Arquivo mensais:novembro 2014

Brasil, Ucrânia e BRICS

Por Marcelo Zero

I. É possível, encontrar, em nossa mídia conservadora, avaliações negativas sobre a participação do Brasil nos BRICS. Tais avaliações recrudesceram após a deflagração do conflito interno na Ucrânia. Assim, algumas vezes lemos críticas desinformadas sobre a “omissão” do Brasil, em relação a esse conflito. Os conservadores argumentam que o Brasil deveria apoiar o atual governo ucraniano, aliado do Ocidente, e condenar as “violações aos direitos humanos” por parte dos “rebeldes separatistas apoiados por Moscou”.

II. Ora, em primeiro lugar, faz parte da tradição da nossa diplomacia evitar a interferência nos assuntos internos de outros países. O Brasil sabe muito bem que, com demasiada frequência, o tema dos direitos humanos é usado para se condenar países que, por quaisquer razões, entram em conflito com os interesses dominantes das grandes potências ocidentais. Trata-se claramente de uma condenação cuidadosamente seletiva, que preserva ditaduras “amigas” e condena duramente regimes que são considerados hostis ou inconvenientes. Normalmente, essas condenações com base numa defesa hipócrita dos direitos humanos costumam ser sucedidas por embargos que prejudicam a população inocente, e, não raramente, por intervenções militares unilaterais que levam a situação dos direitos humanos a uma total degradação.

III. O Brasil prefere defender uma atitude mais coerente e racional, em relação a esse tema. O nosso país aposta no diálogo, no multilateralismo e na negociação para a solução dos conflitos. O Brasil considera que o isolamento de países via embargos comerciais (contrariando os princípios e normas da OMC), a condenação seletiva e as intervenções unilaterais só agravam os problemas pré-existentes e criam grave tensão no cenário mundial.

IV. Assim sendo, a abstenção do Brasil face à condenação à Rússia proposta pelas potências ocidentais é absolutamente coerente com essa tradição racional e ponderada da diplomacia brasileira.

V. Agregue-se que, no caso da Ucrânia, a complexidade do conflito é enorme. Trata-se de um país dividido. No Sul e no Leste do país predomina uma população russófona, que não aceita o atual governo com tintas neonazistas de Kiev, cuja primeira decisão foi propor a proibição do uso do idioma russo na Ucrânia. É um governo que rompeu o delicado equilíbrio que havia entre forças “pró-ocidentais” e forças “pró-russas” na Ucrânia. Colhe-se, agora, o que se plantou, com a ajuda indisfarçada de Washington e Bruxelas.

VI. O único caminho para a solução desse grave conflito, que já matou milhares de pessoas, é o diálogo e a negociação, que levem em consideração, inclusive, os direitos humanos das populações do Leste e do Sul da Ucrânia. Não há solução militar e nem solução via embargos comerciais e econômicos. A Rússia não é o Iraque. E o potencial destrutivo desse conflito é incomensuravelmente maior que qualquer outro. Não é um “barril de pólvora”. É um “barril nuclear”.

VII. Por conseguinte, a abstenção do Brasil frente à condenação perigosa e irracional dos EUA e da UE à Rússia não tem uma relação direta com a defesa de seus interesses econômicos e políticos nos BRICS, como insinuam alguns, mas sim com a mencionada tradição da nossa diplomacia e com o fato óbvio de que esse conflito tem de ser tratado com todo cuidado, dado o seu imenso potencial desagregador da ordem mundial.

VIII. A única maneira de defender os direitos humanos é, nesse caso, mais que qualquer outro, a via da negociação multilateral.

IX. Mas, independentemente dessas considerações, o Brasil, como todo país, leva em conta seus interesses objetivos e legítimos, quando toma decisões de política externa.

X. A este respeito, deve-se observar que o grupo dos BRICS é, sim, extremamente importante para a geopolítica brasileira.

XI. Afinal, os BRICS têm 42% da população mundial e 26% do território do planeta. São responsáveis por 20% da economia mundial e 15% do comércio internacional. Não bastasse, eles detêm 75% das reservas monetárias internacionais. Além disso, os BRICS foram responsáveis por 36% do crescimento da economia mundial, na primeira década deste século. Com a recessão nos países mais desenvolvidos, esse número pulou para cerca de 50%, mesmo com a desaceleração recente do crescimento desse bloco.

XII. Em outras palavras, a importância dos BRICS não é só avassaladora, como vem crescendo ano a ano. A China, diga-se de passagem, já é o nosso principal parceiro comercial. Índia e Rússia, embora ainda distantes da China, vêm estreitando muito suas relações com o Brasil. Com o embargo comercial imposto à Rússia pelos EUA e pela UE, abriu-se uma janela de oportunidades para empresas brasileiras que desejam exportar para lá.

XIII. Porém, a importância maior dos BRICS para o Brasil não é econômica e comercial. Na realidade, a relevância maior do BRICS para o Brasil tange aos seus efeitos geopolíticos e geoestratégicos.

XIV. O grupo BRICS é expressão das grandes e céleres mudanças que ocorrem, de forma irreversível, na ordem mundial. Em poucas décadas, passamos de um mundo dominado inteiramente pelos interesses das potências tradicionais (EUA, UE e Japão) para um mundo consideravelmente mais multipolar, no qual os países emergentes têm cada vez mais peso maior e decisivo.

XV. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA respondiam por mais de 50% do PIB mundial. Hoje, esse país, embora ainda seja a maior economia do planeta, responde por somente cerca de 19 % do PIB mundial. Isso dá a dimensão exata da progressiva desconcentração de poder econômico e político que vem ocorrendo no mundo. Primeiro, houve o crescimento da Europa e do Japão, em frangalhos após aquele conflito. Nas últimas décadas, foram os países emergentes que aceleraram a desconcentração geográfica do crescimento.

XVI. Hoje em dia, não se podem tomar decisões relevantes em quaisquer assuntos internacionais sem levar em consideração as opiniões de países como China, Brasil, Índia e Rússia. Antes tínhamos o G-7. Hoje, temos o G-20. Antes, a OMC era dominada pelo grupo dos países mais desenvolvidos. Com a articulação dos interesses dos países em desenvolvimento naquela entidade, já não se pode fechar qualquer acordo sem a anuência do Brasil, da Índia e de vários outros. Antes, tínhamos apenas o FMI e o Banco Mundial, que ainda são governados pelos interesses das potências tradicionais. Hoje, já temos o Banco dos BRICS, que apresenta uma alternativa pragmática a uma arquitetura financeira esclerosada.

