Arquivo mensais:janeiro 2015

Thomas Piketty: “O verdadeiro perigo para a Europa é a hipocrisia de Juncker e Merkel”

Por Eugenio Occorsio | Via Carta Maior

“Não entendo por que as chamadas chancelarias europeias estão tão aterrorizadas com a vitória do Syriza na Grécia. Ou melhor, eu entendo, mas é hora de desmontar suas hipocrisias”. Thomas Piketty, que leciona na École d’Économie parisiense, “o economista mais conceituado de 2014″, tal como definiu o Financial Times, vem à tona com toda a sua garra em um editorial publicado ontem pelo jornal Libération. “Na Europa, faz falta uma revolução democrática”, ele escreveu, e repete alto e bom tom ao telefone, no aeroporto de Paris, antes de embarcar para Nova York, a cidade que lançou seu “O capital no século XXI” como livro do ano graças ao respaldo do prêmio Nobel Paul Krugman.

Professor, Tsipras abriu o caminho, no entanto, defendendo o estandarte da saída do euro?

Sim, mas agora suavizou muito as suas posições. Revelou-se, ao contrário, como um líder fortemente europeísta, uma postura que se assentará quando tiver que formar um governo de coalizão. Desde já, o Syriza fará valer suas posições na Europa, mas isso não será um mal. Ao contrário.

Em resumo, algo acontecerá. Mas estamos certos de que não será algo inovador?

Veja, consideremos a situação com realismo. A tensão na Europa chegou a um ponto em que, de uma forma ou de outra, explodirá em 2015. E as alternativas são três: uma nova crise financeira tremenda; a firmação das forças de direita que formam uma coalizão cujas bases estão se formando agora, centradas na Frente Nacional na França, incluindo a Lega Nord e ps 5 Stelle; ou uma sacudida política que venha da esquerda: o Syriza, os espanhóis do Podemos, o Partido Democrático italiano, o que resta dos socialistas, e enfim, os aliados. Você escolhe qual das soluções? Eu escolho a terceira.

A famosa “revolução democrática”, em resumo. Quais deveriam ser as primeiras ações?

Dois pontos. Primeiro, a revisão total da atual política baseada na austeridade que está asfixiando qualquer possibilidade de recuperação na Europa, a começar pelo sul da zona do euro. E essa revisão tem que prever como primeiríssima coisa uma renegociação da dívida pública, uma ampliação dos prazos e, eventualmente, perdões de verdade de algumas partes. É possível, eu asseguro. Já se perguntaram por que os EUA vão de vento em popa, assim como a Europa que está fora do Euro, assim como a Grã-Bretanha? Mas por que a Itália deve destinar 6% do PIB para pagar os juros e apenas 1% à melhoria de suas escolas e universidades? Uma política centrada apenas na redução da dívida é destrutiva para a zona do euro. Segundo ponto: uma centralização nas instituições europeias de políticas de base para o desenvolvimento comum a partir da política fiscal e, no mais, reorientar esta última para onerar mais as maiores rendas pessoais e industriais. Nesses assuntos fundamentais, deve-se votar por maioria, e já não por unanimidade, e vigiar depois para que todos se ajustem. Uma maioria centralizada vale também em outras frentes, à semelhança do que se está começando a fazer com os bancos. Só assim se poderá homogeneizar a economia e desbloquear a fragmentação de 18 políticas monetárias com 18 tipos de juros, 19 desde o início de janeiro com a Lituânia, expostas ao açoite da especulação. Não se dar conta disso é ser míope, e o que é pior, profundamente hipócrita.

As “hipocrisias europeias” das quais falava no início: a que o senhor se refere, mais concretamente?

