Arquivo mensais:janeiro 2015

Lava Jato: delator investigado pede perdão judicial

Via Correio do Brasil

O prazo para que os advogados dos demais acusados também apresentem resposta às acusações vence na semana que vem

A defesa de um dos delatores do esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato pediu à Justiça Federal perdão judicial. Os advogados do executivo Júlio Gerin de Almeida Camargo, ligado à empresa Toyo Setal, alegam que o acusado merece o benefício por ter ajudado a identificar pessoas e detalhes sobre os desvios de recursos na Petrobras.

Em resposta à abertura da ação penal contra Camargo, ocorrida em dezembro passado, a defesa reafirmou todas as declarações dele em depoimento de delação premiada firmado com o Ministério Público Federal (MPF). O executivo confirmou pagamento de U$ 30 milhões ao empresário Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, para intermediar a compra de sondas de perfuração para a Petrobras.

“Desta forma, procedem por completo os fatos narrados na denúncia oferecida nos presentes autos, por serem absolutamente fiéis às declarações prestadas por Júlio Gerin de Almeida Camargo em colaboração premiada e, ainda, aos documentos por ele apresentados”, declarou a defesa.

No termo de delação, Camargo afirmou que em 2005 atuou como agente da empresa Samsung para vender para a Petrobras duas sondas de perfuração de águas profundas na África e no Golfo do México. Para fechar o negócio, o delator disse que procurou Soares “pelo sabido bom relacionamento” dele na área internacional e de abastecimento da empresa, dirigidas à época por Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, respetivamente.

Na mesma ação penal são réus o ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró, o empresário Fernanado Baiano e o doleiro Alberto Yousseff. O prazo para que os advogados dos demais acusados também apresentem resposta às acusações vence na semana que vem.

A mídia brasileira está usando o sangue do Charlie em causa própria

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Enquanto isso, no Brasil…

Um jornalista britânico pergunta, no Independent, se haveria a mesma comoção se o atentado contra o Charlie Hebdo tivesse como alvo uma publicação de extrema direita.

Respondo com uma pergunta.

Alguém consegue imaginar uma marcha, no Brasil, que congregue pessoas emocionalmente arrasadas que segurem cartazes que digam: “Sou a Veja?” Ou mesmo: “Sou a Globo?” Ou ainda: “Sou a Folha?”

Ou indo para pessoas físicas. Feche os olhos e veja multidões com cartazes assim: “Eu sou Jabor”. Ou: “Eu sou Merval”. Ou: “Eu sou Reinaldo Azevedo”. Ou: “Eu sou Sheherazade”.

A direita tem poder e dinheiro, mas não comove ninguém. Não muito tempo atrás, festas nas ruas celebraram na Inglaterra a morte de Margaret Thatcher.

Testemunhei uma delas, em Trafalgar Square, berço da majestosa coluna de Nelson, o almirante que impôs a primeira grande derrota à França de Napoleão.

As grandes empresas de jornalismo do Brasil e seus porta-vozes – os reais chapas brancas da mídia — são o exato oposto do Charlie. Defendem um mundo de privilégios que provocava vômitos mentais nos cartunistas mortos.

Isso não tem impedido a mídia brasileira de usar a tragédia do Charlie, cinicamente, em causa própria.

O sangue dos cartunistas franceses vem sendo utilizado sobretudo para barrar a discussão em torno da regulação da mídia no Brasil.

A liberdade de expressão pela qual morreram os jornalistas do Charlie seria, aspas, e pausa para uma gargalhada, ameaçada pela regulação.

Já que falamos de Nelson, evoquemos também Wellington, o herói inglês de Waterloo: quem acredita nisso acredita em tudo.

A “liberdade de expressão” pela qual se batem as empresas jornalísticas brasileiras pode ser resumida assim: vale tudo para defender os próprios privilégios.

