Arquivo mensais:novembro 2014

Ex-Itaú, Freitas arrecadou para Aécio junto à empreiteiras

Via Brasil 247

Em depoimento à Justiça Federal, o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, afirmou que, nesta campanha, foi procurado pelos tesoureiros do PT, João Vaccari, mas também do PSDB; entre os tucanos, segundo ele, o arrecadador seria “Dr. Freitas”; trata-se de Sérgio de Silva Freitas, executivo egresso do banco Itaú, que arrecadou para José Serra, em 2010, e, neste ano, para a campanha presidencial de Aécio Neves, embora não tenha sido apontado como tesoureiro oficial do partido; “Era um grupo de pessoas que fazia isso para o partido. Normalmente. Assim como foi feito com todos os doadores”, disse. “Todos ligados ao partido, todo mundo se esforçou por isso, eu sou um de muitos”, disse “Dr. Freitas”; da empreiteira, o PSDB recebeu R$ 7 milhões.

A Operação Lava Jato jogou luzes sobre o personagem que arrecadava recursos para o PSDB, na campanha presidencial de 2014, do senador Aécio Neves (PSDB-MG), junto a grandes empreiteiras.

Trata-se de Sérgio de Silva Freitas, executivo egresso do banco Itaú. Seu nome apareceu no depoimento de Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, à Justiça Federal.

Segundo Pessoa, seus contatos para tratar de doações eleitorais eram João Vaccari, o tesoureiro nacional do PT, e “Dr. Freitas”, um personagem que não consta como tesoureiro oficial do PSDB, mas que circula nas sombras da arrecadação de campanhas – oficialmente, o tesoureiro da campanha de Aécio foi o ex-ministro de FHC José Gregori.

“Dr. Freitas” foi ouvido em reportagem desta sexta-feira dos jornalistas Aguirre Talento, Gabriel Mascarenhas e Rubens Valente, da Folha de S. Paulo.

Ele admite ter procurado o empreiteiro, mas nega qualquer pedido de recursos. Diz que foi lá só para tentar convencê-lo a doar.

“[Era] um grupo de pessoas que fazia isso para o partido. Normalmente. Assim como foi feito com todos os doadores”, disse. “[Os integrantes desse grupo são] Todos ligados ao partido, todo mundo se esforçou por isso, eu sou um de muitos”, disse “Dr. Freitas”.

Aparentemente, o “convencimento” deu certo. Segundo dados da Justiça Eleitoral, nas eleições de 2014 a UTC doou R$ 2,5 milhões ao comitê do PSDB para presidente e mais R$ 4,1 milhões aos comitês do partido em São Paulo e em Minas Gerais, além de R$ 400 mil para outros candidatos tucanos.

Alguma coisa está muito errada na procura pelo ministro da Fazenda

Por Kiko Nogueira | Via DCM

Trabuco, do Bradesco

Alguma coisa está muito errada num país quando é ‘preciso’ indicar alguém do mercado financeiro para o Ministério da Fazenda.

Foi o que disse, num artigo para a Folha, com sabedoria ferina, o ex-ministro Delfim Netto.

Agora: e quando o candidato preferencial do governo ao cargo é presidente de um banco que, poucos dias atrás, estava no centro de uma acusação fundamentada de evasão fiscal via paraíso fiscal?

Sei que o PT adotou o pragmatismo como razão de vida, mas há momentos em que nem o pragmatismo explica o inexplicável.

No último trabalho de Fernando Rodrigues na Folha antes de ser demitido, ele mostrou que o Bradesco – bem como o Itaú – usou Luxemburgo para deixar de pagar 200 milhões de reais em impostos.

Vamos ao contexto.

No mundo inteiro, coibir manobras fiscais – o codinome para sonegação – é uma das maiores prioridades dos chefes de governo.

No encontro do G 20, este foi um dos pontos sublinhados pelos presentes, entre eles Dilma.

As economias das nações são brutalmente golpeadas quando as maiores empresas deixam de pagar os impostos devidos.

O ganho é apenas dos acionistas. A sociedade é altamente prejudicada.

As contas dos países, com a sonegação em alta escala, ficam perigosamente desequilibradas, e daí decorrem sérios problemas econômicos.

O Brasil vive este desequilíbrio, aliás, como prova uma controvertida tentativa do governo de fazer uma gambiarra na questão do superávit.

O Bradesco foi flagrado num caso de evasão. E mesmo assim seu presidente é cortejado para ser ministro da Fazenda.

Que mensagem é passada para a sociedade? Mais: para as corporações que, como o Bradesco, se valem de paraísos fiscais? Mais ainda: para as empresas que não usam este tipo de artifício?

Na Suécia, a Ikea foi citada na mesma lista de usuários de truques fiscais. O governo imediatamente manifestou sua repulsa ao que a Ikea fez e anunciou medidas para acabar com a festa.

No Brasil, autoridade nenhuma falou nada sobre o caso que envolve Bradesco e Itaú. Nem a Receita Federal emitiu ao menos um sussurro que mostrasse que ela ao menos tomou conhecimento e está investigando.

E eis que o Bradesco está no noticiário – mas cortejado para ceder seu presidente ao cargo mais importante da equipe de Dilma.

Num quadro clássico de um programa antigo de humor, alguém fazia uma pergunta aguda. A resposta vinha cheia de malabarismos verbais.

