Arquivos anuais: 2014

O espaço e a soberania

Por Mauro Santayana, em seu blog

(Hoje em Dia) – Depois de dois fracassos em outubro – a explosão do cargueiro espacial Antares que se dirigia à Estação Espacial Internacional, durante a decolagem, e a queda do Spaceship Two, da Virgen Galactics, em voo de teste que deixou um morto – os EUA lançaram, com êxito, na última sexta-feira, a primeira versão de sua nova espaçonave Orion, que, segundo informado, poderia levar um dia uma tripulação humana a Marte.

No domingo foi a vez do Brasil superar o acidente com o satélite CBERS-3, ocorrido em dezembro do ano passado, quando do seu lançamento por um foguete Longa Marcha, com o sucesso da colocação em órbita do satélite CBERS-4, que já está funcionando.

Mais novo satélite de uma parceria entre o Brasil e a China que começou no final da década de 1980, o CBERS-4 teve 50% de seus componentes fabricados no Brasil, entre eles, duas das quatro câmeras, fabricadas pelas empresas Opto Eletrônica e Equatorial: a Multiespectral Regular (MUX), de média resolução; e a de Campo Largo (WFI), de baixa resolução, que se somaram às câmeras chinesas Pancromática e Multiespectral (PAN), de alta resolução; e a Multiespectral e Termal (IRS), também de média resolução e infravermelha, além do gravador de dados digitais, da estrutura do satélite, do sistema de fornecimento de energia e do sistema de coleta de dados ambientais.

Além dos feitos com a China, o Brasil constrói seus próprios satélites, como o Amazônia-1, está montando um novo satélite de defesa e comunicações, e outro, com a Argentina, voltado para estudos oceanográficos.

A conquista do espaço é uma questão de soberania. Desde 2010, quando aposentaram seus táxis espaciais, os Estados Unidos, por exemplo, têm dependido, vergonhosamente, de naves de um país que consideram seu arqui-inimigo, a Rússia, para colocar seus astronautas na órbita terrestre, na Estação Espacial Internacional.

Com o lançamento bem sucedido do CBERS-4, com a China, e o desenvolvimento e fabricação de metade dos sofisticados sistemas que ele leva a bordo, o Brasil dá um passo gigantesco no domínio da construção de satélites de monitoramento remoto da superfície terrestre, capacitando-se para a construção local de engenhos semelhantes, voltados para a vigilância de nosso solo e a defesa de nossas fronteiras.

Mas é preciso fazer mais. Urge aumentar a cooperação, nesse campo, com os países do BRICS, como a Índia, que acaba de mandar uma sonda espacial a Marte, a Rússia e a própria China. Devemos modernizar as bases de lançamento de Alcântara, no Maranhão, e de Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte, e revitalizar a AEB – Agência Espacial Brasileira, e o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

E precisamos, também, dar prosseguimento ao projeto do novo VLS – Veículo Lançador de Satélites (as redes elétricas e os sistemas de navegação deverão ser testados no segundo semestre de 2015) e dos VLS-Alfa e VLS-Beta, seus sucessores.

Em nota, presidente do PSOL exige a cassação de Jair Bolsonaro

Por Leonor Costa | Via PSOL 50

O deputado Jair Bolsonaro, durante a sessão de ontem no plenário da Câmara / Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

A absurda declaração feita no último dia 9 pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), em um ataque desrespeitoso e aviltante à deputada Maria do Rosário (PT-RS), provocou forte indignação da sociedade e de militantes dos movimentos que lutam em defesa dos direitos humanos. O PSOL, por meio de sua militância, dirigentes e parlamentares, também vem se manifestando contra a atitude do deputado, já bastante conhecido pelas suas posições racistas, machistas, homofóbicas e fundamentalistas.

Em nota, o presidente nacional do PSOL, Luiz Araújo, afirma que a frase absurda revela os valores do deputado carioca e “se soma a dezenas de outros impropérios verbalizados noutras oportunidades contra negros, gays, lésbicas, pessoas que cumprem sentença judicial, mulheres, militantes torturados pela Ditadura Militar e pobres em geral”.

