os clubes se prepararem, mas eles não o fizeram”.

É hora de os dirigentes de clubes assumirem suas responsabilidades. E de serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que fazem – ou deixam de fazer – pelo futebol.

“Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas”: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 22/01/2015

O glamouroso Fórum Econômico Mundial de Davos iniciou ontem e são previstas atividades até o próximo sábado. Todo ano os magnatas se juntam nos alpes para de discutir seus interesses e promover a imagem de suas empresas, aproveitando é claro pra dar os já desacreditados discursos de que possuem algum compromisso com o mundo que lhes cerca.

Enquanto isso, a desigualdade atinge níveis ainda mais alarmantes, as projeções da Oxfam – ONG especializada em estudos de riqueza e desigualdade – são de que em 2016 o 1% ultrapassará os 99% em riqueza absoluta, concentradíssima. Aqui no Brasil diversos analistas muito bem adestrados, defensores incondicionais da plutocracia, perdem tempo com críticas a presidenta por conta dela ter preferido a posse de seu colega e presidente da Bolívia, Evo Morales, ao Fórum dos privilegiados.

Para discutir a conjuntura internacional e os dilemas da economia neste ano ainda em início, entrevistei o doutor em economia pela Unicamp, Flavio Lyra. O heterodoxo Lyra duvida da capacidade do Fórum de dar respostas concretas aos problemas socioeconômicos atuais, faz pesadas críticas a guinada conservadora da política econômica nacional e crê que ela acarretará em recessão e desemprego.

Confira:

Diante dos novos rumos que o ministro Joaquim Levy tem dado a economia, o Brasil se aproxima ou afasta do Fórum de Davos? Quais são as vantagens e desvantagens de se alinhar aos ditames ortodoxos?

Tanto na teoria, quanto na prática o pensamento neoliberal está em profunda crise, pois já não consegue dar respostas minimamente convincentes para a grande e crescente concentração da riqueza e da renda no mundo e para a incapacidade das economias desenvolvidas de se manterem crescendo, haja vista a estagnação da Europa e do Japão e a, ainda,, indefinida situação dos Estados Unidos. O Forum de Davos vai ter que dar muitas cambalhotas para tentar desvencilhar-se do contundente discurso de Thomas Piketty, em seu já famoso “Capital no Século XXI”, que mostra claramente a forte propensão à concentração da renda e da riqueza no mundo. Isto num contexto de estagnação econômica.

O ministro Joaquim Levy e os ortodoxos que o cercam, meteram-se numa grande arapuca, porquanto, escravos de um pensamento econômico em crise, estão sendo chamados a dar resposta a problemas para os quais não estão preparados, pois o desgastado discurso da austeridade fiscal está desmoralizado pela experiência recente da Europa. Até parece que Dilma, agiu maquiavelicamente, ao entregar Levy a corda para ele se enforcar, pois não dá para vislumbrar nenhuma chance de recuperar o crescimento da economia brasileira com um choque fiscal que vá diminuir a demanda interna num momento de estagnação do comércio internacional e de baixa competitividade da indústria brasileira. Quando a crise se aprofundar, Levy corre o risco de ser enxotado pela mesma elite que ainda está batendo palmas por sua designação para o comando da economia. É uma questão de meses.

Os neoliberais mais espertos já estão preparando o discurso para se defenderem do fracasso do “arrocho fiscal”. Uns, como Monica de Bolle, já afirmam que é preciso maior abertura da economia, outros estão dizendo que é preciso realizar mais ajustes microeconômicos, sem o que a situação pode piorar. A verdade, é que já estão colocando os salva-vidas para quando o barco afundar. Se os economistas heterodoxos nos chegam a parecer confusos, por vezes, Os ortodoxos estão inteiramente perdidos, pois não sabem como conciliar os interesses do capital financeiro, aos quais são, indiscutivelmente, submissos e os interesses do capital produtivo crescentemente em dificuldades, face ao excesso de capacidade produtiva na economia internacional.

Como se explica o paradoxo entre o discurso de Dilma durante as campanhas e a prática adotada após a reeleição? Porque o governo deu uma guinada conservadora?

Não vejo uma resposta simples. Minha hipótese é que o grupo político que cerca a presidente percebeu que não havia clima político na sociedade para prosseguir com a orientação que vinha sendo adotada, embora se trate de uma orientação que procurava conciliar aspectos ortodoxos e heterodoxos da política econômica. Entregaram os anéis com medo de entregar os dedos. Uma interpretação maquiavélica, entretanto, não está fora de cogitação: na suposição de que o arsenal de política econômica ortodoxa vai agravar a crise, caberia aguardar o momento propício para retomar as políticas heterodoxas, sob as pressões da sociedade, insatisfeita com o agravamento da crise, Trata-se esta, porém, de uma aposta arriscada, pois o agravamento da crise pode muito bem ser atribuível à gestão de Dilma que, supostamente, não permitiria realizar todos as reformas neoliberais consideradas necessárias.

A presidenta Dilma preteriu o Fórum Econômico a fim de comparecer a posse do presidente boliviano, Evo Morales. O que indica essa atitude? Como podemos interpretá-la?

Dá para supor a intenção de não se comprometer com a política econômica que está sendo colocada em prática, por considerá-la com grande probabilidade de fracassar.

Quais são as perspectivas para a economia brasileira em 2015? É possível retomar o crescimento ainda esse ano?

