Arquivo mensais:novembro 2014

Como a Folha transformou em “vitória” a derrota do PSDB no TSE

Por Eduardo Guimarães | Via Blog da Cidadania

Quatro dias após a reeleição de Dilma Rousseff, o PSDB levou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedido de “auditoria especial” no resultado da eleição presidencial. A ação foi assinada pelo “coordenador jurídico” do partido, deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP).

O PSDB pediu ao TSE que fosse criada uma “comissão formada por técnicos indicados pelos partidos políticos para fiscalização dos sistemas de todo o sistema eleitoral”.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, analisou o pedido do PSDB e, na segunda-feira (3), enviou ao Tribunal Superior Eleitoral um parecer contrário à realização de uma auditoria no resultado da eleição presidencial. E afirmou que o pedido poderia “comprometer a credibilidade da Justiça Eleitoral” e acusou o PSDB de “imprudência”.

No mesmo dia, o TSE divulgou nota dizendo que iria responder “oportunamente” a consulta do partido. E, na última terça-feira (4), em consonância com o PGR, negou o pedido tucano. A Corte Eleitoral recusou a formação de uma comissão de partidos. Contudo, permitiu que o PSDB tenha acesso aos dados solicitados.

No fim da tarde da mesma terça-feira 4, o portal UOL, entre outros, deu a notícia da forma correta. O PSDB, além de perder a eleição, também fracassou em envolver o TSE em sua tentativa de pôr em dúvida a lisura do processo eleitoral.

Abaixo, a manchete na Home do UOL ao fim da tarde de terça feira.

Em seguida, a reportagem a que a manchete remetia.

Então ficamos assim: o PSDB pediu ao TSE que fizesse uma enorme celeuma, envolvendo todos os partidos políticos ao criar uma “comissão especial” para fiscalizar a eleição em segundo turno para presidente, na qual o partido foi derrotado.

Se o PSDB tivesse tido êxito, isso renderia uma enormidade de matérias na imprensa. Haveria cobertura da formação da “comissão suprapartidária”, discussão sobre os nomes indicados pelos partidos, cobertura jornalística da posse dos membros da comissão, colheita de declarações dos representantes dos partidos durante a auditoria etc., etc., etc.

O TSE e o PGR deram uma banana para o PSDB. A Corte Eleitoral respondeu ao partido que, se quiser, pode até fiscalizar os dados – em nenhum país democrático seria vetado aos derrotados em uma eleição que tivessem acesso aos arquivos daquela eleição.

Esse fato político viraria celeuma se tivesse sido fermentado pelo TSE, mas como o resultado não foi o que o Grupo Folha queria a notícia foi jogada para baixo do tapete.

Na edição do dia seguinte (5) da Folha de São Paulo, a derrota tucana não apenas foi transformada em vitória como, talvez por isso, foi escondida, sem destaque na primeira página, como ocorreria caso a Justiça Eleitoral tivesse autorizado um circo em torno da lisura do processo eleitoral.

Leia, abaixo, como a Folha tratou a notícia que outro braço do grupo Folha, o UOL, tratara de forma correta horas antes.

Veja bem, leitor: “Os deputados tucanos comemoraram”. Mas comemoraram o quê? A derrota do pedido de formação de uma comissão de partidos para auditar a eleição presidencial? Comemoraram a frustração do circo que tentaram armar? Na Folha, sim. Na vida real, não.

Os tucanos perderam, mas a Folha os transformou em vencedores. E depois a mídia diz que os blogs é que são “sujos”.

Immanuel Wallerstein: as consequências mundiais da vitória de Dilma Rousseff

Por Immanuel Wallerstein | Via Revista Fórum

Intelectual ressalta o papel do Brasil na construção de instituições latino e sul-americanas, o que manteve os EUA e seu poder mais distantes da região.

Em 26 de outubro, a presidenta do Brasil Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), foi reeleita no segundo turno por uma estreita margem contra Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Apesar do nome do PSDB, esse foi um claro embate entre esquerda-direita, onde os eleitores votaram – de maneira genérica – de acordo com sua classe social, apesar de os programas de governo dos dois partidos serem, em muitas frentes, mais centristas do que de esquerda ou direita.