O homem que respondeu dizia, no final: “Entendeu?”

O autor da pergunta devolvia: “Entendi, mas não compreendi.”

Quanto a mim, como muitos brasileiros, entendi mas não compreendi o convite ao presidente do Bradesco.

Ainda é tempo de parar a máquina do golpe

Por José Carlos de Assis | Via Jornal GGN

O espectro de um golpe contra as instituições ronda o país, como assinalou Luís Nassif em coluna desta semana. O que se prepara, contudo, não é um golpe militar clássico. É um golpe jurídico-midiático pelo qual se tentará responsabilizar a Presidenta por alguma irregularidade inventada em suas contas de campanha e que a mídia golpista se encarregará de expandir até a dimensão de mais um escândalo a ser coroado por um impeachment. Os militares não se meterão. Ainda traumatizados com as sequelas de 64, se comportarão como guardiães da Constituição. Já os guardiães civis, o Supremo, estabelecerão a agenda conforme os ditames de sua consciência e de sua audácia.

O futuro da República não está nas mãos da Presidenta reeleita, mas nas mãos da Veja e do Sistema Globo, a partir das conclusões de Gilmar Mendes sobre as contas de campanha de Dilma. Nunca tão poucos tiveram tanto poder em relações às instituições brasileiras sem o suporte de um único voto. É o domínio absoluto do poder privado sobre o público, apoiado por uma instância burocrática do Estado que se comporta como acima do bem e do mal. O cenário favorece a aventura golpista. A escalada de corrupção na Petrobras e o espetáculo das prisões de seus diretores e empreiteiros criaram o ambiente no qual, para o povo, todos são culpados até prova em contrário, ou até mesmo com prova em contrário.

Entretanto, essa crise tem uma dimensão internacional que está passando ao largo dos debates. O tema do alinhamento internacional do Brasil surgiu na campanha com alguma clareza a partir de pronunciamentos de Armínio Fraga, o então futuro ministro da Fazenda indicado por Aécio, e de figuras como o embaixador Rubem Barbosa, assessor da Fiesp. Ambos, assim como o ex-chanceler Luís Filipe Lampreia e Paulo Sotero, criticaram e criticam abertamente a estratégia brasileira de aproximação e fortalecimento dos BRICS e da Unasul. Todos esses quatro defendem o alinhamento total do Brasil com os Estados Unidos e a Europa Ocidental, descartando os BRICS e a Unasul como diversionismo ideológico dos governos do PT.

É estranho, pois na medida em que esses ideólogos supostamente defendem, na retórica, posições favoráveis ao empresariado, na realidade estão bloqueando o único caminho que teremos, a partir de agora, para escapar do aprofundamento da recessão. Estamos no vale de um ciclo de demanda e não temos perspectiva de aumento do consumo e da produção para puxar um novo ciclo. Uma aproximação maior do que já temos com os EUA, como um tratado de livre comércio do tipo proposto por esses ideólogos, não nos traria absolutamente nada de positivo no campo das relações econômicas externas. O objetivo deles é aumentar suas vendas para nós, enquanto nós não temos qualquer perspectiva de aumentar nossas vendas para eles, seja de commodities, seja de alguns parcos manufaturados. Aliás, mesmo sem TLC já temos um gigantesco déficit comercial com os EUA, imaginem com ele.

Um TLC com a União Europeia seria ainda pior. A Europa está numa longa recessão, e nada indica que, por razões econômicas e políticas, venha a sair dela a curto ou médio prazo. O objetivo singular da política externa europeia, assim como a norte-americana, é ampliar suas vendas e gerar superávits comerciais. Não podendo, por imposição da Alemanha, fazer uma política fiscal expansiva, e à vista da armadilha de liquidez na política monetária a única esperança dos países da euroárea de aumentar a demanda para seu setor produtivo é pelas exportações. É por isso que estão desesperados por fazer um TLC com o Brasil e o Mercosul. Do lado de cá, contam com a cumplicidade de ex-diplomatas e economistas que racionalizam o interesse deles, não os nossos.

Já o Brasil tem amplas perspectivas de integração econômica e financeira com os BRICS, puxando no mesmo movimento a Unasul. Eles já são nossos maiores importadores e continuarão a sê-lo. É essa perspectiva que incomoda Washington. O objetivo central da estratégia norte-americana nessa altura do século é cercar e confinar Rússia e China no seu círculo asiático. A participação brasileira nos BRICS, sobretudo com a criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS, confronta diretamente essa política. Nossos primeiros movimentos de autonomia externa desafiam os EUA. Basta ver como foi nos últimos anos o progresso da OTAN sobre o Leste europeu para concluir que eles não medem consequências para perseguir seus objetivos estratégicos. Na verdade eles não tem qualquer escrúpulo com relação a consequências de suas políticas expansivas, como atesta a desestabilização da Ucrânia, da Líbia, do Egito, do Iraque, do Afeganistão.

Washington não precisa de intervir diretamente no Brasil para tentar desarticular os BRICS. Mas ele pode se aproveitar da crise política em curso para estimular seus aliados internos a perseguir a via do golpe já que a via da eleição se mostrou inviável. Pode dar-lhes suporte financeiro e de informação (afinal, a Petrobras foi grampeada pelo Governo americano). E pode dar a cobertura internacional que seria necessária para um golpe jurídico-midiático, formalmente legal.

