Pequim desloca Washington na América Latina

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Por Cesar Fonseca | Via Independência Sul Americana

A expansão monetária americana que exerce pressão inflacionária, na América do Sul, por meio de guerra monetária,responsável por gerar déficit público como produto do aumento dos juros, para enxugar liquidez que eleva dívida interna e risco econômico, entram em choque com governos sul-americanos nacionalistas, dispostos a melhorar distribuição da renda que essa guerra monetária bloqueia. Em cena o ataque midiático ao nacionalismo.

250 bilhões de dólares é o que a china promete para a América Latina nos próximos anos. Comércio entre China e região pode alcançar 500 bilhões de dólares. É o novo cenário da geopolítica global que avança ao largo do dólar.

A China está se aproximando da América Latina, rapidamente, por meio de concessão de empréstimos a prazos longos e juros baixos, para servir de anteparo ao perigo de aumento da taxa de juro americana, previsto, antecipadamente, pelo BC dos EUA, para acontecer ainda no primeiro semestre de 2015.

As consequências desse movimento macroeconômico do império americano serão sucateamento industrial na periferia capitalista e desmobilização de patrimônios nacionais, privatizações, com avanço das multinacionais na economia nacional etc, acelerando processos de oligopolização etc.

A expansão monetária americana, acelerada depois da crash capitalista de 2007-2008, responsável por exportar inflação dos Estados Unidos para a periferia capitalista, obrigando-a endividar-se por meio do aumento dos juros internos, de modo a enxugar excesso de liquidez advinda de fora para dentro, desorganizando políticas fiscais nacionais, representa o grande perigo para toda a América do Sul e Caribe.

Dispondo de apoio financeiro chinês, as economias sul-americanas terão alternativa aos empréstimos sob condicionalidades draconianas ao estilo dos praticados pelo FMI, sempre que pintam desorganização periférica nos balanços de pagamentos em conta-corrente. Se o apoio chinês chega em paralelo, como está ocorrendo em relação à Venezuela e ao Equador, cria-se outra conjuntura alternativa ao garroteamento produzido pelo império americano na América do Sul, do tipo que já aconteceu em ocasiões anteriores, como, por exemplo, nos anos 1980, introduzindo, na sequência, as estratégias imperialistas do Consenso de Washington.

O avanço chinês, que se desenha nas relações China e América Latina, esboçadas na reunião em Pequim com os representantes dos países da CELAC – Comunidade dos Estados Latino-americanos e do Caribe -, semana passada, cria outro cenário para as relações internacionais da América do Sul.

A expansão inflacionária produzida pela guerra monetária americana é, sem dúvida, a grande produtora de desajustes fiscais, que os credores dos países do continente querem sejam atacados pelos remédios que Joaquim Levy, no Brasil, está receitando, com consequências perigosas, paralisantes, para as forças produtivas, como alerta o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE).

Por que o BNDES não acelera aproximação com a China, para formação de uma providência binacional Brasil-China, voltada à alavancagem de investimentos em infraestrutura na América do Sul, o mais urgente possível, lançando as bases financeiras do Banco do Sul? Seria o fortalecimento prático dos BRICS no continente sul-americano, criando e expandindo expectativas desenvolvimentistas, em vez de se deixar envolver pelo discurso de Washington, favorável aos ajustes fiscais draconianos à lá Levy que destruirão, se implementados, as bases produtivas sul-americanas.

Como sempre a grande mídia brasileira está de costa para a América Latina.

Não se viu nenhuma matéria de peso, nenhum comentário mais abrangente, sobre a reunião do governo chinês com os países integrantes da CELAC em Pequim.

Não seria desdobramento da nova geopolítica global colocada em cena pelos BRICS, com a China de ponta de lança, abrindo novas picadas para a expansão chinesa, com vista à construção da infraestrutura sul-americana, com recursos possíveis do Banco BRICS, a serem contabilizados mais à frente, enquanto são entabuladas negociações nesse sentido?

Durante o encontro, os chineses anunciaram empréstimos de 20 bilhões de dólares à Venezuela, que, como se sabe, enfrenta grandes dificuldades advindas da queda do preço do petróleo, responsável maior por gerar déficits em conta corrente do balanço de pagamento venezuelano.

