Arquivo mensais:dezembro 2014

A mão que alimenta a mídia

Por Luciano Martins Costa | Via OI

A Folha de S. Paulo e o jornalista Fernando Rodrigues, do UOL, venceram a ação movida contra a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), e o jornal paulista publica na edição de quarta-feira (17/12) reportagem sobre a evolução dos gastos do governo federal e empresas estatais com publicidade.

O tema é motivo de polêmica, não apenas pela falta de transparência na destinação desses recursos, mas também pelo questionamento da validade da propaganda oficial. Com a decisão do Superior Tribunal de Justiça, a Secom é obrigada a abrir suas contas, e o público fica sabendo que o orçamento de comunicação do Executivo e das empresas que controla teve aumentos quase ininterruptos desde o ano 2000, período alcançado pelo levantamento.

Há uma explicação simples e convincente para alguns números: nesse período, cresceu o protagonismo de instituições como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, que se tornaram grandes concorrentes no mercado de crédito. O que alimenta as polêmicas é o gasto do próprio governo com publicidade, e o critério para a distribuição das verbas.

Oficialmente, a Secretaria de Comunicação Social justifica a partilha de recursos com o conceito de maior audiência, o que explica o maior volume de dinheiro destinado à Rede Globo de Televisão. Nos últimos 14 anos, a Globo recebeu R$ 4,2 bilhões dos cofres públicos. Em seguida, vêm a TV Record, com R$ 1,3 bilhão, o SBT, com R$ 1,2 bilhão, e a Band, com R$ 1 bilhão.

No grupo das empresas de mídia que não possuem emissoras de televisão como seu principal negócio, a Abril Comunicações, que edita a revista Veja, recebeu R$ 298 milhões nesse período, seguindo-se a empresa Folha da Manhã, que edita a Folha de S.Paulo, com R$ 206 milhões, e o Estado de S.Paulo, que recebeu R$ 188 milhões nesses 14 anos.

Apesar de a Secom não divulgar as quantias destinadas a cada veículo, pode-se observar que a verba para a mídia regional é pequena e que o total pago aos chamados “alternativos” não passa de 2% do que foi entregue nesse período a grandes empresas.

Claramente, essa política favorece a concentração do setor.

Uma questão polêmica

A principal mudança observada na política de comunicação do governo federal, no período mais recente, é a ampliação do número de veículos beneficiados e a maior diluição das verbas, apesar de os grandes grupos concentrarem o grosso do dinheiro. A Secom se refere a mais de 10 mil empresas, mas não especifica setores nem as regiões onde atuam. A quantidade dos destinatários desses recursos praticamente dobrou desde a posse de Dilma Rousseff, mas a concentração continua nas empresas dominantes.

Os maiores anunciantes entre as estatais são a Petrobras, que dispendeu R$ 429 milhões em publicidade em 2013 e R$ 4,6 bilhões desde o ano 2000, seguindo-se a Caixa Econômica Federal, com R$ 420 milhões no ano passado e R$ 4,5 bilhões no longo prazo; o Banco do Brasil, que gastou R$ 353 milhões no ano passado e R$ 4,2 bilhões desde 2000; e os Correios, que investiram em publicidade R$ 204 milhões no ano passado e R$ 1,3 bilhão entre 2000 e 2013. Esses valores não contemplam os patrocínios a projetos esportivos ou culturais.

A reportagem permite desvincular as verbas administradas pelas empresas estatais e os gastos diretos da Presidência da República e ministérios. No ano passado, a verba oficial para propaganda chegou a R$ 2,3 bilhões, sendo que, desse total, as estatais bancaram 64%, e o governo dispendeu o restante, ou seja, R$ 800 milhões.

O relatório da Secom, divulgado pela Folha, é diferente dos levantamentos do Ibope (ver aqui dados de 2013), que apontam números muito superiores porque se baseiam nas tabelas oficiais de preços dos veículos, que costumam dar grandes descontos conforme a fidelidade dos anunciantes.

Uma das questões centrais, não abordada pela Folha, se refere à utilidade do investimento direto da Presidência e seus ministérios em publicidade. Outra questão é o critério de distribuição desses valores.

Em vários grupos de debate, como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, atualmente controlado pela CUT, discute-se a validade de verbas oficiais para a mídia hegemônica, que atua claramente contra as políticas públicas que o governo procura divulgar em sua publicidade. Em outros grupos, o centro do debate é a legitimidade dessa propaganda.