Entretanto, temos que pensar nos possíveis desdobramentos. Um golpe que resultasse no afastamento de Dilma implicaria também o afastamento de dezenas de parlamentares da situação, por suposto envolvimento nas mesmas irregularidades. Seguir-se ia, pela Constituição, uma nova eleição em 90 dias. Teria de ser impedida por algum meio “jurídico” a candidatura de Lula. E teria que ser armada uma eleição com a vitória garantida de um preferido. Bom, suponhamos que no bojo de uma crise gigantesca as coisas tivessem esse curso. Como seria o novo Governo? E como se comportaria a economia? Algum idiota pode pensar que voltaríamos ao business as usual. Eu não apostaria nisso. Prefiro pensar que estou enganado ou, em último caso, que forças políticas sábias ajudem a controlar a situação, pois creio que isso ainda é possível.

J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

O quadro econômico e os desafios vindouros: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Brasília, 20/11/2014

Passado o pleito presidencial com seu debate inerentemente polarizado, as forças político-econômicas assumem suas posições no tabuleiro. Se antes a imprensa dava ao reeleito alguns dias de descanso, dessa vez o que se observa é um estado de disputa acirrado. A oposição não arrefeceu com a derrota e pretende impôr a ortodoxia a todo o custo.

Muito se fala sobre ajustes e a especulação e lobby em torno do Ministério da Fazenda é fortíssima. Enquanto o mercado considera que a “confiança” só retornará se por lá ver um banqueiro, os setores progressistas julgam ser essa medida o mesmo que entregar o rebanho aos lobos.

As sinalizações da presidenta em torno do segundo mandato são dúbias, não é possível captar se ela pretende manter a atual política econômica, de um moderado desenvolvimentismo, ou se cederá mais uma vez a dita governabilidade dando uma guinada austera.

A fim de traçar um panorama mais apurado deste complexo cenário resolvi conversar com Flavio Lyra, doutor em economia pela Unicamp e ex-técnico do Ipea. Em sua visão o crescimento baixo que teremos este ano se deve ao fato do governo ter tardado em passar do estímulo ao consumo para os investimentos em infraestrutura, pensa ainda que o combate a inflação que se baseia somente no aumento dos juros básicos não é efetivo, o que torna necessário atuar em outras frentes.

Confira a íntegra:

Passada a eleição, o coro da mídia permanece em torno do dito “ajuste inevitável”. Do que se trata esse ajuste? Que efeitos tem sobre a economia e a quem ele interessa?

Flavio Lyra

Lyra – É possível pensar em três ajustes; fiscal, cambial e na taxa de juros. Mas, suponho que os defensores da ideia pensam prioritariamente em cortar os gastos do governo para aumentar o superavit fiscal e reduzir a demanda, que segundo pensam, seria a causa principal da inflação ficar acima da meta. Uma elevação da taxa de juros também poderia fazer parte da receita contracionista. A queda da demanda, também, tenderia a conter o deficit em conta-corrente. Como medida de mais longo alcance, poderiam tentar mudar a legislação do salário-mínimo, de modo a reduzir os custos trabalhistas para as empresas e aumentar a competitividade das exportações.

Os efeitos sobre a economia seriam desastrosos, pois jogariam o país numa recessão numa conjuntura internacional desfavorável. Os maiores beneficiários seriam os bancos nacionais e os investidores do mercado financeiro, que se sentiriam mais seguros de recuperarem suas aplicações, graças ao aumento do superavit fiscal e, eventualmente, dos juros, além da queda no ritmo da inflação. Uma recessão, agora, certamente, debilitaria as empresas nacionais e facilitaria uma onda de desnacionalização. Também colocaria em risco os esforços que o governo vem realizando para aceleração dos investimentos na infraestrutura econômica.

Muitos economistas costumam usar do argumento de que a macroeconomia é como as contas de uma família, a qual precisa “apertar os cintos” em tempo difíceis. Qual sua opinião sobre essa comparação?

Lyra – Essa visão contábil é extremamente pobre e incapaz de refletir o real funcionamento de um sistema econômico. Quando existe capacidade ociosa na economia, é perfeitamente justificável aumentar os gastos do governo à frente das receitas. O deficit público servirá como um ativador da economia e, num momento subsequente, as próprias receitas fiscais tenderão a crescer mais do que as despesas, corrigindo o deficit. A já fracassada experiência europeia de austeridade, adotada depois de 2008, está aí para mostrar que com austeridade crescente, o desemprego aumenta e não se caminha para uma saída da recessão.

Como você interpreta a reeleição no campo econômico? É possível afirmar que foi uma aprovação aos atuais rumos?

Lyra – Claramente, a eleição de Dilma deu-se fundamentalmente em função dos efeitos da política econômica adotada, de universalização de serviços públicos, de concessão de benefícios sociais aos mais pobres e de aumento salarial. No que toca a política de estímulo aos investimentos a população em geral não é capaz de entendê-la a não ser através de seus impactos favoráveis sobre o nível de emprego e os salários.

Que fatores incidiram sobre a economia pra que tenhamos um crescimento tão baixo? O que o governo poderia ter feito?