Sabe-se, também, que foram acertados empréstimos entre China e Equador, bilhões de dólares, com prazo de 30 anos para pagar a juros de 2% ao ano.

Certamente, os chineses estão desovando, na América do Sul, parte dos dólares das suas reservas trilionárias, acumuladas no período de vacas gordas, quando a economia chinesa estava, praticamente, toda voltada para as exportações, mediante juro barato e câmbio desvalorizado, favorecendo instalação de multinacionais na China, com compromisso de exportações etc.

As reservas chinesas estarão, acelerando, investimentos em infraestrutura na América do Sul, como já está fazendo na África, bem como atua, na Europa, desovando-as em troca de ativos poderosos, no momento em que a economia europeia padece de forte queda da taxa de lucro por conta do excesso de capital acumulado, sinalizando deflação.

Seria mais do que conveniente, nesse momento, apressar funcionamento do Banco do Sul, de modo a recepcionar os dólares chineses, fugindo do perigo de desvalorização forte do dólar, se a estratégia monetária americana, de inundar a praça mundial, der com os burros nágua, mediante impossibilidade de Washington enxugar o meio circulante, via puxada forte nos juros, sob pena de agravar, ainda mais, a crise mundial.

Esse dinheiro, o das reservas chinesas, iriam, claro, para tocar a infraestrutura, por intermédio de reconversão monetária, adquirindo a cara das moedas locais, para comprar/importar mercadorias chineses, cotadas em yuan.

Essa prática já está em andamento nas relações comerciais entre China e Rússia e tende a ser incrementada, também, entre China, Rússia e Índia, de acordo com o avanço das relações diplomáticas verificadas entre eles na segunda metade de 2014.

Esse movimento de aproximação China e Rússia acelerou-se como providência capaz de ajudar a Rússia, depois que Estados Unidos e Europa – Inglaterra, França e Alemanha – intensificaram bloqueio comercial aos russos por conta da geopolítica de Putin, de reagir ao golpe de estado, na Ucrânia, financiado pela Otan, invadindo a Crimeia e deixando os europeus sob perigo de cortes de energia e petróleo importados da economia russa.

A China, nesse momento, atua para fortalecer a Rússia e estica a sua ação cooperativa à América do Sul, cujos governos nacionalistas estão sob ataques de Washington, cujo espírito cooperativo no continente encontra-se totalmente arrefecido por parte dos agentes financeiros americanos, como o BID e o Banco Mundial, carentes de recursos, para atender as demandas sul-americanas.

A onda política nacionalista sul-americana favorece, portanto, a penetração chinesa na América do Sul, enquanto Washington não cair na real quanto à mudança na correlação de forças, no continente, que remove as forças antes sua aliada.

Atua contra Washington, na reaproximação com a América do Sul, dominada pelo pensamento nacionalista, as ameaças do Banco Central dos Estados Unidos de aumentar a taxa de juro para enxugar o excesso de liquidez em dólar.

O BC americano está criando expectativas negativas, em escala crescente, especialmente, porque pratica, ainda, política monetária expansionista que aumenta taxa de juro na periferia capitalista como reação à ameaça hiperinflacionária decorrente da enxurrada de dólares que entra devido à insuficiência de controle à livre circulação de capital a economia nacional.

É por isso que os banqueiros querem a sustentação do câmbio flutuante: enchem de dólares a circulação interna que pressiona a inflação, obrigando o governo a adotar, igualmente, as metas inflacionárias, ao lado dos superavit primários draconianos.

A política monetária americana expansionista é a bombeadora do discurso favorável ao tripé neoliberal: meta inflacionária, cambio flutuante e superavit primário.

Como não perceber que essa política monetária americana destrói as economias nacionalistas sul-americanas, sucateando-as, industrialmente, para que se abra espaço para a volta dos aliados políticos ao poder, a fim de rearrumar situação que favorece os interesses de Washington?