O cenário é curioso: a imprensa ataca o governo, o governo se defende com a propaganda que alimenta o caixa da mídia.

Emanuel Cancella: A Globo sempre jogou sujo contra a Petrobras

Por Emanuel Cancella | Via Viomundo

Na década de 90 os petroleiros foram protestar na porta da Globo no Rio, no Jardim Botânico.

A emissora fez campanha pela privatização da Petrobras, comparando a Petrobras a um paquiderme e chamando os petroleiros de marajás.

O tempo mostrou quem tinha razão: hoje a Petrobras descobriu o pré-sal, que elevou nossas reservas a 60 bilhões de barris de petróleo, o que nos garante o consumo para os próximos 50 anos, e está entre as maiores petroleiras no mundo, inclusive através de seus impostos financiando 75% do PAC, além de vários programas sociais e culturais.

Hoje a corrupção é investigada e corruptos e corruptores estão indo para cadeia e o Ministério Publico anunciou que vai tentar recuperar R$ 1 bilhão desviado da Petrobras.

Só para se ter uma idéia do recente passado, em 1999 o então presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, fez um repasse de R$ 1,4 bilhão no escândalo conhecido como “Marka e FonteCindam”, dizendo que era para impedir a quebra do sistema financeiro brasileiro.

Esse dinheiro nunca voltou aos cofres públicos e FHC ainda posa de paladino da moral e dos bons costumes.

A Policia Federal, o Ministério Público e o Congresso Nacional nunca cobraram responsabilidade de FHC.

Agora a Globo faz campanha sistemática e diária contra a Petrobras e ainda tem a cara de pau de bater na porta do palácio do Planalto, muito provavelmente para pedir dinheiro através de campanhas publicitárias do governo na emissora.

A Globo, sem nenhum escrúpulo, faz campanha pela vinda das empreitaras norte-americanas para o Brasil, para substituir as nossas empresas envolvidas em corrupção na Petrobras.

Só que as empreiteiras norte-americanas são as mais sujas e corruptas do mundo, responsáveis inclusive pelo maior vazamento de petróleo do mundo, no Golfo do México.

Agora a Globo faz campanha pelos escritórios advocatícios norte-americano, estimulando os acionistas a entrarem com ações contra a Petrobras.

Não sei se esses advogados americanos são os melhores defensores de acionistas, haja vista que a Petrobras, apesar da campanha sórdida da Globo, vai bem obrigado. Já nos EUA e no mundo os acionistas da GM e do Citibank, entre outros, estão a ver navios pós quebradeira dos EUA em 2008.

Creio que está chegando a hora dos brasileiros voltarem à porta da Globo para barrar seu jogo sujo contra a Petrobras e em favor dos norte-americanos.

*- Emanuel Cancella é diretor do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).

Após 53 anos, EUA e Cuba anunciam conversas para ‘normalizar’ relações diplomáticas

Por Vanessa Martina Silva, Felipe Amorim e Rafael Targino | Via Opera Mundi

Um ano atrás, Obama e Raúl se cumprimentaram durante o enterro do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, em Johanesburgo. Agência Efe

Ainda nesta quarta, Washington e Havana trocaram prisioneiros: Alan Gross e os três restantes do grupo dos Cinco Cubanos foram libertados.

Os presidentes dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, anunciaram nesta quarta-feira (17/12) as maiores mudanças nas relações entre os dois países desde a imposição do embargo norte-americano à ilha em 1961. Entre as medidas, estão o início das conversas para a normalização das relações diplomáticas, a flexibilização do bloqueio econômico e a libertação, por parte dos cubanos, de 53 presos políticos.

Ainda nesta quarta, Washington e Havana trocaram prisioneiros: enquanto Cuba libertou o norte-americano Alan Gross, que cumpria pena de 15 anos na ilha por espionagem, Washington soltou também os últimos três dos Cinco Cubanos presos nos EUA, também acusados de espionagem.

As negociações entre os dois países começaram há cerca de 18 meses, no Canadá, e incentivadas pelo papa Francisco. Obama e Castro conversaram na manhã desta quarta pelo telefone – a primeira vez que mandatários dos países o fizeram desde o embargo – e selaram o acordo para a libertação dos prisioneiros.