Você pode assassinar reputações sem prova e sem consequências jurídicas. Você pode usar concessões públicas como rádios e tevês como arma de propaganda contra ideias e pessoas que representam ameaças, reais ou imaginárias, às mamatas. Você pode concentrar o direito à opinião em quatro ou cinco famílias. Você pode formar monopólio impunemente.

Você pode tudo, em suma – e sem contrapartida. Numa disputa com dois barões da mídia na década de 1930, o então premiê britânico Stanley Baldwin produziu uma frase ainda hoje amplamente citada no Reino Unido.

Depois de dizer que os jornais de ambos eram na realidade “máquinas de propaganda” para servir a interesses pessoais, e não públicos, Baldwin afirmou: “O que os donos desses jornais querem é poder, mas poder sem responsabilidade, coisa que no correr dos tempos tem sido o atributo das marafonas.”

De Baldwin para cá, a opinião pública inglesa esteve constantemente vigilante em relação aos barões da mídia.

O último deles, Rupert Murdoch, virou um pária social depois que os ingleses souberam os métodos que um jornal seu empregava para obter furos.

Sob a fúria da opinião pública, Murdoch foi obrigado a fechar o jornal, e jamais voltou a ter um vestígio do poder e da influência que tivera na Inglaterra.

Ainda em consequência do escândalo, a Inglaterra se pôs a discutir, prontamente, uma nova regulação da mídia. Os detalhes finais estão sendo elaborados, mas essencialmente foi decretado o fim da auto-regulação por ter se provado pateticamente ineficaz.

No Brasil, não chegamos ainda, neste terreno, aos anos 1930 de Baldwin.

Que presidente brasileiro ousou dizer a barões – e à sociedade, principalmente — as verdades que Baldwin disse?

Diversos ocupantes do Planalto não apenas silenciam como patrocinam os barões com o Bolsa Imprensa, o dinheiro público farto e constante que sempre abastece as grandes empresas na forma de publicidade federal.

É esse estado de coisas que a mídia está defendendo mais uma vez, com o caso do Charlie – e não, não e ainda não a “liberdade de expressão”.

Prisão de Mirian França é revogada

Via Brasil de Fato

Arquivo/Facebook

Farmacêutica é acusa pela morte de italiana, em dezembro; Mobilizações contra prisão tomaram as redes sociais acusando a polícia de racismo; A carioca não poderá se ausentar do Ceará pelo prazo de 30 dias.

Após analisar informações divulgadas pela polícia, o juiz José Arnaldo dos Santos Soares, da comarca de Jijoca, de Jericoacoara (Ceará), revogou a prisão temporária da farmacêutica Mirian França, na manhã desta terça-feira (13).

Doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Instituto de Microbiologia, Mirian estava presa há 14 dias, na Delegacia de Capturas e Polinter (Decap), acusada pelo assassinato da italiana Gaia Molinari, no dia 26 de dezembro.

Primeiramente tratada como testemunha do crime, Mirian passou a ser acusada após, segundo a polícia, contradições em seu depoimento. A delegada Patrícia Bezerra pediu a prisão preventiva da carioca argumentando que o retorno de Miriam ao Rio de Janeiro “inviabilizaria a continuidade das investigações”.

Redes Sociais

As mobilizações contra a prisão da farmacêutica tomaram as redes sociais. Na última sexta-feira (9), por exemplo, diversos movimentos lançaram uma nota pública pedindo sua liberdade e acusando a polícia de fazer julgamento antecipado de Miriam por ela ser negra. “A prisão de Miriam fere o Princípio Constitucional da presunção de inocência (art. 5º, LVII, CF)”, afirma a nota.

Também na sexta-feira (9), cerca de 30 pessoas protestaram na frente da delegacia. Em entrevista ao G1, a assistente social e integrante do Instituto Negra do Ceará e do Fórum Cearense de Mulheres, Francisca Sena, disse que Miriam sofre de racismo. “Existem outras suspeitas, as outras pessoas não estão presas. Há um racismo institucional praticado pela polícia de um modo geral”.