Vamos pela ordem. O mais hipócrita é Jean-Claude Juncker, o homem a quem se entregou, inconscientemente, à Comissão Europeia depois que ele levou Luxemburgo durante vinte anos a uma sistemática depredação dos benefícios industriais do resto da Europa. Agora pretende se fazer de durão e mudar, tudo com um plano de 300 bilhões que, no entanto, só se financiam 21, e dentro desses 21 a maior parte são fundos europeus já em via de distribuição. Fala de “efeito alavanca” sem sequer se dar conta do que está falando. No segundo lugar, está a Alemanha, que finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra Mundial, baixando num só golpe de 200 para 30% do PIB, o que permitiu financiar a reconstrução e o irresistível crescimento dos anos seguintes. Aonde teria chegado se fosse obrigada a reduzir arduamente sua dívida em 1% ou 2% ao ano, como está obrigando o sul da Europa a fazer? O terceiro lugar nessa embaraçosa classificação de hipocrisias pertence à França, que agora se rebela diante da rigidez alemã, mas que esteve na primeira fila prestando apoio à Alemanha quando esta impôs a política de austeridade, e pareceu igualmente decidida quando o Fiscal Compact de 2012 condenou as economias mais frágeis a reembolsar suas dívidas até o último euro, apesar da devastadora crise de 2010-2011. Assim que se desmascarar e ilhar essas hipocrisias, será possível retomar o desenvolvimento europeu no ano que está prestes a começar. E o Syriza dará menos medo.

Thomas Piketty (1971) é diretor de estudos da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales) e professor associado da Escola de Economia de Paris, além de autor de recente e fulgurante celebridade pro seu livro O Capital no século XXI (Fundo de Cultura Econômica, 2014).

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Tradução: Daniella Cambaúva

Governo do RJ e indústria estudam projetos de captação e reúso de água

Por Nielmar de Oliveira | Via Agência Brasil

Grandes indústrias abastecidas pela Cedae vão reaproveitar a água para evitar o racionamento Divulgação/Cesan

Pelo menos quatro das grandes indústrias que são atualmente abastecidas pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), a partir do Sistema do Guandu, apresentam hoje (30) ao governo do estado projetos alternativos de captação e reúso de água para evitar o racionamento nos próximos meses em razão da crise hídrica, causada pela falta de chuvas.

Ontem (29), o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, informou que pretende encaminhar à Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) projeto de lei estabelecendo a obrigatoriedade da adoção da política de reúso de água pelas grandes industrias.

Os representantes das indústrias estiveram reunidos, também ontem, com o governo para discutir o problema. Eles terão que apresentar ainda hoje um documento oficializando a necessidade mínima para o funcionamento das empresas.

Segundo informações do governo, elas terão que fornecer informações que apontem quantidade e qualidade da água utilizada para manter suas operações. Com esses dados, o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, e o presidente da Cedae, Jorge Briard, esperam formatar um novo mecanismo de reúso da água dessas indústrias.

Na ocasião, André Corrêa anunciou a adoção de uma política de governo permanente, incentivando a reutilização da água, até então, descartada na linha de produção das indústrias. A proposta foi comunicada, em particular, aos representantes das quatro principais empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz, convocados pelo secretário e pelo presidente da Cedae para avaliar a situação dos reservatórios que abastecem o estado do Rio de Janeiro.

Segundo Corrêa, a situação dessas empresas é particularmente mais grave porque elas usam a água do Rio Paraíba do Sul, abaixo do sistema de captação do Guandu, responsável pelo abastecimento de 9 milhões de habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro. O problema se agravou com a crise hídrica que afeta a Região Sudeste, a maior dos últimos 84 anos. O secretário antecipou que outros segmentos da indústria que operam na região também serão convidados para debater mecanismos que estimulem o consumo eficiente em suas linhas de produção.

A Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) deve ser a próxima convocada para uma rodada de negociação a fim de se adequar ao novo sistema. Hoje, a empresa detém uma outorga de captação de 2 metros cúbicos (m3) por segundo, volume superior ao necessário. No caso específico da Reduc, o volume poderá ser revisto e adotada uma solução semelhante à do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que já reaproveita a água que resulta do esgoto tratado na Estação de Alegria, no Caju.