Araújo informa, ainda, que o PSOL entrou com representação contra Bolsonaro junto ao Conselho de Ética da Câmara, mas, infelizmente, até agora nada foi feito para que ele fosse punido. “Recorreremos novamente a todos os recursos cabíveis, dentro e fora da Câmara dos Deputados, para ver o mandato de Bolsonaro cassado”, ressalta a nota.

O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), em pronunciamento feito ontem mesmo, repudiou os ataques do deputado. “Nenhuma mulher ‘merece’ ser estuprada. Não podemos aceitar a permanência da prática e da cultura do estupro, vocalizada pelo deputado do PP. O PSOL já entrou mais de uma vez com representações contra Bolsonaro no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados. Esperamos que, desta vez, os parlamentares encarem o caso com a seriedade e a gravidade que ele merece”. enfatizou Alencar.

Na avaliação do líder do PSOL, deputado Ivan Valente (SP), desta vez Bolsonaro ultrapassou todos os limites. “Uma atitude absurda, machista, de gravíssima ofensa pessoal e de apologia ao crime de estupro, pronunciada por esse representante do fascismo e da tortura em plena tribuna da Câmara dos Deputados. Uma atitude covarde que envergonha o Congresso Nacional e que deve ser objeto de um processo na Comissão de Ética da Câmara por quebra de decoro parlamentar, seguido de cassação de mandato”, defendeu Valente. Segundo ele, caso a Comissão de Ética se omita mais uma vez, como fez em outras oportunidades, o PSOL deverá recorrer ao Judiciário para punir Jair Bolsonaro pela apologia ao crime de estupro. O líder também manifestou sua solidariedade à deputada Maria do Rosário.

Jean Wyllys afirmou que a Corregedoria e o Conselho de Ética da Casa “não podem mais tolerar os abusos deste deputado viúvo da Ditadura Militar”. “O que houve foi uma ofensa machista, misógena, contra uma deputada, por um deputado do qual a gente vem tolerando uma série de abusos nesta Casa. Está na hora da Corregedoria e da Comissão de Ética da Câmara tomarem providências concretas contra os abusos que esse deputado vem provocando. Toda a minha solidarieda à companheira Maria do Rosário”, defendeu ontem, em pronunciamento no plenário da Casa.

A ex-candidata à Presidência da República pelo PSOL, Luciana Genro, também defendeu que Bolsonaro tenha o seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar e seja denunciado por incitação ao estupro, ao ofender covardemente a deputada Maria do Rosário. Ela ainda cobrou um posicionamento duro da presidente Dilma Rousseff sobre o episódio. “Nessas horas nenhuma mulher pode se esconder. Esperamos que todas se pronunciem e ajam contra mais um crime de Bolsonaro, especialmente a presidenta Dilma”.

Leia abaixo a íntegra da nota, assinada pelo presidente nacional do PSOL.

Nota de Repúdio a Jair Bolsonaro: Cassação já!

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ), conhecido por suas posições racistas, machistas, homofóbicas e em defesa da Ditadura Militar, protagonizou no dia de ontem mais uma agressão às mulheres, ao parlamento e à democracia brasileira. Referindo-se à ex-secretária de Direitos Humanos, deputada federal Maria do Rosário (PT/RS), Bolsonaro afirmou que não a estupraria porque ela “não mereceria”. A frase absurda revela os valores do deputado carioca e se soma a dezenas de outros impropérios verbalizados noutras oportunidades contra negros, gays, lésbicas, pessoas que cumprem sentença judicial, mulheres, militantes torturados pela Ditadura Militar e pobres em geral.

O PSOL recorreu ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados mais de uma vez contra Bolsonaro, mas o corporativismo dos deputados conservadores que compõem aquele órgão impediu que ele fosse punido. Ainda assim, não descansaremos até que este representante do atraso seja punido. Recorreremos novamente a todos os recursos cabíveis, dentro e fora da Câmara dos Deputados, para ver o mandato de Bolsonaro cassado. Sua presença na Câmara dos Deputados desonra a democracia e o parlamento brasileiro.

Luiz Araújo

Presidente Nacional do PSOL

Gilmar Mendes pode livrar Daniel Dantas novamente

Por Diogo Costa | Via Jornal GGN

PELO JEITO, PASSOU EM BRANCAS NUVENS – Hoje passou praticamente despercebido dos analistas políticos o início do julgamento de Daniel Dantas na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.

