Arquivo mensais:dezembro 2014

Petrobrás: o que está em jogo é a corrupção?

Por Cibele Vieira | Via Brasil de Fato

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção.

Por mais que sempre ouçamos falar que o petróleo mundial vai acabar, a verdade é que, desde 2008, com a crise do capitalismo, vemos a demanda caindo ao mesmo tempo em que a oferta tem aumentado.

Houve novas descobertas como o pré-sal (Brasil e Argélia), o petróleo não convencional Xisto (EUA) e Areia Betuminosa (Canadá), assim como um aumento da produção nos países da OPEP devido a uma maior estabilidade política depois da “Primavera Árabe”. (Vale ressaltar que estudos apontam a inviabilidade da exploração do Xisto em longo prazo).

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. O valor do barril que chegou a ser mais do que U$120 agora está U$66.

Apesar do raciocínio ser esse, não é fácil sua caracterização porque a derrubada dos preços não necessariamente são abaixo do custo de extração que assim como a dependência da economia dos países produtores de petróleo variam. Sendo assim, países como Arábia Saudita e Estados Unidos podem trabalhar com um preço inferior do que Rússia e Venezuela, por exemplo.

O preço de exploração divulgado pela Petrobrás é de U$14 (sem participações governamentais) e estima-se U$50 somando tudo, inclusive os investimentos para a descoberta. Portanto, a exploração, mesmo com a queda dos preços, continua viável. Porém os investimentos de U$141 milhões por dia e o conteúdo nacional, nem tanto. Os investimentos que planejam colocar o Brasil como quarto ou quinto maior produtor mundial de petróleo.

É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção. Denunciamos no ano passado a espionagem americana no Brasil e no México (não à toa, houve a quebra do monopólio mexicano de petróleo).

Se as empresas estrangeiras não certificarem o balanço da Petrobrás, esta não poderá mais negociar ações e terá muitas dificuldades para financiamentos. No ano que vem já estão previstos dois leilões de petróleo no Brasil, dos quais estão fazendo de tudo para que a Petrobrás sequer possa participar. O jornal “O Globo” já questiona abertamente a lei de partilha que garante a participação e controle da Petrobrás no pré-sal.

Se não conseguiram vencer as eleições, não conseguiram entregar de vez o nosso petróleo para o EUA, vão tentar inviabilizar a Petrobrás tanto nos investimentos quanto em conseguir novas reservas de petróleo. Se o mercado quer nos estrangular será que não é a hora de fazer o inverso e tornar a Petrobrás 100% pública?

Estabilidade monetária: A fraude dos dogmas

Por Paulo Rubem Santiago | Via Carta Maior

Sob pressão dos bancos, consultorias financeiras, agências internacionais de classificação de risco (risco para quem e em relação a que?) e da mídia econômica, a Presidenta reeleita escolheu Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.

Aplausos foram ouvidos, vozes do ramo idem, como a de Edmar Bacha, dizendo que Levy deverá ter “espaço” para desenvolver seu trabalho ou sairá, caso a Presidenta não lhe garanta essa condição, numa inovadora defesa, agora, da autonomia do Ministério da Fazenda para combater a inflação e elevar o superávit primário necessário à manutenção da relação dívida/PIB em patamares declinantes.

Renovar-se-ia assim a execução da política monetária de 1999, com um diagnóstico exclusivo da inflação (de demanda) e a centralidade da dívida pública nas contas nacionais. Nesse contexto a indexação dos preços administrados, permitida pelo Plano Real, permanece esquecida, como bem relatou Carvalho (2014) embora precisasse ser revista para o controle da inflação como apontaram Sicsú &Vidotto (2007) e Paulani (2007), ao afirmar, por sua vez, que “ num contexto de economia aberta, regime cambial flutuante e parcela substantiva dos preços operando em regime administrado, (…) apenas uma parcela muito pequena dos preços pode ser reativa à utilização dos juros como arma de controle inflacionário”.

Diversos equívocos são apontados nesse modelo de estabilidade. O privilégio dado às instituições de mercado na formação da chamada “ expectativa da inflação” é um deles, como assinalado por Oreiro & Passos (2005) no artigo “ A governança da política monetária brasileira, análise e proposta de mudança” , no qual perguntam se “ essas expectativas refletem, de fato, a percepção dos agentes com efetivo poder de formação de preços a respeito da evolução futura da taxa de inflação, ou se elas refletem apenas as opiniões vigentes entre os operadores do mercado financeiro? ”.

Além disso, para ambos, no atual regime de metas de inflação, há pouco espaço para a acomodação dos choques de oferta, já que o Banco Central usa o índice cheio do IPCA como referência. Também para os autores “no caso específico da política monetária, os objetivos desta devem refletir um equilíbrio obtido por consenso entre o “grau de aversão social” à inflação e o “grau de aversão social” às perdas de produção e de emprego decorrentes de toda a política de desinflação “(p.5). Segundo ambos a composição atual do Conselho de Política Monetária não enseja a busca desse equilíbrio. Além disso percebemos que o aumento recente da taxa de juros para 11,75%, óbvio, elevará a dívida pública, requerendo mais superávit primário, (a nova gestão da Fazenda mira um superávit de 2% em até dois anos), mais centralidade no tema fiscal e no curto prazo.

Oreiro & Passos lembram, ainda, referindo-se a Paul Bernancke et ali (1999, p.221), que a condução da política monetária via sistema de metas de inflação não implica que as autoridades monetárias devem ignorar o objetivo tradicional da estabilização do nível de produção e de emprego. Por isso defendem uma nova governança para a área, ampliando-se o Conselho Monetário Nacional com os agentes que atuam na formação de preços (comércio, indústria, agricultura e trabalho) e a desconexão no cálculo do IPCA dos bens sujeitos a choques de oferta e flutuações inflacionárias de curto prazo, levando-se a definição dos objetivos da política monetária ao Congresso Nacional, por proposição do Poder Executivo.