Como a prioridade é o consumo humano e as indústrias terão que se adequar à política de reúso, André Corrêa foi enfático ao afirmar que vai usar a prerrogativa da gestão de recursos hídricos, da legislação ambiental: “acredito que isso não vai acontecer, mas podemos, sim, cassar outorgas de empresas.”

O sistema, administrado pela Cedae foi projetado para operar com a vazão média de 250m3 por segundo e vazão mínima de 190m3. Atualmente, por causa da escassez de chuvas, a concessionária está operando com 145m3 por segundo, conforme recomendação da Agência Nacional de Águas (ANA) para compensar o período prolongado de seca na região.

O problema das indústrias foi abordado também em uma reunião, quarta-feira (28), em Brasília, na qual a ANA acenou com a possibilidade de propor a redução para 110m3 por segundo. Para o secretário, essa redução torna a situação do estado do Rio insustentável. “Ela é extremamente limitante. Entendemos a gravidade do problema de São Paulo, todos nós somos brasileiros, mas esse número dificulta muito, torna praticamente inviável a gestão de recursos hídricos do Rio de Janeiro”, afirmou Corrêa.

Uma questão de soberania

Por Eduardo Bomfim | Via Vermelho

Ao contrário do que diz a mídia hegemônica global a crise estrutural do capitalismo continua provocando colossal tsunami econômico, social e humanitário com graves reflexos em todas as nações do planeta.

Mesmo o Brics que vinham injetando oxigênio à esquálida realidade financeira internacional mostram sinais evidentes de refluxo econômico, inclusive a China com o “moderado crescimento” de 7,5% ao ano.

A crise da Nova Ordem Mundial, cuja hegemonia consolidou-se há 25 anos e impôs aos povos o draconiano receituário neoliberal econômico, militar, ideológico, social sob a proteção dos Estados Unidos como guarda pretoriana, está no seu auge muito embora seja certo afirmar que ainda não chegou ao fundo do poço porque as coisas continuam a se agravar de maneira galopante.

A lógica do capital não é a racional, é a lógica compulsiva do lucro especialmente do capital rentista que passou a determinar os rumos das finanças impondo ampla desregulamentação em escala planetária.

Quem vem regendo a orquestra ao longo desse tempo nefasto de crise civilizacional são as políticas neoliberais mesmo com a resistência dos BRICS, constituindo uma espécie de contrafluxo à Nova Ordem internacional, uma alternativa multilateral a outra realidade geopolítica, econômica, social.

O resultado das eleições gregas com a vitória de uma frente progressista contrária ao brutal arrocho imposto ao povo heleno pelo capital financeiro é fato Histórico que terá sem dúvida desdobramentos políticos na comunidade europeia.

Já a ofensiva do capital financeiro contra o Brics tem sido agressiva, utilizando-se inclusive da grande mídia, com o objetivo de fazer avançar a linha do rentismo, impor a política de rapina às suas riquezas.

No Brasil o que se urde, escamoteado por uma virulenta campanha de desinformação midiática, é a capitulação da nação à ortodoxia neoliberal, uma crise institucional no País.

Ciente que a política é a ação efetiva tendo em conta a análise concreta da realidade concreta, cabe ao governo Dilma e aliados assegurar a governabilidade vital, isolar a ofensiva do capital rentista, manter o leme no rumo do desenvolvimento, as conquistas sociais, trabalhistas, a emergência à cidadania de dezenas de milhões de brasileiros, a defesa da soberania nacional sob graves ameaças.

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Eduardo Bomfim é advogado

Bombardeios do regime ucraniano matam pelo menos 15 civis em Donetsk

Via Agência Efe

Pelo menos 15 civis morreram nesta sexta-feira na cidade de Donetsk por bombardeios da artilharia ucraniana, segundo denunciaram os separatistas pró-Rússia.

“Cinco pessoas morreram em um trólebus que foi atingido”, informou o Ministério da Defesa da autoproclamada república popular de Donetsk.

Cerca de 15 civis morreram durante atentado na Ucrânia. EFE/Sergey Vaganov

O fato aconteceu por volta do meio-dia, hora local, na linha 14 desse transporte público, quando o trólebus se encontrava em um parada.