Se a China, com suas reservas trilionárias de dólar, passa a socorrer a América do Sul contra o perigo americano, expressa na ameaça monetária expansionista – guerra monetária – os aécio neves da vida e suas pregações neoliberais dificilmente emplacariam, como não emplacou na última eleição.

Mas, se Joaquim Levy carregar demais na mão, claro, estará cumprindo o roteiro adequado aos interesses de Washington.

Se fosse o BNDES que tivesse feito essa jogada financeira chinesa, botar dólares das reservas brasileiras para apoiar países latino-americanos, os conservadores do poder midiático nacional Valor Econômico- O Globo-O Estado de São Paulo-Folha de São Paulo – teriam caído de pau.

Diriam que seria deixar ao léu os negócios no Brasil para privilegiar negócio dos outros.

Quando as empresas brasileiras, de qualidade e competência indiscutíveis, na área de engenharia, avançam no exterior, não merecem, do poder midíatico, o mesmo tratamento que dão às empresas de outros países que chegam ao Brasil para aproveitar as oportunidades de investimentos, especialmente, na infraestrutura.

É o tal negócio do complexo de vira lata tupiniquim, como diria Nelson Rodrigues.

Brasileiro fazer sucesso é escândalo.

As grandes empresas de engenharia brasileiras faziam tremendo sucesso no Oriente Médio até que os Estados Unidos, depois dos atentados nas torres gêmeas de Nova York, invadiram e destruíram o Iraque.

Lá trabalhavam grandes empreiteiras nacionais; foram despachadas, depois da invasão americana, para dar lugar às empreiteiras de Tio Sam.

Mesma coisa aconteceu na Líbia de Kadafi: a Otan – Estados Unidos e Europa (França, Alemanha e Inglaterra) -, derrubou o governo kadafiano, destruiu o País, que, agora, está sendo reconstruído, não pelas empresas brasileiras, lá instaladas, mas pelas americanas, que chegaram para ganhar a concorrência, depois que as bombas dos impérios abriram caminho para elas, sem concorrência internacional.

O laissez-faire dos oligopólios é esse: bombas para abrir mercados.

Essas empreiteiras internacionais querem, agora, chegar junto da Petrobras, para ocupar o lugar das brasileiras, acusadas de corrupção e forçadas, pela legislação, a serem afastadas.

O que a grande mídia americana faz que a grande mídia brasileira não faz? Por geniais doleiros, como Alberto Yousseff.

Por que não prender banqueiros ou grandes executivos de bancos, como foram presos executivos de empresas?

Se pretendem inviabilizar as empresas, nas suas relações com a Petrobras, porque tiveram executivos seus agindo corruptamente, o mesmo deve ser feito ou não com os bancos, que ajudaram na expatriação de capital?

Criam essas situações para prejudicar o capitalismo nacional, a fim de abrir espaço para os concorrentes internacionais.

Capitalismo, como já disse Proudon, implica roubo sistemático, porque se trata de regime de exploração econômica do homem pelo homem, dos concorrentes pelos concorrentes, dos governos pelos governos, sempre no sentido da exploração do mais fraco pelo mais forte etc.

Então, é claro que enquanto existir capitalismo existirá também as deformações do sistema, entre elas a corrupção.

Escandalizar é coisa de udenista.

Por isso é que Montesquieu bolou a República – Executivo, Legislativo e Judiciário -, de modo a que fossem os três poderes sistematicamente organizados para serem fiscalizados respectivamente entre si.

O árbitro do processo, claro, é o voto popular, com a força da renovação, sempre que necessária, dada pela correlação de forças políticas etc.

O certo, portanto, é caçar os corruptos, usando os poderes vigentes da República e não acabar com as empresas, como o poder midiático tupiniquim se esforça por fazê-lo, anti-nacionalmente.

Proteger a indústria nacional.

O poder midiático tupiniquim mistura as coisas: está dando pau firme nas empreiteiras nacionais, esvaziando-as, desmoralizando-as, criando as condições para afastá-las da Petrobras, acusando-as de corrupção etc.

Nesse sentido, o poder midiático não diz nada sobre os grandes bancos que intermediaram o dinheiro da corrupção patrocinada.

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