Lyra – O governo demorou a perceber que precisava mudar a ênfase do estímulo ao consumo para o incentivo e a realização de investimentos. A expansão do crédito ao consumo esgotou seu poder de expandir a demanda, pois o nível de endividamento da população chegou ao limite. Tudo isto, numa conjuntura internacional muito desfavorável, que afetou bastante a demanda de nossas exportações, especialmente de parceiros importantes como a Argentina. O governo poderia ter sido mais ágil nas concessões na área de infraestrutura e mais decidido no estímulo à realização de investimentos públicos pelos estados. Os altos custos do endividamento estatal deixaram os estados praticamente sem capacidade de realizar investimentos em infraestrutura.

Quanto a inflação. Está alta e fora de controle? A subida da Selic enfrenta efetivamente a pressão inflacionária?

Lyra – Acredito que não. Os problemas de oferta que estão contribuindo para elevação dos preços não se resolvem com o aumento dos juros. As condições climáticas respondem em boa medida pela resistência dos preços ã queda. Não resta dúvida de que a intensificação da campanha negativista da mídia contra o governo, contribuiu para gerar expectativas que tenderam a estimular manobras defensivistas das empresas em suas políticas de preços. Mesmo, assim, as taxas de inflação no Brasil, estão muito aquém das enfrentadas por nossos parceiros, Argentina e Venezuela.

O pequeno aumento realizado na taxa de juros, pode ter servido apenas como uma alerta para o mercado, levando a mensagem de que o Banco Central está atento e preparado para agir no caso em que as empresas pretendam tentar recuperar as margens de lucro com aumento de preços.

Porque o Brasil é o país das taxas mais altas de juros do mundo? Quais são as consequências desse problema para a economia?

Lyra – O sistema bancário no Brasil é extremamente concentrado, o que dá aos grandes bancos um forte poder de mercado e a capacidade de impor “spreads” muito elevados. O Brasil só vai poder baixar significativamente suas taxas de juros com o aumento da regulação do sistema bancário, coisa que o Banco Central não faz. A aplicação da legislação de defesa da concorrência precisa ser posta em prática, no caso do sistema bancário brasileiro.

Em relação ao não cumprimento da meta fiscal. Pra que serve um superavit forte? O deficit é sempre é sempre prejudicial a economia?

Lyra – No momento atual, um superavit forte só iria diminuir a capacidade do governo de promover investimentos públicos e privados, levando à redução do nível de atividade econômica e do emprego. A saída deve ser pelo aumento dos investimentos e da taxa de crescimento. Nas circunstâncias atuais, um deficit é, ao contrário, muito favorável à retomada do crescimento. Por certo, que a reação dos agentes econômicos ã política econômica não deve ser desconsiderada. O papel da mídia pode contribuir para melhorar ou piorar as expectativas dos agentes econômicos. A negociação política pode ter um papel fundamental nesta hora de busca de entendimento entre as forças sociais, para o estabelecimento das bases mínimas de consenso para a retomada do crescimento.

No tocante as especulações em relação ao novo ministro da Fazenda. Escolher alguém do mercado financeiro no intuito de uma reconciliação é desejável? Dentre os nomes veiculados, quem você pensa ser o mais indicado?

Lyra – Seria uma temeridade entregar o comando da economia a um agente do setor privado, especialmente do sistema bancário. A principal contradição em nossa economia encontra-se nas relações entre o setor financeiro e o setor industrial. Favorecer o setor financeiro, entregando-lhe o comando da economia iria certamente contribuir para intensificar as dificuldades da indústria para recuperar sua competitividade. Ao setor financeiro não convém, nem o papel de fomento a atividade produtiva desempenhado pelos bancos oficiais, nem a redução da taxa de juros, ambos fundamentais para um novo ciclo de crescimento industrial.

A imprensa tradicional faz muito uso dos números do setor industrial pra criticar o governo, é ponto pacífico que vivemos num processo de desindustrialização. Como esse processo se desencadeou? Uma guinada ortodoxa fortaleceria a indústria brasileira?

Lyra – Não resta dúvida de que o Brasil sofreu um processo de desindustrialização precoce, iniciado nos anos 80 e aprofundado nos governos de Collor e, principalmente de FHC. As políticas de liberalização comercial e de privatização adotadas, desorganizaram a atividade produtiva ao destruírem as cadeias produtivas, desmontarem os centros de pesquisa das empresas estatais e orientarem a demanda de produtos intermediários para o exterior. Tampouco foi posta em prática qualquer política de desenvolvimento e inovação tecnológica, que capacitasse a indústria para a nova etapa de expansão da economia internacional, que tomou forma nesse período. Somente no segundo governo de Lula é que a política econômica começou a preocupar-se com objetivos de médio e longo prazos, voltados para o investimento e o desenvolvimento tecnológico. Mesmo assim, de forma moderada. O BNDES noa governos de FHC preocupou-se fundamentalmente em capacitar financeiramente capitalistas privados para adquirem as empresas estatais em processo de privatização. Os novos investimentos foram praticamente descartados da política do Banco.

Que medidas lhe parecem as melhores pra uma retomada do crescimento? Que entraves o Brasil enfrenta neste quesito?