Para compreender o que isso significa, nós precisamos analisar as particularidades políticas do Brasil, que em muitos aspectos estão muito mais próximas da Europa Ocidental e da América do Norte do que qualquer outro país do Sul Global. Como os países do Norte, os confrontos eleitorais acabam, no fim, se tornando uma batalha entre um partido de centro-esquerda e um partido de centro-direita. As eleições são regulares e os eleitores tendem a votar de acordo com os interesses de sua classe, apesar das políticas de centro dos dois principais partidos que geralmente se alternam no poder. O resultado é a constante insatisfação dos eleitores com o “seus” partidos e constantes tentativas das verdadeiras esquerda ou direita para forçarem políticas em suas direções.

Como esses grupos de esquerda e direita perseguem seus objetivos dependem um pouco da estrutura formal das eleições. Muitos países têm um sistema de fato de dois turnos. Isso permite que a esquerda e a direita escolham seus próprios candidatos no primeiro turno e então votem no candidato dos principais partidos no segundo. A maior exceção a esse sistema de dois turnos são os EUA, que forçam a esquerda e a direita a entrarem nos principais partidos e depois passem a lutar de dentro (com as primárias).

O Brasil possui um traço excepcional: enquanto em todos esses países os políticos mudam de partido de tempos em tempos, na maioria dos países estes formam um pequeno grupo. No Brasil, tal mudança de partido é virtualmente uma ocorrência cotidiana na legislatura nacional, isso força os principais partidos a gastar enormes quantidades de energia em reestruturar alianças constantemente e corresponde a uma maior visibilidade em corrupção.

Nessa eleição, o PT estava sofrendo de grande desilusão de seus eleitores. A candidata Marina Silva tentou oferecer uma terceira via. Ela era conhecida por três características: ambientalista, evangélica e uma “não-branca” de origem muito pobre. No começo, ela pareceu decolar. Mas enquanto começava a propor um programa muito neoliberal, sua popularidade entrou em colapso e os eleitores se voltaram para Aécio Neves, um direitista mais tradicional.

As desilusões com o PT eram principalmente sobre sua falha em cortar relações estruturais com a ortodoxia econômica, além do fracasso em cumprir suas promessas sobre reforma agrária, preocupações ambientais e a defesa dos direitos dos povos indígenas. Ele também reprimiu demonstrações populares de movimentos de esquerda, notoriamente os de junho de 2013. Apesar disso, os movimentos sociais da esquerda uniram forças de maneira muito forte com o partido no segundo turno.

Por que? Por conta das mudanças positivas de 12 anos de governos do PT. Primeiramente, havia a grande expansão do programa Bolsa Família, que paga subsídios mensais ao mais pobres da população brasileira – que tiveram melhoras significativas em suas vidas. Em seguida, e pouco mencionado na imprensa ocidental, havia o enorme sucesso do Brasil em sua política externa – seu enorme papel na construção de instituições latino e sul-americanas que manteve longe o poder dos EUA na região. A esquerda tinha certeza que Neves iria reduzir as políticas de bem estar social do PT e se aliar novamente aos EUA no cenário internacional. A esquerda do Brasil votou por esses dois pontos positivos, apesar de todos os pontos negativos.

No mesmo final de semana, ocorreram três grandes eleições no mundo: Uruguai, Ucrânia e Tunísia. A eleição no Uruguai foi bem similar à brasileira. Era o primeiro turno e o partido de situação no poder desde 2004, a Frente Ampla, tem como candidato Tabaré Vázquez. Esse partido é bem amplo – indo de centro-esquerdistas para comunistas a ex-guerrilheiros. Vásquez encarou um clássico candidato de direita, Luis Lacalle Pou do Partido Nacional, mas também Pedro Bordaberry do Partido Colorado, um dos dois partidos que governaram o país de maneira repressiva por mais de meio século.

No primeiro turno, Vázquez conseguiu 46,5%, enquanto Lacalle contou com 31%, ou seja, não o suficiente para não haver o segundo turno. Bordaberry, que teve cerca de 13%, anunciou seu apoio a Lacalle, mas é provável que Vázquez vença por conta, mais ou menos, das mesmas razões que levaram Dilma Rousseff à vitória. Além disso, ao contrário do Brasil, seu partido possui o controle do Legislativo uruguaio, assim sendo, o Uruguai também reafirmará o esforço para construir uma estrutura geopolítica autônoma na América Latina.