XVII. O Brasil aproveitou-se bem dessas mudanças ocorridas na ordem mundial para ampliar seu protagonismo internacional. O Brasil é hoje ator internacional de primeira linha em todos os palcos mundiais.

XVIII. E, entre todos esses palcos, o do BRICS é o que dá maior projeção ao Brasil.

XIX. Os palcos do Mercosul, da Unasul e da Celac, além de outros, ampliaram consideravelmente nosso protagonismo regional e são muito importantes para o Brasil. Contudo, são palcos circunscritos a uma identidade latino-americana. O palco da CPLP, embora geograficamente extenso, trabalha com a identidade restrita da lusofonia. Mesmo o palco do G-20 da OMC está centrado na identidade de “país em desenvolvimento”, com todas as limitações advindas dessa condição.

XX. Já o palco do grupo BRICS é um palco mundial que confere ao Brasil uma identidade de país emergente, de global player, que vai além da identidade regional e outras identidades mais restritas. O BRICS proporciona ao Brasil uma plataforma sólida para interagir com a ordem mundial de forma mais ampla e incisiva. Como já disse o professor hindu Vivan Sharan, tal grupo desloca o Brasil do oeste do mapa mundial para o centro, onde o teatro geopolítico é mais ativo: a Ásia e o Indo-Pacífico. O BRICS também desloca o Brasil para centro dinâmico da economia mundial.

XXI. No entanto, o grupo tem inimigos externos e internos. Como bem disse o ex- presidente Lula: os defensores do status quo internacional, refratários a qualquer iniciativa que busque tornar mais justa a ordem econômica e política mundial, tentaram desqualificar os BRICS alegando que não se tratava de uma aliança crível, dado o seu caráter heterogêneo e “artificial”, que seus membros estão geograficamente distantes uns dos outros, além de possuírem interesses nacionais contraditórios, e que, por isso mesmo, nada de concreto e significativo poderia surgir do grupo.

XXII. De fato, há ampla diversidade nos BRICS. Diversidade geográfica, econômica, social e cultural. Nesse bloco, há países da Ásia, da América Latina, da África e da Europa. Há economias importadoras de commodities e exportadoras de commodities. E não só há diferentes culturas nos BRICS, mas também distintas civilizações. China e Índia têm civilizações próprias e milenares. Brasil, África do Sul e Rússia são, até certo ponto, caudatários da civilização ocidental, com nuances culturais muito significativas e específicas.

XXIII. Porém, essa diversidade dos BRICS é, ao contrário do que os conservadores dizem, uma óbvia vantagem, pois ela, juntamente com a importância dos seus países, dá grande legitimidade às suas declarações e ações.

XXIV. Quando os BRICS falam, falam três bilhões de pessoas, falam quatro continentes, fala o novo polo dinâmico da economia mundial e falam também três grandes civilizações do planeta e suas distintas variantes culturais. Por conseguinte, trata-se de uma voz que tem muito mais legitimidade que o ruído das bombas das ações unilaterais realizadas sem a anuência do Conselho de Segurança da ONU.

XXV. Além disso, tal diversidade não vem impedindo o BRICS de concertarem posições convergentes e relevantes. Na recente cúpula realizada na capital do Ceará, os BRICS fizeram algo que era impensável há uma década. Eles criaram seu próprio banco de investimentos, o Banco dos BRICS, e seu próprio Arranjo de Contingente de Reservas para ajudar países em dificuldades. Na reunião de cúpula dos BRICS na África do Sul, em 2013, o grupo também demonstrou capacidade convergir. Com efeito, a Declaração de E-Thekwini, dela emanada, abordou temas sensíveis e importantes da geopolítica mundial, tais como Síria, Palestina, o processo de paz no Oriente Médio, Irã e seu programa nuclear, Afeganistão, terrorismo, segurança cibernética, a situação na República Democrática do Congo, etc. Em todos esses complexos tópicos, já há uma notável convergência de posições, que tende a se aprofundar ainda mais.

XXVI. Outra crítica, muito presente em meios conservadores brasileiros, tange à tese de que a adesão do Brasil aos BRICS é um projeto “antiamericanista”, inspirado por ideologias de esquerda e por um “terceiro-mundismo arcaico”.

XXVII. A bem da verdade, a presença do Brasil no BRICS e a ênfase pragmática e racional que o país da á à chamada cooperação Sul-Sul podem conviver harmonicamente com boas e intensas relações com os EUA e a União Europeia. Antes ao contrário: o maior protagonisno que o Brasil adquire com sua participação no BRICS o cacifa a negociar, em melhores condições, parcerias estratégicas mais estreitas com essas potências tradicionais. O interesse pelo Brasil cresce à medida que o país tem maior destaque no cenário mundial. A fragilização que tínhamos na época em que praticávamos uma política externa menos autônoma e mais alinhada aos interesses específicos das potências tradicionais não nos ajudou em nada. O alinhamento não nos trouxe recompensa alguma.

XXVIII. O grupo BRICS pode e deve ter voz ativa e papel propositivo na construção de uma nova ordem mundial mais justa, democrática, simétrica, inclusiva e multipolar. E o Brasil, país que se destaca entre os BRICS por seu soft power e pelo êxito na redução de suas desigualdades, pode contribuir muito com esse objetivo maior.

XXIX. Essa é a melhor maneira de propugnar pelos direitos humanos na nova ordem mundial que surge.

Mais mudanças?

Por Lincoln Secco | Via Le Monde Diplomatique

Ilustração de Daniel Kondo

Sem confrontar minimamente o grande capital não haverá orçamento para as demandas de Junho. Sem isso, a nova classe trabalhadora pode se inclinar para o discurso de mercado da oposição. Mas, se mudar, o PT vai abalar os alicerces do pacto social rentista que o sustentou politicamente até aqui.

As Jornadas de Junho de 2013 inauguraram um novo ciclo político no Brasil. É verdade que os políticos profissionais e mesmo os partidos de esquerda, assustados, não ousaram criticar abertamente os protestos. O PT, em especial, tentou virar as costas e, nos bastidores, desqualificá-los como um efêmero movimento de direita, enquanto o PSDB tentou endurecer a repressão policial, como de hábito.