Outras cinco pessoas morreram ao serem atingidas pelo bombardeio quando faziam fila na Casa da Cultura do bairro Kuibuishev para receber ajuda humanitária.

As outras cinco vítimas civis foram registradas na zona de Azotni, acrescentou o Ministério.

“O bombardeio de Donetsk foi realizado desde a população de Opuitnoe, uma zona neutra que se encontra ao norte do aeroporto”, assinalou o departamento.

Na semana passada, outro trólebus foi alcançado por fogo de artilharia também em Donetsk, causando a morte de oito pessoas.

Aos 15 civis mortos é preciso somar cinco militares ucranianos que faleceram nas últimas 24 horas no leste da Ucrânia, de acordo com o porta-voz do Estado-Maior da Forças Armadas ucranianas, Vladislav Selezniov.

“Em combates e bombardeios, a Ucrânia perdeu cinco militares. Outros 23 ficaram feridos. Todos eles foram hospitalizados”, disse Selezniov ao apresentar a última parte oficial de baixas.

A situação se deteriorou gravemente nas última semanas na zona do conflito entre os rebeldes pró-Rússia e o Exército.

Representantes do governo ucraniano e dos separatistas pró-Rússia deviam retomar hoje as negociações em Minsk, a capital da Bielorrússia, com a mediação da Rússia e a OSCE, em uma tentativa de conter a escalada do conflito.

Enquanto os representantes dos rebeldes já se encontram em Minsk, o Ministério das Relações Exteriores ucraniano disse na última hora que as negociações podem acontecer hoje ou amanhã, sábado.

Desde sua explosão, em abril do ano passado, o conflito armado no leste ucraniano já deixou mais 5 mil mortos e provocou o êxodo de centenas de milhares de refugiados.

A Petrobras e a Lava Jato

Por Paulo Muzell | Via Sul 21

A Petrobras completou em outubro passado 61 anos. Fundada em 1953 depois de uma batalha entre “entreguistas” (Diários Associados, UDN) e “nacionalistas” (PTB, intelectuais, jornalistas, estudantes) que defendiam sua criação como empresa pública e o monopólio estatal do petróleo.

Em 1948, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi fundado o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, que organizou a famosa campanha “O petróleo é nosso”. Rapidamente o movimento se expandiu por todo o país com o apoio da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Intelectuais, políticos e militares lideraram o movimento: o lendário Barbosa Lima Sobrinho, Monteiro Lobato, Arthur Bernardes, os generais Felicíssimo Cardoso e Leônidas Cardoso, dentre muitos outros. Observe-se que os dois generais mencionados eram, respectivamente, tio e pai de Fernando Henrique Cardoso. Conclui-se que o ex-presidente ao se bandear dos “nacionalistas” para os “entreguistas” não apenas rompeu com seu passado político: negou, também, as origens e a história de sua própria família.

Decorridas seis décadas a Petrobras transformou-se na maior empresa do Brasil e da América Latina. Com a descoberta das reservas do pré-sal em 2006 passou a ter metas ambiciosas: da atual produção diária de 2 milhões de barris, programa superar os 4 milhões entre 2020 e 2030, quando passará a ser uma dentre as cinco gigantes mundiais do setor petrolífero. Só no quadriênio 2015/2018 os investimentos previstos superam o montante de 80 bilhões de dólares. A empresa e sua distribuidora (a BR) têm mais de 80 mil empregados.

A Petrobras e o Banco do Brasil foram ameaçados pela fúria privatista do governo FHC (1995/2002), escapando por um triz. Mas a Petrobras, em especial, continua sendo alvo preferencial dos grandes grupos internacionais, especialmente depois da descoberta das reservas do pré-sal. O descontentamento das forças do “livre mercado” com a gestão dos governos do PT na Petrobras além de uma pequena queda na rentabilidade nos últimos anos resultaram na acentuada desvalorização das ações da empresa. Em conseqüência, nos últimos cinco anos (2009/2014) ela passou de 12º para 120º no ranking da Forbes das maiores empresas do mundo segundo o critério valor de mercado. O preço de uma ação no final de 2014 correspondia a pouco mais de 60% do seu valor patrimonial.

