Por Helio Silveira, 27/11/2014
A primeira no exterior, em Viena: A OPEP, capitaneada pela Arábia Saudita, decide manter a oferta do petróleo nos níveis atuais. Preços futuros desabam, dando continuidade à queda dos últimos meses, para desespero da Venezuela. Se considerarmos que cerca de 2/3 da oferta mundial são de países que estão fora da OPEP pode-se imaginar a guerra de preços instalada. A cotação do “Brent” principal referência do mercado, caiu para U$ 72,58, uma queda de 6,65%.
A Bloomberg publicou dois artigos que explanam esta decisão.
Possíveis consequências:
Em 1973, o mundo entrou em choque de oferta, recessão com inflação elevada – estagflação – por conta do aumento do insumo mais estratégico do mundo.
2014, 41 anos depois do choque de 1973 portanto, os principais países da OCDE, lutam contra a recessão e a deflação e recebem este golpe que constitui um choque deflacionário no principal insumo (custo) global.
O cenário internacional mediante essa medida:
O Japão, forte consumidor de petróleo, luta para enfraquecer o iene a fim de criar inflação no mercado interno e recebe um choque deflacionário dessa magnitude.
Estados Unidos, que também lutam contra a deflação. Entretanto, por lá o consumidor que ainda reclama de aumentos de preços referentes ao custo de vida e moradia, recebem este choque deflacionário com uma consequência de 2ª ordem: a ameaça de inviabilizar seu “contraditório” sucesso, a indústria do gás de xisto. O dólar possivelmente se fortalecerá o que os forçará a manter os juros negativos por muito tempo, podendo ainda ter de retomar o quantitative easing, afrouxamento quantitativo, a única política que fazem, obviamente destinada ao 1%.
A União Europeia até outro dia estava sendo estrangulada pelo gás russo que passa pela Ucrânia. Agora, minimizam este obstáculo mas enfrentarão outro, a deflação intensificada por mais esse choque.
China, também preocupada com a queda dos preços internos, recebe este choque deflacionário.
Para os produtores de commodities, Brasil inclusive, o petróleo representa um importante insumo da agropecuária na forma de rações, fertilizantes, defensivos e transporte com possível deflação das cotações. A Petrobras possivelmente terá perda líquida. Isso porque tiveram de importar petróleo caro sem poder repassar para a gasolina. Será beneficiada a curto prazo, mas a médio e longo terá prejuízos sua produção própria.
A Índia possivelmente se beneficiará da queda do petróleo, já que é altamente dependente do insumo e luta contra uma inflação renitente e preços internos elevados do setor de alimentação.
Os países pobres ao menos terão algum alívio no preço da alimentação e transportes.
A segunda, no Brasil:
Dilma, como em 2010, comete o mesmo erro estratégico. Enquanto o mundo inteiro teme a deflação (em 2010 era o início da recessão, mas com commodities ainda inflacionadas, ela aumenta consistentemente a SELIC de 10% para 12%). Ao apresentar seu trio principal da equipe econômica nos “premia” com um extemporâneo e desastrado arrocho fiscal e mais aumentos de juros, no mesmo dia da decisão da OPEP.
As perspectivas são negativas diante deste desarranjo.
