A crise hídrica na cidade mais atingida, Itu-SP: Entrevista com Mário Giannetti

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Por Rennan Martins | Brasília, 04/11/2014

A população de Itu está numa situação caótica e não há perspectivas de solução para a falta d’água. (Itu Vai Parar/Reprodução)

Nós, brasileiros, aprendemos desde cedo que somos a terra da abundância. Varrer a calçada com água corrente da mangueira, banhos longos e nenhuma preocupação com vazamentos é ainda a tônica cultural de muito cidadãos. Aliado a isso temos uma economia predatória que faz uso de tecnologias ineficientes que geram desperdícios de grande escala.

É nesse contexto que assistimos, perplexos, a crise hídrica mais séria da história. Num cenário em que a imprensa, comprometida por interesses partidários, sonega informações sobre o real quadro da escassez, cabe a iniciativas independentes a missão de retratar o quadro a sociedade.

E é por isso que entrei em contato com o arquiteto e ativista Mário André Giannetti, ele é morador de Itu, a cidade mais atingida pela escassez hídrica. Envolvido nos movimentos Itu Vai Parar e Conselho Popular de Itu – Água, Giannetti nos traz informações impressionantes de uma cidade que já não tem água nas torneiras há muito. A situação é calamitosa e serve de alerta a toda a população.

Confira a íntegra:

Há quanto tempo Itu passa por essa escassez de água?

A água sempre foi notícia em Itu, temos problemas com o abastecimento há pelo menos 40 anos. Existe um estudo que prova que esse problema deve-se única e exclusivamente à má gestão do sistema e desvios de dinheiro. Nessa atual estiagem temos relatos de racionamento desde o ano passado, 14/12/2013. Esse racionamento passou a ser mais sistemático a partir de fevereiro desse ano com racionamento todas as noites; ficou mais intenso em maio, quando a água vinha dia sim e dia não; ficou crítico em julho quando a água passou a vir a cada 3 ou 4 dias; até chegarmos na atual fase de desabastecimento total que se iniciou em outubro e permanecemos até hoje sem uma gota de água nas torneiras.

Qual é a rotina do racionamento? Como fazem pra ter acesso a água?

Todos temos que nos virar para arrumar água. Pela cidade existem algumas bicas com água de poços artesianos que estão bastante disputadas chegando a 2 horas de fila. Outros sortudos conhecem alguém que tem poço artesiano. Maior dificuldade passam os mais carentes que chegam a coletar água suja de córregos com garrafas pets e a transportar água com carrinho de mão.

E quanto aos conflitos por conta da água. Tem ocorrido? A população está conseguindo se adaptar?

Os conflitos d’água começam a ficar cada vez piores como furtos de galões d’agua nas bicas, roubam a água de dentro da caixa d’agua de quem comprou; roubos e sequestros de caminhões-pipa para abastecer determinadas ruas; população revoltada sem saber o que fazer devido ao silêncio das instituições que não estão dando respostas adequadas, colocam fogo em pneus e lixeiras como forma de protesto.

Que medidas a prefeitura e o governo do estado têm implementado pra combater essa crise? Elas são efetivas?

A prefeitura de Itu foi e está sendo omissa até o presente momento. Cidades que não estão em estado tão crítico já decretaram Estado de Calamidade Pública. Suspeita-se que aqui isso não ocorra devido às irregularidades no contrato de concessão da antiga autarquia do SAAE para a empresa Águas de Itu. Pedimos para ver esse contrato já fazem 7 meses e até hoje não apareceu, lembrando que pela Lei da Transparência ele deveria ser entregue em 15 dias.

Por conta disso pedimos a intervenção do governo do estado mas esse muito pouco fez: disponibilizou um pouco de dinheiro, alguns caminhões pipa e caixas d’agua.

No momento as medidas que a prefeitura está tomando são: transportar e distribuir de maneira nada transparente 3 milhões de litros d’agua por dia em caminhões pipa sendo que a demanda da cidade é de 20 milhões de litros e, começaram a duas semanas, à pedido da sociedade organizada, a espalhar caixas d’agua de 20.000L pela cidade para aumentar o número de pontos de coleta.

A imprensa passou a cobrir este problema somente após as eleições. Você considera que houve um silenciamento deliberado por parte dos jornais? Há influência política na abordagem do tema?

Com certeza há muita influência política sobre o tema. Para se ter uma ideia o CQC veio fazer uma matéria sobre o problema na cidade. A matéria iria ao ar na segunda feira da semana das eleições e não foi. Acredito que não foi porque um dos principais responsáveis pela crise, o ex-prefeito que fez a concessão, estava se candidatando a uma vaga de Deputado Federal e seria impossível fazer a matéria sem apontar os culpados. Deixaram para soltar a matéria somente duas semanas após ter passado as eleições.

Outro exemplo está acontecendo na cidade de São Paulo, aonde o governador reeleito se negou a fazer o racionamento até passar as eleições, uma irresponsabilidade assustadora para uma cidade com 16 milhões de habitantes que correm o risco de ficar sem água.

Existe perspectiva de abastecimento a longo prazo? O enfrentamento do problema vai além do paliativo?

Existem muitos projetos que podem ser postos em prática mas a prefeitura não pode fazer nada porque o setor foi entregue a uma empresa privada. Nesse momento a empresa Águas de Itu está colocando em prática um projeto de canalização de água do Rio Mombaça, um projeto ruim, muito mal estudado e superfaturado. Uma coisa que essa empresa poderia fazer e não o faz é o desassoreamento dos reservatórios, agora que está tudo seco seria o melhor momento, mas, por motivos que ninguém entende isso não está sendo feito.

Uma ideia sobre “A crise hídrica na cidade mais atingida, Itu-SP: Entrevista com Mário Giannetti

  1. Tertuliano

    Será que nas proximidades da Cidade de Itu, não daria para fazer poços artesianos profundos para amenizar pelo menos o abastecimento em caso crítico como esse que estamos enfrentando? Isso já era para ter sido feito há muitos anos atrás. porque água no subsolo tem nem precisa comentar é só um questão de querer agora fica difícil a atual situação para o público. E muito fácil empurrar o problema para outros e outros. Que nada justifica a ineficiência da administração pública.

    Responder

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