O julgamento de hoje se refere à legalidade ou não da apreensão dos famosos discos rígidos e de computadores encontrados na sede do Banco Opportunity, no Rio de Janeiro, em outubro de 2004.

Essa diligência ocorreu no âmbito da Operação Chacal e deu início a também famosa Operação Satiagraha, sob os cuidados do Delegado Protógenes, em 2008.

Gilmar Mendes concedeu dois Habeas Corpus em velocidade supersônica, em 2008, para livrar a cara do banqueiro condenado. E hoje, mais uma vez, livrou a cara de Daniel Dantas ao votar pela ilegalidade das diligências feitas em 2004.

O julgamento foi interrompido a partir de um pedido de vistas da Ministra Carmen Lúcia.

A composição atual da Segunda Turma do STF é a seguinte:

Ministro Teori Zavascki – Presidente

Ministro Celso de Mello

Ministro Gilmar Mendes

Ministro Ricardo Lewandowski

Ministra Cármen Lúcia

Será que mais uma vez veremos o STF livrar a cara de Daniel Dantas e, por extensão, de graúdos próceres do PSDB e de outros vários operadores da Privataria Tucana?

A depender da “grande mídia”, que eu chamo de imprensa pestilenta ou máfio-midiática, sim. Ou alguém viu alguma repercussão do julgamento parcial de hoje?

É que não tinha ninguém do Partido dos Trabalhadores envolvido…

Justiça eleitoral paulista rejeita contas da campanha eleitoral de Alckmin

Via RBA

Campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) deixou de registrar quase R$ 10 milhões nas duas primeiras prestações de contas.

Rejeição definitiva das contas pode impugnar a candidatura de Alckmin e de seu vice, Marcio França (PSB)

São Paulo – O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo rejeitou hoje (10) as contas da campanha eleitoral do governador reeleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Por cinco votos a um, o tribunal considerou que houve falhas graves na prestação de contas do tucano.

Segundo a decisão, a campanha de Alckmin deixou de registrar cerca de R$ 900 mil na primeira prestação de contas. Na segunda, o valor foi maior: R$ 9 milhões. Os valores só foram incluídos na declaração final. Nesta eleição, os candidatos tiveram de prestar contas três vezes. Uma em agosto, outra em setembro e a última em novembro, após o segundo turno.

A falha não impede Alckmin de ser diplomado e tomar posse em 1º de janeiro, pois ainda cabe recurso da decisão ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No entanto, a Justiça Eleitoral paulista considerou o erro um “vício insanável”, pois omitiu a entrada de recursos e a contratação de serviços realizados antes do prazo para as prestações de conta parciais.

Ainda hoje, as 19h, o TSE vai julgar a prestação de contas da presidenta reeleita Dilma Rousseff (PT). Apesar da tensão gerada pela orientação de rejeição das contas pelo corpo técnico do tribunal, a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) emitiu parecer recomendando a aprovação das contas “com ressalvas”, considerando que a análise “pautou-se por um excessivo rigor formal, considerando irregularidades graves, (o que são apenas) falhas de natureza meramente formal”, segundo informações do site Jornal GGN.

Relatório da Comissão da Verdade propõe mudanças em polícia, leis e prisões

Por Mariana Schreiber | Via BBC

O julgamento de torturadores foi a única recomendação que não teve unanimidade na Comissão da Verdade

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) não olhou apenas para o passado. O documento destaca a herança do regime militar (1964-1985) na continuidade da violência do Estado hoje, como por exemplo a prática de tortura em instalações policiais, e recomenda uma série de ações para mudar esse quadro.

Das 29 recomendações finais do relatório, que tem cerca de 4,4 mil páginas, 12 tratam diretamente de mudanças no funcionamento da polícia, na legislação penal ou no sistema carcerário.

Entre elas, está a reforma e desmilitarização das polícias, criação de ouvidorias externas no sistema penitenciário e a desvinculação dos institutos médicos legais e dos órgãos de perícia criminal das secretarias de segurança pública e das polícias civis.