O caso da Ucrânia é totalmente diferente. Longe de estar estruturada em um embate de esquerda-direita com dois partidos centrais tentando vencer as eleições, a política na Ucrânia tem agora como base uma divisão regional etnico-linguística. Nessas eleições, o governo pró-Ocidente realizou eleições excluindo qualquer participação dos supostos movimentos separatistas do leste da Ucrânia. Estes, então, boicotaram as eleições e anunciaram que manteriam suas administrações regionais autônomas. Na capital Kiev, parece que aqueles que agora governam: o presidente Petro Poroshenko aliado a seu rival, o primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk, irão se manter no poder, excluindo o verdadeiro ultranacionalista Setor Direito de qualquer papel.

Finalmente, na Tunísia o que ocorreu foi bem diferente. A Tunísia foi vista como a propulsora da chamada Primavera Árabe e hoje, parece ser sua única remanescente. Ennahda, o partido islâmico que venceu as primeiras eleições, perdeu consideravelmente sua força ao correr atrás de um programa de islamização da política tunisiana. Acabaram forçados, alguns meses atrás, a dar lugar a um governo interino tecnocrata e perdeu muitos eleitores (até mesmo de islamitas) na segunda eleição.

O partido vencedor foi Nadaa Tunis (O Chamado da Tunísia). Suas políticas são de certa maneira claras: é um partido secular. Seu líder é venerado político de 88 anos chamado Beji Caid Essebsi, que serviu nos governos Destourian que governou o país após a independência até que por fim se tornou um grande dissidente. Seu problema é manter unido a coalizão que conta com enormes variedades de forças secularistas – principalmente os jovens que lideraram o levante contra o presidente Zine el Abidine Bem Ali, em 2011, e diversos membros daquele governo que agora retornaram à arena política.

De qualquer maneira, Nadaa Tunis conta com 85 assentos parlamentares dos 217, enquanto o Ennahda foi reduzido a 69, sendo que os outros estão espalhados entre partidos menores. Será necessário um governo de coalizão, envolvendo praticamente todos os partidos. Então, enquanto os jovens revolucionários da Tunísia estão celebrando a vitória contra o Ennahda, ninguém sabe ao certo aonde isso terminará.

Eu digo “urra!” para o Brasil, onde aconteceu a mais importante dessas quatro eleições. Mas lá, assim em como em outros lugares, o jogo ainda não terminou. Não mesmo!

Tradução: Vinícius Gomes

Gilmar Mendes segue sem querer julgar o financiamento empresarial de campanhas

Por Helena Sthephanowitz | Via RBA

Ministro do STF mandou para a gaveta a principal raiz da corrupção e aproveita ‘docilidade’ da mídia tradicional para não acenar com nada que realmente interesse ao país.

Gilmar Mendes: em vez de reformas essenciais, bravatas e desrespeito a colegas e países vizinhos

O jornal Folha de S. Paulo conseguiu a façanha de entrevistar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, sem fazer a principal pergunta: quando ele devolverá o processo para prosseguir o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) 4.650, proposta pelo Conselho Federal da OAB, contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais?

Aliás, se ele dá todos os sinais de que já tem convicção formada para votar contra, por que segurar o voto?

A Adin 4.650 aponta que leis menores, permissivas ao financiamento empresarial, contrariam a lei maior, que é a Constituição Federal. O financiamento empresarial de campanhas é considerado a principal raiz da corrupção. Sem cortar o mal pela raiz, combater a corrupção torna-se apenas esforço para remediar o problema.

A ação foi ajuizada em setembro de 2011, passou pelos diversos trâmites, incluindo audiências públicas, até entrar em julgamento pelo plenário. Quando já havia seis votos a favor e um contra, placar suficiente para proibir o financiamento empresarial de campanha, o ministro Gilmar Mendes pediu vistas do processo, o que paralisou o julgamento. Desde abril deste ano o processo está parado nas mãos do ministro.

O fato já suscitou até campanhas populares nas redes sociais com o mote “Devolve Gilmar”.

A reforma política, incluindo o fim do financiamento empresarial de candidaturas, foi pauta antes, durante e depois da campanha eleitoral. É bandeira antiga de entidades da sociedade civil, de movimentos sociais e de partidos, contando com ampla mobilização popular.