Segundo os autores “(…) o sistema financeiro brasileiro pode influenciar a decisão do Banco Central a respeito da fixação das taxas de juros, pois se os bancos entrarem em acordo entre si eles podem “forçar” um aumento da taxa de juros por intermédio de uma “revisão para cima” de suas expectativas de inflação. Propõem, assim, caminhos bem diferentes dos dogmas pró-mercados que imperam desde 1999, com algumas diferenças desde então. Por isso concordamos com Paulani (2007, p.122), quando afirma que “para a construção de um modelo alternativo de política econômica, o primeiro passo é discutir formas de libertar o funcionamento da economia dos interesses financeiros, que já há algum tempo prevalecem”. Sem esse caminho perpetuar-se-á a inércia monetária a favor dos mercados e do rentismo que lhes é próprio.

Referências

BERNANKE, B. et al. Inflation targeting: lessons from the international

experience. Princeton: Princeton University, 1999.

CARVALHO,A.R. – “A persistência da indexação no Brasil pós-Real “, Revista de Economia Política, Volume 24, No. 02, abril/junho de 2014

OREIRO,J.L. ; PASSOS, M. – “A governança da política monetária brasileira: Análise e proposta de mudança”, Indicadores Econômicos, FEE, Porto Alegre, v. 33, n. 1, p. 157-168, jun. 2005

PAULANI,L. M. – “Alternativas para o Brasil no século XXI”, p.121-129, in “Arrecadação: De onde vem? E Gastos Públicos: Para onde vão? “, Boitempo Editorial, São Paulo, 2007.

SICSU,J.;VIDOTTO,C. – “A administração fiscal no Brasil e a taxa de juros”, p.111-120, in “Arrecadação: De onde vem? E Gastos Públicos: Para onde vão? “, Boitempo Editorial, São Paulo, 2007.

Paulo Rubem Santiago é deputado federal pelo PDT-PE.

Uma defesa da política econômica de Dilma

Por Gustavo Santos, Laurez Cerqueira e Luis Carlos Magalhães

Dilma conduziu a política econômica com grande habilidade até agora. É de conhecimento geral que os resultados sociais melhoram significativamente em termos de emprego, salários, inclusão social e oferta de serviços públicos, como educação e saúde. Se fizermos uma comparação internacional, concluiremos que os resultados econômicos e sociais do Brasil justificam uma medalha de ouro, especialmente se considerarmos os obstáculos políticos e econômicos que foram enfrentados. A capitã de nossa nau fez uma travessia exitosa em meio a tormentas.

Essas não são informações novas. O debate eleitoral deixou isso claro. O que consideramos novo é a nossa tese de que a baixa taxa de crescimento média durante o mandato não mancha o fato de que a estratégia geral da política econômica foi sábia e estava no caminho correto.

O Tripé

Para chegarmos a essa conclusão herege, precisamos compreender que o condicionante principal da política econômica, o Tripé, é uma camisa de força que só pode levar a 3 resultados: crescimento muito baixo, apreciação cambial, que causa desindustrialização, ou o estouro das próprias metas. Nenhum outro resultado é possível.

Podemos dividir o Tripé em quatro fases, FHC, Lula 1, Lula 2 e Dilma. Na fase FHC, tivemos crescimento baixo, estouro da meta de inflação e estouro da meta de superávit primário. No período Lula 1, tivemos forte apreciação cambial, que levou à desindustrialização no mandato seguinte. O câmbio começou seu 1º mandato em um patamar muito competitivo, mas terminou valorizado. No período Lula 2, houve apreciação cambial com desindustrialização acelerada, que continuou no início do período Dilma em razão do efeito retardado do câmbio sobre a indústria. No mandato de Dilma, tivemos crescimento baixo e estouro da meta de superávit primário.

Obviamente é um modelo que tem péssimos resultados para exibir. Os resultados sistematicamente ruins do Tripé decorrem do fato de que ele não foi concebido para ser uma doutrina permanente de gestão da política econômica.

O Tripé é uma jabuticaba. Só existe no Brasil. E ele não foi criado de forma como um arcabouço único como exibem hoje. Foi resultado de diferentes soluções conjunturais para resolver problemas de curto prazo que restringiam o governo em 1999, no início 2º mandato do FHC.

O câmbio flutuante não foi uma escolha, mas uma derrota que o mercado impôs sobre a teimosia do Gustavo Franco, Presidente do Banco Central no 1º mandato de FHC. Essa insistência quebrou o Brasil e lhe obrigou a se submeter ao FMI em busca de empréstimos para sobreviver.

O FMI exigiu que o Brasil deixasse o câmbio flutuar. E de fato não havia alternativa a isso. Na impossibilidade de manter o câmbio fixo, como desejava, o governo FHC desistiu de sua antiga política cambial.

O FMI também exigiu que o governo adotasse uma meta de superávit primário. Ele preferia uma meta de superávit nominal, que inclui os gastos com juros. Porém, os juros extremamente elevados e suas oscilações na época tornavam o superávit nominal incontrolável a partir de políticas fiscais. A única forma de o governo ter controle sobre o superávit nominal seria reduzindo as despesas com juros para patamares próximos ao de outros países. Isso desagradaria o setor financeiro. A solução foi uma meta de superávit primário, mantendo assim a política de juros altos intocada.

A meta de superávit primário passou assim a funcionar como um mecanismo de estabilização da dívida líquida, que seria útil em um contexto de juros muito altos e crescimento muito baixo. Foi uma forma de dar legitimidade e sustentabilidade aos juros muito altos e ao baixo crescimento.

A meta de inflação teve como função impor uma regra rígida e clara de conduta para a política monetária. Com isso o governo limitaria as expectativas de desvalorização cambial, pois os especuladores poderiam calcular a partir das estimativas de inflação, quando o governo iria aumentar os juros. Em tese, como o aumento dos juros prejudica os especuladores, esses parariam coordenadamente de especular antes que fosse necessário que o governo aumentasse os juros para inibi-los. Assim a meta de inflação foi útil para reduzir os custos da política de controle da taxa de câmbio, custo esse que é medido pela necessidade de aumentar a taxa de juros. Foi útil em 1999, quando as expectativas de desvalorização cambial eram muito elevadas.

O problema do Tripé é que ele a torna a política econômica pró-cíclica e, portanto, limita a capacidade do governo retirar a economia da recessão ou estagnação. O Tripé impede o governo de fazer política econômica de forma independente dos humores e da “confiança” do mercado financeiro nacional e internacional. Através dele, a política fiscal é constrangida pela meta de superávit primário. A política monetária é completamente atrelada à corrida atrás da meta de inflação. E essas metas são definidas, até por pressão do setor financeiro, de forma a que o governo tenha pouca margem de manobra.