De acordo com a decisão, a farmacêutica não poderá se ausentar do Ceará pelo prazo de 30 dias.

Como Barack Obama pode pôr fim às sanções econômicas contra Cuba

Por Salim Lamrani | Via Opera Mundi

Embargo econômico atinge não somente comércio, mas também área da saúde em Cuba. Efe

Desde 1996, o Congresso dos Estados Unidos é o único que pode eliminar o estado de sítio contra Cuba; mas o presidente Obama pode obrigá-lo a fazer isso…

Desde a adoção a lei Helms-Burton, em 1996 — uma aberração jurídica por seu caráter extraterritorial e retroativo, que agrava as sanções econômicas contra a população cubana — o Presidente dos Estados Unidos já não dispõe da faculdade executiva para pôr fim ao estado de sítio econômico anacrônico, cruel e contraproducente — segundo as palavras do próprio Barack Obama. De fato, só o Congresso pode acabar com uma política hostil condenada pela imensa maioria da comunidade internacional, pela opinião pública estadunidense, pela comunidade cubana da Flórida e, sobretudo, pelo mundo dos negócios dos Estados Unidos.

A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que representa o mundo dos negócios e cerca de três milhões de empresas, pediu aos responsáveis políticos, tanto ao governo como ao Congresso, que adotassem uma nova política em relação a Havana. Segundo seu presidente, Thomas Donohue, “é tempo de eliminar as barreiras políticas que foram estabelecidas há muito tempo e apagar nossas diferenças. Isso é do interesse do povo americano e das empresas americanas”.

Em seu discurso histórico, de 17 de dezembro de 2014, no qual anunciou o restabelecimento das relações com Cuba depois de mais de meio século de ruptura, o presidente estadunidense chamou o Congresso a optar por um novo enfoque em relação a Havana. “Peço que o Congresso abra um debate sério e honesto sobre o cancelamento do embargo”, declarou Obama.

Na realidade, o presidente Obama dispõe de uma forma bastante simples de acelerar o fim do estado de sítio econômico que afeta todas as categorias e todos os setores da sociedade cubana e que constitui o principal obstáculo para o desenvolvimento da ilha. Basta permitir que os cidadãos estadunidenses viagem para Cuba como turistas ordinários. Atualmente, os cidadãos dos Estados Unidos podem viajar para qualquer país do mundo, inclusive para a China, o Vietnã ou a Coreia do Norte, mas seu governo não lhes permite ainda que descubram a ilha do Caribe.

Ao romper essa barreira que separa os dois povos, Barack Obama permitiria, segundo as estimativas, que mais de um milhão de turistas estadunidenses viajassem a Cuba pela primeira vez. Essa cifra superaria os cinco milhões de pessoas anuais ao cabo de 5 anos, já que Cuba é um destino natural por razões históricas e geográficas evidentes. Assim, se abriria um imenso mercado para as companhias aéreas estadunidenses, para a indústria do transporte ou as agências de viagens, sem falar nos demais setores vinculados ao turismo massivo. Hoje, somente 90 mil cidadãos estadunidenses — fora os cubano-americanos — visitam Cuba todo ano por razões profissionais, acadêmicas, culturais, humanitárias ou esportivas, dentro das licenças concedidas pelo Departamento de Estado.

O fluxo massivo de turistas para Cuba seria benéfico para a economia cubana, cujos recursos dependem, em grande parte, desse setor, mas também para a economia estadunidense. De fato, os produtores agrícolas estadunidenses seriam também grandes ganhadores de um recomeço do turismo entre ambas as nações e seria solicitado para alimentar os milhões de novos visitantes, já que Cuba importa a maior parte de suas matérias-primas alimentícias. Com a autorização do turismo ordinário para Cuba, o mundo dos negócios não deixaria de pressionar os membros do Congresso, cuja carreira política depende, em grande parte, dos financiamentos privados que recebem por parte das empresas, para que colocassem definitivamente um fim às sanções econômicas contra Cuba, que o priva de um mercado natural de 11.2 milhões de habitantes e potencialmente de 10 milhões de turistas procedentes de todo o mundo. Cuba acaba de superar os três milhões de turistas no ano de 2014.

