Arquivo mensais:novembro 2014

China e EUA assinam acordo climático histórico

Via Correio do Brasil

Em Pequim, Estados Unidos e China anunciam acordo histórico para redução das emissões de gases do efeito estufa.

Após conversas bilaterais, o presidente norte-americano, Barack Obama, e seu colega de pasta chinês, Xi Jinping, apareceram juntos em coletiva de imprensa, em Pequim. Na capital chinesa, Obama falou de um “acordo histórico” e um “divisor de águas” nas relações sino-americanas.

Segundo informações da Casa Branca, até 2025 os Estados Unidos pretendem reduzir suas emissões de gases poluentes entre 26% e 28% em relação a 2005. Já a China calcula que, por volta de 2030, o país atingirá o ápice das emissões de gases estufa. A partir desse ponto, Pequim pretende estancar ou iniciar um processo de redução de suas emissões, disse a Casa Branca.

Além disso, foi anunciado que Pequim pretende atingir esse objetivo mesmo antes de 2030. De acordo com informações norte-americanas, a China planeja aumentar para 20% a proporção de combustíveis não fósseis em sua matriz energética. Representantes do governo chinês informaram que, no ano passado, a proporção de energias renováveis na matriz energética chinesa girou em torno de 10%.

Cúpula do Clima

É a primeira vez que a China estabelece uma data aproximada para a redução de suas emissões de gases tóxicos, que, segundo cientistas, são os responsáveis pelo aquecimento global. No próximo ano, um novo acordo global do clima deverá ser assinado em Paris com vista à contenção do aquecimento global para o período após 2020.

Na coletiva de imprensa em Pequim, o presidente chinês disse que ambos os países estão determinados a colaborar para que se chegue a um acordo em Paris. Em Bruxelas, os 28 países-membros da União Europeia concordaram, em outubro último, em reduzir as suas emissões de gases tóxicos em “pelo menos 40%”.

EUA e China são os maiores produtores de gases poluentes. Até agora, o bloqueio mútuo dos dois países na política climática impossibilitou avanços nas negociações do clima da ONU. Diante da Cúpula do Clima no próximo ano, em Paris, já se esperava para estes dias um anúncio por parte de EUA e China quanto à sua contribuição ao acordo climático.

Países do G20

Um relatório do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino (ODI) apontou que as nações mais ricas do mundo gastam US$ 88 bilhões com subsídios à exploração de combustíveis fósseis. De acordo com o instituto britânico, isso enfraquece os investimentos em energias alternativas e aumenta o risco de uma “mudança climática perigosa”.

O Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália são os que mais fornecem essas subvenções, segundo o estudo. Os norte-americanos, por exemplo, destinaram US$ 5,1 bilhões a indústrias petrolíferas em 2013, quase o dobro do que foi gasto em 2009.

O relatório divulgado nesta terça-feira também chamou a atenção para investimentos feitos por empresas estatais como uma forma de subsídio, sobretudo em países como Brasil, China, Índia, México, Rússia e Arábia Saudita.

- Os níveis de investimento ficam entre US$ 2,5 bilhões na Rússia, México e Índia, até US$ 9 bilhões na China, US$ 11 bilhões no Brasil e US$ 17 bilhões na Arábia Saudita”, afirma o texto.

A terceira fonte de subvenção à exploração fóssil apontada pelo estudo é o financiamento público, praticado em especial em Canadá, Coreia do Sul, China, Japão e Rússia. Tais fundos seriam “investimentos antieconômicos” e “uma garantia publicamente financiada para companhias que produzem altos níveis de CO2″, condena o relatório.

Crítica ao G20

A ODI alerta que os incentivos à exploração são apenas parte do problema: as subvenções para a produção e o uso de combustíveis fósseis também somaram US$ 775 bilhões em 2012, contra apenas US$ 101 bilhões para as energias renováveis em 2013.

Tais subsídios “podem impelir o planeta para muito longe da meta, assumida internacionalmente, de limitar o aumento da temperatura terrestre a não mais de 2ºC”. Segundo o instituto britânico, isso revelaria o grande hiato entre o compromisso firmado cinco anos atrás, para diminuir o financiamento “ineficiente” de combustíveis fósseis, e as reais ações das potências do G20.

O relatório, publicado em parceira com a organização americana Oil Change International, antecipa a reunião de cúpula do G20, programada para 15 e 16 de novembro em Brisbane, Austrália. O governo australiano chegara a retirar da pauta o tema mudança climática, porém voltou atrás na decisão, devido à repercussão internacional negativa.

Diálogos Desenvolvimentistas: A estiagem e a energia

Rio São Francisco enfrenta uma de suas mais severas estiagens. Uol/Reprodução

No último dia 10 o colunista do Valor Econômico, Sergio Leo, publicou artigo intitulado São Pedro exige apoio no ministério de Dilma. Nele constatamos que a estiagem que o Brasil enfrenta este ano já cobra uma alta fatura também nas questões energéticas. O quadro é o de um setor que precisa recorrer cada vez mais a ativação das caras e poluidoras termelétricas e a empréstimos, tomados para que a geração de energia prevista nos contratos seja cumprida.