Somente anos depois de criado, o Tripé foi promovido como “Deus ex-machina”, a solução sagrada para todos os problemas. Isso aconteceu principalmente depois da eleição do Lula. Essa sacralização do Tripé pela imprensa brasileira acabou tornando a política econômica do governo Lula e Dilma muito limitada e manteve o governo com baixa capacidade de tirar a economia da recessão. Tripé faz com que o crescimento econômico dependa do “humor” e “confiança” do mercado e não das políticas governamentais de estímulo à demanda. O governo fica assim dependente dos “mercados”, que foram favoráveis em boa parte do governo Lula e desfavoráveis em boa parte do governo Dilma.

O Tripé impõe uma regra previsível e rígida de conduta ao governo, uma regra reativa ao mercado e, portanto, sob o controle indireto dos “humores” desse último. Quando o humor do setor financeiro nacional ou internacional piora, esse para de financiar os investimentos e a bolsa ou passa a comprar dólares. Com isso a economia para de crescer ou a inflação sobe e o governo é obrigado a aumentar os juros para conter o câmbio, ou cortar planos de investimentos públicos para fazer com que o crescimento dos gastos acompanhe o baixo crescimento da arrecadação. O Tripé é uma regra que torna o governo refém do “mercado” financeiro.

O Tripé de Lula

Por isso, em situações normais, o Tripé produz baixo crescimento ou o descumprimento das próprias metas. Foi assim com FHC e com Dilma. A grande diferença foi a forma como cada um deles reagiu à tendência estagnacionista do modelo.

Lula deu sorte de poder manter a taxa de câmbio em permanente valorização e, só por isso, pôde cumprir as metas de inflação e superávit sem ter um crescimento médio muito baixo. Felizmente, o Presidente Lula é um estadista que sabe utilizar a sorte. Sua sorte foi começar o governo com o dólar muito desvalorizado, e, quando não podia mais contar com isso, ser beneficiado pelo boom das commodities. As exportações e as reservas cambiais cresceram a taxas muito altas em todo seu governo. Por essa razão, a permanente valorização cambial não levou a um déficit no balanço de pagamentos e a um ataque especulativo sobre o câmbio. No gráfico abaixo, as barras verdes mostram o grande diferença entre o governo Lula e Dilma, a valorização cambial no primeiro, representada pelas barras para baixo e a desvalorização na segunda, representada pelas barras para cima.

Dilma: Tripé, desindustrialização e contenção de tarifas

Dilma, não pôde contar nem com o câmbio competitivo e nem com commodities ou exportações crescentes. Para manter os salários e empregos em crescimento, teve elaborar um plano muito engenhoso, precisou trabalhar no limite das metas e utilizou como saída conter as tarifas de serviços públicos e reduzir os impostos da cesta básica e, portanto, seus preços.

A política de contenção de tarifas e preços foi correta e essencial para que a Dilma pudesse dar continuidade às conquistas do governo Lula. Mas não apenas isso. Essa política permitiu que fosse parcialmente corrigido o maior erro da era Lula, a valorização cambial e a desindustrialização, porque o efeito dessas políticas de redução da inflação abriu espaço para que o câmbio fosse desvalorizado sem que isso implicasse em rompimento da meta de inflação.

Isso foi uma grande realização conduzida eficazmente pelo Ministro Mantega com essencial colaboração do Presidente do Banco Central Tombini e do Secretário Nelson Barbosa, na primeira metade do governo.

Desvalorizar o câmbio ao mesmo tempo em que melhora salários, emprego e serviços públicos é difícil. Fazer isso ao mesmo tempo em que garante o cumprimento de uma meta de inflação rígida, é uma obra admirável. Dilma conseguiu com isso estancar o processo de desindustrialização, como se pode ver no gráfico abaixo, sem romper com os compromissos sociais, como muitos sugeriram.

É preciso entender que o aumento dos salários, a desvalorização cambial e elevada indexação na economia brasileira impossibilitam o país ter um nível de inflação tão baixo quanto o padrão dos países já desenvolvidos.

A nova política industrial

Ainda assim o governo conseguiu manter a inflação na meta. Para atingir essa proeza, foi não suficiente a contenção das tarifas. Outro fator importante foi a política de competitividade empreendida pelo Ministro Pimentel com a formulação do Presidente da ABDI, Mauro Borges. A política de competitividade ajudou a indústria a sobreviver sem que fosse necessária uma desvalorização ainda maior do câmbio, o que implicaria em uma taxa de inflação superior à meta.

Uma das políticas mais inovadoras e mal compreendidas do governo foi a desoneração da folha de pagamentos. Ela tem um efeito similar à desvalorização sobre a competitividade externa da indústria, mas sem impacto sobre a inflação. Porém, é muito raro um técnico ou intelectual defendê-la. Na Receita Federal muitos acham que isso gerou um aumento da complexidade tributária. Muitos economistas temem que ela prejudique o financiamento da previdência, apesar de sabermos que, no mundo inteiro, o déficit na previdência é sempre financiado parcialmente pelo Tesouro, e que essa é uma forma de financiamento socialmente mais justo do que a tributação sobre a folha de pagamento, porque a previdência acaba, assim, sendo financiada, na prática, por impostos sobre a renda, o patrimônio ou o consumo e, portanto, atinge relativamente menos os trabalhadores.

O MDIC com contribuição do BNDES e da Fazenda concebeu também o Reintegra, o Inovar-auto e diversas outras políticas dentro do guarda-chuva do Plano Brasil Maior, que tiveram um impacto importante sobre a competitividade da indústria brasileira. Não há dúvidas de que a Dilma empreendeu a política industrial mais ativa em um presidente eleito democraticamente desde JK.

Os resultados podem não ter sido considerados tão evidentes em razão do câmbio ainda valorizado, da crise internacional, da feroz guerra cambial e competitiva que está sendo travada no mundo e do acelerado desenvolvimento de novas tecnologias cujas cadeias produtivas o Brasil ainda não participa de forma tão ativa, apesar de o governo ter investido pesadamente em inovação e educação.