Confirmando aquela máxima do pessimista de que “o que não está bem sempre pode piorar”, em março de 2014 a Polícia Federal (PF) tornou pública a operação Lava Jato. As primeiras investigações ocorreram em 2008: um empresário recusou-se a participar de um esquema de lavagem de dinheiro do doleiro Alberto Youssef no Paraná, abrindo investigações. A partir de Youssef a PF chegou a um ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, ambos passaram a colaborar com as investigações beneficiando-se , da delação premiada. Dezenas de políticos de vários partidos e diretores de grandes empreiteiras (Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Mendes Junior, Engevix, IESA, Queiroz Galvão) foram indiciados por lavagem de dinheiro, formação de cartel, organização criminosa, sonegação fiscal dentre outros delitos que desviaram dos cofres da empresa bilhões e bilhões de reais. Esses desvios ora denunciados e em fase de investigação não são novidade, remontam a 1996, início do primeiro período do governo FHC quando Pedro Barusco, gerente de serviços da empresa confessou o desvio de 100 milhões de reais através de operações fraudulentas.

Do episódio proporcionou à grande mídia a possibilidade de criar um novo herói, o juiz federal paranaense Sérgio Moro. Os faróis da grande mídia focam a operação Lava Jato, a exemplo do que acontecera na Ação Penal 470 que passa a ter enorme destaque em horários nobres. Sérgio Moro, tudo indica, foi escolhido para ser a versão II do ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa que da noite para o dia virou “herói nacional”, modelo de virtude, independência e honradez. Pouco tempo depois a opinião pública constatou o exagero cometido. Neste início de 2015 o jornal O Globo e a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro concederam a Sérgio Moro o título de Personalidade do Ano de 2014. Sobre o magistrado pairam algumas dúvidas. Sua esposa, em 2014, foi assessora jurídica do vice-governador Flávio Arns, do governo Beto Richa (PSDB do Paraná), cargo que evidencia uma incômoda proximidade com o principal partido de oposição ao governo Dilma.

Autarquias e empresas públicas são, infelizmente, contumazes vítimas de “assaltos” de natureza semelhante ao que ocorreu com a Petrobras. Condenáveis sob todos os aspectos, devem ser punidos com todo rigor. Políticos e partidos, com a maior freqüência que se imagina, fazem “caixa de campanha” e promovem o enriquecimento ilícito através de desvio do dinheiro público. Anos atrás César Busato explicou isso, com toda clareza, ao neófito ex-vice-governador Paulo Feijó. Aqui no Estado o exemplo mais recente ocorreu no Detran onde foram desviados mais de 100 milhões de reais. Lamentavelmente, o principal responsável está por aí solto, confirmando a tese de que o nosso judiciário não pune – porque não quer ou porque não pode – a cúpula do chamado “colarinho branco”: os grandes empresários e as grandes lideranças políticas regionais ou nacionais. Na Prefeitura de Porto Alegre, constatou-se o desvio de 50 milhões de reais na Procempa, valor extraordinário se considerarmos o porte e a restrita área de atuação da empresa.

O que preocupa é que as velhas aves de rapina ressuscitem – os interesses privatistas em conluio com a grande mídia – e que estejam preparando um clima que possibilite a desnacionalização e a venda da Petrobras. Será hora, então, de mobilizar o país para uma segunda campanha do “O Petróleo é nosso”.

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*- Paulo Muzell é economista.

Desemprego cai para o menor índice da história

Via Carta Capital

A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE mostra ainda que, em 12 anos, 4,4 milhões de trabalhadores entraram no mercado formal.