A perspectiva para o próximo ano é negativa caso as chuvas não venham. É possível que falte energia para atividades produtivas e isso contribua para mais desaquecimento econômico.

Diante desse quadro os economistas Gustavo Santos e Luís Otávio Reiff, funcionários do BNDES, debateram com o engenheiro eletricista Roberto D’Araújo, diretor do Instituto Ilumina, onde escreve regularmente sobre o setor energético brasileiro.

Confira:

Gustavo Santos – Dilma terá de fazer racionamento e isso vai reduzir a taxa já medíocre de crescimento. Sem falar que não poderá colocar a culpa em ninguém porque ela foi a ministra que montou esse modelo. Não é um desastre que aleijaria o país, mas para a imagem e moral política dela será.

Luís Otávio – Por que não importamos gás natural/petróleo do oriente médio e da Rússia? Na verdade, podemos trocar carne, soja, milho por petróleo russo. Seria uma forma de “tomar” mercado da Europa e EUA lá. Creio que há muita miopia na discussão sobre energia do país.

Gustavo Santos – Isso não muda nada:

1) Este é um problema de falta de capacidade de geração de energia elétrica (se faltar água), não tem ligação com oferta de combustíveis;

2) Ainda que houvesse capacidade de geração de energia as termoelétricas têm contratos de fornecimento de eletricidade que independem dos fornecedores deles;

3) Se dependesse, isso não mudaria quase nada;

4) Se mudasse um pouquinho ainda dependeria de comprar combustível mais barato, o que os russos não nos possibilitarão.

Luís Otávio – O Japão está há 3 anos com racionamento de 20% e mesmo assim a economia não está em recessão. É possível importar gás natural, energia da Itaipu do Paraguai e várias outras formas de geração de energia elétrica. Basta pensar um pouco.

Gustavo Santos – Podemos fazer racionamento sem grandes inconvenientes como em 2001, mas dizer que isso não teria impacto sobre o PIB é exagero. É possível crescer com racionamento (basta que setores pouco intensivos em energia cresçam de forma que mais do que compensem a queda dos setores intensivos em energia), Porém o impacto sobre o PIB e a inflação é inevitável. Importar gás natural não resolve. Há falta de capacidade de produção das termoelétricas para suprir a escassez de água nas hidroelétricas. Além do mais, já consumimos todo o excedente do Paraguai, não há como importar mais.

Luís Otávio – Meus pontos principais são os seguintes:

1. Não existe um modelo de energia capaz de garantir um suprimento continuo e a preços razoáveis indefinidamente. Todos os modelos são falhos. Portanto, a falta de energia é um dado da realidade e deveria ser colocada no planejamento. Ou seja, a cada 10-15 anos teremos uma crise. A história, brasileira (crise de 1993, 2001e 2014) e mundial demonstram isso.

2. A crise brasileira atual, comparada com as anteriores e com as crises mundiais, particularmente, a japonesa (48 usinas nucleares desligadas e perda de 30% da capacidade; seria como uma bomba tivesse destruído Itaipu e o sistema chesf ao mesmo tempo), não é representativa. Portanto, se a gente fica desesperado com uma crise dessa, o que aconteceria se tivéssemos uma crise à la Japão? Assistiríamos um Harakiri coletivo? Há soluções emergenciais de suprimento de energia elétrica: termoelétricas a carvão, a diesel, geradores isolados. etc.

3. Mais que um racionamento, precisamos de um programa de eficiência energética.

Roberto D’Araújo – Claro que não existe estabilidade de preços em prazos indefinidos, mas o Brasil conseguiu se afastar dos sistemas que tinham alguma possibilidade de manter os níveis de preço razoáveis, que tínhamos antes de 1995. Segundo dados da ANEEL, a tarifa residencial é 80% real mais cara da praticada em 1995. A industrial do mercado cativo (pequena indústria) é 108% mais cara. Alguém já viu alguém do governo dar alguma explicação sobre essa mudança estrutural? O prejuízo totalizado do setor já atinge R$ 100 bilhões e, apesar disso, parece que faz parte da paisagem de horrores do país.

Apesar de termos um sistema físico totalmente diverso das experiências mundiais de mercantilização da energia, o Brasil entrou de cabeça nessa aventura. Ao contrário do que muita gente pensa, o modelo “neoliberal” imaginado pelo governo FHC foi efetivamente implantado no governo Lula-Dilma. Fortemente agravado com a destruição da Eletrobras, sacrificada para fornecer energia gratuita para compensar os altos custos decorrentes do modelo adotado pelo governo.