Uma consulta popular, extraoficial, realizada no mês passado, teve mais de sete milhões de votos a favor de um plebiscito para o povo decidir se quer a eleição de uma assembleia, escolhida por um processo eleitoral absolutamente dentro dos preceitos constituintes, mas que trate exclusivamente da reforma política.

Um projeto de lei de iniciativa popular reformando o sistema eleitoral, promovido por uma coalizão de 103 entidades, já conta com mais de 500 mil assinaturas, frente a 1,5 milhão necessárias para ser apreciado pelas comissões do Congresso.

Neste contexto, é estranho que a Folha fuja da pergunta sobre a ação parada nas mãos de Gilmar Mendes, de inegável interesse público, e use a entrevista apenas para levantar a bola para o ministro emitir novas e antigas patacoadas. A certa altura, o repórter afirma que em dois anos o próprio Gilmar Mendes será o único ministro no STF não indicado por um governo petista para, em seguida, perguntar se isto muda alguma coisa na Suprema Corte. O ministro respondeu dizendo ser importante evitar que o tribunal se torne “bolivariano”. A afirmação virou a manchete da entrevista.

Óbvio que há uma provocação política na resposta, deselegante até com seus próprios colegas de STF. O termo “bolivariano” tornou-se pejorativo na mídia demotucana, pois procura desqualificar governos nacionalistas latino-americanos que não se submetem mais à colonização econômica por potências imperialistas.

Gilmar Mendes usa o termo, provavelmente, para desqualificar as Supremas Cortes de países como a Venezuela como se não fossem independentes do poder Executivo, repetindo estereótipos comuns publicados na revista Veja e similares. Estes estereótipos ignoram processos históricos naqueles países que levaram a ter suas Constituições renovadas, como o Brasil teve em 1988 após a ditadura e, consequentemente, chegou à renovação de instituições e poderes.

Ao contrário do noticiário deturpado, no Brasil a presidenta da República não tem carta branca para nomear quem bem entende para ministro do STF. A prerrogativa da presidenta se limita a indicar um nome e encaminhá-lo ao Senado, cuja aprovação depende do voto da maioria dos senadores, Casa onde o PT nunca teve maioria sozinho para impor nomes.

Todos os ministros do STF aprovados nos governos Lula e Dilma foram nomes bem recebidos inclusive pelos senadores de oposição que votaram pela respectiva condução ao cargo. Alguns ministros que chegaram ao STF antes foram indicados ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) ou outros tribunais superiores pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os novos nomes que substituirão os ministros que se aposentarão também terão que ter perfil aceito pela maioria dos senadores, o que afasta qualquer possibilidade de não haver independência entre os três poderes.

É mais do que provável que o ministro Gilmar Mendes tenha plena consciência destes fatos, mas tenha usado a entrevista para pautar factoides que queria no noticiário. Na docilidade das perguntas da Folha acabou encontrando o veículo ideal para isso.

Lideranças do PT na Câmara e no Senado, e o ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, criticaram a entrevista de Gilmar, tanto pelo tom desqualificador das instituições democráticas sólidas que o Brasil tem, como pela deselegância com os colegas que chegaram à Suprema Corte de 2003 para cá. O advogado-Geral da União, Luís Inácio Adams, também rebateu em tom mais formal e suave. Mas faltou a estas lideranças pedir o que de fato interessa: “Devolve Gilmar”.

Ainda o desenvolvimento

Por Wladimir Pomar | Via Correio da Cidadania

Apesar das políticas de crescimento econômico e de redução da pobreza dos governos Lula e Dilma, o Brasil ainda não se livrou da crise estrutural que o assola desde meados dos anos 1970. Nessa década o país foi abalado pelo esgotamento do ciclo de crescimento subordinado da ditadura militar, que o afundou na crise da dívida externa. O uso abusivo dos empréstimos de petrodólares e a transformação do dólar em moeda de circulação mundial levaram, primeiro, à estagnação dos anos 1980 e, depois, à devastação dos anos 1990.

Nos anos 1980, o PIB brasileiro cresceu a taxas inferiores a 1%, causando uma profunda mudança na propriedade de ativos e promovendo uma intensa centralização de capital. Isto, enquanto na Ásia vários países em desenvolvimento alcançavam taxas de crescimento superiores a 7% ao ano, e o capitalismo norte-americano acelerava seu processo de centralização, financeirização, desindustrialização e de déficits conjugados.