As medidas anunciadas pelos dois governos incluem:

Diplomacia:

· Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, foi instruído para retomar imediatamente os diálogos com Cuba para reatar relações diplomáticas, interrompidas em janeiro de 1961

· Reabrir embaixada norte-americana em Havana para “trocas de alto nível”

· Manter diálogos com Cuba sobre: imigração, direitos humanos, combate às drogas

· EUA participarão da reunião da Cúpula das Américas em 2015, evento diplomático da OEA (Organização dos Estados Americanos) para o qual Cuba recebeu convite expresso do Panamá

· EUA revisarão inclusão de Cuba na lista de países que promovem terrorismo, status que a ilha acumula desde 1982

Viagens:

· Flexibilização das restrições a viagens entre os países: mais vistos serão disponibilizados a famílias, funcionários de governos, jornalistas, pesquisadores, grupos religiosos, ativistas humanitários e outros

Economia:

· Mudanças nas políticas econômicas dos departamentos do Tesouro e Comércio com relação a Cuba

· A permissão para o envio trimestral de remessas financeiras de indivíduos nos EUA para Cuba serão ampliadas de US$ 500 para US$ 2 mil

· Mais produtos dos EUA receberão autorização para serem exportados para Cuba, como material de construção civil e equipamentos de agricultura

· Cidadãos norte-americanos poderão obter licença para importar bens no valor de até US$ 400, mas não mais do que US$ 100 em bebidas alcóolicas e tabaco

· Empresas dos EUA terão permissão para abrir contas em instituições financeiras cubana

· Cartões de crédito e débito de bandeiras norte-americanas poderão ser usados por estrangeiros em Cuba

· Empresas de telecomunicações e internet dos EUA deverão ter mais liberdade para operar na ilha e poderão construir estruturas para intercambiar informação entre Cuba e EUA

Castro

Os discursos de Castro e de Obama foram quase simultâneos.

O cubano ressaltou a importância da retomada nas relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos. O líder afirmou que a “decisão de Obama merece respeito e reconhecimento do povo cubano”.

Os três dos Cinco Cubanos, que estavam detidos nos Estados Unidos desde 2001, já estão em solo cubano, afirmou o mandatário, que anunciou também a libertação de outras pessoas “sobre as quais o governo dos EUA demonstraram interesse”.

Cubanos assistem, em Havana, a discurso do presidente Raúl Castro. Agência Efe

Raúl ressaltou ainda que, apesar dos avanços, “o principal ainda não foi resolvido”. Isso porque Obama anunciou medidas para flexibilizar o bloqueio econômico imposto a Cuba desde 1961, mas não seu levantamento total. “O bloqueio econômico, que provoca tantos danos a nosso país, deve cessar”. Na opinião do mandatário, “o governo dos EUA pode modificar a aplicação da lei em uso de suas faculdades executivas”. O discurso do líder cubano foi encerrado ressaltando a necessidade de que o “governo dos EUA adote medidas mútuas para melhorar o clima bilateral e avançar para a normalização dos vínculos entre os países” e exortou o governo dos Estados Unidos a remover os obstáculos que “impedem o vínculo entre nossos povos as famílias e cidadãos de nossos países”.

Por fim, reconheceu as “profundas diferenças em matéria de soberania nacional, democracia e direitos humanos”, ressaltou a continuidade da revolução “sem renunciar aos nossos princípios” e destacou as dificuldades enfrentadas para levar adiante a atualização do modelo econômico do país “para construir um socialismo próspero e sustentável”.

Obama

Obama, por sua vez, falando da Casa Branca, disse que as medidas “criam mais oportunidades para os dois povos”. “50 anos [de embargo] mostram que o isolamento não funcionou. É hora de fazer uma aproximação”, afirmou.

Obama afirmou que política em relação a Cuba mostra que isolamento “não funcionou”. Agência Efe

O norte-americano comparou a situação das relações com Cuba à das com a China e com o Vietnã. “Nós temos relações com a China, que também é um país comunista. Assim como com o Vietnã. É por isso que, quando tomei posse, prometi reexaminar nossa política em relação a Cuba.”

“Nem o povo americano, nem o cubano, são servidos [atualmente] por uma política rígida que tem raízes em eventos que tiveram lugar antes de muitos nós sermos nascidos”, destacou Obama – ele mesmo, lembrou, nascido em 1961, ano em que o embargo à ilha foi imposto pelo então presidente John Kennedy.