Como um enigma, Junho esteve à espera de sua apropriação pelas forças políticas. Em si mesmo, ele continha tanto temas da direita quanto práticas esquecidas da esquerda. Que a candidata Marina Silva, uma ex-petista e ex-ecologista, tenha aparecido como a expressão distorcida de Junho foi apenas um resultado da impossibilidade de uma esquerda presa à ordem compreender as novas gerações de militantes.

Quando Marina Silva, inebriada pelos ventos do destino, assumiu a candidatura à Presidência e derrubou o PSDB de um dos polos da disputa eleitoral, rapidamente os analistas se prenderam às oscilações semanais de opção de voto nos setores de dois a cinco salários mínimos. Seriam pessoas “mal-agradecidas” que, tendo subido com Lula, agora imitavam o comportamento eleitoral da classe média tradicional. No entanto, esse era um dos segmentos de Junho que, tendo emergido em ocupações precárias de trabalho, passaram a demandar serviços públicos de qualidade.

Diante disso, a campanha do PT fez uma inflexão à esquerda. A ideologia atual do partido consiste na moderação progressiva como condição sine qua non para governar até o limiar do conservadorismo. Mas, diante da incorporação distorcida de seu discurso pelo adversário, os dirigentes petistas se lembraram do passado e se radicalizaram para ganhar as eleições.

A incorporação dos novos trabalhadores ao consumo é derivada do crescimento econômico. Como o governo rejeita sacudir o mundo político com receio de que os fundamentos de sua política econômica se abalem e haja desconfiança dos capitalistas e alta da inflação, ele acredita que basta incorporar sempre mais pessoas ao consumo.

Desde Junho

O que Junho nos disse? É importante incorporar. Se o governo, porém, quer canalizar os conflitos, ele precisa aumentar também a cidadania social, cultural e política. Essa opção exigiria exatamente sacudir o mundo político oficial. Eis o beco sem saída.

Em termos de orçamento público, isso é ainda mais evidente. As reclamações por melhoria da infraestrutura pública para o desenvolvimento capitalista já foram captadas pelas ruas de outra forma. As pessoas querem também melhorias que deem conforto à convivência entre velhos e novos consumidores.

Quando Lula disse que as manifestações por mobilidade urbana ocorriam porque os pobres agora tinham automóveis, ele acertou. Mas não tirou as devidas conclusões. Se todos ficarem encurralados em congestionamentos, até os pobres vão reclamar. Entretanto, a manutenção da política econômica que privilegia o setor rentista da sociedade não permite que o governo faça pesados investimentos exatamente na mobilidade urbana.

O caminho da radicalização dentro da ordem implicaria extensão da cidadania social e da cidadania política (substituição das polícias atuais, reformas do Judiciário, da mídia e da política etc.). Seria uma aposta arriscada em busca de um apoio social de uma nova geração que saiu às ruas e em confronto com parte das classes dominantes. A democracia racionada seria superada.

É bastante improvável, embora não impossível, que isso ocorra. O PT teria de se dirigir à nova classe trabalhadora e fomentaria a luta de classes dentro de níveis “toleráveis”. O obstáculo a isso é a necessidade de um partido de governo manter uma distância segura da radicalização popular.

O novo ciclo político aberto em junho de 2013 no Brasil não é uma peculiaridade nacional. Desde a crise de 2008 o mundo oficial da política foi abalado em vários países. Na Espanha, os indignados desmoralizaram o governo “socialista” e, em seguida, a direita voltou ao poder.

Na América Latina, a esquerda governista enfrentou desde golpes de Estado (Honduras e Paraguai) até mobilizações intensas como na Argentina e, particularmente, na Venezuela. Certamente, teremos pela frente um governo muito mais acuado por protestos na rua e na grande imprensa. Ele será pressionado a fazer um ajuste fiscal e atender às demandas conservadoras.

Quando Lula estava à beira do precipício em fins de 2005, a grande imprensa trouxe para si mesma a tarefa de exercer a oposição no país. Doravante, o oposicionismo das empresas monopolistas de comunicação vai aumentar assustadoramente porque as eleições derrotaram pela quarta vez o partido de direita mais organizado que elas tinham, o PSDB.

O pacto social rentista

Sem confrontar minimamente o grande capital não haverá orçamento para as demandas de Junho. Sem isso, a nova classe trabalhadora pode se inclinar para o discurso de mercado da oposição. Mas se mudar, o PT vai abalar os alicerces do pacto social rentista que o sustentou politicamente até aqui.

O PT optou inicialmente por reformas sociais que não confrontassem o grande capital financeiro. Assim, uma política de visível inclusão social e recuperação do salário mínimo conviveu com a especulação e altas taxas de juros. A tradução social disso foi uma aproximação espacial entre a nova classe trabalhadora e a velha classe média, para desconforto desta, o que explica em boa medida que a classe média tradicional tenha reforçado seu papel como base social do capital financeiro.

Esse pacto pode estar em vias de se quebrar porque a nova classe trabalhadora se dividiu entre PT e PSDB nestas eleições e um setor mimetizou o comportamento da classe média que prefere os piores e mais caros serviços privados do mundo a um Estado ineficiente que considera aparelhado e corrompido pelo PT.

Em seu primeiro discurso, Dilma começou por cumprimentar Lula e os políticos que enchiam o palanque de papagaios de pirata de partidos de direita, a começar por seu fantasmagórico vice Michel Temer. Depois, ela se voltou novamente a Lula, “o militante número 1”, talvez numa alusão ao papel que ele e a militância petista tiveram na reta final. Ali ela se declarou pronta a liderar a reforma política com uma consulta popular e se declarou consciente do poder e dos limites que uma presidenta possui. Mas não tocou no controle social da mídia em nenhum momento, embora em transmissão ao vivo pela Rede Globo ela tenha sido interrompida por audíveis gritos de uma velha palavra de ordem: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Todos no palanque estavam visivelmente constrangidos e muito mais os comentaristas da Rede Globo em seguida.

Esse é um exemplo do contencioso da ideologia lulista. No final do segundo turno, o PT foi mais uma vez vítima de uma capa injuriosa da revista Veja, mas não se sabe se irá confrontar os monopólios midiáticos.

Agora talvez o partido não tenha escolha. A polarização das últimas eleições e o ressurgimento de uma militância voluntária antipetista com forte apoio social indicam que sua vida não será fácil. Aos movimentos sociais sobra a tarefa de pressionar o governo por “mais mudanças”, afinal foi com esse lema que Dilma foi reeleita.