Basta dar uma olhada nos diversos estados americanos para ver que aqueles que permaneceram sob o regime de serviço pelo custo (return rate regulation) têm tarifas mais baixas. Os sistemas mais parecidos com o brasileiro são os das províncias canadenses de Quebec e British Columbia (grandes reservatórios e longas linhas). Montreal tem uma tarifa 2,5 vezes mais barata que a brasileira. As empresas são estatais e, a não ser o Gustavo, não conheço ninguém que veja algum indício de que esse caminho seja viável no Brasil.

A crise brasileira é grave porque é difícil desmontar o colonialismo de mentes que toma conta do setor elétrico. No fundo, todos os técnicos experientes do setor sabem que o que está implantado no Brasil é uma gambiarra mal feita, mas a crença fundamentalista que “o mercado resolve” é imensamente forte. Muitos deles simplesmente aguardam a aposentadoria.

Hoje temos um sistema que avalia a segurança de forma otimista e não pode alterar nada porque emitiram certificados fixos de energia por usina e, se fossem alterar, o setor privado reclamaria muito. Como se sabe, quando eles reclamam, o governo aumenta os tiros no pé.

A crise é extremamente grave pelo seu custo e por ter um horizonte de grandes conflitos.

Santayana: Os pilares da estupidez

Por Mauro Santayana, em seu blog

Charge de Vitor Teixeira

Está em curso, há anos, nas “redes sociais” insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições.

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país.

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania.

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso.

Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem “frouxos” e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro.

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embraer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam “assinado” um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a “overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares” e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder pelas urnas, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma “Cuba Continental”.

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse “manifesto” e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.

Ele acredita “piamente” que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoíno esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar.

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, “piamente”, que é uma foto da mansão do “Lulinha”, que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras “lendas urbanas”, como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018.

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a liberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por “voluntários” para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão.

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, há alguns dias, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola.

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba.

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um “pequeno” detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país.

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal.

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que “qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político”.

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de “antidemocráticas” as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o agrônomo e assessor de marketing Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que “a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo”.

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de “irresponsáveis” — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição.

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de “políticos” de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de “moderação” que não têm sido corretamente aplicados nesses casos.

A Lei 7.170 é clara, e define como “crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito”.

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo.

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade.

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.

Apesar da campanha da mídia, o ENEM venceu

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

Um estilo jornalístico viciado e anacrônico é o principal responsável pelas dificuldades do país em trilhar novas experiências.

Em um Congresso de Secretários do Planejamento, cobrei dos secretários presentes a falta de empreendedorismo público, de novas experiências de gestão.

A resposta foi simples.

Na fase de implantação de novos projetos não há como não aparecerem problemas. Afinal, trata-se da implantação. Qualquer problema é superestimado pela mídia, utilizado para torpedear o projeto. Alguns projetos acabam morrendo no caminho por esta falta de compreensão. Depois de implantados, os projetos vitoriosos não merecem o reconhecimento.

O gestor público corre um enorme risco propondo o novo, sem nenhuma possibilidade de recompensa posterior: o reconhecimento público.

Tome-se o caso do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Em 2009, com sua universalização, começando pela unificação dos vestibulares das universidades federais, mudou a face dos vestibulares no país, democratizando o acesso de todos os estudantes a vestibulares nas melhores faculdades.

Ontem foram completadas as provas, com 6,2 milhões de inscritos, um caso de sucesso mundial. A não ser alguns episódios isolados de cola, não houve um problema sequer relatado por uma mídia capaz de superdimensionar os menores problemas.

O ENEM tornou-se uma instituição nacional. Junto com a expansão das novas universidades públicas e privadas, mudou a cara do ensino superior. Onde estão os velhíssimos capitães de ensino, que dominavam politicamente o setor e, com suas intermináveis páginas de publicidade, exerciam um poder absurdo sobre a mídia? Onde Di Gênio e outros símbolos de um velho modelo carcomido? Foram engolfados pela modernização e pela entrada de novos grupos no mercado.

No entanto, esse enorme avanço quase foi liquidado por uma campanha implacável da mídia, onde se misturaram má fé, incompreensão e jogadas políticas de baixo nível.

Problemas de vazamento de uma prova – em uma gráfica que tem a Folha como sócia -, problemas pontuais com um ou outro simulado, afetando proporções ínfimas dos inscritos, foram superdimensionados, abriu-se todo o espaço para um procurador exibicionista, tudo com a intenção de liquidar o programa.

Não se pensou nos benefícios para o país, para os alunos, nas oportunidades que se abriam com a democratização do acesso às vagas. A ideia fixa era impedir que seu eventual sucesso pudesse ser capitalizado pelo governo que o bancou.

A campanha implacável dos jornais

Logo após a notícia do vazamento da prova na gráfica Plural, em 19 de outubro de 2009, o Estadão não deixou barato: “Os problemas em cadeia gerados pelo vazamento da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), frustrando estudantes e desorganizando os vestibulares das universidades, são mais uma amostra do que pode ocorrer quando os interesses eleiçoeiros são postos à frente da racionalidade administrativa nos órgãos técnicos do Estado”. Se tivesse prevalecido a opinião do jornal, teria sido imediatamente interrompida a implantação do ENEM.