Lyra – É indispensável prosseguir com os investimentos na infraestrutura e dar todo apoio à PETROBRAS, para que seu programa de investimentos não sofra solução de continuidade. Ações de política econômica que tenham impacto recessivo não devem ser admitidas, pois levariam ã desarticulação do esforço de investimento que o país tem realizado na infraestrutura econômica e especialmente no complexo petrolífero, envolvendo a construção naval. Os bancos oficiais precisam levar adiante suas políticas de crédito favorecido para as atividades produtivas e a adotarem uma política de forte competição na concessão de crédito comercial frente aos bancos privados. As políticas de apoio à capacitação e à inovações tecnológicas devem ser intensificadas, assim como as de capacitação técnica de mão de oba. No plano dos acordos internacionais, o Brasil precisa adotar uma atitude mais proativa no apoio ao avanço da integração regional na América do Sul, aceitando arcar com os custos vinculados a sua condição de liderança no processo. Os acordos já firmados com os BRICS precisam ser levados adiante com toda ênfase.

O pensamento de Darcy Ribeiro sobre o negro brasileiro

Via Pragmatismo Político

Darcy Ribeiro foi um dos intelectuais que melhor entenderam o negro no Brasil (Arquivo)

Para Darcy Ribeiro, a possibilidade de existência de uma democracia racial está vinculada com a prática de uma democracia social, onde negros e brancos partilhem das mesmas oportunidades sem qualquer forma de desigualdade.

Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, leia abaixo trechos do livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, uma das obras mais relevantes da história do Brasil.

Darcy Ribeiro

CLASSE E RAÇA

A distância social mais espantosa no Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros.

Entretanto, a rebeldia negra é muito menor e menos agressiva do que deveria ser. Não foi assim no passado. As lutas mais longas e cruentas que se travaram no Brasil foram a resistência indígena secular e a luta dos negros contra a escravidão, que duraram os séculos do escravismo. Tendo início quando começou o tráfico, só se encerrou com a abolição.

Sua forma era principalmente a da fuga, para a resistência e para a reconstituição de sua vida em liberdade nas comunidades solidárias dos quilombos, que se multiplicaram aos milhares. Eram formações protobrasileiras, porque o quilombola era um negro já aculturado, sabendo sobreviver na natureza brasileira, e, também, porque lhe seria impossível reconstituir as formas de vida da África. Seu drama era a situação paradoxal de quem pode ganhar mil batalhas sem vencer a guerra, mas não pode perder nenhuma. Isso foi o que sucedeu com todos os quilombos, inclusive com o principal deles, Palmares, que resistiu por mais de um século, mas afinal caiu, arrasado, e teve o seu povo vendido, aos lotes, para o sul e para o Caribe.

Mas a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi, ainda é, a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional. Nela se viu incorporado à força. Ajudou a construí-la e, nesse esforço, se desfez, mas, ao fim, só nela sabia viver, em função de sua total desafricanização. A primeira tarefa do negro brasileiro foi a de aprender a falar o português que ouvia nos berros do capataz. Teve de fazê-lo para poder comunicar-se com seus companheiros de desterro, oriundos de diferentes povos. Fazendo-o, se reumanizou, começando a sair da condição de bem semovente, mero animal ou força energética para o trabalho. Conseguindo miraculosamente dominar a nova língua, não só a refez, emprestando singularidade ao português do Brasil, mas também possibilitou sua difusão por todo o território, uma vez que nas outras áreas se falava principalmente a língua dos índios, o tupi-guarani.

Calculo que o Brasil, no seu fazimento, gastou cerca de 12 milhões de negros, desgastados como a principal força de trabalho de tudo o que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Ao fim do período colonial, constituía uma das maiores massas negras do mundo moderno. Sua abolição, a mais tardia da história, foi a causa principal da queda do Império e da proclamação da República. Mas as classes dominantes reestruturaram eficazmente seu sistema de recrutamento da força de trabalho, substituindo a mão de obra escrava por imigrantes importados da Europa, cuja população se tornara excedente e exportável a baixo preço.

O negro, sentindo-se aliviado da brutalidade que o mantinha trabalhando no eito, sob a mais dura repressão –inclusive as punições preventivas, que não castigavam culpas ou preguiças, mas só visavam dissuadir o negro de fugir– só queria a liberdade. Em consequência, os ex-escravos abandonam as fazendas em que labutavam, ganham as estradas à procura de terrenos baldios em que pudessem acampar, para viverem livres como se estivessem nos quilombos, plantando milho e mandioca para comer. Caíram, então, em tal condição de miserabilidade que a população negra reduziu-se substancialmente. Menos pela supressão da importação anual de novas massas de escravos para repor o estoque, porque essas já vinham diminuindo há décadas. muito mais pela terrível miséria a que foram atirados. não podiam estar em lugar algum, porque cada vez que acampavam, os fazendeiros vizinhos se organizavam e convocavam forças policiais para expulsá-los, uma vez que toda a terra estava possuída e, saindo de uma fazenda, se caía fatalmente em outra.

As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos de antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era facilmente substituído por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão. Essa visão deformada é assimilada também pelos mulatos e até pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro-massa.

A nação brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, nunca fez nada pela massa negra que a construíra. Negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão. Grande parte desses negros dirigiu-se às cidades, onde encontraram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas. Desde então, elas vêm se multiplicando, como a solução que o pobre encontra para morar e conviver. Sempre debaixo da permanente ameaça de serem erradicados e expulsos.