O quadro recessivo só vai aprofundar com o aumento dos juros, o corte dos gastos públicos e a retração do BNDES. A inflação vai acelerar-se. Mas, tudo isto faz parte do manual neoliberal, que visa atingir o emprego e os salários, na esperança de melhorar a competitividade da produção industrial. Esperança vã, a meu ver, pois a queda da demanda interna vai aumentar os custos unitários.

A indústria brasileira será beneficiada pela subida do dólar? A retração tem chance de ser revertida?

Tenho dúvidas que o dólar vá se valorizar, principalmente agora que a Europa e o Japão vão afrouxar a política monetária para tentar sair da recessão. A recuperação da competitividade da indústria brasileira vai ter que ser buscada pelo aumento do investimento, a inovação tecnológica e a redução de custos dos serviços, inclusive de infraestrutura.

Quais são os efeitos do ajuste econômico que está entrando em vigor?

Vai produzir recessão e gerar um clima de protestos e acirramento dos conflitos entre grupos e classes sociais. Lamentavelmente, o presidente da Fiesp continua pleiteando a redução da carga tributária como a solução dos problemas da indústria.

A ONG Oxfam, especializada em estudos de desigualdade e distribuição de riqueza, afirma que em 2016 o 1% acumulará mais recursos que os 99% restantes da população. Como chegamos a esse ponto? Quando o bolo finalmente será distribuído?

Conforme mostra Thomas Piketty, em seu livro ” Capital no Século XX!”, não há como ser diferente enquanto o crescimento da renda do capital se der a taxa mais alta do que a taxa de crescimento econômico. Mantidas as instituições atuais a renda do capital alcança 5% ao ano, e o crescimento econômico médio, sequer se aproxima dessa taxa. As instituições na etapa atual do desenvolvimento capitalistas estão organizadas para privilegiar a valorização do capital financeiro.

Apesar de a desigualdade ser um tema cada vez mais pautado, pouco se vê de medidas práticas para combatê-la. O debate econômico precisa de mudanças? Que caminhos e ideias precisamos discutir mais?

Não vejo saída para questão da desigualdade, sem mudanças políticas importantes que reforcem a participação da população no poder e nas próprias organizações econômicas. Só o avanço democrático pode abrir espaço para tais mudanças.

O Fórum de Davos tem capacidade de enfrentar os dilemas da segunda maior crise do capitalismo? Porque?

Tenho seríssimas dúvidas! Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas, para reforçar o poder das grandes corporações internacionais no controle da economia mundial e no fortalecimento do capital privado internacional.

Ajuste fiscal é freio a mais na economia brasileira

Por Aline Salgado | Via Brasil Econômico

Analistas e representantes da indústria e do comércio apontam que minipacote de aumento de impostos deve desestimular ainda mais o consumo, já abalado pela alta da taxa Selic; pressionar a inflação; e gerar desemprego.

Rio – Além do mau-humor com que foi recebido por empresários, o ajuste fiscal anunciado na segunda-feira pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, deve gerar efeitos colaterais sobre o país, reduzindo, ainda mais, o ritmo de atividade econômica, com impactos sobre o mercado de trabalho. Para economistas e representantes do comércio e da indústria, o minipacote de aumento de impostos, que visa reforçar o caixa do governo para cumprir a meta de superávit fiscal, pressionará a inflação das famílias, os custos de produção para a indústria e reduzirá o consumo, refletindo-se em retração para o comércio.

Economista e professor da PUC-SP, Antônio Corrêa de Lacerda vê de forma contraditória a política de ajuste fiscal. Para ele, num momento em que a economia está debilitada, o aumento da alíquota de 1,5% ao ano para 3% ao ano do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) vai ampliar a restrição ao crédito e gerar efeitos em toda a economia, não só no comércio.

“Ao se contrair a demanda, vai-se frear ainda mais a economia, gerando uma recessão”, avalia Lacerda, destacando que setores ligados aos bens de consumo duráveis, seja no varejo ou na indústria, serão os mais impactados.

“É uma grande contradição, não estamos num momento de excesso de demanda para se restringir, ainda mais, o crédito, já impactado pela alta dos juros”, diz.

Já a professora da Coppead/UFRJ, Margarida Gutierrez acredita que o remédio para a economia brasileira é amargo, mas necessário para garantir o retorno da credibilidade ao país: “As medidas devem reduzir o nível de atividade econômica, com efeitos colaterais sobre a indústria e o comércio, e impactos sobre a inflação e o mercado de trabalho. Mas não tem jeito, são medidas que deveriam ser tomadas”, afirma a especialista, que projeta que o aumento da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico ) e do PIS-Cofins sobre combustíveis deve aparecer no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a partir de março.

O consumidor também sentirá o peso da alta de impostos no preço dos bens de consumo duráveis e semiduráveis. Além do preço do frete que deve subir, produtos que usam itens importados, como artigos de tecnologia de ponta, ficarão mais caros a partir do aumento da alíquota do PIS/Cofins sobre a importação. “É um conjunto de medidas recessivas. Retira-se R$ 20 bilhões da sociedade, num momento em que o nível de atividade é ruim. Pressiona-se preços e se afugenta investimentos, ao contrário do que se quer para elevar a confiança”, observa Altamiro Carvalho, assessor econômico da FecomercioSP.

Embora considere a necessidade de controle de inflação e ajuste fiscal, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) diz que o governo deveria se preocupar em atacar o aumento dos gastos públicos. “Num momento em que o PIB da indústria cai, é mais razoável buscar colocar um peso maior no setor público, que mostra crescimento real de despesa de até 10% ao ano”, considera Flávio Castelo Branco, gerente executivo de política econômica da CNI.