A CNV recomenda também mudar a legislação para eliminar a possibilidade de agentes públicos registrarem mortes como “auto de resistência à prisão”. Esse mecanismo criado na ditadura militar tem sido alvo de críticas por permitir que policiais registrem mortes supostamente ocorridas em conflitos, mas que muitas vezes se tratam de execuções.

Outra sugestão da comissão é a introdução da audiência de custódia – apresentação do preso detido em fragrante a uma autoridade judicial em até 24 horas – com objetivo de prevenir a tortura e a prisão ilegal.

O relatório diz que “embora não ocorra mais em um contexto de repressão política – como ocorreu na ditadura militar –, a prática de detenções ilegais e arbitrárias, tortura, execuções, desaparecimentos forçados e mesmo ocultação de cadáveres não é estranha à realidade brasileira contemporânea”.

O documento atribui a continuidade desses abusos à falta de punição aos crimes cometidos durante a ditadura, como tortura e assassinatos de opositores ao regime. A CNV identifica em seu relatório 377 autores de graves violações de direitos humanos e pede que os vivos – cerca de cem – sejam levados à julgamento.

Esta foi a única recomendação em que não houve unanimidade entre os seis membros da comissão. Ficou registrada a oposição do jurista José Paulo Cavalcanti Filho à opinião dos demais integrantes, que consideraram que a Lei da Anistia – que, em 1979, perdoou crimes cometidos por agentes da ditadura e opositores do regime – é “incompatível com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional”.

STF e Congresso

Enquanto a revisão da Lei da Anistia deve ser avaliada pelo Supremo Tribunal Federal, outras recomendações dependem da aprovação pelo Congresso Nacional.

O diretor para a América Latina da Open Society Foundations, Pedro Abramovay, destaca a importância da recomendação da CNV pedindo o fim dos autos de resistência. Atualmente, há um projeto de lei pronto para ser votado pelo Congresso eliminando esse mecanismo. O PL 4471/2012 já passou pelas comissões de Constituição e Justiça e de Segurança Pública e pode ser levado a plenário.

Caso seja aprovado, lesões e mortes decorrentes das ações policiais não poderão mais serem justificadas por meio do auto de resistência. Pelo projeto, sempre que a ação resultar em lesão corporal ou morte, deverá ser instaurado um inquérito para apurar o fato, e o autor poderá ser preso em flagrante.

“Hoje o Estado brasileiro mata mais do que matava na época da ditadura. A situação atual permite que se passe uma borracha nesses casos”, afirma Abramovay, que foi Secretário Nacional de Justiça em 2010, no governo Lula.

Segundo ele, aprovar o projeto de lei é fazer a ponte entre o trabalho na Comissão da Verdade, de apurar as mortes provocadas no passado, e o futuro, impedindo que o Estado continue “matando impunemente como tem feito atualmente”.

Também tramita no Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional para desmilitarizar as polícias estaduais. O coordenador do Programa de Justiça da ONG Conectas, Rafael Custódio, considera que a recomendação da CNV é um fato político importante para este debate. No período em que a comissão recebeu sugestões externas para seu relatório final, a Conectas enviou sete propostas de recomendações. Todas constam no relatório final.

“Das sugestões que fizemos, a mais importante é a reforma da polícia. A ideia que está por trás das forças militares hoje é muito calcada naquela ideologia militar que via no cidadão brasileiro um potencial inimigo, um potencial subversor da ordem e que, portanto, precisa ser eliminado”, ressaltou.

CNV quer que Forças Armadas reconheçam responsabilidade por mortes durante a ditadura

Mortos

A CNV abre sua lista de recomendações pedindo também que as Forças Armadas reconheçam “sua responsabilidade institucional pela ocorrência de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar”.

No relatório, o órgão sustenta que os crimes praticados pelo regime militar foram resultados de uma “ação generalizada e sistemática do Estado brasileiro”, de conhecimento dos presidentes do período, refutando a tese de que se trataram de atos isolados.

O documento confirma 434 vítimas fatais do regime militar, sendo 191 mortos, 210 que continuam desaparecidos e 33 cujos corpos tiveram seu paradeiro posteriormente localizado. Apenas um foi encontrado durante os trabalhos da CNV.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade é resultado de dois anos e sete meses de trabalho. O órgão foi criado para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, mas o foco principal eram os delitos da ditadura militar.