Esses fatores tornaram o soerguimento da indústria uma tarefa hercúlea neste primeiro mandado. Combinados com a camisa de força pró-cíclica do Tripé, tornaram muito difícil superar o baixo crescimento.

As políticas pró-competividade são importantes para combater a desindustrialização e o déficit no balanço de pagamento, porém tem baixo impacto em estimular a demanda, que estava em descenso desde 2011.

A crise internacional permanente, os juros ainda elevados – apesar da tentativa audaciosa de reduzi-los – e o esgotamento de vários ciclos, como da construção civil e do endividamento para consumo de bens duráveis, implicavam em demanda decrescente e tendendo à recessão.

O maior erro da política econômica da Dilma foi o exagero no corte de gastos e aumento dos juros nos 1º semestre do governo. Isso comprometeu todo o mandato, porque não pudemos contar com um cenário externo favorável. Uma vez colocado o crescimento no chão, o Tripé passa a ser uma camisa de força que obriga o governo a ter uma política econômica “pró-cíclica”, e, no caso, estagnacionista, a menos que adote instrumentos considerados “heterodoxos”.

A queda da demanda e a política tributária de estímulo à competitividade reduziram a taxa de crescimento da arrecadação. Porém, ao invés de cortar investimentos e gastos sociais como foi pedido pelo setor financeiro, Mantega e Arno Augustin optaram, sabiamente, por buscar receitas extraordinárias, adiantamentos de receitas e reduções efetivas na meta de superávit que não comprometessem a Lei de Responsabilidade Fiscal. Essas políticas foram indevidamente chamadas de “contabilidade criativa”.

Graças a elas pudemos continuar avançando nos programas sociais, nos investimentos e estimular a indústria para impedir a continuidade da desindustrialização. E sem grandes problemas, apesar da histeria dos financistas ao dizer que o governo tinha perdido a “credibilidade”. Ao contrário do que os jornais falaram, as chamadas “manobras contábeis” foram legítimas e seu impacto positivo. Essas políticas ajudaram a impedir uma recessão e a paralisação do governo para cumprir de forma rígida uma meta de superávit que não faz nenhum sentido em momentos de crise econômica internacional. Nenhum outro país soberano tem uma meta rígida de superávit primário e poucos tem superávit primário. Quando tem, isso quase sempre é resultado da melhoria da situação econômica.

Não há nenhuma razão econômica para achar que a meta deve ser cumprida todo ano de forma rígida, como se fosse prioritária a manter a economia não estagnada e os gastos sociais e investimentos em crescimento. A menos talvez que o Brasil tivesse um endividamento líquido extremamente alto. Porém, nosso endividamento líquido é baixo e o endividamento bruto é estável e bem inferior à média das 10 maiores economias do mundo. Nada justifica colocar a meta de superávit primário como prioridade absoluta. Se a forma menos conflituosa de se fazer isso foi como fizeram Mantega e Arno Augustin, a atitude foi correta.

O papel do BNDES

Depois que percebeu que precisaria estimular a demanda, em 2012, o governo optou corretamente em não usar o estímulo ao consumo como locomotiva, em razão dos elevados déficits no comércio de manufaturas e em conta corrente. Dilma preferiu estimular a demanda principalmente através dos investimentos industriais e em infraestrutura.

O papel central nessa tarefa coube ao BNDES. Nos últimos anos o BNDES virou a Geni do Brasil. A direita e parte da esquerda o elegeram como inimigo público nº 1. Nada mais distante da verdade.

A crise de 2008 pegou o Brasil em cheio. Como o Tripé impedia políticas fiscal e monetária anti-recessivas, como foram adotadas nos países desenvolvidos, só escapamos de uma crise econômica mais séria do que a Europa está enfrentando hoje, por causa do BNDES.

A resposta dos EUA, Europa, Japão, China e outros emergentes à crise de 2008 foi invariavelmente déficit público muito elevado e política monetária expansionista sem precedentes. O primeiro para manter a renda e o emprego em níveis socialmente aceitáveis, a segunda para impedir que toda a economia entrasse em falência financeira. No Brasil, essas duas saídas foram vetadas pelo Tripé. Então, o BNDES cumpriu os dois papéis de política monetária e fiscal que não estavam à mão dos presidentes Lula e Dilma em razão do Tripé. Para isso, o BNDES foi obrigado a crescer muito. Em pouco tempo passou de R$ 40 bilhões de empréstimos anuais para quase 200 bilhões hoje.

Mais de 200 grandes empresas estavam próximas de quebrar em 2008 em razão de apostas especulativas com derivativos de câmbio. O investimento e exportações entraram em colapso. O BNDES foi a salvação em todas essas áreas. O Programa de Sustentação do Crescimento PSI-BNDES suportou a maior parte do investimento em máquinas e equipamentos do país desde então.

Mas o BNDES foi além. Ajudou a reorganizar as finanças de estados e municípios que ficaram abaladas com a crise, com as políticas de desoneração de IPI e com o contínuo aumento do salário mínimo.

Também financiou toda nova política de infraestrutura que a Dilma promoveu. Foi o maior investimento em infraestrutura feito por um presidente eleito democraticamente desde JK.

Nada disso seria possível sem o conhecimento, experiência, ousadia e capacidade de articulação do Presidente Luciano Coutinho. O BNDES é uma instituição muito complexa e criativa, que costuma tragar os presidentes que não conseguem decifrá-la. No passado, quando era um banco relativamente pequeno, já era assim. Hoje é pior. O tamanho que ele atingiu e o nível de dependência que a economia e o governo brasileiro têm dele fazem com que a tarefa de geri-lo deva ser conduzida com extremo cuidado e competência. São dezenas de programas e linhas de financiamento. Centenas de modalidades de financiamento e de objetivos estratégicos. Milhares de projetos de investimento em implantação. R$ 614 bilhões em estoque de crédito concedido.

Desde seu início, o BNDES foi gerido por intelectuais de alto nível acadêmico. No governo Lula teve o professor e ex-reitor Carlos Lessa, o mais criativo e original economista vivo do país, e agora o professor Luciano Coutinho. No governo JK foi gerido por Roberto Campos. Celso Furtado, Rômulo de Almeida, Antônio Barros de Castro e entre outros grandes intelectuais já foram seus diretores e presidentes.