Lincoln Secco é Professor de História Contemporanêa na Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, Cotia-SP, 2011).

Stédile no MDA?

Por Iriny Lopes | Via Brasil 247

Se o agronegócio tem na senadora Kátia Abreu sua referência, os agricultores familiares e camponeses têm em João Pedro Stedile a sua. Ele é um nome à altura dos desafios da reforma agrária e da segurança alimentar no Brasil.

Já faz um tempo que não se fala em reforma agrária no conceito tradicional. Mais do que terras, a discussão foi ampliada. Como bem lembrou João Pedro Stedile, do MST, não se trata “apenas de distribuir terra, mas de integrar a produção agroecológica aos assentamentos e o combate aos agrotóxicos”. Stedile tem razão. Afinal, o Brasil, desde 2008, é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, com mais de 400 tipos registrados, alguns deles banidos em várias regiões do mundo, mas que aqui ainda são largamente utilizados. Significa dizer que cada brasileiro consome em média 5,2 litros de pesticidas, fungicidas e herbicidas por ano, o suficiente para causar danos expressivos à saúde que vão da falha de memória ao câncer.

A preocupação do MST e de outras entidades do campo tem uma razão que escapa à lógica do capitalismo e do mercado. Está assentada no fato de que 70% do que está na mesa da população brasileira são frutas, legumes e folhas e uma parte expressiva carregadas de veneno. Portanto, mais do que terra e preciso debater a saúde da população e o uso indiscriminado de agrotóxicos. No documentário “O veneno está na mesa”, de Silvio Tendler, um pequeno agricultor do sul do país revela que para conseguir acesso ao Proagro (programa de financiamento na área do Ministério da Agricultura para pequenos agricultores), os bancos exigem que se tenha notas fiscais das sementes e dos agrotóxicos utilizados, ou seja, temos um programa governamental que incentiva o uso de transgênicos e, por conseguinte, de agrotóxicos, já que o pacote das multinacionais inclui sementes e venenos. Esse agricultor, na contramão das facilidades, resolveu plantar com sementes crioulas, originais, e ainda fazer sementes hibridas, usando várias espécies. Ele sobrevive sem financiamento. É uma resistência frente às “facilidades” para transformação de lavouras orgânicas à submissas da lógica do agronegócio, com sua indiferença com a saúde da população e ao meio ambiente.

É comum as pessoas confundirem a pessoa Dilma com o governo Dilma. Governo, qualquer que seja nesse atual sistema político, é uma composição. Nele estão incluídas forças de direita e esquerda. Se por um lado existe o Ministério da Agricultura, seu contraponto se dá a partir de 2003, quando o MDA inova ao propor o modelo de Desenvolvimento Territorial, conciliando o combate à pobreza, a proteção ambiental, geração de renda e a soberania alimentar e nutricional. A partir do território, da articulação e parceria com estados, municípios e sociedade civil é que são desenvolvidas as políticas para o setor.

Em 11 anos de existência, se conseguiu através das políticas implantadas pelo MDA resultados expressivos: a renda dos trabalhadores rurais cresceu 52%, permitindo uma mobilidade social de mais de 3,7 milhões de pessoas, os programas de Aquisição de Alimentos (PAA) e Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) são parte desse esforço e ajudaram a retirar o Brasil do mapa mundial da fome, segundo a ONU em recente relatório. Milhares de pessoas do campo, sejam da agricultura familiar e camponesa, dos territórios indígenas e tradicionais tiveram acesso à documentação e crédito para safra, além de assessoria técnica e as mulheres também foram valorizadas com o Pronaf Mulher.

O último Censo Agropecuário do IBGE, realizado em 2006, revelou que os agricultores familiares respondem por 84,4% dos estabelecimentos do país e, mesmo ocupando uma pequena área cultivável (24,3%), empregam 74,4% da mão de obra do setor e são responsáveis por 38% do PIB do agronegócio brasileiro, o que não é pouca coisa.

E se é verdade que os resultados são extremamente positivos em diversas áreas do MDA, é igualmente verídico afirmar que no último governo pouco se avançou na reforma agrária. Em carta à presidenta Dilma após o segundo turno eleitoral, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lembra que em seu primeiro mandato “foi efetuado o menor número de desapropriações dos últimos 20 anos. Também não foi feita a retomada das áreas devolutas e da União que estão nas mãos de grileiros.”

O segundo turno eleitoral foi marcado por uma disputa que ultrapassou a lógica da política, em que o ódio, o preconceito e a mentira foram instrumentos usados pela direita para tentar chegar à presidência.

Além dos beneficiados pelas políticas implantadas a partir de 2003, Dilma recebeu apoio de setores da esquerda que criticaram seu primeiro mandato, mas não se furtaram em ir para as ruas defender um projeto que impedisse o retrocesso dos governos neoliberais.

Não foi o agronegócio de Kátia Abreu que levantou bandeiras e nem defendeu os avanços de Lula e Dilma, mas setores amplos da esquerda. Esses milhões de eleitores esperam de Dilma ousadia. Ainda que os ministérios expressem a composição partidária que saiu vitoriosa nesta eleição, ele também deve refletir a voz dos movimentos que enfrentaram a truculência da oposição e buscaram voto a voto o novo mandato presidencial e que, em última instância, impedirão nas ruas o golpe que se deseja dar na democracia.

Se o agronegócio tem na senadora Kátia Abreu sua referência, os agricultores familiares e camponeses tem em João Pedro Stedile a sua. Ele é um nome à altura dos desafios da reforma agrária e da segurança alimentar no Brasil. O debate está posto!

O patrimônio da escravidão

Por Luciano Martins Costa | Via Observatório da Imprensa

Os telejornais da véspera deram destaque e a imprensa em geral registra na quinta-feira (27/11) que a capoeira, “expressão cultural descrita como luta, dança e jogo acrobático”, foi declarada patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. A justificativa da decisão diz que a capoeira simboliza a resistência negra no Brasil durante o período da escravidão. A notícia deve encher de orgulho milhões de brasileiros, e assim se passa mais uma camada de verniz sobre a questão histórica da escravidão e seu legado de desigualdades.

A capa genérica do nacionalismo cumpre tradicionalmente o papel de ocultar a vergonha das sociedades modernas que se recusam a enfrentar suas mazelas. Políticas de cotas e outras medidas corretivas podem amenizar o efeito econômico dos tratamentos diferenciados segundo a etnia, a cor da pele ou o gênero, mas não resolvem a questão da má consciência social.