BRANCOS VERSUS NEGROS

Examinando a carreira do negro no Brasil, se verifica que, introduzido como escravo, ele foi desde o primeiro momento chamado à execução das tarefas mais duras, como mão-de-obra fundamental de todos os setores produtivos. Tratado como besta de carga exaurida no trabalho, na qualidade de mero investimento destinado a produzir o máximo de lucros, enfrentava precaríssimas condições de sobrevivência. Ascendendo à condição de trabalhador livre, antes ou depois da abolição, o negro se via jungido a novas formas de exploração que, embora melhores que a escravidão, só lhe permitiam integrar-se na sociedade e no mundo cultural, que se tornaram seus, na condição de um subproletariado compelido ao exercício de seu antigo papel, que continua sendo principalmente o de animal de serviço.

Enquanto escravo poderia algum proprietário previdente ponderar, talvez, que resultaria mais econômico manter suas “peças” nutridas para tirar delas, a longo termo, maior proveito. Ocorreria, mesmo, que um negro desgastado no eito tivesse oportunidade de envelhecer num canto da propriedade, vivendo do produto de sua própria roça, devotado a tarefas mais leves requeridas pela fazenda. Liberto, porém, já não sendo de ninguém, se encontrava só e hostilizado, contando apenas com sua força de trabalho, num mundo em que a terra e tudo o mais continuava apropriada. Tinha de sujeitar-se, assim, a uma exploração que não era maior que dantes, porque isso seria impraticável, mas era agora absolutamente desinteressada do seu destino. Nessas condições, o negro forro, que alcançara de algum modo certo vigor físico, poderia, só por isso, sendo mais apreciado como trabalhador, fixar-se nalguma fazenda, ali podendo viver e reproduzir. O débil, o enfermo, o precocemente envelhecido no trabalho, era simplesmente enxotado como coisa imprestável.

Depois da primeira lei abolicionista –a Lei do Ventre Livre, que liberta o filho da negra escrava–, nas áreas de maior concentração da escravaria, os fazendeiros mandavam abandonar, nas estradas e nas vilas próximas, as crias de suas negras que, já não sendo coisas suas, não se sentiam mais na obrigação de alimentar. Nos anos seguintes à Lei do Ventre Livre (1871), fundaram-se nas vilas e cidades do Estado de São Paulo dezenas de asilos para acolher essas crianças, atiradas fora pelos fazendeiros. Após a abolição, à saída dos negros de trabalho que não mais queriam servir aos antigos senhores, seguiu-se a expulsão dos negros velhos e enfermos das fazendas. Numerosos grupos de negros concentraram-se, então, à entrada das vilas e cidades, nas condições mais precárias. Para escapar a essa liberdade famélica é que começaram a se deixar aliciar para o trabalho sob as condições ditadas pelo latifúndio.

Com o desenvolvimento posterior da economia agrícola de exportação e a superação consequente da auto-suficiência das fazendas, que passaram a concentrar-se nas lavouras comerciais (sobretudo no cultivo do café, do algodão e, depois, no plantio de pastagens artificiais), outros contingentes de trabalhadores e agregados foram expulsos para engrossar a massa da população residual das vilas. Era agora constituída não apenas de negros, mas também de pardos e brancos pobres, confundidos todos como massa dos trabalhadores “livres” do eito, aliciáveis para as fainas que requeressem mão-de-obra. Essa humanidade detritária predominantemente negra e mulata pode ser vista, ainda hoje, junto aos conglomerados urbanos, em todas as áreas do latifúndio, formada por braceiros estacionais, mendigos, biscateiros, domésticas, cegos, aleijados, enfermos, amontoados em casebres miseráveis. Os mais velhos, já desgastados no trabalho agrícola e na vida azarosa, cuidam das crianças, ainda não amadurecidas para nele engajar-se.

Assim, o alargamento das bases da sociedade, auspiciado pela industrialização, ameaça não romper com a superconcentração da riqueza, do poder e do prestígio monopolizado pelo branco, em virtude da atuação de pautas diferenciadoras só explicadas historicamente, tais como: a emergência recente do negro da condição escrava à de trabalhador livre; uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma satisfação compensatória; a manutenção de critérios racialmente discriminatórios que, obstaculizando sua ascensão à simples condição de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais difícil para ele obter educação e incorporar-se na força de trabalho dos setores modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais.

Florestan Fernandes assinala que “enquanto não alcançarmos esse objetivo, não teremos uma democracia racial e tampouco uma democracia. Por um paradoxo da história, o negro converteu-se, em nossa era, na pedra de toque da nossa capacidade de forjar nos trópicos esse suporte da civilização moderna”.

Regulação da mídia agita o Uruguai

Por Altamiro Borges, em seu blog

O segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai, em 30 de novembro, agita a população do país vizinho. Todas as pesquisas apontam para a vitória de Tabaré Vázquez, candidato da aliança governista Frente Ampla, do atual presidente Pepe Mujica. Concorrendo pelas forças de direita, o jovem oligarca Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional. No embate programático entre os dois candidatos vários temas polêmicos, com destaque para a discussão sobre a regulação da mídia. Logo após a folgada vantagem no primeiro turno, Tabaré Vázquez prometeu acelerar a sanção do projeto de lei que tramita no parlamento sobre o tema. Já o direitista, apoiado pelos barões da mídia, garante que arquivará o projeto.

