Por Pepe Escobar | Via RT

Os presidentes do BRICS. Reuters/Nacho Doce
A reunião do G20 na Austrália é resumida em uma linha, assim: um grupinho de políticos bufões, anglo-saxões, arquitetando uma forma de sufocar o Sul Global.
Vários países que juntos representam 85% da economia mundial se juntaram para (em teoria) discutir tópicos sérios de economia/finanças, e basicamente a única coisa que a imprensa corporativa ocidental conseguiu “noticiar” foi o presidente russo Vladimir Putin como uma “figura isolada”.
Bem, Washington e suas marionetes tentaram transformar o G20 numa farsa. Felizmente, os adultos do recinto tinham negócios a tratar.
As cinco nações-membro do BRICS – a despeito de alguns problemas, são o G5 que realmente importa – encontraram-se antes do evento, incluindo aí a “figura isolada”. Economicamente, este G5 mais do que supera o antigo e decrépito G7.
A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, encorajou fortemente o G5 a intensificar a cooperação mútua – assim como a cooperação Sul-Sul. Isto inclui, é claro, o Banco de Desenvolvimento do BRICS. O bloco expressou mais uma vez sua “séria preocupação” com a perpétua má vontade de Washington em promover a já atrasada reforma estrutural do FMI.
O pacote de reforma das cotas e governança do FMI já fora aprovado pelo painel de governantes em 2010. Uma de suas resoluções-chave é a de aumentar o poder de voto dos mercados emergentes, que tem no BRICS sua vanguarda. Para os republicanos de Washington isso é pior que o comunismo.
O presidente chinês Xi Jinping acrescentou que o BRICS devem cooperar não somente em tópicos econômicos, mas também em termos de segurança global. Fazer trocas, não bombardeios. As mais de 120 nações do Movimento dos Não-Alinhados – excluídos do banquete do G20 – estiveram de olhos atentos.
“Agressões” demais
Agora, comparemos o BRICS trabalhando com os líderes da União Europeia em reunião exclusiva com o presidente dos EUA, Barack Obama, para definição de “estratégias” – o que não tem ligação com o comércio global, mas sim com a demonização da Rússia.
Isto ocorreu depois do primeiro-ministro britânico David Cameron dizer a Putin que ele está tomando o caminho de receber ainda mais sanções; o primeiro-ministro canadense Stephen Harper reclamou por ter de apertar a mão de Putin; enquanto o primeiro-ministro australiano Tony Abbott pôs todos para posar com coalas – para falar de abuso aos animais – depois de dar uma investida contra o líder russo.
Não falaram somente de “agressões russas”. Obama, Abbott e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe encontraram-se em separado a fim de promover a “cooperação militar” e “fortalecer a segurança marinha” na zona Ásia-Pacífico. Mais uma (que mais?) “agressão chinesa”.

Reunião exclusiva dos bufões da França, EUA, Reino Unido e Alemanha. AFP Photo/Glenn Hunt
Arrogância imperial e bufões a parte, Putin encontrou-se com a chanceler alemã Angela Merkel por mais de três horas. Discutiram a Ucrânia, essencialmente. Sem vazamentos. Então temos que Putin encontrou e conversou com os adultos: O BRICS e Merkel. Não havia mais nada a fazer, sabedoria de negociante.
Nas palavras do presidente russo: “Levaremos nove horas para voar até Vladivostok e mais oito horas para chegar a Moscou. Preciso de quatro horas para dormir antes de voltar ao trabalho na segunda. Tratamos de toda a agenda.”
Oh céus. Esta foi a deixa pra que a mídia corporativa ocidental perder as estribeiras com a história da “figura isolada” deixando o G20 envergonhado.
Na dúvida, imprima dinheiro
Mesmo com a gangue política Anglo-saxã se esforçando em esvaziar a reunião, algum trabalho – minimalista – foi feito. Até mesmo Putin saudou a “atmosfera construtiva”, o que passou perto do wishful-thinking.
No comunicado final, a promessa foi de aumentar o PIB global em US$2 trilhões até 2018. A chave deste plano mágico é facilitar o investimento em infraestrutura, o que cria empregos e facilita as transações internacionais.
A propósito, isto é exatamente o que a China tem feito – massivamente. China e Rússia fizeram dois enormes acordos de venda de gás esse ano, de valores acima dos US$725 bilhões. Os US$ 40 bilhões do Silk Road Investment Fund financiarão projetos de desenvolvimento em sete nações da Ásia Central. A “figura isolada” confirmou que o comércio da Rússia com a China e o resto da Ásia fará o PIB russo crescer entre 25% à 40%.
Além do mais, Rússia, China, Irã – entre outros países asiáticos – estão trabalhando ativamente no sentido de estabelecer o próprio sistema de transações monetárias, independente do sistema SWIFT e do dólar norte-americano.
O pronunciamento do G20 também fala sobre a renovada ofensiva neoliberal – que passou da “desregulação” dos mercados de bens e serviços para a “flexibilidade”do mercado de trabalho. Um confuso plano de investimento global será delineado em Sidney, mas ninguém sabe ao certo como funcionará.
O G20 insistiu ainda na necessidade de combater o shadow banking. Isto não passará do discurso – visto que os bufões são monstruosos especuladores financeiros e tratarão de manter posição. Não é possível pedir ao dólar que abandone pacificamente sua posição imperial.
Não surpreendeu também o fato de qualquer referência em torno da transparência das indústrias extrativistas terem desaparecido da declaração. No tópico mudanças climáticas, mais wishful thinking, falou-se de “ação efetiva” antes da Conferência de Paris, em dezembro de 2015. Cassinos de lavagem de dinheiro poderiam apostar que nada substancial acontecerá antes ou depois dessa conferência.

Putin dando entrevista ao fim da conferência do G20. Reuters/Mikhail Klimentyev
Os cruzados do neoliberalismo obviamente enterraram a proposta da Argentina de desenvolver um mecanismo supranacional de negociação de dívidas soberanas. Fundos abutres como o de Paul Singer devem sempre estar aptos a agir como abutres.
Por fim, a “figura isolada” voltou ao trabalho duro segunda de manhã, fuso de Moscou. A União Europeia está por perder pelo menos 15% dos US$330 bilhões em comércio com a Rússia em 2015 – enquanto as trocas entre o BRICS dobrarão. A agonia da UE continuará, grande parte dela causada pelo neoliberalismo. A ditadura das elites de Washington/Wall Street precisa ser esmagada.
Enquanto o Fed está em vias de cessar os pacotes de afrouxo quantitativo, o Banco Central Europeu sonha em imprimir dinheiro loucamente, o Banco Central do Japão imprime dinheiro loucamente, enquanto Rússia e China compram oceanos de ouro. Sob a cortina de fumaça da impressão monetária a economia global seguirá sofrendo.
A economia russa permanecerá se integrando a chinesa, iraniana e cazaque. O centro do investimento global continuará sendo – onde mais? – a região Ásia-Pacífico. É natural, portanto, que a próxima reunião do G20 se dê na China.
Paralelamente temos Pepe Mujica, que não foi ao G20. Ele está deixando o poder, mas deixemod que fique com as últimas palavras. Em somente um segundo é possível comparar sua dignidade pessoal, honestidade, inteligência, coragem, altruísmo e exemplar política com a inconsequência e indiferença de Cameron, Harper e Abbott.
Há políticos e “políticos”. Felizmente, a maioria da opinião pública global pode enxergá-los com clareza.
Tradução: Rennan Martins