É difícil encontrar um quadro político na ativa, hoje, tão bem preparado para a função que o Luciano exerce. É inconcebível abrir mão de um político, técnico e gestor como ele em um momento de crise tão agudo como vamos passar nos próximos quatro anos. E Luciano não é apenas isso. O conhecimento e experiência acumulada por ele no BNDES é algo que terá um valor incomensurável nos próximos anos.

Os inimigos do BNDES

E o ataque da imprensa à instituição só torna a tarefa mais difícil. A oposição e os mercados financeiros querem ver um governo refém e com pouca autonomia na área econômica. Por isso o ataque feroz à instituição.

Por mais de 3 décadas, os economistas mantiveram a dívida líquida como referência de “saúde fiscal”. Agora, de repente, alguém inventou que não é mais a dívida líquida que importa para avaliação da “saúde fiscal” do governo. Agora, o que importaria é a dívida bruta.

Não houve nenhuma mudança na teoria econômica que justificasse essa mudança de critério. É possível que ela seja decorrente do objetivo encontrar algum indicador que pudesse justificar as críticas às operações do BNDES com o Tesouro. Ora, as operações do BNDES com o Tesouro, que viabilizaram o crescimento e estabilidade depois da crise de 2008, não afetam a dívida líquida, mas podem ter levado a um pequeno crescimento da dívida bruta.

Como as operações BNDES-Tesouro “burlam” a camisa de força do Tripé, pode ter sido conveniente “amarrar” o BNDES através da mudança do critério de avaliação de “saúde fiscal” da dívida líquida para a dívida bruta.

Se for designado alguém para o BNDES, que não compreenda bem o papel atual da instituição e seus desafios e não saiba dialogar de forma qualificada com a imprensa, mercados financeiros e Ministério da Fazenda, perderemos a última saída que pode permitir ao governo manter a estabilidade e o crescimento sem abandonar o Tripé.

Um BNDES gerido com competência, cuidado e ousadia é fundamental para a governabilidade hoje. Isso não implica que o Luciano seja o único brasileiro capaz de manter essa função. Há outros quadros com experiência e conhecimento necessários para a função.

Todavia, é recomendável não abrir mão da sua experiência. O BNDES hoje está muito bem encaminhado. Mas existem funções em importantes empresas públicas e ainda não preenchidas pela Presidenta que estão enfrentando desafios tão grandes, ou até maiores, quanto o que o BNDES enfrentou em 2008 com a crise financeira. A experiência dele como gestor de grande empresa pública durante 7 anos tumultuados é única.

Minas, São Paulo e a Unidade Nacional

O governo poderia se beneficiar ao dar um espaço maior para o PT de Minas. A bancada de Minas é hoje tão grande quanto a paulista. Minas está incrustada entre o Centro-Oeste e o Centro-Sul, que são majoritariamente contrários ao governo.

Minas poderá cumprir novamente o papel que, segundo o professor Carlos Lessa, lhe cabe desde o período colonial. Ser o “cimento”, o fator de união nacional, e, portanto, a “ponta de lança” das mudanças agregadoras. As diferenças geográficas, econômicas, culturais e políticas entre o Sul, representado por São Paulo e o Norte, representado pelo Nordeste sempre foram marcantes e muitas vezes caminharam em direções opostas. Essas partes diferenciadas da Nação são os motores das experimentações, das mudanças e, consequentemente, dos conflitos.

Porém, quando as diferenças de visão entre o Sul e o Norte são muito grandes, o país pode entrar em impasse político. Normalmente coube a Minas, apoiar uma saída que junte novamente os polos divergentes, pois compreendem ambos os lados. Minas tem um pouco de Nordeste e um pouco de São Paulo.

Nas últimas eleições, se acentuou muito a divergência de opinião entre o Centro-Sul e o Norte. Para que o país não tropece em um impasse político de consequências imprevisíveis, alguém precisa mostrar de forma muito convincente que esses dois brasis, o pobre e desejoso por progresso e o rico e desejoso por estabilidade e mérito podem ser complementares.

O governo Pimentel poderá cumprir essa função. Ele pode mostrar como o Brasil se unirá para superar a crise. O Brasil das políticas sociais, que acredita na solidariedade e no otimismo, unido com o Brasil da indústria, da tecnologia e da meritocracia. Ambos precisam ser respeitados e trocarem suas experiências de forma a reduzir suas diferenças. Minas pode ser o modelo, pelo seu papel agregador e por ser o maior estado em que o PT já assumiu.

O PT de Minas precisa de mais espaço na área econômica do governo federal, até para poder trocar melhor as iniciativas que serão experimentadas. Pimentel e Mauro Borges constituíram uma dupla eficiente. É razoável que a estrutura que ajudaram a construir, no federal, tenha alguma continuidade e troca de experiência com a futura gestão estadual. Além disso, o que Minas mais precisa hoje é de desenvolvimento econômico. Coincidentemente, o PT de Minas é pródigo em economistas desenvolvimentistas. Na área técnica da economia, juntam conhecimento, moderação e habilidade de negociação.

Mas dar maior espaço a Minas não significa tirar o espaço do PT de São Paulo. O perfil do PT de São Paulo é mais rico na área social e cultural, de educação, saúde e C&T. São Paulo é o grande centro irradiador de ideias e debates políticos relevantes. Os políticos do PT paulista estão na linha de frente dos movimentos sociais e entidades civis ligadas à educação, saúde, cultura e diversas outras causas civis e sociais. Colocá-los nas áreas sociais levará os movimentos sociais a se sentirem reapresentados e compreendidos.

Boa sorte

A presidenta Dilma conduziu o Brasil de forma exímia por uma das conjunturas políticas e econômicas mais difíceis que um presidente teve que passar e conseguiu isso sem se abater pelas exigências inerentes de ter que dar continuidade ao presidente mais popular de nossa história.

Isso não significa que o governo não tenha cometido erros. A comunicação do governo, o relacionamento com o congresso e a gestão de crises, especialmente na área que envolve justiça e segurança ainda está sendo aperfeiçoada. A gestão energética e de petróleo também poderiam se beneficiar de maior criatividade e do rompimento de certos dogmas. A política industrial, apesar dos avanços, ainda não é tão agressiva quanto a dos nossos concorrentes.