Nos anos 1990, o Brasil foi submetido aos ditames do Consenso de Washington e à reestruturação industrial promovida pelas corporações transnacionais. Estas se apoderaram das estatais privatizadas e de inúmeras outras empresas em dificuldade, relocalizaram plantas industriais em outros países “mais baratos”, e abriram buracos imensos nas cadeias produtivas nacionais. Apesar, ou por causa disso, o país cresceu apenas 2% ao ano, enquanto na Ásia a China alcançava cifras de 9% ao ano, e a Índia, Vietnã e outros “tigres” cresciam a taxas acima de 6% ao ano.

De 2003 a 2009, o Brasil se beneficiou das importações massivas de commodities e da queda da inflação mundial, ambas patrocinadas principalmente pelo desenvolvimento da China. Isso permitiu ao Brasil crescer a taxas médias anuais superiores a 4,5% e aguentar o tranco da crise econômica que teve os Estados Unidos como epicentro. Numa manobra de flanco, mesmo mantendo o tripé econômico neoliberal, o governo Lula consolidou políticas de elevação salarial e de transferência de renda para as camadas mais pobres da população, induzindo um crescimento econômico via elevação do consumo.

Essas políticas foram mantidas e ampliadas pelo governo Dilma. Mas já no contexto de expansão da crise econômica do capitalismo desenvolvido para a Europa, com repercussões negativas em todo o mundo e no Brasil, com quedas nas taxas de crescimento anual. Vista em retrospectiva, a taxa média de crescimento do Brasil nos últimos 40 anos pode ser comparada a um voo de galinha rente ao chão.

A crise social só não está pior porque os programas sociais dos governos Lula e Dilma minoraram a miséria e a pobreza, e o crescimento demográfico teve seu ritmo reduzido. Mas a erosão das cadeias industriais continuou seu curso. Diminuiu a geração produtiva de valor. Manteve as dificuldades para transformar a economia de renda média do país num padrão de renda alta. E não aumentou a oferta a um patamar que atendesse ao crescimento do poder de compra das camadas pobres da população que ingressaram no mercado de trabalho e se elevaram acima da linha da pobreza.

Nessas condições, cresceram os indícios, pelo menos desde 2011, de que não há mais como crescer apenas pela expansão do consumo e dos empregos nos setores de comércio e serviços. E de que não adianta muito dialogar para mediar os problemas colocados pelos grupos empresariais e pelos grupos de interesse político-partidários. O governo não conta mais com um forte grupo de estatais, capaz de permitir ao Estado atuar diretamente no comando da política econômica dos setores-chave. E a cooperação do governo com o setor privado para resolver os problemas de logística, de comunicações e de energia sofre com a natureza do capital privado, que só se move com a perspectiva de lucro igual ou superior à taxa Selic. Algo que encarece as obras, pesa sobre o endividamento público e os preços, e engessa as políticas governamentais.

Além disso, o governo se debate ainda com o desmantelamento neoliberal do sistema de planejamento e elaboração de projetos do Estado. A privatização do controle das telecomunicações, transportes, eletricidade, e outros sistemas, através de agências híbridas, impede a realização de uma administração pública real desses setores. E o Brasil ainda não recuperou seu sistema de planificação, liquidado nos anos 1990. O Ministério do Planejamento é, basicamente, de Orçamento e Gestão, sem haver retomado seu papel de planificar e controlar a estratégia de planejamento do desenvolvimento.

Em grande medida o governo continua amarrado aos ditames neoliberais. Boa parte dos economistas de fora e de dentro da máquina governamental considera que é preciso perseverar na macroeconomia dos juros altos, ajustes fiscais e flutuação do dólar para manter a inflação sob controle. Outra parte acredita que o salto da produtividade industrial é o grande desafio de um novo ciclo de crescimento mais robusto. E sugere que isto só pode ocorrer se houver uma integração maior da economia brasileira nas grandes cadeias globais de suprimento e inovação, nas quais predominam as trocas dentro das empresas e entre grandes empresas.

Ou seja, uns subordinam à macroeconomia monetária, fiscal e cambial o crescimento econômico, sem considerar que a indústria deve ser o carro chefe, por ser ainda a principal geradora de valor agregado, ou de acumulação de capital. Outros, além de quererem um crescimento gerador de desemprego (salto de produtividade só pode ocorrer com elevação do padrão tecnológico e descarte de força de trabalho), pretendem integrar, ou entregar, às cadeias globais dominadas pelas corporações transnacionais uma economia já dominada por essas mesmas corporações.