De 2013 para 2014 o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 50,3% (11,6 milhões) para 50,8% (11,7 milhões)

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado nesta quinta-feira 29 indica que o percentual médio de trabalhadores com carteira de trabalho assinada no setor privado em relação à população ocupada (incluindo os trabalhadores informais) aumentou em 12 anos 19,9 pontos percentuais, passando de 39,7% em 2003 (7,3 milhões), para 59,6% em 2014. Houve, no período, acréscimo de 4,4 milhões de empregados formais no conjunto de trabalhadores. Dados também revelam as menores taxas de trabalhadores desocupados (sem emprego) de toda a série histórica.

Os dados fazem parte da Pesquisa Mensal de Emprego e indicam que de 2013 para 2014 o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 50,3% (11,6 milhões) para 50,8% (11,7 milhões).

Em dezembro de 2014, segundo o IBGE, havia 11,807 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, apresentando estabilidade no mês e no ano.

Os números mostram que a taxa média de desocupação (população sem emprego) também teve forte queda na última década: em 2003 a taxa média de ocupação de janeiro a dezembro havia sido 12,4%, diferença de 7,5 pontos percentuais. A taxa de desocupação do mês de dezembro de 2014 foi 4,3%, mesmo resultado de dezembro de 2013. A taxa média de desocupação do ano fechou em 4,8%. Em novembro de 2014, a taxa havia fechado em 4,8%, enquanto a média anual de janeiro a dezembro de 2013 havia fechado em 5,4%.

A pesquisa indica que, em 2014, a média anual da população desocupada foi estimada em 1,176 milhão de pessoas, percentual 54,9% menor que o de 2003, quando a média anual havia sido de 2,608 milhões. Quando comparada a 2013, a queda no número de pessoas desocupadas foi 10,8%: 1,318 milhão pessoas.

Em dezembro de 2014, a população desocupada nas seis regiões pesquisadas (1,051 milhão) recuou 11,8% em relação a novembro (1,192 milhão) e 0,9% quando comparada a dezembro de 2013 (1,061 milhão). Por outro lado, a pesquisa do IBGE constatou que a média anual da população ocupada nas seis regiões pesquisadas em 2014 foi estimada em 23,087 milhões de pessoas, recuando 0,1% em relação a 2013, quando este contingente era 23,116 milhões.

A Pesquisa Mensal de Emprego é feita pelo IBGE nas regiões metropolitanas do Recife, de Salvador, de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, de São Paulo e Porto Alegre.

*Com informações da Agência Brasil

O tripé e o retrocesso

Por Pedro Bastos e Carlos de Medeiros | Via CTB

No artigo “O Manifesto do retrocesso” (19/11), Pedro Ferreira e Renato Fragelli criticam o “Manifesto dos economistas pelo desenvolvimento e inclusão social”. Embora o manifesto critique a austeridade, nossos críticos mal justificam sua opção pela austeridade e atacam o manifesto pelo que não faz: a defesa do governo Dilma.

O manifesto rejeita sim as críticas ortodoxas feitas ao governo, que são reiteradas pelos articulistas. O governo Lula teve êxito na operação anticíclica (criticada pelos neoliberais) que defendeu o emprego e a inclusão social em 2009. A economia recuperou-se com o aumento do investimento público e incentivos ao gasto privado, e a recuperação melhorou em seguida o resultado fiscal.

Nosso dilema começa quando Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central, pouco fez para limitar a apreciação cambial em 2010. Embora a depreciação de 2008 mal tivesse impacto inflacionário e tenha compensado apenas parte da apreciação desde 2003, foi revertida com os fluxos financeiros atraídos pelo diferencial de juros oferecido por Meirelles.

Precisamos de alternativas ao tripé do retrocesso, com plano de recuperação dos investimentos públicos

A crise global também explica a liquidez que apreciou o real, o baixo crescimento mundial e o acirramento da competição internacional. Países desenvolvidos tentam recuperar-se via exportações e exportadores asiáticos buscam novos mercados. O saldo comercial brasileiro inverteu-se em relação às economias sede das filiais na indústria enquanto exportações asiáticas tomaram parcela do mercado industrial no Brasil e na América do Sul.