O que não estão lhe contando sobre a crise mundial do petróleo

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Em sua eterna luta para jogar mais sombras onde já não existe luz, a imprensa brasileira está ignorando o fato mais importante do ano na economia mundial: a dramática queda do preço do petróleo.

É um fato que terá impactos brutais no mundo globalizado, mas a mídia nacional prefere centrar seus holofotes na Petrobras, como se se tratasse de um caso único de depressão num ambiente de extrema alegria.

Desde junho, quando atingiu o pico de 115 dólares o barril, o preço do petróleo caiu pela metade. Nesta semana, o barril está sendo vendido na casa dos 60 dólares.

Vários fatores se somaram para que isso acontecesse, mas você pode resumir a explicação na tradicional lei da demanda e da oferta.

A produção de petróleo, hoje, supera amplamente o consumo.

Isso está ligado à crise econômica mundial. Com sua economia se desacelerando, a China consome hoje muito menos petróleo do que fazia. O mesmo ocorre com outra potência, a Alemanha.

Os Estados Unidos, tradicionalmente os maiores importadores, está quase auto-suficiente, graças ao “shale oil” — saudado como uma revolução no campo energético.

Trata-se, essencialmente, da extração de gás e petróleo do xisto, um tipo de rocha.

Reduzida a demanda, era esperado que a OPEP, a organização que congrega os maiores exportadores, baixasse sua produção, para defender o preço.

Mas não.

Para surpresa generalizada, a OPEP, numa reunião em novembro, decidiu manter a produção nos mesmos níveis.

Foi quando o universo do petróleo entrou em convulsão.

Mas por que os produtores tomaram essa decisão?

Especialistas acham que o objetivo maior é matar o “shale oil” americano. A extração é muito mais cara. Caso o barril fique barato, a indústria do “shale oil” tende a se inviabilizar, e esta seria uma excelente notícia para os países da OPEP.

Mas efeitos muito mais imediatos da baixa da cotação estão já sendo sentidos em países como a Rússia, o Irã e a Venezuela. Todos eles dependem visceralmente das exportações de petróleo.

Para o orçamento russo se manter equilibrado, o barril deve estar na faixa dos 100 dólares.

Economistas já preveem uma queda de 5% do PIB russo em 2015. O sofrimento russo deu margem a que fosse ventilada a teoria de que por trás de tudo estariam os Estados Unidos, empenhados em criar problemas para Putin.

Faz sentido? Faz. Ou pode fazer. Mas o custo, para os americanos, é elevado. Sua florescente indústria de “shale oil” pode simplesmente se desintegrar.

E o Brasil, no meio disso tudo?

O quadro ainda não é totalmente claro. Há alguns benefícios: apesar de produzir como nunca, o Brasil ainda é um grande consumidor de petróleo.

Isso significa que as despesas de importação se reduzirão substancialmente. É, também, um alívio financeiro para a Petrobras, que subsidia os consumidores brasileiros.

A Petrobras vende a gasolina no Brasil por um preço inferior àquele pelo qual ela compra. O subsídio se destina, primeiro e acima de tudo, a controlar a inflação.

A ameaça mais séria, para o Brasil, vem do pré-sal. Como o “shale oil” americano, a extração do pré-sal é mais cara que a convencional.

Alguns estudos sugerem que com o barril a 40 dólares o pré-sal se inviabilizaria. Mas antes disso a vítima seria a indústria americana de óleo alternativo.

É razoável supor que o barril não descerá muito além dos 60 dólares.

A OPEP disse que ia esperar uns meses para ver o que ocorria. Um preço muito baixo, por um tempo longo, poderia ser fatal para a OPEP.

Assim, é presumível que, em algum momento nos primeiros meses de 2015, a produção seja reduzida para que o preço se recomponha.

Enquanto isso, as companhias petrolíferas são ferozmente castigadas. Nos últimos seis meses, as ações da Goodrich Petroleum caíram 86%. As da Oasis Petroleum, 75%.

A Petrobras é um caso entre muitos, e não um caso único, ao contrário do que a imprensa brasileira noticia.

Nada na economia mundial, em 2014, foi tão importante quanto o colapso dos preços do petróleo – mas a mídia brasileira, no afã de bater na Petrobras e consequentemente no governo, parece que não percebeu.