Nas condições atuais do Brasil, a macroeconomia deve ser subordinada à solução dos problemas estruturais, o principal deles sendo o aumento da produção industrial e da agricultura alimentar. E terá que ser uma industrialização que combine altas taxas de emprego, capazes de absorver pelo menos os 21 milhões de jovens sem estudo e sem emprego, com a elevação da produtividade em setores chaves. O que exige uma política de desenvolvimento de novo tipo.

Isto é, uma política que objetive elevar as taxas de investimento público nos setores industriais chaves, inclusive com novas empresas estatais; forçar a democratização do capital através de programas contra os cartéis, os oligopólios e os investimentos de curto prazo; estimular a concorrência empresarial; e resolver, prioritariamente, os gargalos de infraestrutura urbana e produtiva, de modo a combater a inflação através do aumento da oferta, e não de compressão da demanda.

Para que o desenvolvimento ocorra, e combine a economia com as demandas sociais e com a política democrática, a macroeconomia deve estar subordinada àqueles objetivos. O inverso será continuar a amarração do governo à ortodoxia neoliberal.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

A velha mídia tem credibilidade?

Por Ricardo de Barros Bonchristiani Ferreira | Via Observatório da Imprensa

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o acesso à internet no Brasil cresceu 143,8% de 2005 a 2011. A proporção de internautas no Brasil chegou a 50,1%, em 2013. Não é pouca coisa num país de dimensões continentais, forte desigualdade social e uma população de mais de 200 milhões de pessoas. Um dos inegáveis efeitos dessa democratização é o acesso a fontes alternativas de notícias. A opinião,que antes era formada, basicamente, a partir do Jornal Nacional e revista Veja (maior audiência e maior circulação do país, respectivamente) tem agora portais, sites, blogs e redes sociais contribuindo para sua análise. Se você é a favor da multiplicidade de discursos, com liberdade de expressão para todos, então essa é uma ótima notícia.

Mas, se você olhar pelo ponto de vista dos jornalões… Não é de hoje que a relevância da mídia pulverizada via web representa uma forte ameaça ao poderio hegemônico dos mais tradicionais jornais, canais de TV e revistas de todo o mundo. Nos últimos anos, eles precisaram montar seus sites, liberar notícias de graça (com comentários), aumentar a participação do leitor e reduzir drasticamente o volume de exemplares impressos (alguns extinguiram de vez a versão impressa). Tudo para tentar manter suas posições no mercado jornalístico. No Brasil, os maiores e principais jornais, revistas e canais de TV, são comandados por apenas seis famílias e uma “igreja”: Abravanel (SBT), Civita (Abril), Frias (Folha), Marinho (Organizações Globo), Mesquita (O Estado de S.Paulo), Saad (Band) e Record (Universal). Esses grupos, bem como seus ancestrais, mantiveram por décadas seguidas o monopólio da formação da opinião pública no Brasil.

O problema deles é que a crescente inserção digital permite que qualquer estudante, empresário, jornalista, padeiro ou faxineiro divulgue informações e fatos que não ganharam destaque nesses veículos, contestando versões e reportagens que seriam encaradas como verdade absoluta. Muitos sites e blogs independentes dessas estruturas já ganharam corpo, com públicos próprios que não vão aceitar mais como 100% da verdade o que aparecer na mídia tradicional, simplesmente porque agora eles têm acesso às outras faces das notícias, o que antes era muito improvável.

Além disso, os sites independentes passaram a “furar” os grandes. Estão mais próximos dos fatos e noticiam antes, mais rápido e sem ter que passar por uma grande estrutura. Hoje, muitas vezes, uma notícia que surge em um blog marginal e termina por pautar a grande mídia. É um sinal de que o pêndulo detentor da opinião pública brasileira aos poucos se afasta das sete famílias.

Uma regulamentação mais decente

Nestas eleições, combates nas redes sociais foram travados usando links de matérias “jornalísticas” como provas para argumentações. Nesse momento, levanta-se a questão da credibilidade dessas matérias. Uma notícia publicada na Folha tem o mesmo peso de uma divulgada pela Record? Uma notícia do G1 tem o mesmo peso de uma do blog Mídia Sem Máscara? Em resumo: uma notícia de um site da mídia tradicional tem mais valor do que uma da nova mídia? Evidente que o peso da repercussão instantânea é maior nos sites dos grandes. Mas, e o peso da verdade?