Segundo relato da jornalista Daniella Cambaúva, da Rede Latino América, “em sua primeira fala pública na segunda fase da campanha, Vázquez anunciou que, se vitorioso, a lei de mídia será ‘improrrogável’ e se comprometeu a regulamentá-la. Presidente do Uruguai entre 2005 e 2010, ele é conhecido por representar a ala mais conservadora na Frente Ampla. Esta foi a primeira vez em que ele se comprometeu a implementar e fazer cumprir a lei de mídia, despertando críticas da oposição. Lacalle Pou, 41 anos, é crítico à lei. Ele alega que nela existem ‘inconstitucionalidades’, e que para ter uma legislação ‘típica de regime autoritário’ é melhor não ter nenhuma”.

No Uruguai, como no restante do continente, a mídia é controlada por poucas famílias. Monopolizados, estes meios tiveram papel destacado na implantação da ditadura militar, na difusão do receituário neoliberal e na campanha sistemática de oposição aos governos progressistas. Tabaré Vázquez e Pepe Mujica foram vítimas destas oligarquias midiáticas. Diante do quadro de uma mídia monopolizada e manipuladora, em 2010 teve início o debate na sociedade sobre a regulação deste setor com a formação de um Comitê Técnico Consultivo convocado pela Direção Nacional de Telecomunicações, vinculada ao Ministério da Indústria e responsável por formular, coordenar e supervisionar as políticas de telecomunicações.

“A ‘Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual’ (LSCA) foi apresentada pelo Poder Executivo em maio de 2013 e foi aprovada pela Câmara dos Representantes (99 deputados) em dezembro de 2013. Para entrar em vigor, ela aguarda a aprovação do Senado (30 senadores) e voltará ainda à Câmara para, por fim, receber a sanção definitiva. A pressão por parte da Frente Ampla e dos setores favoráveis é para que a lei seja aprovada o quanto antes, ainda em 2014”, descreve Daniella Cambaúva. Sua sanção mudará por completo o cenário da mídia no Uruguai. Atualmente, três grupos (Romay, Feo-Fontaina e Cardoso-Sheck) controlam 95% do mercado de televisão aberta no país.

Entre outras mudanças, a nova lei desmembra os monopólios e garante condições mais justas de acesso ao espectro, inclusive para sindicatos e associações comunitárias, que teriam possibilidade de criar canais de rádio e tevê. “Se a lei for aprovada como está, uma pessoa física ou jurídica não poderá ter mais de três autorizações para prestar serviços de radiodifusão aberta de rádio e televisão, nem mais de dois canais para prestar serviços de rádio na mesma frequência (AM ou FM) em todo o território. A única iniciativa antecedente semelhante no Uruguai aconteceu em 2007, quando foi aprovada uma norma obrigando o Estado a promover e garantir a existência de canais de rádio e de televisão comunitários”.

A LSCA também prevê a criação de um Conselho de Comunicação Audiovisual, composto por cinco integrantes: um indicado pela Presidência da República e quatro escolhidos pela Assembleia Geral Legislativa. Eles teriam mandatos de seis anos, renováveis por mais três. A Coalizão por uma Comunicação Democrática, uma frente que reúne várias entidades e personalidades que lutam pela democratização da mídia, defende que pelo menos um dos integrantes do Conselho seja indicado pela sociedade civil. Há também debates sobre a regulação da mídia impressa e sobre a liberdade na internet, já que a LSCA trata apenas das concessões públicas de rádio e televisão.

Estas e outras mudanças previstas na lei explicam porque os barões da mídia estão tão empenhados na campanha do direitista Lacalle Pou. Para a associação das empresas de radiodifusão (Andebu), “apenas os regimes autoritários possuem lei de mídia”. A máfia midiática tenta manipular a sociedade, escondendo que até nos EUA e na Europa há regulação do setor e conselhos de comunicação social. O terrorismo midiático, porém, parece que abalou os eleitores uruguaios, que devem confirmar a vitória de Tabaré Vázquez daqui a dois domingos. Enquanto isto, o Brasil segue na “vanguarda do atraso” no debate sobre a regulação democrática da mídia. Lamentável!

Maxidepreciação e dependência do petróleo

Por Fernando Nogueira da Costa | Via Brasil Debate

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o setor de óleo e combustíveis deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação.

No último governo do regime militar, em regime de câmbio fixo, Delfim Netto fez uma primeira desvalorização (30%) da moeda nacional em dezembro de 1979. A taxa de inflação anual passou de 70% para 110%.

A segunda (também 30%) foi realizada em fevereiro de 1983. A taxa de inflação dobrou para 220%. Provocou a “crise do subprime brasileira”, inclusive com a quebra do BNH. O regime militar deixou como “herança maldita” o regime de alta inflação inercial.

Durante o primeiro governo Dilma, houve não um tratamento de choque, mas sim uma gradual maxidepreciação da moeda nacional, desde 02/01/2011, quanto a taxa de câmbio estava em R$ 1,65. Chegou a R$ 1,53 no final de julho daquele ano, e começou a se elevar, alcançando R$ 2,53 em 06/11/2014.