Sheherazade tenta de novo, e agora omite informação para defender Bolsonaro

Por Luís Nassif, em seu blog

Na versão da jornalista, Bolsonaro é um exemplo no combate aos crimes de estupro e Maria do Rosário deveria ser processada por “calúnia e difamação”.

“Se Maria não merece ser estuprada, Bolsonaro não merece ser taxado [sic] de estuprador”, escreveu a jornalista Rachel Sheherazade – depois de alertada nas redes sociais, corrigiu por “tachado” – em mais um artigo que sai em defesa de Jair Bolsonaro (PP) no episódio polêmico envolvendo a deputada Maria do Rosário (PT).

Nesta terça (16), a jornalista publicou um artigo intitulado “Bolsonaro e o sexismo”, no qual omite uma informação importante para defender o parlamentar dos pedidos de cassação por quebra de decoro parlamentar e pelo crime de incitação ao estupro.

Após ter pecado por compartilhar uma notícia falsa para defender Bolsonaro, Sheherazade agora argumentou que Bolsonaro é um “defensor” do combate a estupradores, inclusive “menores de idade”. No texto, ela denota que Bolsonaro afirmou que “jamais estupraria Maria do Rosário porque ela não merece”, como nenhuma outra mulher merece.

Mas o que o deputado disse foi que a parlamentar petista não merece ser estuprada porque é “feia”, não faz o “tipo” dele – denotando que mulheres precisam dar um motivo para serem vítimas desse tipo de crime. A fala foi registrada por um jornal impresso após o episódio de 2003, e serviu de base para a ação que a Procuradoria-Geral da República encaminhou na noite de segunda (15) ao Supremo Tribunal Federal, mas os leitores de Sheherazade não tiveram conhecimento.

Na versão da jornalista, Bolsonaro disse “jamais”, e “jamais”, em bom português, significa nunca, e nunca é negação, é não! Bolsonaro recusa o rótulo de estuprador, imposto por Rosário em 2003, e ainda diz: você não merece ser estuprada. Nem ela nem ninguém.” Para Sheherazade, se Maria do Rosário recebeu uma resposta “mal criada” de Bolsonaro, foi porque ela “provocou e depois não aguentou o tranco”.

“(…) os opositores de Bolsonaro querem distorcer suas palavras e manchar sua reputação para desacreditá-lo como homem, militar e parlamentar. É inaceitável. Se querem processar Bolsonaro por incitação ao crime, aproveitem e processem Maria do Rosário por calúnia e difamação”, concluiu ela.

Piketty e as hipocrisias conceituais

Por Waldimir Pomar | Via Correio da Cidadania

Thomas Piketty, o economistas francês que estudou as economias desenvolvidas do mundo e chegou à conclusão de que, nelas, a desigualdade econômica está aumentando de forma crescente, teve seu livro publicado em português e veio ao Brasil para um debate com conhecidos econometristas brasileiros da corrente monetarista.

Isso serviu de pretexto, paralelamente, para a publicação de comentários que trouxeram à luz o que se poderia chamar de hipocrisias conceituais. Em resumo: a) a mesma globalização que tornou os ricos mais ricos coincide com o maior período de redução da pobreza na história da humanidade; b) com isso, vislumbra-se pela primeira vez na história um futuro com o fim da pobreza absoluta; c) o próprio Piketty reconheceu que combater a pobreza é mais importante que redistribuir a riqueza; d) o segredo da possibilidade de reduzir a pobreza, como teria demonstrado o Brasil, não estaria na redistribuição da riqueza, mas no crescimento econômico, ou seja, na geração de riqueza; e) portanto, para acabar com a pobreza é preciso gerar riqueza.

Em continuidade, essas hipocrisias conceituais concluem que: a) é justamente a definição dos caminhos para crescer, ou gerar riqueza, que tem dividido os economistas há décadas; b) de um lado, estariam aqueles que acreditam no Estado como o principal ator do crescimento, e que supõem tolerável algum tipo de desequilíbrio nas contas públicas e de inflação mais alta, de modo a evitar a redução das atividades econômicas e das taxas de emprego; c) de outro lado estariam os que acreditam que os investimentos privados são o principal motor do crescimento, sendo necessário incentivar tais investimentos e fazer com que o Estado controle seus gastos e combata a inflação.