Em um primeiro momento, o presidente Obama poderia dar ordens ao Departamento do Tesouro para não perseguir cidadãos estadunidenses que não estivessem enquadrados no estabelecido pela administração e viajassem para Cuba, já que as sanções econômicas que se aplicam aos que se arriscam a fazer uma viagem sem permissão, por meio do Canadá ou do México, são bastante dissuasivas. Isso teria como efeito flexibilizar as viagens de turistas para Cuba e — sobretudo —, reparar uma anomalia jurídica, uma vez que essa proibição viola a Constituição dos Estados Unidos, que defende o direito de mover-se livremente.

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Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, 2014, com prólogo de Eduardo Galeano.

Combate à inflação não deve ficar restrito a juros, alerta Dieese

Aumento da inflação atrapalha trabalhador e empresário, mas juros altos são remédio amargo e pouco eficiente, afirma coordenador do instituto.

IPCA fecha 2014 em 6,41%, mas dentro do teto da meta de 6,5% estabelecida pelo governo

São Paulo – Em comentário à Rádio Brasil Atual, o coordenador do atendimento sindical do Dieese, Airton Santos, fala sobre os números consolidados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que fechou em 6,41% em 2014. O índice do IBGE é a medida oficial de inflação e baliza a política monetária do governo.

Para Airton, tais números fazem acender uma ‘luz amarela’, pois, nos últimos anos, o índice se aproxima cada vez mais do teto da meta, de 6,5%, fixada pelo governo, além do histórico traumático de inflação em décadas passadas. “É algo que o governo deve se preocupar, e não só o governo como toda a sociedade.”

O coordenador do Dieese explica que a inflação é uma anomalia do sistema econômico e prejudica trabalhadores e empresários. Para o trabalhador, “quanto maior a inflação, maior a corrosão do salário, menos ele pode comprar ao fim do mês na medida em que a inflação é alta” e “também não é bom para o planejamento das empresas porque não se tem ideia de precificação, de planejamento, portanto”.

O governo já sinaliza preocupação e deve adotar políticas fiscais e monetárias de contenção, mas Airton espera que tais medidas não fiquem restritas à elevação das taxas de juros, pois já se mostraram insuficientes e ainda atrapalham o desenvolvimento do país.

“Taxas de juros altos levam a menos consumo e, por consequência, a menos investimento. Menos consumo e menos investimento induzem a menos produção e, por consequência, menos emprego”, alerta Airton Santos.

Ouça a entrevista completa na Rádio Brasil Atual.

Feliz ajuste fiscal

Por Luiz Gonzaga Belluzzo | Via Carta Capital

A identidade fugidia do patrimonialismo no Brasil hoje pode ser desvendada na fiscalidade.

Joaquim Levy manifestou sua rejeição ao “patrimonialismo”, subsídios e favorecimentos a determinados setores da economia. Agência Brasil

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, manifestou sua rejeição ao patrimonialismo. O ministro utilizou o conceito para designar a concessão de incentivos, subsídios e favorecimentos a determinados setores da economia.

Na raiz da rejeição, está a concepção da economia competitiva: povoado por indivíduos racionais e otimizadores, o mercado, sem favores ou barreiras, tem a virtude de gerar os incentivos adequados ao crescimento econômico e para a elevação do bem-estar da comunidade. Nessa visão, mesmo com a economia resvalando para a recessão, o equilíbrio intertemporal das contas públicas é condição para o crescimento econômico saudável. É o que tenta há cinco anos a Europa da senhora Merkel.