A mídia tradicional cumpre um papel central nesse processo de tapar com a peneira o sol que nunca foi para todos, ao oferecer um discurso apologético e ufanista sobre o reconhecimento do valor cultural de uma prática que, com muita certeza, não é autenticamente brasileira.

A capoeira, como luta, dança ritual ou acrobacia, está descrita nos mitos de origem do mundo segundo os khoisan, povo africano transcendental mais conhecido como bosquímanos. Trata-se de um dos povos mais antigos do planeta, a se considerar o conceito de organização tribal conectada e conformada por técnicas, crenças, fisiologia comum e tradições.

Eles carregam em seu DNA as características mais próximas das raízes da espécie humana, e sua história os conduz dos primeiros passos do homem até o início do tráfico de escravos negros para o continente americano. São indivíduos de estatura mais baixa e de corpo mais esguio do que os demais africanos, com olhos oblíquos como os orientais, e eram conhecidos como caçadores, coletores e capazes de fazer boas colheitas em pouco espaço e tempo curto.

Na origem do mundo

A tradição oral dos bosquímanos é riquíssima e registra até mesmo o ponto de ruptura entre o homem natural e o homem moderno, no conto que relata a criação do fogo e a separação entre homens e animais. Numa dessas histórias, o filho do criador do mundo o resgata da morte e lhe ensina os movimentos básicos da prática que é hoje conhecida como capoeira. Estão descritos claramente nesse conto tradicional a ginga, o engodo, a rasteira e toda a natureza acrobática da capoeira.

Alguns de seus agrupamentos viviam na região conhecida como Angola quando começou o transporte de negros para a colônia portuguesa no Brasil. Misturados aos bantos, eles se concentraram na Bahia, mas também formaram colônias no Norte, entre o Maranhão e o Pará, e no Sudeste, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Essa é provavelmente a origem da confusão que se criou, dando aos bantos da Bahia, vindos de Angola, o crédito pela criação desse bem cultural.

Mas tudo isso é apenas assunto para boas conversas. O que se quer aqui representar é a prática jornalística de utilizar meias-verdades e estereótipos para escapar à tarefa de enfrentar os dilemas da modernidade e do capitalismo. Não se corrigem as desigualdades com anúncios ufanistas, mas aqui e ali muitas consciências se sentem confortadas com o fato de que uma tradição nascida como símbolo de resistência contra a tirania acaba reconhecida como patrimônio da humanidade.

Mais útil do que o ufanismo em torno da decisão da Unesco é a reportagem de página inteira publicada na edição de quinta-feira (27) do Globo sobre a vida do africano Mahommah Baquaqua, que foi escravo no Brasil no século 19 e se tornou homem livre nos Estados Unidos. O livro original, publicado em 1854, está sendo traduzido para o português e deve ser lançado no Brasil até o final do ano que vem, segundo o jornal carioca.

Pode ser uma janela para reconhecer nosso passado escravagista. Mas a imprensa precisa também olhar a escravidão do presente e o preconceito que persiste até mesmo em suas redações. Nesta quinta-feira, o portal Comunique-se relata debate no qual se afirma que jornalistas negros são quase sempre destacados para cobrir temas como samba e criminalidade.

Em várias estradas do interior, principalmente no Centro-Oeste, a Polícia Rodoviária Federal faz vistas grossas para o tráfico de jovens recolhidas em comunidades do interior e levadas para prostíbulos nas regiões onde se constrói a infraestrutura do Brasil moderno.

Até quando?

Mais realistas que o rei

Por Rennan Martins | Brasília, 27/11/2014

O governo anunciou, ou melhor, deixou vazar os integrantes da nova equipe econômica, a saber: Joaquim Levy na Fazenda, Nelson Barbosa no Planejamento e Alexandre Tombini permanecendo no BACEN. De quebra teremos ainda Kátia Abreu na pasta da Agricultura.

Após toda a campanha eleitoral denunciar os partidários do arrocho e amigos da oligarquia, parece que Dilma aposta que integrá-los na gestão pode aplacar a sanha golpista de nossa direita sempre propensa ao autoritarismo.

A política institucional é largamente corrompida pelo poder econômico e por lá nossa democracia representativa insere, em sua maioria, defensores dos interesses de banqueiros, empreiteiras e latifundiários.

Soma-se a isso o cenário de relativa estagnação das atividades produtivas que recrudesce os interesses das classes dominantes e o que temos são as forças progressistas acuadas.

Ocorre que a negociação deve se dar sem abrir mão dos princípios, da agenda. Ao entregar o núcleo duro que é a política econômica a um homem de mercado o que parece é que houve uma rendição as forças do atraso.

O simbolismo da dobradinha Joaquim Levy – Kátia Abreu é decepcionante e ainda faz parecer que Dilma subestima as forças populares, maiores responsáveis por levá-la ao segundo mandato.

Não defendendo aqui que haja ruptura completa, entendo que os cálculos de correlação de forças devem ser feitos, mas as novas medidas do governo são mais realistas que o rei.

A aposta que o PT fez mais uma vez na desmobilização e baixa intensidade de embate pode não dar certo dessa vez, a configuração política atual tenderá a desembocar numa perda de apoio dos setores populares, o que deixaria o governo numa situação de isolamento.

O que parece é que os próximos dois anos serão de um ajuste fiscal ortodoxo para que os dois finais voltem a ser de um keynesianismo envergonhado.

As últimas decisões de Dilma demonstram que a alta cúpula petista nada aprendeu com esta que foi a eleição mais acirrada e barulhenta de nossa história.

Se for mantida a política de generosíssimas concessões a oligarquia aliada a péssima comunicação e quase nula disputa ideológica, o Partido dos Trabalhadores tende a se juntar aos Partidos Socialistas Europeus, que não mais possuem força para representar uma alternativa ao neoliberalismo.

O desafio da desigualdade social: ricos com mais 1 bilhão de dólares cresceram 38%

Via Adital

A América Latina e o Caribe continuam sendo as regiões mais desiguais do mundo. Os mais ricos abocanham em média 50% das rendas totais da região, enquanto os mais pobres ficam apenas com 5%. Se as três pessoas mais ricas do mundo gastassem 1 milhão de dólares por dia cada uma, seriam necessários 200 anos para acabar todo o seu dinheiro. Isso não ocorre, unicamente, nos países mais ricos. No México, Carlos Slim, o mais rico de todos os latinos e o segundo homem mais rico do mundo, poderia pagar só com suas rendas de um ano os salários anuais de 440.000 mexicanos.