Houve inúmeras tentativas de atribuir a responsabilidade do vazamento ao INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas) e com isso politizar ainda mais a discussão. O jogo terminou apenas em agosto de 2011 quando um desembargador do TRF-3 ordenou a exclusão da Plural do processo, sustentando que ela não cumprira o que estava definido no edital.

Custou a Haddad a inimizade eterna da Folha.

O procurador exibicionista

Em nome dessa mesquinharia, grupos de mídia transformaram um Procurador da República exibicionista, Oscar Costa Filho, do Ceará, em personagem nacional.

Com os holofotes sobre ele, Costa Filho se vangloriava de ter-se tornado um especialista em melar vestibulares. “Sou fundamentalmente um professor. É até por isso que falo assim com esse tom e sempre gesticulando muito”, observava aos jornalistas que o procuravam.

O procurador constatou que o professor de um cursinho de Fortaleza – com 639 estudantes – vazou uma das provas do simulado. Com base nisso, pretendeu anular o ENEM em todo o país. O MEC (Ministério da Educação) respondeu prontamente sobre a maneira de contornar o problema sem prejudicar os demais inscritos. Mas a cobertura incessante da mídia tentava acabar com o programa.

O Procurador tornou-se celebridade instantânea, a ponto de conceder quatro entrevistas simultâneas, com um celular em cada orelha e dois telefones fixos ligados na sua mesa.

O interesse de milhões de estudantes, nada disso importava à mídia. Tratava-se agora de permitir ao Procurador se pavonear, desde que os objetivos políticos fossem atingidos.

A famas de exibicionista já o acompanhava desde 1991, quando tentou vetar um exame de avaliação dos professores do Estado pelo então governador Ciro Gomes. “Eu me lembro do Ciro me esculhambando e me chamando de exibicionista” vangloriava-se ele a repórteres. “Exibicionista, no caso, é o que desagrada quem está no poder para fazer justiça”, alardeava o pavão.

Transformado em herói por uma imprensa sem discernimento, dali por diante Costa Filho passou a atuar anualmente, valendo-se do poder de um cargo público para tentar derrubar a prova. Só parou quando a AGU (Advocacia Geral da União) ameaçou tomar providências legais contra ele.

Nos exames de ontem, o ENEM se consagra definitivamente. Foi o ponto central da cobertura da mídia, com portais montando projetos especiais para acompanhamento da prova. Nenhuma autocrítica, nenhum reconhecimento aos autores de uma política pública excepcional.

A prova de ontem chegou ao requinte de montar salas especiais com provas especiais e acompanhamento de especialistas para alunos com deficiência intelectual. Quem sabe disso? Apenas parentes e amigos de famílias beneficiadas por esse aprimoramento do ENEM.

O país está se civilizando. Mas as manchetes são aliadas da barbárie.

Lewandowski: “Nenhum juiz é Deus”

Via Brasil 247

Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) comenta caso da agente de trânsito condenada no Rio de Janeiro por ter dito a um juiz que ele não era Deus quando o parou numa blitz; “Nenhum magistrado é Deus, eles são homens comuns e devem respeitar a Constituição”, afirmou o ministro Ricardo Lewandowski.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, afirmou nesta segunda-feira 10 que “nenhum magistrado é Deus, eles são homens comuns e devem respeitar a Constituição”.

O ministro deu a declaração em Florianópolis (SC), ao comentar o caso da agente de trânsito Luciana Silva Tamburini, que foi condenada no Rio de Janeiro na semana passada por desacato à autoridade.

O episódio aconteceu em fevereiro de 2011, quando a funcionária do Detran-RJ parou um juiz numa blitz da Lei Seca no Leblon, zona sul da capital, e afirmou que ele “era juiz, mas não Deus”. O Tribunal de Justiça do Rio entendeu que ela “agiu com abuso de poder” e “zombou” do magistrado.

Lewandowski não comentou o caso em si porque disse que ele pode chegar ao STF. A agente de trânsito também foi condenada a pagar R$ 5 mil em indenização para o juiz, mas uma ‘vaquinha’ realizada na internet arrecadou quatro vezes o valor da multa, doado para ela.

Em segundo plano, malária mata mais que epidemia de ebola, conta médico brasileiro que atuou em Guiné e Serra Leoa

Por Patrícia Dichtchekenian | Via Opera Mundi

Paulo conta que os pacientes de ebola se simpatizam com os brasileiros e veem semelhanças entre os dois continentes. Carolina Pimentel/ MSF

Carioca Paulo Reis narra experiência como um dos nove brasileiros que trabalharam pela MSF na África Ocidental para tentar conter propagação do vírus.