Começando pelas conclusões, elas são, além de hipócritas, de um primarismo crasso. A história mostrou que nem sempre basta que o Estado controle seus gastos e combata a inflação. Se o Estado brasileiro, durante a crise capitalista mundial dos anos 1930, além de controlar seus gastos e a inflação, não tivesse realizado investimentos produtivos e irrigado inúmeros proprietários privados com financiamentos públicos, o Brasil não teria se industrializado. Os capitalistas que hoje arrotam seu empreendedorismo talvez sequer existissem. O agrarismo teria se imposto e o país continuaria sendo um reles exportador de algumas commodities agrícolas. Quem tiver dúvida, que leia pelo menos os trabalhos de Roberto Simonsen e de Eugenio Gudin.

O motor real do crescimento são os investimentos. O problema é que o capital privado só admite realizar investimentos se suas taxas de retorno, ou de rendimento, forem superiores aos juros pagos pelo Estado para financiar suas atividades, ou para atrair investidores para o cassino financeiro. Assim, existem os que acreditam no Estado como principal ator do crescimento e supõem toleráveis desequilíbrios fiscais e inflação mais alta. Porém, também há os que enxergam no Estado um indutor, tanto dos investimentos públicos quanto dos investimentos privados. E que acham fundamental combater a inflação não pelo tripé de juros altos, arrocho fiscal e câmbio fixo, que historicamente levou o Brasil, nos anos 1990, a amargar uma verdadeira destruição de seu parque produtivo. A inflação pode e deve ser combatida através da redução dos juros, permitindo o aumento da produção, ou da oferta, assim como dos empregos e dos salários. O controle fiscal pode ser realizado priorizando os investimentos destinados ao aumento da produção. E as taxas de câmbio podem ser administradas para elevar a competividade externa dos manufaturados produzidos no país e equilibrar a balança comercial.

Vistas as coisas desse modo, pode-se considerar que não existe apenas um lado e outro. Há vários lados dividindo os economistas e outros pensadores sociais, não só a respeito dos caminhos a seguir para gerar riqueza, ou crescer, nem a respeito do que fazer com a riqueza gerada pelo trabalho humano. Há muitas divisões. Umas a respeito da globalização. Outras sobre a redução da pobreza. Ainda outras sobre o fim da pobreza absoluta, da relação entre pobreza e desigualdades, e sobre a necessidade de gerar riqueza para acabar com a pobreza.

Por exemplo, a hipocrisia conceitual critica Piketty por haver pesquisado apenas os países capitalistas desenvolvidos. Reconhece que, neles, os ricos ficaram mais ricos. Mas engrena daí para a conclusão de que, nesse mesmo período, a globalização produziu a maior redução histórica da pobreza. Porém, poderia e deveria ter dito que justamente naqueles países desenvolvidos, onde os ricos ficaram estupidamente mais ricos, não houve redução da pobreza. Ao contrário, esta se alastrou desde os anos 1980. Por outro lado, foram os países em desenvolvimento, ao adotarem políticas econômicas que romperam com o decantado tripé neoliberal, mesmo parcialmente, como foi o caso do Brasil, que reduziram a pobreza. Temos, pois, uma dicotomia mundial muito mais complexa do que a hipocrisia conceitual pode supor.

Nessas condições é hipocrisia pura vislumbrar apenas o fim da pobreza absoluta. Por que não vislumbrar também o fim da pobreza relativa? Será por que a pobreza relativa é o principal indicador do crescimento da desigualdade social descrita por Piketty? Ou por que a pobreza relativa, na doentia relação não só com o crescimento da riqueza, mas principalmente com a concentração e centralização da riqueza em algumas poucas mãos (1% dos países desenvolvidos), tende a se transformar em pobreza absoluta, ao invés de lhe dar fim?

Piketty teve o mérito de comprovar, com dados estatísticos, a brutal e crescente centralização da riqueza, ou do capital, assim como a brutal e crescente desigualdade nos países capitalistas desenvolvidos. Ou seja, ele comprovou algumas das hipóteses apresentadas por Marx no século 19 sobre as leis internas do desenvolvimento capitalista. Este tem uma imensa capacidade de gerar riqueza, através da compra da força de trabalho humano, tanto na forma de trabalho vivo quanto de trabalho morto. Mas, faz isso concentrando e centralizando a riqueza gerada, incorporando as ciências e tecnologias ao processo produtivo (trabalho morto), elevando a produtividade e descartando forças de trabalho (trabalho vivo), e intensificando tanto a pobreza relativa quanto a pobreza absoluta.

