Billings, a solução de Alckmin para a crise ao sabor do improviso

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Por Cíntia Alves | Via Jornal GGN

Represa foi protejada nos anos 30 para abastecer uma usina de energia. Depois, teve seu uso como receptáculo de esgoto intensificado. Hoje, ao sabor do improviso, é a menina dos olhos do governador.

Nesta terça-feira (27), o engenheiro Paulo Massato, diretor da Sabesp, veio a público com um plano de rodízio drástico. A população da Grande São Paulo, em função do colapso dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, corre o risco de ficar até cinco dias por semana sem água.

Segundo o executivo, o racionamento será implementado em três hipóteses.

1- Se as chuvas nos principais mananciais seguirem abaixo da média – e tem tudo para acontecer, visto que já estão aquém do esperado há pelo menos nove meses.

2- Se as obras que aumentarão a produção de água não ficarem prontas a tempo. Só não se sabe se a seca vai aguardar até 2016 ou 2018, primeiras previsões.

3- Se o plano de usar o que há de despoluído na Billings, intenção confirmada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) na última semana, não for viável. Mas que plano?

Alckmin não detalhou o que a Sabesp pretende com a Billings. Até agora, o que se sabe é que o uso imediato dessa represa é improvável. Isso porque metade da água que consta no reservatório artificial que é a Billings é fruto de esgoto e problemas com assoreamento. A parte relativamente limpa da bacia (os braços Taquacetuba e Rio Grande) já abastece um pedaço de São Paulo, do ABC Paulista e da Baixada Santista, e está no limite.

Não exatamente por falta de água, segundo explicou ao GGN o secretário de Gestão Ambiental de São Bernardo do Campo, João Ricardo Guimarães, em entrevista realizada em maio de 2014 (época em que Alckmin revelou pela primeira vez a intenção de usar a Billings). Mas sim porque, nos últimos anos, nenhuma estação de tratamento de água foi construída com o intuito de aproveitar o potencial da represa. Esperaram a crise chegar para enxergá-la como solução?

Hoje, ao sabor do improviso, a represa é a menina dos olhos de Alckmin. Na semana passada, inclusive, o tucano até mandou um recado ao governo federal: “Tire as mãos do meu brinquedo!”

O episódio foi contado por um periódico regional que teve acesso exclusivo a uma planilha da Sabesp com números que irritaram o governador. Em matéria atacando o governo federal, o Diário do Grande ABC cravou que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), “órgão ligado ao governo federal”, descumpriu um acordo com Alckmin e retirou, ao longo de três dias, mais água do que poderia da Billings, “apenas para produzir energia” em Henry Borden. Lei federal sustenta que em caso de crise de abastecimento, o uso de água para consumo se sobrepõe ao uso para produção de energia.

Consta na história da Billings que ela foi projetada nos idos de 1930 para servir à usina Henry Borden, não para produção de água para consumo. A usina impulsionou o desenvolvimento industrial de São Paulo e, depois, foi abandonada. Billings, por sua vez, virou, em parte, manancial para atender a uma franja de pessoas na Grande São Paulo e, em outra parte, tratamento de esgoto.

É o que afirma o engenheiro e sanitarista Roberto Kachel (que acumula 30 anos de experiência na Sabesp). Ele lembra que sempre que chove muito na capital, as águas dos rios Tietê e Pinheiros são revertidas para a Billings, para evitar enchentes. “A última vez que esse sistema foi acionado foi no verão de 2010 para 2011, quando deu aquelas enchentes no Cantareira. Ai, que saudade!”, brincou Kachel.

O governo estadual, segundo Guimarães, também dificulta os planos de recuperar a Billings combatendo as moradias irregulares em áreas de mananciais. Mesmo que o governo federal disponibilize mais recursos para construção de casas populares, os órgãos de licenciamento do Estado não superaram as burocracias que retardam o processo. Essa é uma discussão que existe ao menos desde o final da gestão de José Serra (PSDB), e pouco evoluiu.

Para Kachel, é difícil imaginar, agora, como Alckmin vai conseguir explorar o que tem de explorável na Billings em caráter emergencial. Segundo ele, o governo “já leva água da Billings ao sistema Guarapiranga por meio do braço Taquacetuba”, e não faz pouco tempo, não. “A reversão do braço Taquacetuba para o Guarapiranga existe desde 2000, apesar de Alckmin se apropriar do feito como se fosse uma novidade ou solução para a crise.”

Além disso, “a distância mínima entre os dois melhores pontos para levar água da Billings ao sistema Alto Tietê é de 40 quilômetros. (…) Do jeito que o Alckmin fala, parece que construir uma valetinha vai resolver o problema, que até o final do ano vai conseguir. Isso é crime contra o povo”, acrescentou Kachel.

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