Em menos de três anos e meio, houve essa elevação de um real na cotação de um dólar – ou 65%! E a “flutuação suja”, isto é, controlada pelo Banco Central, permitiu que ela não impactasse muito a taxa de inflação, pois esta se manteve dentro da meta inflacionária.

Nas contas de um economista adepto da abordagem do balanço de pagamentos pelas elasticidades, uma taxa de câmbio em torno de R$ 2,50 será suficiente para trazer o déficit em transações correntes para 2,9% do PIB em 2015, afastando-o de vez do nível de 4% do PIB, considerado sinal de um financiamento mais difícil.

Sendo assim, “o ajuste já está em curso e, nas contas externas, o governo não vai ter que fazer nada”. A melhora virá basicamente do balanço comercial, seja por conta de câmbio mais competitivo, seja porque a perspectiva é de a economia mundial crescer um pouco mais no ano que vem.

Dadas as condições presentes hoje no mercado externo no que diz respeito à liquidez internacional, um déficit em torno de 3% do PIB no balanço de transações correntes parece ser financiável.

Como o Brasil tem recebido cerca de 3% do PIB em Investimento Estrangeiro Direto (IED), cerca de US$ 65 bilhões, o déficit externo (US$ 83 bilhões) tem que cair para um nível inferior ou igual ao IED, que é fonte de financiamento de longo prazo saudável.

O setor de petróleo e derivados será outro fator importante a ajudar esse ajuste. A Petrobras inaugura, em novembro de 2014, a refinaria de Abreu e Lima, diminuindo muito a dependência de importação de diesel, o que acaba pressionando o balanço comercial referente a petróleo e derivados.

Eventual déficit comercial no ano corrente poderá virar superávit nos próximos, tanto pela inauguração da refinaria quanto pelo crescimento da extração.

De fato, os saldos comerciais, desde o início do governo Dilma, teriam sido muito mais superavitários – US$ 39 bilhões em 2011, US$ 27,5 bilhões em 2012, US$ 25,7 bilhões em 2013 e estimados US$ 20 bilhões para o ano corrente – caso se desconsiderasse os combustíveis nessa contabilidade.

Em 2013, mesmo tendo uma queda de 28%, petróleo e combustíveis ocuparam o quarto lugar no ranking de principais produtos exportados pelo Brasil com US$ 22,4 bilhões. Só foram inferiores a minérios (US$ 35 bilhões), material de transporte inclusive plataformas petrolíferas (US$ 31,6 bilhões) e complexo soja (US$ 31 bilhões).

No entanto, diferentemente dessa abordagem estruturalista, um economista que adota a abordagem monetária do balanço de pagamentos avalia que a redução do déficit em transações correntes no próximo ano virá de uma imposição externa.

Segundo ele, essa queda será puxada por um mundo bem menos disposto a financiar o Brasil e outros emergentes com déficits altos em conta corrente, em razão da expectativa de retomada de alta dos juros americanos. Nesse cenário, ou o real se deprecia mais e propicia a queda do déficit externo ou este tende a crescer ainda mais, levando o País a uma crise cambial.

Segundo essa abordagem monetária, os termos de troca em queda pressionam negativamente o balanço comercial e uma inflação superior a de seus parceiros comerciais afeta a paridade entre poderes de compra.

O Brasil vai precisar de uma depreciação cambial mais forte em termos nominais para reequilibrar as contas externas. Como o dólar mais caro impacta a taxa de inflação, provocando queda do consumo, é necessário combinar essa depreciação com ajuste fiscal mais crível. Leia-se “elevação do superávit primário com cortes de gastos”.

Analisando a pauta brasileira de exportações, 70% são commodities. A queda nas suas cotações piora a relação entre a evolução do preço das exportações e das importações, os chamados termos de troca, cujo índice evoluiu de 93,4 em 2003 para o máximo de 129 em 2011, caindo para 116,7 em junho de 2014.

Isto estimulou o poder relativo de compra externa do País, permitindo o crescimento da absorção doméstica (consumo, investimento e gastos públicos) em ritmo mais rápido que o do PIB. Este soma a absorção e a renda líquida recebida do exterior.

Um economista que faz a abordagem do balanço de pagamentos por absorção interna diz que “esse crescimento explicável pelo acúmulo de poupança externa não deve acontecer nos moldes que acontecia antes”.

Segundo essa abordagem, impõe-se a diminuição dos gastos internos, porque não se tem mais o boom de commodities. O fluxo de capitais também deve se reduzir com a alta global do dólar pela expectativa de início da elevação da taxa de juros norte-americana.

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o “óleo e combustíveis” deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação.

Óleo e gás é o setor que responde pela maior parte (60%) dos investimentos a serem realizados no País entre 2014 e 2018. Seus programas somam R$ 543,4 bilhões.

A produção de petróleo está em ritmo mais acelerado. No pré-sal, supera bastante 500 mil barris de petróleo produzidos por dia, patamar alcançado apenas oito anos após a descoberta em 2006. Isso contando com somente 25 poços produtores.

Mesmo com a queda dos preços do óleo, o efeito do petróleo tende a ser positivo para o comércio exterior brasileiro. Já temos uma economia cujo desempenho depende do petróleo?

Fernando Nogueira da Costa é professor livre-docente do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007).