Conjugada ao excesso de capacidade global, a apreciação cambial induziu uma avalanche de importações. A produção da indústria de transformação encolheu, em termos reais, 6,5% desde o terceiro trimestre de 2008 e o coeficiente de penetração de importações aumentou quase 30%. No acumulado até setembro, o comércio setorial passou de superávit de US$ 22,4 bilhões em 2005 para déficit de US$ 49,2 bilhões em 2014.

Essa avalanche iniciou-se na vigência do tripé “metas de inflação-superávit primário-apreciação cambial” e trouxe o risco do tripé do retrocesso das reformas neoliberais da década de 1990: desindustrialização, rentismo e déficit crescente de transações correntes, resultando no baixo crescimento.

Ademais, a tendência de depreciação cambial resultante desses desequilíbrios traria grande pressão inflacionária. Começávamos a voltar aonde hoje estamos: na armadilha do baixo crescimento, com pressões inflacionárias latentes e sob risco de perda do grau de investimento como no final dos 1990.

A gestão de Alexandre Tombini continuou o ciclo de elevação de juros de Henrique Meirelles e o complementou com iniciativas macroprudenciais. A economia já desacelerara no fim de 2010, quando a avalanche de importações coincidiu com a maturação de investimentos decididos antes da crise e a saturação gradual da demanda de bens de consumo duráveis que se acirrou em 2014.

Não obstante a desaceleração, o governo Dilma Rousseff ouviu o clamor ortodoxo em 2011 e deu início à contração fiscal que afetou o investimento da administração direta que, excluindo subsídios, teve queda real de 12% em 2011 e, em relação ao PIB, não deve recuperar em 2014 o nível de 2010.

Em agosto de 2011, o Banco Central iniciou redução da Selic, mas a contração fiscal era forte sinal para o recuo do investimento privado. Quando abandonou a contração em 2012, o governo não reverteu a queda do investimento público e sim apoiou o investimento privado com a redução de custos de produção, sem conter a desaceleração cíclica da demanda e seu vazamento para importações.

A crítica neoliberal ao relaxamento monetário e fiscal é que seria a causa de pressões inflacionárias e do baixo crescimento. O argumento contrafactual e injustificado é que se o governo insistisse na contração, em meio à crise europeia, o gasto privado reagiria a maiores juros e superávit primário expandindo-se…

Em 2013, a pressão inflacionária não resultou de sobreaquecimento e sim da correção cambial e de outros choques de custo, como preços agrícolas e fretes. É por isso que controlar a inflação envolve desindexar contratos, formar estoques reguladores e ampliar a oferta de bens públicos e infraestrutura.

A expansão fiscal que se iniciou em 2012 não pode ser responsabilizada pela resistência da inflação, como acusam os neoliberais. Afinal, envolveu desonerações fiscais e controle de preços administrados para reduzir custos de produção e restaurar a competitividade, mas esteve longe de levar a sobreaquecimento.

O problema é que esse tipo de “expansão fiscal” não reverte a desaceleração nem a desconfiança em relação a um futuro de receitas incertas. A correção cambial tampouco foi suficiente para reverter a apreciação herdada da gestão Meirelles e muito menos a tendência de desindustrialização, mas pressionou a inflação.

Hoje, o governo Dilma dobra a aposta em um modelo de crescimento empurrado pelo investimento privado. Como seus críticos ortodoxos, parece acreditar que a austeridade liberará espaço para o setor privado, em vez de puxá-lo para a recessão.

Consideramos, ao contrário, que atender ao clamor ortodoxo e apostar na austeridade, como em 2011, traz sério risco de reforçar a desaceleração observada em todos os itens de demanda privada e nos atirar em uma recessão.

Embora resulte das recomendações de economistas ortodoxos desinteressados e de porta-vozes dos mercados financeiros, uma recessão não deve ser bem recebida nem pelos mercados nem pelas agências de classificação de risco. Tampouco será boa para a governabilidade, sobretudo se jogar as ruas contra o governo. É por isso que precisamos de alternativas ao tripé do retrocesso, com a ampliação de investimentos públicos articulados a um plano sistemático de recuperação dos investimentos privados.