Vamos ao patrimonialismo. O leitor certamente conhece o livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, uma aventura intelectual na busca do desvendamento das raízes patrimonialistas da sociedade e do Estado no Brasil. O livro de Faoro não é de fácil leitura. A obra não investiga apenas os caminhos e descaminhos do patrimonialismo brasileiro. Avança, sim, na perquirição a respeito das origens luso-colonial-mercantilistas do patrimonialismo nativo. No fim do percurso encontra a encruzilhada weberiana: o patrimonialismo tupiniquim junta-se ao fenômeno universal do “patrimonialismo capitalista”.

O capitalismo realmente existente na Inglaterra liberal do século XIX surgiu das entranhas dos privilégios mercantis. No século XVIII, às vésperas da Revolução Industrial, diz Eric Hobsbawm, a Inglaterra era comandada pela aristocracia enriquecida na esfera financeira e mercantil. Prevaleciam os grandes comerciantes, banqueiros e negociantes de dinheiro, concentrados em Londres. Os industriais manchesterianos auferiam rendimentos muito inferiores àqueles obtidos pelos mercadores e financistas. Ainda mais ricos e influentes do que os empresários da indústria eram os que se valiam de privilégios e sinecuras: soldados, magistrados, todos incluídos na rubrica de “offices in profit of the crown”.

Os privilégios sobreviveram à Revolução Industrial. Metamorfoseados no poder da finança internacionalizada da City londrina, decretaram o destino econômico da Inglaterra, logo suplantada pela escalada das industrializações retardatárias. Os retardatários usaram e abusaram de subsídios e privilégios: protecionismo nos Estados Unidos, dirigisme na França e íntimas ligações entre o chanceler Bismarck, a burocracia Junker e o banqueiro-lobista Bleichröder, na Alemanha.

No Brasil, o patrimonialismo capitalista vestiu muitas máscaras ao longo da história, mas hoje sua identidade fugidia pode ser desvendada na fiscalidade. Vamos enveredar pela estrutura tributária e de gasto para entender o caráter regressivo e concentrador dos juros de agiota sobre dívida pública.

Entre 1995 e 2011, o Estado brasileiro transferiu para os detentores da dívida pública, sob a forma de pagamento de juros reais, um total acumulado de 109,8% do PIB. Se avançarmos até 2014, essa transferência de renda e riqueza chega a 125% do PIB. Isso significa atirar ao colo dos detentores de riqueza financeira, ao longo de 19 anos, um PIB anual, mais um quarto. É pelo menos curioso que os idealizadores do “impostômetro” não tenham pensado na criação do “jurômetro”.

É possível alinhavar algumas cifras para apontar os perdedores e ganhadores do jogo. Para tanto, vou recorrer ao excelente estudo da professora Lena Lavinas, A Long Way from Tax Justice: The brazilian case.

Nesse caso, como em outros, há brasileiros e brasileiros. Em 2011, a carga tributária bruta chegou a 35,31% do PIB. No Brasil os impostos indiretos, como o IPI e o ICMS, representam 49,22% do total da carga tributária. Como se sabe, esses impostos incidem sobre os gastos da população na aquisição de bens e serviços, independentemente do nível de renda. Pobres e ricos pagam a mesma alíquota para comprar o fogão e a geladeira, mas o Leão “democraticamente” devora uma fração maior das rendas menores. Os chamados encargos sociais representavam 25,76% da carga total e o ônus estava, então, distribuído entre empregados e empregadores.

Já o Imposto de Renda contribui com parcos 19,02% para a formação da carga total, enquanto os impostos sobre o patrimônio são desprezíveis, sempre empenhados a beneficiar a riqueza imobiliária e financeira dos mais ricos. As estimativas sobre a distribuição da carga tributária bruta por nível de renda mostram que ,enquanto os que ganham até dois salários mínimos recolhem ao Tesouro 53,9% da renda, os que ganham acima de 30 mínimos contribuem com 29,0%. “A quem tem, mais se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que quase não tem, até o que tem lhe será tirado.” Feliz ajuste fiscal.