Os próximos 4 anos serão muito mais difíceis. Os erros terão consequências mais graves. Nesse sentido, “queimar a largada”, como aconteceu no primeiro mandato, pode deixar o governo preso em uma “sinuca” por 4 anos em razão do Tripé e da radical campanha contra o BNDES e a Petrobrás.

Não queremos dizer com isso que a escolha da nova tríade na economia não vá funcionar. Toda escolha tem pontos fortes e fracos. A equipe é muito competente e deve ser apoiada com firmeza por todos os brasileiros para que atinja o máximo da potencialidade que pode ser obtida de seus pontos fortes. Gerenciar os pontos fracos será uma etapa posterior que dependerá de consequências que não são necessariamente previsíveis. Não é o momento de focar neles.

Desejamos ótima sorte à Presidenta! Estamos em uma encruzilhada de nosso destino como Nação. Poucas vezes um presidente terá uma responsabilidade tão grande quanto ela terá no próximo mandato. Os inimigos do nosso progresso pensam que o governo está suficientemente vulnerável para ser inviabilizado ou se tornar refém. Por isso serão capazes das apostas muito mais arriscadas.

Gustavo Antonio Galvão dos Santos é Doutor em economia pela UFRJ e analista do BNDES;

Laurez Cerqueira é escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan Fernandes Vida e Obra e o Outro Lado do Real;

Luis Carlos Garcia de Magalhães é Doutor em economia pela Unicamp e técnico do IPEA.

Globo mentiu sobre “triplex de Lula”

Por Altamiro Borges, em seu blog

Na semana passada, O Globo fez alarde com a suposta compra de um triplex pelo ex-presidente Lula. O diário da famiglia Marinho, famoso por sua história golpista e por suas práticas suspeitas (como no caso da sonegação do imposto de renda), nunca fez estardalhaço contra o apartamento de FHC em Paris ou contra Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, que adquiriu de forma misteriosa um imóvel em Miami. No seu ódio de classe, o jornalão preferiu destilar seu veneno contra o ex-operário que foi eleito e reeleito presidente e ainda ajudou a eleger e reeleger a ex-presa política Dilma Rousseff.

A “reporcagem” do jornal O Globo foi corrosiva. “O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pode passar o “reveilon” na Praia das Astúrias, no Guarujá, área nobre do litoral Sul de São Paulo. De sua ampla sacada, poderá ver a queima de fogos, que acontece na orla bem defronte do seu prédio, feito pela OAS, empresa investigada pela Operação Lava-Jato. É que na semana passada terminaram as obras de reforma do apartamento triplex no Edifício Solaris, que ele e dona Marisa Letícia, sua mulher, compraram por meio da Bancoop — a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo —, ainda na planta, em 2006″.

A “reporcagem” mentirosa, agora desmentida pelo Instituto Lula, alimentou o ódio nas redes sociais. Será que a famiglia Marinho fará nova autocrítica do seu “equívoco”, como fez do seu apoio ao golpe e à ditadura militar? Na dúvida, o ex-presidente poderia abrir mais um processo contra esta máfia midiática!

O Instituto Lula divulgou na final da tarde desta sexta-feira (12) uma nota em que desmente os boatos sobre o apartamento comprado pelo ex-presidente no Guarujá, no litoral paulista. Durante vários dias, alguns fascistóides alimentaram nas redes sociais esta falsa boataria. Eles foram insuflados por uma “reporcagem” do jornal O Globo, que até poderia ser processado por calúnia. Leia a íntegra da nota:

Nota sobre suposto apartamento de Lula no Guarujá

12/12/2014 – 18:04

Dona Marisa Letícia Lula da Silva adquiriu, em 2005, uma cota de participação da Bancoop, quitada em 2010, referente a um apartamento, que tinha como previsão de entrega 2007. Com o atraso, os cooperados decidiram em assembleia, no final de 2009, transferir a conclusão do empreendimento à OAS. A obra foi entregue pela construtora em 2013. Neste processo, todos os cooperados puderam optar por pedir ressarcimento do valor pago ou comprar um apartamento no empreendimento.

À época, Dona Marisa não optou por nenhuma destas alternativas esperando a solução da totalidade dos casos dos cooperados do empreendimento. Como este processo está sendo finalizado, ela agora avalia se optará pelo ressarcimento do montante pago ou pela aquisição de algum apartamento, caso ainda haja unidades disponíveis. Qualquer das opções será exercida nas mesmas condições oferecidas a todos os cooperados.

Assessoria de Imprensa do Instituto Lula

Globo amplia pressão para abrir Pré-Sal a gringos

Via Brasil 247

Um dia depois de defender, em editorial, que empresas internacionais, como Shell, BP, Exxon e Chevron, assumissem a liderança da exploração das reservas brasileiras de petróleo no pré-sal, o jornal O Globo agora produz reportagem sobre a mudança iminente nas regras, em razão dos problemas vividos pela Petrobras; “essa reflexão vai acontecer”, disse, em off, uma suposta fonte governamental ao governo; não se sabe ainda nem quem será o novo ministro de Minas e Energia, mas O Globo já vende a tese de que o segundo governo Dilma adotará o programa de Aécio Neves no petróleo.

Um dia depois de produzir um editorial defendendo a abertura do pré-sal a empresas estrangeiras, o jornal O Globo, dos irmãos Marinho, produziu reportagem sobre uma suposta mudança nas regras da exploração de petróleo no País.

De acordo com o jornal, o modelo de partilha, que obriga os consórcios exploradores, sempre liderados pela Petrobras, a dividir parte da receita com a União (o que se explica pelo menor risco exploratório, uma vez que as reservas já estão comprovadas), seria substituído pelo de concessões.

Embora o governo ainda não tenha definido quem será o futuro ministro de Minas e Energia, cargo para o qual aparece cotado o senador Eduardo Braga (PMDM-AM), O Globo se ancora em fontes “em off” para tratar da suposta mudança. “Essa reflexão vai acontecer”, diz a suposta fonte.

Pelo novo modelo, empresas internacionais, como Shell, Exxon, BP e Chevron poderiam arrematar concessões para, assim, explorar as reservas descobertas pela Petrobras ao longo dos últimos anos. O Globo aposta na tese de que a Petrobras, que ainda não conseguiu publicar seu balanço, ficará fragilizada financeiramente, será rebaixada por agências internacionais de risco e não conseguirá captar recursos para tocar seu plano de investimentos. Assim, a abertura aos grupos internacionais seria inevitável.

