Por J. Carlos de Assis | Via Jornal GGN

O diretor da Transparência Internacional veio ao Brasil nos ensinar como combater a corrupção. O Jornal Nacional da tevê Globo lhe deu uns cinco minutos corridos ontem. E a lição que ele ministrou, do alto de sua experiência e sabedoria, deve entrar para os anais do combate à corrupção em escala universal: primeiro, segundo ele, não se deve receber suborno; segundo, não se deve pagar suborno. Há outros três pontos de que me esqueci. Acho que é um lapso de memória grave. Talvez perdoável porque se esses dois primeiros pontos forem cumpridos o problema está resolvido e os outros se tornam irrelevantes.
O problema com temas políticos que entram na onda é que sempre aparece um cretino para se aproveitar da situação com o único objetivo de aparecer. É claro que, para tanto, é necessário que haja cumplicidaade da mídia, que é louca por quem fala inglês. E a má fé de parte da mídia, que é apenas um pouco inferior que sua imbecilidade, leva a situações como essa de dar amplo espaço a um oportunista que não sabe sequer falar português, tratando de uma questão na qual os nossos promotores e investigadores estão dando um show de competência sem qualquer comparação, por exemplo, com o sistema jurídico corrupto e venal norte-americano.
Onde estão os condenados pela maior crise financeira da história, com o assalto aos tesouros americano e europeu da ordem de uns 7 trilhões de dólares para evitar a debacle do capitalismo mundial? Sim, promotores americanos descobriram fraudes de bilhões de dólares no mercado imobiliário praticadas pelo Bank of America e pelo Citigroup. Entretanto, eles pagaram, cada um, multas de 20 bilhões de dólares a fim de evitar a ação penal. Não há nada mais estimulante da corrupção do que esse sistema jurídico no qual o réu, tendo suficiente dinheiro, paga para não ser preso. No caso, foram os acionistas dos bancos que pagaram.
Não sei por que diabos Transparência Internacional não rastreia a cadeia de fraudes que aconteceu nos países desenvolvidos avançados no curso da crise financeira. A Libor, a taxa que regula todos os contratos bancários em Londres, foi fraudada. O Deutch Bank e o UBS fraudaram o mercado de câmbio, no qual são o primeiro e o segundo operador. Mais incompressível ainda é que Transparência Internacional não denuncia mundialmente essa excrescência que são os paraísos fiscais, sem os quais a corrupção seria reduzida a zero. Aliás, na reportagem do Jornal Nacional, o assunto é mencionado com a explícita ressalva de que os paraísos fiscais prestam serviços legais para o pagamento de menos impostos.
Sim. Tudo isso é simplesmente repugnante!
J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.