Quatro dias após a epidemia de ebola ser decretada em 22 de março deste ano em Guiné, o médico generalista Paulo Reis, de 42 anos, partiu para o país africano, onde atendeu pacientes durante dois meses. De lá para cá, o carioca vestiu o jaleco para mais duas temporadas em Serra Leoa. De volta ao Brasil há menos de um mês, ele contou a Opera Mundi os desafios do pior surto da história do vírus, poucas horas antes de decolar para uma nova missão em Guiné.

Paulo é um dos nove brasileiros que estão entre os mais de 3 mil funcionários da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras que atuam na África para conter a atual propagação do ebola. O vírus, que gerou uma espécie de histeria coletiva em escala global e uma sensação de ameaça iminente ao Ocidente, contudo, não seria a principal doença a se combater no continente africano, mas estopim para o desmoronamento de um sistema de saúde pública intrinsecamente frágil.

“O ebola em si está matando muitas pessoas, mas acredito que tenha muito mais gente morrendo de doenças endêmicas do que do atual surto, principalmente de malária. Sem cuidados, as consequências podem ser bastante graves”, argumenta Reis a Opera Mundi. O impacto na estrutura precária em Guiné, Serra Leoa e Libéria é visto como alarmante. Com o foco no combate ao ebola, o aumento do número de mortes por doenças tratáveis, como diarreias e, sobretudo, malária, acaba negligenciado.

Na mesma linha do brasileiro, o médico inglês Jimmy Whitworth, chefe da fundação britânica Wellcome Trust, dedicada a melhorias na saúde mundial, afirmou em entrevista ao The Independent que também suspeita no aumento exponencial de mortes por malária. “Essas pessoas passam despercebidas, pois não estão recebendo tratamento em sistemas de saúde. Eu estimo que haja muito mais pessoas que morrem de malária do que de ebola”, afirmou à publicação.

Além da dificuldade em quantificar os pacientes pelo colapso no atendimento em sistemas de saúde, a médica Fatoumata Nafo-Traoré, chefe da ONG Roll Back Malária, que coordena ações em escala global para controlar a doença, acrescenta, em entrevista à BBC, o receio da população em notificar um sintoma clínico, temendo o pior. “No momento em que as pessoas têm febre, muitas vezes elas têm medo de ir aos serviços de saúde, porque querem evitar serem internadas em centros de tratamento de ebola”, explica.

De fato, a malária tem sintomas iniciais semelhantes ao ebola. Embora a malária não seja do grupo de febres hemorrágicas como o ebola, são duas doenças infecciosas endêmicas no continente africano e alguns sintomas se sobrepõem, como a febre alta e as complicações hepáticas. Outro fator que confunde é que os últimos meses foram marcados pela temporada de chuvas na região, que leva a um período de pico na transmissão da malária.

A confusão do diagnóstico entre esses dois vírus é recorrente. Em outubro, o brasileiro Yarssan Dambrós Salomão, de 29 anos, chamou atenção da imprensa europeia pela suspeita de ter contraído ebola durante uma viagem de três meses a países africanos como Mali, Mauritânia e Marrocos. O produtor de vídeo carioca estava prestes a retornar ao Brasil quando teve que ficar internado e isolado em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na Espanha. Com febre alta por vários dias, além de manchas e dores no corpo, o jovem Yarssan viveu momentos de tensão até saber que havia contraído malária, e não ebola. “Pensar que não iria morrer foi um alívio, a suspeita de ebola era forte”, contou à época em entrevista exclusiva a Opera Mundi.

Em se tratando de números exatos, a malária matou muito mais que o ebola. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), nos três países mais afetados pelo ebola, a malária foi responsável pela morte de 7 mil pessoas em 2012. Não se trata de uma competição de qual doença é mais mortal, mas ressalta-se a importância de também incentivar o tratamento para o controle da malária, cada vez mais marginalizada e à sombra do ebola. Segundo a OMS, um rápido diagnóstico contribui para a redução da transmissão da malária, o que indiretamente auxiliaria na luta contra o ebola, apontam especialistas das ONGS citadas.

Proteção de vulneráveis: grávidas e crianças

Além da propagação da malária que é negligenciada, Paulo chama atenção para mulheres grávidas e crianças, grupos vulneráveis na atual conjuntura. “Tivemos algumas mulheres grávidas que contraíram a doença. Na minha experiência, a maioria sobreviveu, apesar de serem mais frágeis à infecção. Mas, infelizmente, não conheço nenhum caso que o feto tenha sobrevivido ou nascido. Além disso, tem também o problema das grávidas que não foram contaminadas, mas não conseguem ter nenhum tipo de acompanhamento médico por conta do surto de ebola. A situação é grave principalmente em Serra Leoa, que tem um dos maiores índices de mortalidade maternal do planeta”, ressalta o médico brasileiro.

