Por Rennan Martins | Vila Velha, 19/01/2015

O professor Zizek brindou-nos com seu elucidativo artigo “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”, onde traz diversas reflexões pertinentes a sociedade ocidental e seu relacionamento com o islamismo e o povo muçulmano. No último parágrafo lemos uma intrigante conclusão, que diz:
“O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.”
De fato, a democracia liberal está num processo de desgaste e perda de legitimidade frente aos cidadãos, tanto que muito se discute a dita “crise de representatividade”, ou seja, a incapacidade deste arranjo institucional de responder aos anseios da população.
É possível notar que, historicamente, as elites detentoras do poder político e econômico tentaram por diversos meios tutelar os processos de abertura e aprofundamento democrático, impondo mecanismos que afunilam e até mesmo bloqueiam as reivindicações das massas.
No caso das democracias liberais dos países desenvolvidos, que tiveram muitas de suas instituições copiadas pelas nações do Sul Global, a degeneração se deu tanto internamente quanto no âmbito externo, onde a agressividade dos EUA e União Europeia recrudesce, visando garantir interesses econômicos e geopolíticos num momento em que se vive a segunda maior crise do capitalismo.
Internamente temos as configurações que permitiram influência demasiada do poder econômico nos processos decisórios e eleições no intuito de compensar o perigoso sufrágio universal. Este poder por sua vez corrompe tanto os políticos quanto o próprio sistema, garantindo que as “decisões democráticas” sempre favoreçam os interesses da oligarquia patrocinante das campanhas eleitorais e do lobby.
Soma-se a isso a imprensa corporativa, que é uma verdadeira agência de publicidade, promovendo com eficácia e fervor os interesses de seus patrões, reproduzindo um pensamento único que retrata o mundo sempre do prisma neoliberal em termos econômicos, e conservador no âmbito social.
Exemplo ilustrador desse quadro é a pesquisa dos professores Martin Gilens, de Princeton, e Benjamin I. Page, da Northwestern Universisty, que focou na “maior democracia do mundo”, a norte-americana. Nela fizeram um levantamento exaustivo de 1.779 questionários sobre políticas públicas, entre 1981 e 2002. O que constataram foi um poder de influência que varia diretamente com o tamanho da conta bancária, ou seja, uma oligarquia. Diante disso, assim discorreram:
“… acreditamos que se os processos decisórios são dominados por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos influentes, temos que as pretensões democráticas americanas estão seriamente ameaçadas.”
Na frente internacional, esta ainda mais importante pra pensarmos os últimos acontecimentos, temos ainda menos distribuição de poder. As democracias liberais portam-se tiranicamente em relação aos Estados em desenvolvimento, fazendo de tudo para esmagar qualquer indício de nacionalismo e anseio por um desenvolvimento autônomo, de propostas que divergem das oferecidas pelo globalismo do FMI e Banco Mundial. Em suma, o respeito a autodeterminação dos povos inexiste.
O atentado a Charlie Hebdo é exposto como fruto de um pretenso “choque de civilizações” onde caberia ao ocidente desenvolvido impor belicamente toda sua “civilidade”, ganhando, neste ínterim, o controle de preciosos recursos, principalmente energéticos. Mas isso é só um detalhe.
A Al-Qaeda do Iêmen é a mais nova cabeça da Hidra a ser cortada, porém, a narrativa hegemônica “esquece” que o extremismo era minoritário e desprovido de recursos, até que foi treinado e financiado pelas potências ocidentais e monarquias sunitas locais a fim de que a desestabilização por eles promovida catalisa-se a promoção de seus interesses. O fato do Estado Islâmico ter recebido rios de dinheiro europeu e norte-americano é pouquíssimo mencionado, e assim mais uma intervenção militar genocida se avizinha.
Como diz a frase a atribuída a Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Há um quinhão de responsabilidade a ser cobrado das democracias liberais, e a liquidação da fatura é urgente.