PM reprime ato do Passe Livre com violência

Por Fausto Salvadori Filho, Luís Adorno e Paulo Eduardo Dias | Via Ponte

Passeata contra aumento de tarifa seguia pacífica até um grupo de black blocs depredar um banco. A reação da polícia veio na forma de porrada e bomba contra todos os manifestantes e quem mais estivesse na rua.

O primeiro grande ato do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo desde as Jornadas de Junho de 2013 reuniu ontem pelo menos 5 mil pessoas e se manteve pacífico durante uma hora. A maré virou depois que um grupo de dezenas de black blocks depredou uma agência bancária. A reação da Polícia Militar veio na forma de balas de borracha, cassetadas e bombas de gás lacrimogêneo contra todos os manifestantes e quem mais estivesse na rua.

Tudo começou em paz. As revistas sistemáticas de todos os participantes do protesto, anunciadas dois dias antes pelo comandante da operação, o major Larry Almeida Saraiva, não aconteceram. A maioria dos participantes do ato, que pedem o fim do aumento das tarifas de transporte público, que subiram de R$ 3 para R$ 3,50, não teve problemas para se concentrar diante do Theatro Municipal, no centro da cidade.

Ali, uma assembleia com todos os manifestantes definiu o trajeto que seria percorrido pela passeata. Duas integrantes do MPL apresentaram o plano para o major Larry, que elogiou a postura dos ativistas. “Sabemos o caminho e isso facilita. Já estamos abrindo caminho por onde vamos passar. Estamos em diálogo com o movimento”, afirmou na saída do ato. Fazia sol e calor. Era a primeira vez na semana que uma tarde terminava sem chuva, e crianças andavam de skate e plantavam bananeira diante dos “robocops” da PM.

A marcha deixou o Theatro Municipal às 18h10 e subiu a Rua da Consolação em direção à Avenida Paulista. Pelas contas da PM, havia cerca de 5 mil manifestantes. O movimento contabilizou 30 mil. Destes, cerca de 200 eram black blocs, que acabariam dando início à violência. A Polícia Militar reuniu cerca de 800 homens, incluindo a Tropa de Choque e policiais deslocados de batalhões da zona norte e sul.

“Não estudou, virou gambé”

Na Consolação, o protesto inicialmente fechou a rua apenas no sentido Paulista, conforme alinhado entre o movimento e a polícia. Próximo ao Cemitério da Consolação, contudo, um grupo de manifestantes mascarados tentou bloquear a rua no sentido centro, gritando: “você aí do lado, também é explorado!”. PMs da Força Tática fizeram uma barricada humana, com escudos, para forçar os manifestantes a voltar para o outro sentido da rua. O MPL bem que pediu para que todos obedecessem, mas não teve jeito. O grupo de mascarados voltou a invadir a pista sentido centro e espalhou sacos de lixo na rua para bloquear o trânsito.

“A polícia começou a jogar bomba aleatoriamente e a gente ficou encurralada”

A tensão subiu quando parte dos manifestantes começou a xingar os PMs que acompanhavam o ato de “assassinos” e a puxar palavras de ordem que diziam “é, é, é não estudou virou gambé” e “não estudou, tem que estudar, pra não virar Polícia Militar”, além de “coxinha, libera minha farinha” e “coxona, libera minha maconha”.

O protesto pacífico terminou quando a marcha começou a chegar na Avenida Paulista, onde a PM havia montado nova barricada, com a Tropa de Choque e o carro blindado Centurion, por volta das 19h30. A maioria dos manifestantes nem chegou à Paulista. Nesse momento, black blocs atearam fogo em sacos de lixo e quebraram as vidraças de uma agência do banco Santander, na Consolação. Os policiais reagiram atirando bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral e disparando balas de borracha.