Em outubro, a MSF teve de suspender serviços de maternidade e de emergência pediátrica temporariamente em um dos seus principais centros de referência em Serra Leoa. A assessoria da organização explica que as equipes ficaram extremamente sobrecarregadas, o que impossibilitou medidas básicas de proteção para evitar contágio e o risco de novas infecções, tanto dos pacientes, quanto de seus profissionais.

Em relação às crianças, Paulo guarda histórias boas e outras ruins. “Teve um garoto de 11 anos que chegou muito mal, mas conseguiu se manter e ficou muito tempo internado. Geralmente, os pacientes morrem no terceiro ou quarto dia de internação. Já esse garoto ficou quase 3 semanas conosco. Infelizmente, ele morreu no dia em que fizemos um novo resultado de teste de ebola e tinha dado negativo. Ou seja, seu corpo já estava livre do vírus, mas seus órgãos estavam afetados demais. Ele lutou muito. Mohammed era o nome dele”, relembra.

Deficiências logísticas

Paulo Reis destaca a questão logística como um dos principais problemas na infraestrutura dos países. Em Serra Leoa, por exemplo, ele conta que na medida em que os casos suspeitos de ebola atingem vilarejos cada vez mais distantes, as poucas ambulâncias disponibilizadas pelas autoridades governamentais chegam a demorar até 9 horas para buscar os pacientes e mais 9 horas para transportá-los aos centros de tratamento.

Em situações críticas, o médico relata que já recebeu ambulância com até dez pacientes dentro. Existem casos em que não necessariamente todos estão infectados com ebola (mas sim com malária, por exemplo) e acabam sendo expostos ao risco de contágio durante as longas jornadas até chegarem às instalações de saúde disponíveis.

Por que essa epidemia dura tanto tempo?

Situações como as narradas pelo brasileiro evidenciam a falta de coordenação e de recursos em nível municipal, estadual e nacional, além de justificarem o motivo pelo qual esse surto dura tanto na região: segundo Paulo, Guiné e Serra Leoa são países cuja população tem o hábito de se deslocar com frequência e para longas distâncias, seja para comércio , seja para visita de parentes. A facilidade de transporte, somada à escassa infraestrutura, sem dúvidas, é um dos fatores que explica a longa duração do surto, de acordo com o médico.

“Apesar de o ebola ter acontecido muitas vezes no continente, nunca aconteceu uma epidemia nessa região [da África Ocidental]. Em 2012,fui para Uganda, que passava por mais um surto de ebola. Como todos já conheciam o vírus, a resposta da população e das autoridades foi mais rápida e tudo foi rapidamente contido”, diz Paulo.

“A Guiné teve uma propagação menor e, por isso, teve mais tempo pra se preparar e a resposta foi mais eficaz. Já em Serra Leoa, o avanço de casos foi muito rápido e muito maior. Tudo foi tão veloz que as autoridades locais nem estavam admitindo ter casos até que não dava mais para negar”, compara o brasileiro. Segundos dados da OMS de 7 de novembro de 2014, Guiné contabiliza 1.760 casos e 1054 mortos, ao passo que Serra Leoa apresenta 4862 pacientes confirmados e 1.130 mortos. Atualmente, todos os distritos de Serra Leoa estão afetados pela epidemia.

No entanto, o médico não acredita seja possível fazer uma estimativa para o desaparecimento absoluto da epidemia. “A situação não está sob controle. Fica difícil ter uma ideia. Vai depender da reação das organizações e o aparecimento de vacinas. Não arriscaria uma data ou estimativa”, diz. Em relação ao Brasil, Paulo é otimista. “Há possibilidades de casos isolados, isto é, ‘importados’, mas não acredito que se torne um caso de problema de saúde pública no país. O governo está tomando medidas bem lógicas e efetivas, sem pânico exagerado. Está contido, não vejo um risco grande”, assegura.

No vai e vem entre Brasil, Guiné e Serra Leoa, Paulo Reis ainda assegura que não sofreu preconceitos por aqui, apesar de ser um consenso que a ignorância em torno da epidemia gerou episódios de fobias ao redor do mundo. “Tive experiências boas. Infelizmente, isso acontece tanto no Brasil, quanto fora. São atitudes irracionais. Só ouvi uma brincadeirinha uma vez quando alguém me perguntou se podia apertar as suas mãos, dizendo ‘você não vai me passar ebola, né?’. É, talvez eu tenha dado sorte”.

Golpe em curso

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

Os que querem a derrubada do governo

Não conheço todos que trabalham para derrubar nosso governo, mas tenho conhecimento de algumas pessoas, organizações e países que estão trabalhando com afinco para derrubá-lo. O capital internacional, mais representado pelas empresas petrolíferas, que queriam ficar com a maior parte do petróleo do Pré-sal, desejariam ver um governo capacho tomando o poder. São os capitais que se sentem prejudicados com a assinatura de acordos pelo Brasil com a China, Rússia, Índia, África do Sul, países do Mercosul, outros países da América Latina, países da África e do Oriente Médio, enfim, com os novos parceiros do Brasil. São os Estados Unidos da América, uma vez que o planejamento da evolução das forças armadas deste país, segundo o seu próprio Departamento de Defesa, dentre outros objetivos, visa tolher o aparecimento de outros hegemones.