Este modelo era exatamente que vinha sendo defendido pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) durante a campanha presidencial. “Acho que nós temos que discutir o que é melhor para o Brasil, se em determinados casos não é melhor o modelo de concessão. É uma discussão que nós vamos fazer lá na frente, obviamente respeitando os contratos vigentes”, disse o senador, durante a campanha presidencial.

“A grande imprensa é um instrumento de dominação multinacional”: Entrevista com Nilson Lage

Por Rennan Martins | Brasília, 15/12/2014

A popularização da internet e de aparelhos multimídia massificou a produção de informação e registro de toda sorte de acontecimentos, relevantes ou não. As redes sociais abriram espaço para que as pessoas experimentassem novas formas de se relacionar e se articular em torno de objetivos comuns. Estes fatores estão mudando a forma com que os cidadãos lidam com a imprensa, a política, o poder de forma geral.

Este processo de transição e assimilação de uma nova tecnologia pela sociedade levanta uma série de importantes questões. Qual o real potencial da internet? A grande imprensa realmente perdeu capacidade de influenciar a opinião pública? Como era e como é a configuração da mídia em nosso país? Que relação tem a mídia com o poder?

Estas questões tão caras à democracia merecem uma reflexão que nos auxilie no caminho de inclusão social e participação política. Para isso, é preciso ouvir os intelectuais e personalidades que atuaram e atuam no debate público brasileiro.

Conversei então com Nilson Lage, jornalista de larga experiência e professor de obra vastamente citada na academia. Lage diz que a mídia corporativa é a “essência do poder”. Considera que a regulamentação dos meios de comunicação é positiva, mas que não afetará tanto o alinhamento editorial dos veículos. Enxerga ainda que a imprensa latino-americana é coordenada desde Miami, promovendo valores antinacionais e patrocinando a submissão dos povos aos EUA.

Confira a íntegra:

Quais as principais diferenças entre o jornalismo analógico e o digital? Que possibilidades a massificação da internet nos trouxe?

O professor Nilson Lage

A diferença básica é que a veiculação pela Internet eliminou os custos de transmissão (gráfica, eletrônica), distribuição e arquivamento, permitindo a multiplicação dos produtores e reduzindo radicalmente a escala de investimentos necessária a empreendimentos jornalísticos.

A segunda diferença em importância é que, virtualmente, toda a produção (gráfica, sonora, audiovisual) concorre para um só equipamento – o computador. Isso permite a composição dos diferentes media em produtos complexos (a página, o site, o portal, o aplicativo) dirigidos a uma ou a várias formas de exposição (em computador, smartphones, tablets, cinemas etc.)

A terceira diferença é que a Internet abala o conceito antigo de direito autoral, torna-o, em muitos casos, artifício legal contornável e tende a suprimir a apropriação de obras antigas e consagradas em novas edições, reimpressões, regravações etc.; facilita a recuperação de informação em arquivos e subtrai valor comercial de produtos antes muito prestigiados, como dicionários e enciclopédias.

Como você enxerga a inserção da internet e a massa de mídias no debate público? Há mudanças nas estruturas de poder e hegemonia?

É cedo para dizer.

A mudança de quantidade não configurou, por ora, qualidade nova. Os veículos tradicionais mantêm a hegemonia, embora com alguns novos concorrentes.

O sistema de informação pública organizou-se, historicamente, em todos os níveis, em modelo centralizado (poucos produtores → muitos consumidores) com redes de malhas que divergem de pontos bem definidos, baixa interatividade, retorno lento e respostas estocásticas. Assim funcionam os financiamentos, a veiculação publicitária, as fontes profissionais etc.

Uma das consequências é que o acesso à informação primária continua sujeito à mediação de poucos veículos, com privilégio da mídia tradicional. É mais viável negociar a informação (troca de informação por informação ou de informação por outra mercadoria) com poucos agentes, e conhecidos, do que facultar o acesso a número indefinido de incontroláveis interlocutores.

Finalmente, a produção de informação de acesso público é atividade profissional, com sua técnica, ética de convívio e práticas consolidadas. Constata-se que a aparente liberdade que a Internet propicia dá espaço à mistura de verdade e fantasia, constatações e invenções, mundo real e mundos possíveis, diálogo educado e insulto; facilita o reingresso de toda sorte de conceitos e valores abandonados ao longo da História e que se mantinham recessivos na sociedade.

O risco é uma explosão de entropia que resultará inevitavelmente em desinformação de massa.

Quanto à relação da imprensa com a geopolítica. Os conglomerados de mídia corporativa ocidentais atuam como braços do poder? A guerra de informação é real?

São a essência do poder.

Pode-se afirmar que o domínio da cultura saxônica, que antes disputava, no nível acadêmico e no mercado de consumo, com outras fontes – no Ocidente, principalmente, com a cultura francesa – consolidou-se na etapa norte-americana (após a década de 1920 e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial), dada a supremacia na área da informação.

A retórica do jornalismo americano tornou-se padrão de objetividade, impondo antagonismos absurdos (como democracia x comunismo), e ambiguidades surpreendentes (como liberal = socialista, socialista = comunista ou, no Brasil, trabalhismo = comunismo), substituições convenientes (estrangeiro/internacional) etc.

Seguindo o estilo consagrado pela revista Time (1922), a combinação de informação objetiva com adjetivação criativa, metáforas e acumulações de sentido produziu um modelo de relato-comentário da realidade que se mostra dominante, principalmente em revistas se informação geral e suplementos.

Através de mecanismos hábeis e de recursos bem direcionados, transferiu-se a luta política histórica (o conflito de classes e da distribuição de riqueza no mundo) para o universo existencial (a relação ente os sexos, as raças, do homem com a natureza); a escatologia – questão dos fins últimos e causas primeiras da humanidade da vida, do universo – passou do universo religioso para o debate partidário, adquirindo extraordinário potencial de conflito.

Como se dá a relação dos grandes grupos de imprensa com os governos progressistas latino-americanos?

A grande imprensa, coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa (SIP), por via das associações nacionais, como a ANJ – e, de maneira similar, no setor de rádio e televisão (no Brasil, Abert) – é um instrumento (hoje, o principal) de dominação multinacional, o que determina sua oposição radical ao nacionalismo, ao desenvolvimento econômico autônomo e à integração regional que esses governos patrocinam.