Este cenário desanimador impõe uma constatação a crescente desigualdade é o maior desafio social para os governos de todo o mundo, em especial os latino-americanos. Um informe recente da organização internacional de direitos humanos Oxfam, “Iguais: Acabemos com a desigualdade extrema”, destaca que a desigualdade dificulta o crescimento econômico, corrompe a política, limita as oportunidades e alimenta a instabilidade, enquanto que exacerba a discriminação, especialmente contra as mulheres.

A crescente desigualdade poderá causar um retrocesso de décadas na luta contra a pobreza. Só na América Latina e Caribe, o número de ricos que acumulam mais de 1 bilhão de dólares cresceu em 38% de 2012 a 2013. Em nenhuma outra região do mundo, esse grupo subiu tanto.

O informe revela ainda que apenas entre 2013 e 2014 as 85 pessoas mais ricas do Planeta – que possuem a mesma riqueza da metade mais pobre da população mundial – aumentaram seu patrimônio em 668 milhões de dólares por dia, o que equivale a quase meio milhão de dólares a cada minuto.

De acordo com a Oxfam, desde o Fundo Monetário Internacional até o Papa Francisco, passando pelo presidente estadunidense, Barack Obama, e o Fórum Econômico Mundial, cada vez mais existe um consenso de que a desigualdade é um dos maiores desafios do tempo atual e não combatê-la aprofunda os problemas econômicos e sociais. Apesar de todas essas advertências, não são tomadas medidas concretas. “Essa falta de ação por parte dos governos é inaceitável, mais ainda no caso da América Latina e Caribe, que continua sendo a região mais desigual do Planeta”, salienta a entidade.

Com seu novo informe, respaldado pelo ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Kofi Annan e o economista Joseph Stiglitz, entre outras personalidades, a Oxfam lança uma campanha cujo objetivo é exigir aos líderes mundiais que convertam suas palavras em atos e garantam um tratamento justo para as pessoas mais pobres. Para isso, uma das ações importantes que os governos devem cumprir é frear a evasão e a sonegação fiscal de grandes empresas e pessoas endinheiradas. Isso para que os Estados tenham suficientes recursos para construírem sociedades mais justas. Os ricos latino-americanos acumulam ao redor de 2 bilhões de dólares (equivalente ao PIB – Produto Interno Bruto – do Brasil) em paraísos fiscais. Segundo a Oxfam, as empresas na América Latina e Caribe registram níveis de evasão que vão de 46% no México a 65% no Equador, sem suficientes punições.

Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam Internacional, afirma: “longe de fomentar o crescimento econômico, a desigualdade extrema constitui um obstáculo para a prosperidade dos habitantes do Planeta. Hoje em dia, o crescimento econômico só beneficia os mais ricos, e continuará sendo assim até que os governos ajam. Não deveríamos permitir que as doutrinas econômicas – que só buscam o beneficio em curto prazo –, ou as pessoas ricas e poderosas – que buscam apenas o benefício próprio – nos ceguem ante esses fatos”.

Pequenas ações podem frear a desigualdade

Os benefícios de pequenas ações para frear a desigualdade falam por si só. Um ligeiro aumento de 1,5% no imposto sobre a riqueza dos multimillonários de todo o mundo seria suficiente para que todas as crianças do mundo estejam na escola, bem como para a provisão de serviços básicos de saúde nos países mais pobres.

Investir em serviços públicos gratuitos também é essencial para acabar com a brecha entre as pessoas ricas e o restante. Todos os anos, 100 milhões de pessoas em todo o mundo ficam mais pobres por terem que pagar para receber assistência médica. De 2009 a 2014, pelo menos 1 milhão de mulheres morreu durante o parto, devido à falta de serviços básicos de saúde.

Piketty: Europa está à beira de uma grave crise política, econômica e financeira

Por Daniel Fuentes Castro | Via Carta Maior

Para Thomas Piketty, autor de ‘O Capital no Século XXI’ a Europa está à beira do abismo de uma grave crise política, econômica e financeira.

O economista autor do influente livro “O capital no século XXI” reflete sobre o auge da extrema direita em seu país. “França e Alemanha demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e à Itália ao renunciar a compartilhar seus tipos de interesse”. “É preciso se acostumar a viver com um crescimento fraco”. “A ideia segundo a qual é preciso insistir em secar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o doente me parece completamente insensata”.

Thomas Piketty (Clichy, Francç, 1971), economista da Paris School of Economics, é especialista no estudo das desigualdades econômicas por uma perspectiva comparada. É autor de “O capital no século XXI”, obra que vendeu mais de um milhão de exemplares em todo o mundo e que ao ter sido recentemente editado para espanhol e catalão lhe transformou em um dos economistas mais influentes da atualidade.

A Paris School of Economics, de criação recente, tem sua sede nos locais da École Normal Supérieure (13 prêmios Nobel e 10 medalhas Fields nas costas), no bulevar Jourdan. Não é um dos colossais edifícios do século XIX, de pedra talhada, onde outras instituições como a Sorbonne ou a faculdade de Direito de Panthéon-Assas ainda conservam suas sedes históricas. Trata-se de um conjunto de edifícios relativamente moderno, mas avelhentado. O vinílico desgastado do solo e a cor amarelada de algumas paredes revelam que, se falamos em capital, não é físico, mas sim humano.

Três percevejos da porta do escritório de Piketty seguram uma folha de papel com seu nome. Do quarto só restou a agulha. Seu escritório mede cerca de 15 metros quadrados, 20, se muito, e está cheio de estantes repletas de livros. Não tem assistente pessoal. Não veste terno, nem gravata. Desde o primeiro momento, mostra-se amável, sorridente e natural. Um pouco tímido. Ainda que dê a sensação de não nunca ter quebrado um prato na vida, se expressa sem titubear e com veemência em alguns momentos.

Há quem veja no título “O capital no século XXI” pisca para a obra de Karl Marx “O capital”. Você considera que a confrontação ideológica entre capitalismo e marxismo continua vigente?