No momento, temos uma dicotomia entre os países capitalistas desenvolvidos, em crise e em declínio, e os países em desenvolvimento, tanto capitalistas quanto socialistas de mercado. Estes enfrentam as dificuldades das ondas da crise capitalista, mas ainda estão em crescimento e com redução da pobreza. Não se pode igualar ambos os processos e colocar todos os ovos da redução da pobreza na mesma cesta.

Nos países capitalistas desenvolvidos, o problema que se coloca para combater a pobreza consiste em redistribuir a riqueza concentrada e centralizada. O que talvez só possa ser feito através da transformação da propriedade privada em propriedade social. Nos países em desenvolvimento, a redução da pobreza consiste tanto no crescimento econômico, ou na geração da riqueza, quanto na criação de mecanismos que redistribuam parte dessa riqueza. Uma parte para a reprodução ampliada dos investimentos, do processo produtivo e da geração de novas riquezas. E parte para acabar com a pobreza, por meio de salários decentes e serviços públicos eficazes. O resto é pura hipocrisia, nem sempre simplesmente conceitual.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Cúpula climática em Paris terá mais dificuldades após acordo em Lima

Via Correio do Brasil

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa

A cúpula do clima de Paris em 2015 terá uma missão mais difícil para obter um acordo da ONU para desacelerar as mudanças climáticas, depois que as esperanças de que um acordo entre Estados Unidos e China fosse uma chave mágica para destravar um impasse global se dissolveram nas conversas preparatórias em Lima.

No melhor dos casos, Paris pode ser uma chance para reformar um sistema de conversas anuais da ONU, mais de 11 mil delegados compareceram às conversas de dois dias em Lima, e descobrir maneiras de impulsionar ações de longo prazo para conter as crescentes emissões de gases-estufa.

Mas o impulso político do acordo EUA-China deu lugar às familiares divisões e “linhas vermelhas” que rotineiramente empacam as conversas, especialmente sobre a questão da diferenciação das responsabilidades dos países riscos e pobres.

– O anúncio EUA-China indicou uma mudança fundamental em colocar países desenvolvidos e em desenvolvimento em um patamar mais igual. Não é surpresa que, em Lima, um monte de países em desenvolvimento resistiram – disse Elliot Diringer, do Centro para Mudanças Climáticas e Soluções em Energia.

A Organização das Nações Unidas diz que já está claro que as promessas para reduções de emissões em uma cúpula de Paris, que acontecerá em dezembro de 2015, serão muito fracas para avançar para a meta da ONU de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

– Teremos muito trabalho a fazer – disse o ministro francês do Exterior, Laurent Fabius, sobre o desafio de Paris.

Mesmo assim, 2015 ainda carrega uma esperança de reformas para que o sistema da ONU tenha maior controle sobre políticas de emissões de gases-estufa, que são culpados por ondas de calor, inundações, secas e aumento dos níveis do mar.

Paris pode marcar uma mudança de rumo das duas décadas de diplomacia climática em direção a um sistema mais tecnocrático, que permitiria que compromissos nacionais para ações climáticas fossem comparados e fortalecidos nos próximos anos.

Yvo de Boer, um ex-chefe da ONU para questões climáticas, disse que um problema era que negociadores da ONU não tinham autoridade. “Se os líderes do Grupo dos 20 se reunissem e dissessem ‘vamos fazer isso’, toda essa conversa acabaria em 30 minutos”, disse ele à Reuters.

De Boer, que agora lidera o Instituto Global de Crescimento Verde, que ajuda países em desenvolvimento, notou que as conversas climáticas anuais cresceram muito desde que 1.000 delegados se reuniram pela primeira vez em 1994.

– Paris pode ser uma oportunidade para mudar isso, se forem identificados pontos que precisam ser completados. Isso pode ser transformado em um processo técnico, e não político – disse.

Até agora, no entanto, os sinais não são tão bons.

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa, após a China ter negado um esforço da União Europeia por relatos detalhados dos planos.

Assim, o resultado das conversas de Lima, que atraíram desde ministros de países da Opep até veganos vestidos como frangos, significa que um acordo em Paris deve ser um mero remendo das ofertas nacionais para conter as emissões.