Isto se consolidou historicamente com penetração continental da indústria estrangeira da informação (gravadoras de música, distribuidoras de filmes etc), a partir da década de 1950, e com a orientação empresarial das agências de publicidade, em cuja direção (e na filosofia de trabalho) se concentra a visão mais cínica e reacionária da sociedade – haja visto o papel que tiveram, em fatos ainda recentes no Brasil, expoentes do setor, como Ênio Mainardi ou Ivan Hassolocker, o dirigente do Ibad que ajudou a articular o golpe de 1964.

Impermeável às identidades nacionais, a retórica publicitária vende cosmopolitismo, individualismo, racismo, hedonismo, superficialidade, imoralidade que sequer se assume e, sempre que possível, cultura global amorfa, sem história e sem pátria. Seu discurso é o da irresponsabilidade, da autocomplacência e do escapismo.

É tão enraizado isso que dificilmente se imagina como poderia ser diferente.

Em relação as últimas eleições. Como se deu a cobertura dos fatos políticos? A isenção existiu?

Claro que não, se considerarmos a cobertura em geral. Muitos jornalistas se esforçaram para fazer um trabalho correto, como sempre acontece. Conseguiram, minoritariamente, também como de hábito, mesmo nos momentos mais difíceis.

Sobre a liberdade de imprensa no país. Nossos jornalistas têm liberdade de investigar e escrever? Que poderes mais constrangem os colegas?

A censura empresarial está geralmente introjetada e se implanta através das estruturas hierárquicas que divulgam as linhas editoriais, comandam as redações, supervisionam pautas e avaliam trabalhos. De modo geral, numa espécie de seleção às avessas, os editores principais dos grandes veículos são jornalistas não muito brilhantes, mas bastante domesticados, que operam como via de transmissão das ordens da empresa, assumidas em geral como normas de sua lavra.

A política das redações varia um pouco, da relativa estabilidade aparente (em O Globo, por exemplo) ao estímulo da competição desvairada entre os repórteres (na Folha), com traço generalizado e crescente de insegurança que a concentração empresarial, a equação declinante empregados/candidatos a emprego e a decadência da mídia tradicional acentuam.

A liberdade é das empresas, desde que elas se articulem com os bancos que as financiam e agências que as sustentam, manobrando verbas públicas e privadas.

É sabido que no Brasil muitos políticos detêm concessões de rádios e televisão. Quais as consequências disso? Porque esse assunto tem pouco apelo entre os cidadãos?

Os cidadãos são mantidos na ignorância por um sistema (não só de comunicação, também educacional) que ordena os fatos como convém e oculta os que interessa ocultar.

A posse de veículos por políticos – algo mais generalizado no Brasil do que em outros países – decorre da origem histórica regional da imprensa, de um lado, e da estratégia montada pelas redes que se instalaram no Brasil com modelos e patrocínio estrangeiro, em particular a Rede Globo: ela assegurou sua hegemonia ao articular-se com as oligarquias regionais preexistentes, de que se originam (ou que representam), em sua maioria, os políticos que chegam ao congresso.

Nessas eleições muito se falou sobre a regulamentação dos meios de comunicação. O Brasil precisa dela? Por que?

Sim. Reduzirá ou eliminará a concentração de poder na mão da meia dúzia ou menos de famílias que controlam a informação no Brasil no plano nacional.

No entanto, não creio que afete radicalmente o alinhamento dos media. Por muitos que sejam os veículos e as redes – e por mais que aparentemente estejam competindo – terão traço comum dominante. É como as rádios FM da região metropolitana de São Paulo: são dezenas, como 14 milhões de ouvintes, mas não têm escolha: oferecem música pop-lixo, música brega-lixo, rock-lixo, sertanejo-lixo, mpb-lixo, qualquer coisa-lixo porque tocam o que interessa às gravadoras e por imposição do mercado publicitário, são impotentes para segmentar o público por padrões reais de gosto. Cabe aos ouvintes escolher entre um lixo e outro dentre o que lhe é oferecido ou recorrer ao CD-DVD-pen drive.

Há alguns dias a Comissão Nacional da Verdade publicou seu relatório final. Poderia nos dar um testemunho de como foi a ditadura na visão de um jornalista?

Um processo regressivo.

O Brasil tinha imprensa regionalizada, com correspondente na capital federal e veículos de todos os estados e principais regiões metropolitanas.

Havia jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão cobrindo amplo espectro ideológico dentro da normalidade de uma sociedade capitalista (a imprensa comunista sempre foi insignificante em termos de público): o trabalhismo de Última Hora, o nacionalismo classe-média do Diário de Notícias, a oposição radical e encasacada do Correio da Manhã, o catolicismo progressista (estética e editorialmente) do Jornal do Brasil, o reacionarismo provinciano do Estadão, a picaretagem assumida dos Diários Associados, o golpismo sistemático de O Globo, a criatividade da TV Excelsior etc.

Os militares – não tanto por interesse deles, mas por se deixarem convencer pelo inimigo que supunham amigo – destruíram tudo, e o que havia de liberdade foi quase toda junto.

Hoje em dia vemos toda uma nova geração dos blogueiros, que praticam comunicação sem formação específica, muitos deles com amplo sucesso. Que críticas faria a essas figuras? Que sugestões?

Não creio tanto nessa “falta de formação específica”. Há os cientistas políticos, os panfletários de ideias, os humoristas, os pregadores religiosos, os nefelibatas políticos… Sempre houve. Os que sobreviverem tendem a se profissionalizar.

Boaventura: a Terceira Guerra é contra a Rússia

Por Boaventura de Sousa Santos | Via OP

Bombardeiro B-52 equipado com armas atômicas. Para Boaventura, “várias agências de segurança [norte-americanas] fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear”

Washington provoca Moscou em três frentes, atiça possível conflito nuclear e ignora opinião da sociedade norte-americana. Em nome da “democracia”?

Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 a Resolução 758, que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação da Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela e Irã). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em Fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland, “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagámos para isso”. O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitima a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo midiático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em Fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando uma discrepância semelhante ou maior separa os cidadãos dos seus governos e da Comissão da UE, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?