Está interessada na derrubada do nosso governo, por mais incrível que possa parecer, uma parcela do capital nacional, que se contenta em ser um proxeneta do internacional. Políticos, que se aliam a grupos estrangeiros para prejuízo do nosso povo também aderiram ao golpe. Políticos corruptos e seus corruptores nacionais querem derrubar, de qualquer forma, o atual governo, porque este tem liberado a Polícia Federal, a CGU e o Ministério Público para investigarem qualquer denúncia que apareça. Os atuais herdeiros dos antigos “donos de engenho”, que trocam a felicidade do povo pelo acúmulo de riqueza para eles próprios, não querem ver “peões” como beneficiados pelo poder.

Toda vez que a sociedade brasileira evolui, no sentido de aumentar seu nível de conscientização política e de desenvolvimento social, uma parcela pequena da população, contudo possuidora da mídia comercial e de muitos recursos, que representa interesses estrangeiros, busca barrar a evolução. Foi assim nos governos Vargas e Jango.

Em todas as situações, a derrubada começa com mentiras descaradas sobre o governo, transmitidas para a população exaustivamente por uma mídia corrupta, como se fossem verdades. Em seguida, vários poderes, políticos e lideranças criam obstáculos sistemáticos para quem foi democraticamente eleito.

Esta minoria quer o poder para continuar a exploração dos indefesos da sociedade e, com isso, continuar concentrando a renda em suas mãos. Quer também entregar riquezas nacionais a estrangeiros, que financiaram suas campanhas políticas, o atual golpe e ainda prometem umas migalhas para o futuro. Os governos Lula e Dilma representaram uma inflexão desta tendência. Registre-se que os benefícios para os mais desprotegidos, ocorridos nos citados governos, não foram subvencionados com recursos retirados ou que iriam para a classe média – portanto, não há razão para ela se opor a estes benefícios. No entanto, ela é muito influenciada pela mídia do capital.

Congresso fisiológico e conservador

O Congresso nacional é formado por uma grande bancada fisiológica e uma menor bancada ideológica. Os fisiológicos foram eleitos com auxílio de recursos bancados por apoiadores de campanha, não só o que é permitido pela legislação, como através de caixa dois. Assim, seus mandatos não são seus, nem dos eleitores que os elegeram. São dos seus apoiadores de campanhas, que têm interesses bem diferentes da presidente Dilma. Portanto, ela terá razoável dificuldade para conseguir ter qualquer assunto aprovado no Congresso.

Esporadicamente, o interesse público prevalece no Congresso, mas quase sempre é patrocinado por congressistas ideológicos. Os fisiológicos só querem “usufruir” de seus mandatos, pois passam a ter algum poder, que pode ser traduzido em dinheiro. Assim, para eles, o Congresso nada mais é que um balcão de negócios. Mas algumas decisões não dependem unicamente deles, mas também da presidente. Assim, quando ela precisa da aprovação, por parte deles, de outros temas, chantageiam-na com a aprovação dos pontos que representarão dinheiro para eles.

O presidente que não fizer um mínimo de concessões não irá governar. As alternativas seriam, em primeiro lugar, buscar o apoio popular para destituir os maus políticos dos seus cargos, o que é impossível de acontecer, dado o estágio atual da nossa conscientização política. Pode-se também denunciar este esquema diretamente para a sociedade, através da requisição de tempo na TV aberta e em cadeia de rádio, e do uso intensivo das TVs Brasil e NBR. Este seria o mínimo contraponto que a presidência sitiada poderia utilizar, mas iriam dizer que está sendo cerceada a liberdade de imprensa.

Quando um congressista diz que a reforma política tem que ser originada no Congresso é porque eles querem que passe a reforma que preserve seus poderes. Por isso, o projeto de lei de iniciativa popular da reforma política é extremamente importante. O decreto da presidente sobre conselhos populares para a participação social, derrubado pela Câmara recentemente, nunca iria ser aprovado pelo Congresso. Apesar das recomendações destes conselhos não terem que ser obrigatoriamente aceitas, se forem contrárias aos interesses do Legislativo, eles dificultarão as decisões de interesse dos congressistas. Outra ingenuidade é pensar que uma nova Lei dos Meios de Comunicação, útil para a sociedade, poderá ser aprovada pelo Congresso que saiu recentemente da eleição e é considerado pior que o atual.

O ministro do STF, a oposição e a mídia

Mas não é só o Congresso que busca golpear o próximo governo de Dilma. O ministro do STF Gilmar Mendes, em uma única afirmação deselegante, ofendeu a todos os juízes nomeados por Lula e Dilma. Inclusive, ele ofendeu o ministro Joaquim Barbosa, que, em muitas questões, teve opiniões concordantes. Ele esquece que, durante anos, o STF foi bastante conservador, mais parecendo conter onze Gilmar Mendes.