A sugestão 26 do documento é que seja estabelecido um “órgão permanente com atribuição de dar seguimento às ações e recomendações da CNV”.

COP20: aprovada responsabilidade diferenciada entre países ricos e pobres na redução do efeito estufa

Por Marcela Belchior | Via Adital

Há até bem pouco tempo, o debate acerca do meio ambiente girava em torno da mensuração da interferência humana na alteração do clima mundial. Ao que tudo indica, esta já não é a grande questão da agenda global. Durante a primeira semana da 20ª Conferência das Partes sobre a Mudança Climática das Nações Unidas (COP20), que acontece desde o último dia 1º de dezembro, em Lima, capital do Peru, a discussão se concentra nos riscos que a transformação climática apresenta à população e à economia, e os possíveis mecanismos de enfrentamento desse novo contexto. Para isso, uma proposta brasileira que muda o compromisso de cada país já foi aceita pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Pela proposta da diplomacia brasileira, os países em desenvolvimento serão divididos em diferentes graus de responsabilidade pelo aquecimento. A ideia foi lançada pelo país ainda em novembro deste ano e permite que nações emergentes como China, Brasil e Índia assumam compromissos mais ambiciosos de cortes de emissões.

Países ditos menos desenvolvidos, ou seja, mais pobres e menos industrializados, seriam apenas estimulados a reduzir emissões, ficando livres de cumprirem meta. Isto porque essas nações, sobretudo situadas na África e na Ásia, são uma parte muito pequena do bolo de emissões mundiais. No caso dos países em desenvolvimento, as metas de corte seriam relativas, ficando dependentes do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do número populacional ou das projeções de emissões.

Já os 37 países considerados desenvolvidos teriam metas de redução de emissões e de ajuda financeira. Para este caso, cientistas recomendam um corte global de 40% a 70% até 2050. Com esse modelo de divisão, a expectativa é de que os países pobres que melhorarem seus padrões de vida migrem, gradualmente, para o centro, assumindo metas de corte de emissão mais rígidas.

Uma vantagem dessa proposta é que deve incluir no acordo os Estados Unidos e as nações emergentes, que são os grandes emissores e vinham se recusando a adotar medidas. Já uma desvantagem está na ausência de uma lei que garanta o cumprimento do acordo. A grande diferença entre a proposta brasileira e o atual modelo (Protocolo de Kyoto, de 1997) é que o número de países submetidos a metas rigorosas pode aumentar pouco a pouco.

Segundo a COP20, as mudanças climáticas matam mais de meio milhão de pessoas por ano. Foto: COP20.

As primeiras conversações desta semana se sustentaram no debate com cientistas do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), do secretariado da Convenção e dos representantes das Partes, para discutir dados técnicos. O momento serve de base para a tomada de decisões políticas e funciona como um termômetro de como anda o processo de negociação entre os países envolvidos na Convenção.

Nestes primeiros dias de debate, pesquisas técnico-científicas têm sido utilizadas no diálogo político para a construção do acordo climático. Compreendendo que já vivemos em um planeta climaticamente alterado por ações danosas do ser humano, o esforço da Convenção é na busca por instrumentos que suavizem essa repercussão socioambiental. Com uma temperatura média do planeta Terra 0,8°C mais alta, o foco é entender o que, efetivamente, é necessário fazer para que esse aumento não supere os 2°C até o final do século XXI.

O evento é dividido em duas partes. Na primeira semana, são realizadas reuniões oficiais e paralelas, com a função de alinhar os temas e preparar a negociação de acordos. Os negociadores, membros das equipes de cada país, juntamente com o secretariado da Organização das Nações Unidas (ONU), avançam no processo de formulação das ações e orientações mundiais. Já na segunda semana da COP20, com a presença dos chefes de Estado, são firmados os acordos formalmente.

Os dias iniciais da Conferência se deram sob a expectativa de grandes mudanças no tratamento da questão, principalmente pelo recente anúncio de compromisso (informal, até agora) entre Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores do globo (concentrando juntos praticamente a metade das emissões), para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. O principal objetivo da Conferência é revestir um caminho para um grande acordo global que deve ser selado em 2015, em Paris, capital da França, durante a COP21.

