A eventual ascensão da Índia seria um terremoto mundial

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Por Bruno Galvão

Nos últimos anos, tem havido uma obsessão imprensa indiana: China. Li há algum tempo que há frequência grande de citações da China nos jornais indianos e é quase ausente a citação da Índia nos jornais chineses. É um misto de medo e de admiração. Não há dúvida que a Índia deseja imitar o sucesso chinês. Recentemente, o novo governo indiano montou uma agressiva política industrial “Make in India”, nitidamente com inspiração e em competição com a China. Acho que as pessoas não tem noção como a Índia está atrás da China no mercado mundial de manufaturas. Estou enviando abaixo o gráfico da participação da China e da Índia no mercado mundial de manufaturas. Em 2013, a Índia atingiu o market-share que a China tinha em 1988, quando o país exportava ainda produtos muito simples.

Além disso, se notarmos a pauta de exportações de manufaturas da Índia, podemos perceber como é concentrada em poucos produtos (joias, fármacos, alguns produtos químicos e confecções). Estranhamente, ela não conseguiu entrar em coisas básicas que países relativamente atrasados do Sudeste Asiático tradicionalmente exportavam (produtos eletrônicos, móveis e até calçados). A Índia tem custos salariais 5 vezes mais baixo que a China. Ah, mas tem problema de infraestrutura. Mas, ela não pode fazer uma ZPE em um porto e por uma termelétrica do lado? Aliás, esse é um ponto de vantagem que acho da Índia em relação à China. Tem mar por todo lado. Isso é importante? Acho que sim, a China tem fracassado em transferir para o interior suas plataformas de exportação. 90% das exportações são realizadas por províncias costeiras; 70% nos vales do rio perola e yang tse (pelos últimos dados que tinha visto, o que tem muitos anos, mas acho que não mudou muita coisa não).A China tem esse problema, que, ao contrário dos EUA, não tem o pacifico do outro lado, mas sim um vazio demográfico e econômico.

O exemplo chinês ( é importante tanto para saber que é possível e vale a pena industrializar quanto o que deve ser feito) e o temor da China (eles podem nos massacrar se não industrializarmos) são duas grandes vantagens para a China. Além disso, a China abriu caminho e as empresas entenderam que pode dar certo. Por outro lado, há desafios muito sérios. Acho que os dois principais são: i) não há espaço no mercado mundial para 2 Chinas; é nítido que o crescimento do mercado mundial de manufaturas ‘baratas’ não é atualmente o mesmo de quando a China desenvolveu; ii) acho que os EUA apenderam o risco de permitir o surgimento de uma nova China para a geopolítica mundial.

Agora, se isso ocorrer, acho que o surgimento de uma nova China (como pode ser visto no Gráfico acima, diferente do que se diz, a Índia atualmente não é de jeito nenhum uma China menor) provocará um terremoto. A incorporação da Índia, significará por si a incorporação de metade da populaçao do Terceiro Mundo na trajetória do desenvolvimento. Além disso, isso daria um poder de manobra para o restante da periferia na negociação internacional (comercial e financeira) muito forte. Vejamos o caso da China, imagina o espaço de negociação da Argentina, Equador e Venezuela sem China? Na minha opinião, a China já limita muito a possibilidade de cartelização das grandes potências. Com a incorporação da Índia, acho que fica praticamente impossível. Vejamos o caso atual, mesmo com a eleição de um governo muito pro-EUA e a derrota do partido não alinhado (o partido do Nehru) e com a fraqueza econômica e política da Rússia, a Índia está negociando com a Rússia, a despeito do interesse desse governo em se alinhar aos EUA. Imagina, negociação de comércio com Índia e Mercosul? Atualmente, as importações da Índia já correspondem a um quinto das importações da UE. Se a índia se fortalece, poderíamos negociar com eles, mandar a OMC andar e fazer política industrial a vontade.

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Bruno Galvão é doutor em economia pela UFRJ.

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