A posição do PSDB, depois da eleição, é socialmente reprovável. Discursos de ódio de muitos dos seus mais altos membros, como Aécio Neves e Aloysio Nunes Ferreira, demonstram a desvinculação da base mínima para um possível convívio político. Mesmo Fernando Henrique Cardoso, em artigo, deixa claro também suas radicalizações. Tudo isto com a reverberação máxima da mídia do capital. Eles não querem construir uma sociedade fraterna, mas uma sociedade de castas. É importante deixar claro que, nesta eleição, há ódio de classes.

O nível de radicalismo da oposição é inusitado, pois não reconhecem que perderam com cerca de 3,6 milhões de votos de diferença entre o vencedor e o perdedor. Querer que o vencedor não governe é um achincalhe ao desejo popular. Aécio deveria seguir o exemplo de John McCain, candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano em 2008, tendo como adversário o candidato democrata Barak Obama. McCain acabou derrotado por Obama e, no discurso reconhecendo a derrota, disse: “Obama era meu adversário. Agora é meu presidente”.

Querer o impeachment da presidente devido à denúncia não comprovada de um bandido é uma afronta a qualquer pessoa de bem e que deseja a construção de uma sociedade justa. A oposição se valeu desta denúncia inconfiável, que não deveria ser divulgada no meio do processo eleitoral, para amealhar votos para seu candidato.

Raciocinando com a hipótese de que o Aécio ganhasse a eleição, só para mostrar o absurdo que foi esta divulgação. Claramente, ela teria influenciado o resultado. Depois que Aécio tomasse posse e não se comprovasse que Dilma sabia das falcatruas dos senhores Costa e Youssef, o que se faria, pois se teria dado posse ao presidente errado?

O que ocorreu possivelmente foi que esta denúncia causou danos ao total de votos da presidente, mas, por sorte, ela tinha uma razoável quantidade deles em excesso aos do adversário e, por isso, ela ainda continuou ganhando.

O PSDB requereu ao TSE uma auditoria independente sobre a votação através das urnas eletrônicas, conseguindo não só agredir ao TSE, mas também a todos os técnicos do setor público responsáveis pela eleição. Outra divagação para mostrar o momento inusitado em que vivemos: imagine que o Aécio ganhasse a eleição e os simpatizantes de Dilma começassem a declarar, antes de completar uma semana da eleição, que as urnas eletrônicas foram fraudadas e a pedir impeachment do presidente eleito? Toda a mídia do capital diria que os simpatizantes de Dilma são antidemocráticos e querem desrespeitar a vontade popular.

Golpe em curso?

Em uma manifestação da direita em São Paulo, onde o PSDB se fazia representar, pediram até o retorno da ditadura. Este pedido é incrível, porque próceres deste partido, como Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, sofreram na ditadura e não houve repúdio à proposta. Contudo, uma voz com a razão finalmente apareceu, pois Xico Graziano, que é do PSDB, repudiou a volta da ditadura. Repito, sobre este ponto, seus colegas de partido se calaram. Será que para tirar o PT do poder até uma ditadura é bem-vinda? Lembre-se que, para tirar Jango do poder, a direita aceitou uma ditadura.

Por esta pequena amostra, pode-se concluir que o mandato que ainda não iniciou irá sofrer crises ininterruptas, propositadamente criadas pela direita, aliada a interesses estrangeiros. Tudo com o beneplácito de um Congresso de maioria fisiológica. Este não terá espírito público e passará quatro anos criando “dificuldades” para ganhar “facilidades” nos seus pleitos para a presidente. As reformas política e da mídia, primordiais para a consolidação da democracia brasileira, dificilmente ocorrerão a contento porque os próprios congressistas têm interesses diferentes dos da população, com relação ao sistema político e à regulamentação da mídia. Serão mentiras e acusações constantes, com repercussão máxima na mídia, para sequestrar os votos dados pelo povo à presidente.

É possível compreender a angústia atual de muitos dos militantes e quadros do PSDB e da direita, afinal de contas estão longe do poder há 12 anos; com mais quatro deste segundo governo Dilma, estarão 16 anos longe do poder. Se for somado mais quatro anos de um potencial terceiro mandato de Lula, chegar-se-á a 20 anos do PSDB e da direita longe do poder. A solução para eles é um golpe ou o impeachment.

A esperança maior reside no povo, que não foi manipulado nesta eleição pela mídia, e precisa, de novo, não ser enganado pelo que a mídia disser para forçar o golpe. A presidente é combativa, mas precisa do apoio popular. A libertação de nosso povo, que não quer ser mais explorado por inimigos externos e internos, precisa ser conquistada. O golpe está em curso, mas pode ser revertido, principalmente se existir apoio popular para a presidente poder governar.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/