Há “zilhares” de exemplos de verdades manipuladas pela grande mídia nas últimas décadas por simples irresponsabilidade ou para atender aos interesses políticos do veículo (e não o interesse da sociedade), mas são exemplos totalmente desconhecidos do grande público. Só para citar os mais recentes, podemos lembrar que o Brasil da grande mídia jamais conseguiria sediar uma Copa do Mundo em 2014. Já o caso mais recente é a histórica matéria “Eles sabiam de tudo”, sobre Lula e Dilma, publicada em Veja. Um perfeito manual inverso de jornalismo: “como não fazer”. Não se trata de ser contra ou a favor do viés político, pois os veículos têm liberdade (apesar das acusações de que vivemos numa ditadura) para assumir suas ideologias e muitos o fazem. Errado é alardear imparcialidade e não ser imparcial.

Pior ainda é publicar “reportagens” (entre aspas mesmo) sem checar a veracidade dos fatos, ou a confiabilidade da fonte, buscando influenciar fortemente resultados de uma eleição presidencial. No caso específico, o próprio advogado representante do doleiro Alberto Youssef, Antonio Basto, disse: “Asseguro que eu e minha equipe não tivemos nenhuma participação nessa divulgação distorcida.” Logo, é mentira. O pior é que tem gente que gosta de ser enganada. Checagem dos fatos e confiabilidade da fonte são coisas básicas, mas que podem ser relativizadas quando o objetivo não é fazer jornalismo.

Diante desse e de muitos outros maus exemplos de jornalismo da mídia tradicional, está claro que é preciso regulamentação mais decente para impedir que a mídia faça de trouxa toda uma população, sem limite nenhum para inventar o que quiser. Está claro também, que desprezar o que se diz em blogs e sites alternativos é besteira, pois a informação pode e deve ser conhecida por todos os ângulos possíveis. Aí, sim, podemos orientar nossas opiniões.

A hora e a vez da luta pela Constituinte

Editorial 610 do jornal Brasil de Fato

Devemos exercitar a pedagogia popular para demonstrar ao povo brasileiro que a reforma política somente será democrática se for através de uma Constituinte Exclusiva.

Nesse momento, as forças neo­liberais se mobilizam contra o apro­fundamento da cidadania política e social no Brasil. Para os inimigos do povo, é inadmissível ampliarmos as conquistas democráticas. Isto fica nítido na manifestação de uma in­compatibilidade estrutural de nos­sa formação social: a aversão que a classe dominante brasileira tem à participação popular.

Derrotados nas eleições presi­denciais, as forças conservadoras imediatamente prepararam uma ofensiva para minar os compro­missos assumidos pela presiden­ta Dilma com o povo brasileiro de avançar nas mudanças. Tal inicia­tiva combina a ofensiva de uma agenda impopular através de um Congresso Nacional cada vez mais conservador com o bombardeio da grande mídia tentando naturalizar na sociedade a “inevitabilidade” do ajuste fiscal, assim como enter­rar de vez a possibilidade de um Plebiscito Oficial sobre a Consti­tuinte do Sistema Político.

O elemento novo na tática da di­reita brasileira reside na tentativa de semear uma força social capaz de tomar as ruas e colocar o go­verno na defensiva. Isso ficou de­monstrado na absurda tentativa de pautar o impeachment da pre­sidenta, particularmente na ma­nifestação de São Paulo. O objeti­vo é inviabilizar a governabilida­de de Dilma e impor a agenda ne­oliberal.

Tentarão asfixiar institucional­mente o próximo governo Dilma e ter na retaguarda uma força so­cial de direita com capacidade de ir às ruas. E, construir a legitimidade dessa tática na sociedade brasilei­ra é tarefa da imprensa conserva­dora. Além disso, para ganhar tem­po, a direita brasileira elege den­tro do PT figuras que entendem se­rem pacifistas e conciliadoras pa­ra comporem o governo junto com tais nomes próximos ao mercado. E, o objetivo dessa movimentação é fazer com que a energia mobiliza­dora que elegeu Dilma se dissolva e que, assim, abra-se ainda mais es­paço para a ofensiva.