Em nota, a PM afirma que usou “técnicas de dispersão” para “conter aquelas pessoas que, lamentavelmente, agrediram policiais a pedradas, além de atacar estabelecimentos comerciais, bancos e veículos do transporte público”. Para quem estava na rua, a repressão não pareceu tão técnica. O alvo dos policiais foi muito além dos black blocs, atingindo todos os manifestantes e pessoas que passavam pela rua. “A polícia começou a jogar bomba aleatoriamente e a gente ficou encurralada na Consolação, sem ter para onde correr”, contou a estudante Ariane Oliveira, 19 anos, enquanto seu nariz sangrava por causa do gás lacrimogêneo e recebia um curativo de um dos voluntários da passeata.

Em fuga, as pessoas se escondiam dentro de bares e lojas que baixavam as portas de ferro. As estações Consolação e Trianon-Masp foram fechadas. Na avenida Angélica, manifestantes depredaram uma agência do Banco do Brasil e botaram fogo em lixo na rua. Concessionárias de veículos na Rua Augusta também tiveram os vidros quebrados.

Vidro e sangue

Enquanto black blocs quebravam vidros, a polícia derramava sangue. O fotógrafo freelancer Felipe Malavasi Bruno levou um tiro de bala de borracha na virilha. Sua namorada, Victoria Kaherine Silva, 16 anos, disse que ele se identificou como fotógrafo antes de ser baleado: “Ele levantou a câmera para dizer que estava a trabalho, mas mesmo assim miraram e atiraram nele”.

A estudante Fernanda Barreto, 19 anos, conta que entrou com um grupo de manifestantes numa padaria para fugir do gás lacrimogêneo e lavar o rosto. Ao ver a polícia agredindo pessoas nas ruas, começaram a gritar “polícia fascista”. “Os PMs entraram na padaria, puxaram meu namorado e começaram a arrebentar ele com cassetete. Fui entrar no meio e apanhei”, disse Fernanda, mostrando vergões vermelhos nas coxas, braços e embaixo no queixo.

Feridos rodaram por duas horas dentro dos ônibus da PM até serem levados para delegacia.

Não parou por aí. “Eu comecei a olhar para o policial que tinha me batido e perguntar se ele não tinha coração. Outro PM me perguntou se eu estava encarando o policial porque queria dar a boceta para ele”, disse Fernanda. Ela disse ser contra as táticas violentas dos black blocs. “Eu parto do princípio de que, se está depredando, tem que ser detido. Mas eu não joguei pedra em ninguém. Nem eu, nem meu namorado.”

Tanto o namorado de Fernanda, Silas Rodrigues, quanto o fotógrafo Felipe, baleado na virilha, estavam entre os 51 detidos pela polícia. Além de Felipe, havia outros três feridos entre as pessoas presas, que passaram duas horas rodando em dois ônibus da PM antes de finalmente serem levados ao 78º DP, nos Jardins. Eles foram ouvidos e liberados na madrugada de hoje. Não há informação de PMs feridos.

Na nota emitida logo após o ato, o MPL não reconheceu a responsabilidade do grupo de manifestantes mascarados que deu início à violência e culpou apenas a polícia. “Quando a marcha subia a rua da Consolação, a PM iniciou a repressão, prendendo um grupo de manifestantes”, afirma a nota, omitindo que os manifestantes haviam depredado uma agência bancária. O texto afirma que “os governos deixam sua resposta à justa reivindicação popular contra a tarifa: longe de discutir a revogação dos aumentos que decretaram, Alckmin e Haddad respondem só com violência” e convoca para um segundo ato, na próxima sexta-feira (16).

A Polícia Militar respondeu à nota do movimento, afirmando que “lamenta que, por meio do silêncio, o Movimento Passe Livre (MPL) endosse os atos de vândalos que depredaram o patrimônio público e privado”.