Esse rascunho deve abordar as principais questões do setor, debatidas há duas décadas pelos países. Uma delas é a responsabilidade comum das nações, mas diferenciada, respeitando as chamadas condições de “desenvolvimento” de cada uma. Assim, todos os países devem assumir algum tipo de compromisso com relação à mitigação da mudança climática. Os chamados “desenvolvidos”, historicamente os maiores responsáveis pelo acúmulo de gases danosos na atmosfera, deverão assumir compromissos mais audaciosos que os demais. O evento se estende até o próximo dia 12 de dezembro.

Temperatura da Terra já aumentou em 0,8°C. Foto: COP20.

Entenda a COP20

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC), que entrou em vigor em 1994 com o objetivo de reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Até o momento, 195 países participam das discussões e apresentam recursos para ratificarem os acordos e orientações internacionais. As nações reúnem-se anualmente para debaterem como são aplicadas as deliberações da Convenção, negociarem novos compromissos com responsabilidades comuns, considerando suas prioridades nacionais e regionais de desenvolvimento, seus objetivos e circunstâncias nacionais. Nesta 20ª edição, participam cerca de 10 mil delegados de todo o mundo.

Movimentos sociais fazem debate alternativo

De 08 a 11 de dezembro, também na capital peruana, será realizada a Cúpula dos Povos Frente à Mudança Climática, um encontro paralelo à COP20. O intuito é promover um espaço livre para que os movimentos sociais e civis debatam o fenômeno da mudança climática e formulem alternativas, ampliando a discussão institucional realizada pelas Nações Unidas. Com o lema “Mudemos o sistema, não o clima!”, o evento estima a participação de 8 mil representantes de vários setores, além da presença de 200 organizações de todo o mundo.

Dentre os participantes, a Cúpula dos Povos receberá delegações indígenas de diversos países. Foto: Cúpula dos Povos.

De 1,2 ou de 2%, superávit primário é inconstitucional, ilegítimo e imoral

Por Carlos Tautz | Via Correio da Cidadania

Qualquer que seja o tamanho do pedágio que Dilma e o governo do PMDB (com o PT o secundando) paguem aos rentistas para governar, urge lembrar o óbvio. Em um Brasil cheio de dívidas sociais históricas, é ilegítimo e imoral – como preconiza o instrumento do superávit primário, vaca sagrada do credo neoliberal – tirar dinheiro da saúde, educação, saneamento e outras áreas prioritárias para pagar uma dívida pública que não se sabe até onde atende mínimos preceitos republicanos.

É, também, inconstitucional poupar naquilo que de redistributivo tem o Estado para atender à banca e seus associados no Congresso e nos conglomerados da comunicação. No Brasil, todos eles sempre viveram de drenar volumes massivos e crescentes de recursos públicos. Antes, deveriam era cumprir as disposições transitórias da Constituição.

A Carta Magna foi promulgada em 1988, mas até hoje nem governo, nem Congresso tiveram coragem e dignidade de cumprir o artigo 26 de suas disposições transitórias, onde se lê: “No prazo de um ano, a contar da promulgação da Constituição, o Congresso Nacional promoverá, através de Comissão mista, exame analítico e pericial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro”.

Ressaltando-se que as dívidas externa e interna são indissociáveis, dado que a natureza dos credores não obedece a esta divisão cartesiana. A decisão de pagar a dívida pública sem antes auditá-la incorre, portanto, em claro vício de origem. Mas ninguém quis encarar tantos opositores para fazer esse dever de casa e garantir o mínimo minimorum da democracia e da República: cumprir a Constituição.

Agora, Joaquim Levy. Fiador político dos amantes PMDB e PT, novo titular da Fazenda e, não menos importante, representante do Bradesco no Ministério de Dilma, ele é chamado para garantir ao mundo das finanças a manutenção do sistema de drenagem massiva de recursos públicos em direção aos bancos e demais credores da dívida – no Brasil e alhures.

Para isso, não teme, agora, admitir, contrariando, como de praxe neste novo-velho governo, o que ele próprio e Dilma haviam garantido na semana passada. Segundo Levy, programas sociais e até salários estão ameaçados pelo que ele entende ser a necessidade de “reduzir a relação entre dívida e PIB” e “passar um pente fino nas principais despesas da União”. Em neoliberalismês, isto significa guilhotina nos programas de distribuição de riqueza e de assistencialismo social. Como o Bolsa Família, por exemplo, unanimidade eleitoral que foi tanto de Dilma quanto de seus opositores Aécio e Marina, o subAécio.