O que não avança, retrocede. Pa­ra evitar uma derrota política das forças populares, é preciso com­preendermos que a batalha mais importante que está colocada na sociedade brasileira está na con­tradição do sistema político. Não por acaso, 450 organizações da so­ciedade brasileira estão mobiliza­das para mudar o sistema políti­co e destravar o bloqueio institu­cional que impede a participação popular nos destinos da nação e a entrada das reformas estruturais na agenda da sociedade brasileira.

Sabemos que o Congresso Na­cional não tem condições políti­cas de viabilizar uma reforma es­trutural no sistema político que fa­voreça a ampliação da democracia e das conquistas sociais. Somen­te uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político tem condições de viabilizar esta impor­tante reforma. A imprensa conser­vadora faz de tudo para evitar este debate e impedir que o povo brasi­leiro abrace a bandeira da Consti­tuinte do Sistema político.

Entretanto, as movimentações da direita brasileira e a conse­quente polarização da luta políti­ca poderão no lançar numa crise institucional onde a bandeira da Constituinte tende a ganhar apoio popular. Nesse momento, é funda­mental as forças populares demar­carem espaço na luta política.

Ou seja, agora a luta é pelo Ple­biscito Oficial da Constituinte do Sistema Político. Devemos exerci­tar a pedagogia popular para de­monstrar ao povo brasileiro que a reforma política somente será de­mocrática se for através de uma Constituinte Exclusiva. Além dis­so, não temos como enfrentar a di­reita raivosa neste momento (com seus atos de “impeachment”) sem fortalecer a principal proposta de Dilma, Reforma Política através da Constituinte.

O atrasado sistema político bra­sileiro permite o encastelamento das forças conservadoras princi­palmente no Congresso Nacional. As margens de negociação dos úl­timos 12 anos no plano institucio­nal que viabilizaram a governabili­dade e prescindiram de uma força social de massas para melhorar a vida do povo não existem mais.

O “bovino” Mainardi pede desculpa

Por Altamiro Borges, em seu blog

Charge de Vitor Teixeira

O arrogante Diogo Mainardi pediu desculpas. Após tratar o nordestino que votou em Dilma Rousseff de “bovino”, “atrasado” e “subalterno”, durante o programa Manhattan Connection, da Rede Globo, ele foi alvo de críticas nas redes sociais e de repulsa até no Congresso Nacional. O jogador Hulk, da seleção brasileira e do Zenit da Rússia, chegou a postar mensagem chutando o preconceito contra os nordestinos. Já o deputado Silvio Costa (PSC-PE) exigiu sua retratação e solicitou uma audiência na Câmara. Temendo as consequências de sua postura fascistóide, o “calunista” global novamente fugiu da briga. Sua covardia já virou rotina e ninguém mais acredita no bravateiro, “auto-exilado” em Veneza.

No último domingo (2), o comentarista da GloboNews fez sua “autocrítica” para o craque brasileiro, mas manteve sua visão preconceituosa. “Peço desculpas ao Hulk e a todos que se sentiram ofendidos. Minha intenção era ofender a mixórdia petista que usou e abusou dos programas sociais do governo para rebanhar votos nas regiões mais pobres do país, em especial no Norte e no Nordeste… Sei que o termo bovino ofendeu muita gente, peço mais uma vez desculpas, mas gostaria de esclarecer que há décadas e décadas nós usamos os termos curral eleitoral e voto de cabresto para designar compra de votos. Imaginar um nordestino num curral ou um nordestino com cabresto não é diferente de bovino”.

Mainardi e outros “bovinos” da tevê brasileira até agora não aceitam a reeleição de Dilma Rousseff. Eles não toleram a democracia. Se dependesse deles, o Brasil não teria abolido a escravatura e os pobres até hoje não teriam direito ao voto – que seria um privilégio apenas dos ricaços. Mainardi e outros “bovinos” da mídia agora pregam o impeachment da presidenta e até falam em “intervenção militar”. Estas atitudes golpistas, porém, esbarram na repulsa da sociedade. Mainardi foi escrachado pelo jogador Hulk e por milhares de ativistas digitais. A mesa diretora da Câmara dos Deputados foi acionada para exigir explicações do bravateiro e da própria Rede Globo. Não dá para vacilar diante destes “bovinos” – com todo o respeito aos bois e as vacas!