A disjuntiva não é capitalismo ou marxismo. Há diferentes maneiras de organizar o capitalismo e há diferentes maneiras de superá-lo. O que meu livro tenta é contribuir com este debate. Quanto ao marxismo, faço parte da primeira geração posterior à Guerra Fria, a primeira geração pós-marxismo. Completei 18 anos com a queda do Muro de Berlim (no dia da entrevista fazia exatamente 25 anos). Li Marx e há ideias interessantes nele, contribuições notórias, mas O capital foi escrito em 1867 e estamos em 2014. O que eu tento é introduzir no século XXI a questão do capital, de seu estudo, isto é, para mim, o que o título do meu livro significa.

Não se pode esquecer que este trabalho teria sido impossível sem as tecnologias da informação, que permitem reunir e tratar dados históricos em uma escala impossível para Marx e até mesmo Kuznets. É fácil criticar os economistas do passado, mas eles trabalhavam na mão. Não contavam com as ferramentas que nós temos e, sobretudo, não tinham a perspectiva histórica que hoje temos e que nos permite contar a história do capital e das desigualdades. Isto é o que meu livro tenta fazer. Não pretende anunciar uma revolução, tenta apenas colocar à disposição dos leitores as pesquisas históricas que pudemos reunir sobre mais de vinte países e que englobam três séculos. O livro é, antes de qualquer coisa, uma história do capital.

Seu livro estuda de maneira empírica, entre outras coisas, a relação entre distribuição de renda do crescimento. Pode-se falar de causalidade direta no sentido de que uma melhor distribuição da renda produzindo uma taxa de crescimento maior como efeito?

A correlação e a causalidade são ambas muito complexas e não vão em um sentido apenas. A desigualdade pode ajudar o crescimento até certo ponto, mas para além de um determinado nível de desigualdade, obtém-se principalmente um efeito negativo que reduz a mobilidade na sociedade e conduz à perpetuação da estratificação social no tempo. Isto tem um impacto negativo sobre o crescimento.

O outro efeito negativo se produz através das instituições políticas: uma desigualdade muito forte pode levar ao sequestro das instituições democráticas por parte de uma pequena elite que não vai necessariamente investir na sociedade pensando no conjunto da população. Por isso, o crescimento no século XXI vai depender em grande medida do investimento em educação e formação, e não unicamente para uma pequena elite, mas para uma imensa maioria da população.

Para além das previsões de conjuntura econômica, o que se pode esperar do crescimento nos próximos anos? O que as expressões desenvolvimento sustentável e decrescimento lhe sugerem?

Acredito que tenhamos que nos acostumar a viver de maneira sustentável com um crescimento fraco. O problema é que tanto na França como em outros países europeus continuamos tendo em mente essa espécie de fantasia dos “trinta gloriosos” (expressão que faz referência às três décadas transcorridas entre a Segunda Guerra Mundial e a crise do petróleo em 1973), segundo a qual precisamos de pelo menos três, quatro ou cinco porcento de crescimento para sermos felizes. Isto não tem sentido. Somente nas fases corretivas em que alguns países recuperam os atrasos em relação a outros, ou em fases de reconstrução, acontecem taxas de crescimento tão elevadas.

É preciso colocar na cabeça que uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano é um crescimento muito rápido, se prolongado no tempo. Com taxas de crescimento assim durante um período de trinta anos, que é o equivalente a uma geração, acontecerá um crescimento da renda que equivale a um terço ou até mesmo à metade do PIB.

Por outro lado, ter que viver de maneira sustentável não é argumento para defender crescimento nulo. Uma taxa de crescimento entre 1% e 1,5% ao ano no longo prazo é fonte de progresso e não é um objetivo impossível. Agora, para alcançar um ritmo de crescimento assim, é preciso abandonar a atual política de austeridade. Isso em primeiro lugar. E sobretudo é preciso investir em ensino superior, em inovação e meio ambiente… Falo de investir em meio ambiente porque é evidente que terá que encontrar novas fontes de energia renováveis, visto que com as fontes atuais não poderemos manter uma taxa de crescimento de 1% ou 1,5% ao ano indefinidamente.

Considerando as últimas previsões da Comissão Europeia, não parece que estejamos perto de alcançar essa velocidade de cruzada. Você acredita que a austeridade seja um mal necessário para retomar o ritmo de crescimento?

A realidade é que caminhamos rumo a uma década imersos em um clima de recessão e de austeridade. Digo isto porque o PIB por habitante estimado para a França em 2014 ou 2015 é inferior ao de 2006 ou 2007. Esta é a situação. Estamos há quase dez anos em estancamento da renda per capita, da riqueza do país, do poder aquisitivo… A partir daqui podemos discutir tudo o que quisermos sobre qual precisa ser a arrecadação do Estado, quanto deve ser o gasto público ou qual deve ser o peso do setor privado na economia, mas o fato é que a riqueza total disponível é inferior à de 2007. Não recuperamos o nível anterior à crise. É normal que, em uma situação como esta, o ambiente seja depressivo.

A ideia segundo a qual é preciso enxugar os orçamentos com base em mais austeridade para curar o paciente me parece completamente insensata. Digo isto pensando na França, mas o mesmo vale para a Itália, com taxas de crescimento negativas em 2013 e em 2014. É verdade que o crescimento na Espanha está um pouco melhor agora, mas não nos esqueçamos que ela ainda sofre um atraso considerável em termos de renda per capita em comparação a outras grandes economias da Europa.

O resultado global das políticas de austeridade nos últimos quatro ou cinco anos é, de maneira objetiva, muito ruim. Os Estados Unidos tinham uma taxa de desemprego muito similar à da zona do euro de alguns anos atrás e atualmente a diferença é enorme. O desemprego diminuiu ali, apesar de o nível da dívida de ambas economias ser muito semelhante na situação de partida. Não há dúvidas sobre quem escolheu a estratégia adequada.

Que outra estratégia a zona do euro deveria ter seguido para sair da crise?

Acredito que seja necessário tornar comum as dívidas públicas e os juros da dívida pública. França e Alemanha forma extremamente egoístas. Demonstraram ser egoisticamente míopes em relação à Espanha e Itália ao renunciar e compartilhar seus juros. Uma moeda única com 18 dívidas públicas e 18 tipos de juros associados a essa dívida não funciona. Os atores financeiros não têm confiança neste sistema. Poderemos sair desta crise somente se criarmos um fundo comum de dívida pública com apenas um tipo de juro. O Banco Central Europeu poderá, então, estabilizar esse tipo de juros com menor dificuldade do que atualmente com 18 diferentes.