Note-se que o 1,2% de superávit em 2015 com que Levy trabalha, em nome de Dilma, é apresentado como concessão, distinto dos 2% que ainda balbucia Mantega, lá do umbral em que este se encontra. Mas Levy, o defensor dos fortes e dos opressores, alerta: “em 2016 e 2017, voltaremos aos 2%”!

Como se comportarão as ruas diante deste anunciado corte distributivista e do momento eleitoral que os municípios viverão em dois anos?

Acabou o amor do PT com os grupos econômicos? Algum partido substituirá o PT nessa relação? Quem?

Depois de autorizar o repasse de R$ 30 bi do Tesouro ao BNDES, o ainda meio ministro da Fazenda Guido Mantega, em plena coexistência com Joaquim Levy – o Ministro de fato -, avisou: “em 2014 repassamos menos do que em 2013 e repassaremos menos ainda em 2015”. Desde que foi anunciado por Dilma como sucessor de Mantega, Levy tem ido mais ou menos na mesma direção contracionista e chegou até a mencionar cortes de salários (será no seguro-desemprego?) – embora nada tivesse dito sobre os tais 30 bi. A justificativa para tantos repasses (que desde 2001 alcançaram R$ 425 bi : Http://tinyurl.com/lobjtjb) é ora apoiar as “campeãs nacionais” em seu expansionismo internacional articulado com o Itamaraty; ora aportar recursos de giro às empresas brasileiras; ora sustentar um movimento “anticíclico” de recursos públicos para conglomerados privados se contraporem à mais recente crise global, formalmente iniciada em 2008/09. Há nesse mecanismo de aporte do Tesouro ao Banco e posterior empréstimo aos grupos econômicos uma imensa drenagem de recursos públicos. Tanto a grandes conglomerados privados, mas também às estatais de economia mista.

Afinal, para alimentar o BNDES, o Tesouro lança títulos no mercado a mais de 11%, enquanto repassa-os ao BNDES em cerca de 6%. E é com essa taxa, mais alguma coisinha na forma de remuneração, que o Banco empresta aos grandes conglomerados brasileiros e que depois retornam a benesse com fartas doações às campanhas dos partidos. Foi o que aconteceu com a Friboi, que recebeu do BNDES empréstimo e aporte totais de R$ 10,6 bi e contribuiu com vários milhões à campanha de reeleição de Dilma (aliás, por via das dúvidas, contribuiu também para Aécio). A orgia financeira está aqui: http://tinyurl.com/krd9wrq .

No final do segundo mandato de FHC, os petistas habilmente perceberam que as commodities agrícolas, minerais, florestais e energéticas e os produtos de baixo valor agregado haviam disparado em preço e demanda no mercado internacional, mais até do que os produtos dos mercados financeiros. Assim, fecharam uma relação privilegiada com os próceres desses setores da economia nacional e conseguiram escantear do poder os tucanos, cuja atenção privilegiada sempre se dera com o mundo das finanças. Se os repasses ao BNDES de fato minguarem, ao logo do tempo estará fechada uma das principais fontes usadas pelo PT para celebrar o acordo com o empresariado nacional no âmbito do pacto que permitiu ao partido substituir o PSDB no poder – a outra grande fonte é a fixação de juros em patamares altíssimos pelo Banco Central, que assim acalma o tubaronato financeiro que vive de transacionar títulos públicos.

O fechamento da torneira do BNDES, que sozinho não consegue captar nem gerar o suficiente para atender à sua demanda por crédito, indica um abalo forte no grande acordo político que vem permitindo ao PT estar no governo. As perguntas agora são: em secando, ou pelo menos restringindo o fluxo das torneiras oficiais, como fará o PT para manter junto aos maiores grupos econômicos brasileiros o apoio que eles lhe conferiram? O acordo ficará restrito às taxas de juros imorais praticadas pelo Banco Central? E, se o PT não for mais o amante preferencial da burguesia, quem o será? O PSDB, de novo? Ou, se não, quem?