Agora, se quisermos gerir a dívida de maneira comum, precisamos também de um Parlamento da zona do euro que tome decisões a este respeito, entre outras coisas, sobre o nível de déficit comum. Isto é o que faltou até agora nas proposições de reorientação da construção europeia que Hollande esboçou na França, e do que também se falou na Espanha e na Itália. Finalmente, isso não se traduziu em uma proposta concreta de união política e, ao mesmo tempo, orçamentária. Ambas são coisas necessárias.

Você fala em reformar o desenho institucional da zona do euro. Que diferenças haveria entre o atual Parlamento Europeu e esse Parlamento orçamentário a que você se refere na última parte de seu livro?

Atualmente, temos um Parlamento Europeu em que estão representados 28 países e, por outro lado, o Conselho Europeu de Chefes de Estado ou de Governo e o Conselho de Assuntos Econômicos e Financeiros (integrados pelos ministros de Economia e Finanças). São vários os problemas desta arquitetura democrática. O primeiro é que nem todos os 28 países representados no Parlamento Europeu querem avançar rumo a uma maior integração política, fiscal e orçamentária. O segundo, que o Parlamento Europeu não representa absolutamente as instituições dos Estado-nação e, concretamente, os parlamentos nacionais.

Por isso, acredito que faz falta, paralelamente ao atual Parlamento Europeu, uma câmara parlamentar da zona do euro ou, em todo caso, uma câmara formada pelos países da zona do euro que queiram avançar em direção a uma união política, orçamentária e fiscal, e que teria que se construir a partir dos diferentes parlamentos nacionais. Cada país estaria representado proporcionalmente à sua população, nem mais, nem menos. O mesmo para Alemanha e França e os demais. A atribuição desta nova Câmara consistiria em votar questões como um imposto comum sobre sociedade ou o nível de déficit comunitário.

Não são poucos os que pensam que, em vez de mais integração, o razoável seria retomar as moedas nacionais.

Não, para mim não é a boa solução. Agora, sem propostas alternativas rápidas, acredito que o retorno às moedas nacionais será um cenário cada vez mais difícil de descartar. Concretamente, a única resposta dada na França aos que querem sair do euro consiste em dizer que é impossível, que está proibido, que agora que entramos não se pode retroceder… Esta resposta é extraordinariamente fraca e não vai durar muito tempo mais.

A saída da crise está em avançar na união dos países da zona do euro. De certa forma, a pior das situações é a atual, porque perdemos a possibilidade de desvalorizar a moeda, perdemos a soberania monetária nacional, em troca teríamos que ganhar novas formas de soberania fiscal e orçamentária, maior capacidade para arrecadar imposta de maneira mais justa, mais capacidade de resistência para proteger frente ao risco de especulação sobre os tipos de juros da dívida pública. Até agora, França e Alemanha ganharam neste jogo, mas a única alternativa para a saída do euro é uma união da dívida, uma união fiscal. Se não nos apressarmos, acredito que as forças políticas a favor da saída do euro vão ganhar a partida.

O que se pode esperar da França na construção desta nova arquitetura institucional Europeia, exatamente agora em que a extrema direita lidera as pesquisas? A Europa deve se preocupar?

É preciso se preocupar, absolutamente. Não acredito que a Frente Nacional chegará ao poder no Eliseu ou à presidência da República, mas pode conseguir a presidência de várias regiões. No próximo ano, há eleições regionais, e dado o modo de distribuição das cadeiras, é perfeitamente possível que duas ou três regionais, ou até mais, caiam do lado da Frente Nacional.

Em um sistema eleitoral como o das eleições presidenciais, estamos acostumados que a Frente Nacional perca, inclusive se for o partido mais votado do primeiro turno. Entretanto, nas regionais, o partido mais votado obtém uma parte equivalente a um quarto das cadeiras (o resto se divide de maneira proporcional). Se a Frente Nacional conseguir 30% ou 35% dos votos em uma região, a direita 25% e a esquerda 20%, por exemplo, a parte do partido mais votado faz com que a Frente Nacional aspire ter maioria absoluta nessa região.

Será um choque enorme na Europa. Até agora, a Frente Nacional ganhou somente em algumas cidades pequenas, mas se regiões inteiras passarem a ser governadas pela extrema direita, a história será outra. Não vai ser uma piada. Vão criar tensões em algumas regiões do país e o resultado pode ser extremamente violento.

Até esse ponto?

Estamos de fato à beira do abismo de uma crise política, econômica e financeira. A crise é responsabilidade de todos os países, mas não entendo como a Alemanha continua pensando que tem interesse em manter esta visão tão rígida da austeridade… Afinal de contas, nem sequer lá o crescimento é elevado. Que consta que a responsabilidade também é da França, por não fazermos verdadeiras propostas progressivas e de refundação democrática da Europa. E continuamos esperando propostas da Espanha e da Itália. Em todo caso, acredito que a situação seja grave e que as eleições regionais na França no próximo ano serão um choque.

Muitos eleitores se incomodam porque interpretam seu livro como a evidência de um futuro com menor crescimento e pior distribuição da riqueza. Há argumentos para o otimismo?

Claro que sim. Essa é minha maneira de ser. Sinto muito se alguns chegam a conclusões pessimistas após a leitura do livro! Eu acredito no progresso social, econômico e democrático e no crescimento. Mas é preciso se acostumar a viver com crescimento menor. Insisto em que um crescimento mais fraco, se mantido no tempo, é compatível com o progresso. Há trinta anos, não dispúnhamos das atuais tecnologias da informação, por exemplo. Se nos organizarmos bem, nos dotarmos das instituições adequadas para que todo mundo possa se beneficiar, essas tecnologias serão uma enorme fonte de riquezas.

Acredito no progresso técnico e na mundialização, e o livro não é pessimista em relação ao futuro. Simplesmente, para que estas coisas beneficiem a todos, fazem falta instituições democráticas, sociais, educativas, fiscais e financeiras que funcionam corretamente. O problema é que, depois da queda do Muro de Berlim, nós imaginamos, por um momento, que era suficiente se basear nas forças naturais do mercado para que o processo de globalização e de competitividade beneficiasse a todos. Acredito que o erro esteja aí. É preciso repensar os limites do mercado, do capitalismo, e repensar também as instituições democráticas.

Tradução: Daniella Cambaúva